

O Guardio de Memrias

Kim Edwards


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Ttulo original: The Memory Keeper's Daughter
Copyright  2005 por Kim Edwards
Copyright da traduo  2007 por Editora Sextante Ltda.
TRADUO: Vera Ribeiro
PREPARO DE ORIGINAIS: Jorge Sussekind
ASSISTENTE EDITORIAL; Alice Dias
REVISO: Luis Amrico Costa e Srgio Bellinello Soares
PROJETO GRAFICO E DIAGRAMAO: Marcia Raed
CAPA; Victor Burton
PRE-IMPRESSO:  de casa IMPRESSO E ACABAMENTO; Geogrfica e Editora Ltda.
CIP- BRASIL. CATALOGAO- NA- FONTE.
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ E26g Edwards, Kim, 1958-         O guardio de memrias / Kim Edwards; traduo de Vera Ribeiro. - Rio de         Janeiro:
Sextante, 2007.
Traduo de: The memory keeper's daughter
ISBN 978-85-99296-14-1
1. Fico americana. I. Ribeiro, Vera. II. Ttulo.         07-1002 CDD: 813 CDU: 821.111.(73)-1.



         Para ABIGAIL E NAOMI

         AGRADECIMENTOS

         EU GOSTARIA DE EXPRESSAR MINHA PROFUNDA GRATIDO AOS PASTORES DA Igreja Presbiteriana Hunter, por anos de sabedoria sobre questes visveis e invisveis;
agradeo especialmente a Claire Vonk Brooks, que carregou a semente desta histria e a confiou a mim.
         Jean e Richard Covert compartilharam generosamente suas impresses e tambm leram um rascunho inicial deste manuscrito. Sou grata a eles, assim como a Meg 
Steinnian, Caroline Baesler, Kallie Baesler, Nancy Covert, Becky Lesch e Malkanthi McCormick, por sua franqueza e orientao. Bruce Burris convidou-me a conduzir 
um seminrio do Minds Wide Open; meus agradecimentos a ele e aos participantes daquele dia, que escreveram do fundo do corao.
         Sou muito grata  Fundao Mrs. Giles Whiting, por seu apoio e incentivo excepcionais. O Conselho de Artes de Kentucky e a Fundao de Kentucky para Mulheres 
tambm forneceram verbas de apoio para financiar este livro, e eu lhes agradeo.
         Como sempre, ofereo minha imensa gratido a minha agente, Geri Thoma, por ser to sensata, calorosa, generosa e firme. Sou tambm muito grata a todo o 
pessoal da editora Viking, especialmente  minha revisora, Pamela Dorman, que contribuiu com grande inteligncia e dedicao para a reviso deste livro e cujas perguntas 
sagazes me ajudaram a me aprofundar mais na narrativa. O toque editorial seguro e perspicaz de Beena Kamlani tambm foi inestimvel, e Lucia Watson, com bom humor 
e preciso, manteve mil coisas em funcionamento.  s escritoras Jane McCafferty, Mary Ann Taylor- Hall e Leatha Kendrik, que leram o manuscrito com olhos rigorosos 
e amorosos, obrigada de corao. Um agradecimento especial tambm para meus pais, John e Shirley Edwards. A James Alan McPherson, cujos ensinamentos ainda inspiram 
os meus, minha perene gratido. E a Katherine Soulard Turner e seu pai, o falecido William G. Turner, pela amizade generosa, pelos papos literrios e pelo conhecimento 
abalizado de Pittsburgh, obrigada com alegria.
         Carinho e gratido a toda a minha famlia, prxima e distante, especialmente a Tom.
         
1964
         
         MARO DE 1964 
         I  
         
         A NEVE COMEOU A CAIR. HORAS ANTES DE ELA ENTRAR EM TRABALHO DE parto. Primeiro alguns flocos, no cu cinzento e opaco do fim de tarde, depois volteios 
e redemoinhos impelidos pelo vento ao redor das quinas da ampla varanda frontal. Ele parou ao lado da mulher,  janela, observando as rajadas abruptas de neve sucederem-se 
em ondas, rodopiarem e carem no cho. Em todo o bairro acenderam-se as luzes e os galhos nus das rvores embranqueceram.
         Depois do jantar, ele acendeu a lareira, aventurando-se na nevasca para buscar lenha do monte que empilhara junto  garagem no outono anterior. O ar penetrante 
e frio bateu-lhe no rosto, e a neve na entrada da garagem j chegava a meia altura de seus joelhos. Ele juntou algumas toras, sacudindo a camada macia e branca que 
as cobria, e as levou para dentro. Os gravetos sobre a grelha pegaram fogo imediatamente e, por algum tempo, ele ficou sentado junto  lareira, pernas cruzadas, 
acrescentando toras e observando o saltitar das chamas, azuladas e hipnticas. L fora a neve continuava a cair silenciosamente na escurido, to brilhante e densa 
como esttica nos cones de luz formados pelos postes de iluminao. Quando se levantou e olhou pela janela, seu carro se transformara numa colina branca e fofa  
beira da calada. Suas pegadas na entrada da garagem j tinham desaparecido.
         Ele sacudiu as cinzas das mos e se sentou no sof ao lado da mulher, que tinha os ps apoiados em almofadas, cruzando os tornozelos inchados, e um exemplar 
do livro do Dr. Spock equilibrado sobre a barriga. Absorta, ela lambia a ponta do dedo indicador, distrada, a cada vez que virava uma pgina. Tinha mos delgadas, 
de dedos curtos e firmes, e mordiscava o lbio inferior, concentrada, enquanto lia. Ao observ-la, ele sentiu uma onda de amor e deslumbramento: por ela ser sua 
esposa e pelo fato de seu beb, esperado dali a apenas trs semanas, estar prestes a nascer. Seria o primeiro filho. Fazia s um ano que estavam casados.
         Ela ergueu os olhos, sorridente, quando o marido ajeitou o cobertor em volta de suas pernas.
         - Sabe, andei pensando em como deve ser... - disse. - Quero dizer, antes de nascermos.  uma pena a gente no se lembrar.
         Abriu o roupo e levantou o suter que usava por baixo, revelando uma barriga redonda e dura como um melo. Passou a mo pela superfcie lisa, enquanto 
a luz do fogo brincava em sua pele, lanando em seu cabelo um tom de ouro avermelhado.
         - Voc acha que  como estar dentro de uma grande lanterna? O livro diz que a luz atravessa minha pele, que o beb j consegue enxergar.
         - No sei - disse ele.
         A mulher riu.
         - Por que no? - perguntou. - O mdico  voc.
         - Sou apenas um cirurgio ortopedista - lembrou-lhe o marido. - Poderia explicar o padro de ossificao dos ossos fetais, mas s isso.
         Levantou o p da mulher, delicado e inchado dentro da meia azul-clara, e comeou a massage-lo de leve: o tarso possante do calcanhar, os metatarsos e as 
falanges, escondidos sob a pele e sob a densa camada de msculos, como um leque prestes a se abrir. A respirao dela enchia a sala silenciosa, o p aquecendo-se 
nas mos do marido, e ele imaginou a simetria perfeita, secreta, dos ossos. Na gravidez, sua mulher lhe parecia linda, mas frgil, com as finas veias azuis transparecendo 
vagamente na pele alva e plida.
         Tinha sido uma gestao excelente, sem nenhuma restrio mdica. Mesmo assim, j se iam vrios meses sem que ele conseguisse fazer amor com a mulher. Em 
vez disso, descobria-se querendo proteg-la, carreg-la nas escadas, envolv-la em cobertores, levar-lhe xcaras de creme de ovos. No estou invlida, ela sempre 
protestava, rindo. No sou um filhote de passarinho que voc tenha encontrado na grama. Apesar disso, gostava das gentilezas do marido. s vezes, ele acordava e 
a observava durante o sono: o tremor das plpebras, o movimento lento e ritmado do peito, a mo estendida, to mida que ele conseguia envolv-la completamente com 
a sua.
         Ela era 11 anos mais moa. Fazia pouco mais de um ano que ele a vira pela primeira vez, subindo uma escada rolante de uma loja de departamentos no centro 
da cidade, num sbado cinzento de novembro em que sara para comprar gravatas. Ele tinha 33 anos e era novo em Lexington, no Kentucky, e a moa havia emergido da 
multido como uma espcie de viso, com o cabelo louro penteado para trs e preso num coque elegante, prolas reluzindo no pescoo e nas orelhas. Ela usava um mant 
de l verde-escuro e tinha a pele clara e plida. Ele subiu a escada, abrindo caminho pela aglomerao e se esforando para no perd-la de vista. A moa foi para 
o quarto andar: lingerie e meias. Quando ele tentou segui-la por entre os corredores repletos de araras cheias de anguas, sutis e calcinhas, todos com um brilho 
suave, uma vendedora de vestido azul-marinho com gola branca o deteve, sorrindo, perguntando em que poderia servi-lo. Um roupo, disse ele, vasculhando os corredores 
at avistar o cabelo da moa, um ombro verde-escuro e a cabea inclinada, que revelava a curva elegante e plida de sua nuca. Um roupo para minha irm que mora 
em Nova Orleans. Ele no tinha irm,  claro, nem qualquer parente vivo que conhecesse.
         A vendedora desapareceu e voltou um instante depois, com trs roupes de tecido felpudo e grosso. Ele escolheu s cegas, quase sem baixar os olhos, pegando 
o do topo da pilha. Temos trs tamanhos, dizia a vendedora, e haver uma variedade maior de cores no ms que vem. Mas ele j seguia pelo corredor, com um roupo 
cor de coral pendurado no brao e os sapatos rangendo no piso de lajotas, enquanto se deslocava com impacincia por entre os outros clientes, em direo ao local 
em que ela havia parado.
         A moa estava examinando as pilhas de meias caras, cujas cores transparentes reluziam pelas aberturas brilhosas de celofane: castanho, azul-marinho, um 
marrom-escuro como sangue de porco. A manga de seu casaco verde tocou-o de leve e ele sentiu seu perfume, suave mas penetrante, como as ptalas densas e plidas 
dos lilases fora da janela do quarto de estudante que ele um dia ocupara em Pittsburgh. As janelas de seu apartamento no poro estavam sempre sujas, cobertas pela 
fuligem e pelas cinzas da siderrgica, mas na primavera havia lilases em flor, borrifos brancos e purpreos no vidro, e o aroma invadia o aposento como a luz.
         Ele pigarreou - mal conseguia respirar - e levantou o roupo felpudo, mas a vendedora atrs do balco estava rindo, contando uma piada, e no o notou. Quando 
tornou a pigarrear, a mulher o olhou de relance, irritada, e fez sinal com a cabea para sua freguesa, que nesse momento segurava nas mos trs embalagens finas 
de meias, como cartas de baralho gigantes.
          - Creio que a Srta. Asher chegou aqui primeiro - disse a vendedora, fria e altiva.
         Foi quando os olhos dos dois se encontraram, e ele ficou surpreso ao ver que os da jovem eram do mesmo tom verde-escuro de seu mant. Ela o estava avaliando 
- o slido sobretudo de tweed, o rosto escanhoado e avermelhado pelo frio, as unhas bem aparadas. Sorriu, divertida e meio desdenhosa, apontando para o roupo em 
seu brao.
         - Para sua mulher? - indagou. Falava com o que ele reconheceu ser um sotaque refinado do Kentucky, numa cidade de velhas fortunas em que essas distines 
tinham peso. Depois de apenas seis meses na cidade, ele j sabia disso. - Est tudo bem, Jean - prosseguiu a jovem, tornando a se virar para a vendedora. - Pode 
atend-lo primeiro. Esse pobre homem deve estar se sentindo perdido e sem graa com toda essa renda aqui.
         -  para minha irm - disse ele, aflito por desfazer a m impresso que estava causando. Isso j lhe acontecera vrias vezes na cidade; era afoito ou direto 
demais e ofendia as pessoas. O roupo caiu e ele se abaixou para peg-lo, enrubescendo ao levantar. As luvas da moa estavam sobre o vidro do balco e suas mos 
se cruzavam de leve ao lado delas. O constrangimento do homem pareceu abrand-la, pois, quando os olhos voltaram a se encontrar, os dela se mostraram gentis.
         Ele tentou de novo:
         - Desculpe. Parece que no sei o que estou fazendo. E estou com pressa. Sou mdico. Estou atrasado para o hospital.
         Nesse momento,  sorriso dela se modificou, tornou-se srio.
         - Entendo - disse, e se voltou de novo para a vendedora. - Jean, por favor, atenda-o primeiro, sim? concordou em v-lo de novo, escrevendo seu nome e telefone 
com a letra perfeita que aprendera na terceira srie, cuja professora era uma ex-freira que havia imprimido em seus pequenos pupilos as regras da caligrafia. Toda 
letra tem um formato, ela lhes dizia, um nico formato no mundo, e nenhum outro, e  sua responsabilidade fazer com que ele seja perfeito. Aos oito anos, plida 
e magrela, a mulher de mant verde que viria a ser -sua esposa havia agarrado -a caneta entre os dedinhos e praticado a letra cursiva, sozinha em seu quarto, hora 
aps hora, at escrever com a fluncia requintada da gua corrente. Tempos depois, ao ouvir essa histria, ele a imaginaria com a cabea inclinada sob o abajur, 
com os dedos dolorosamente apertados em volta da caneta, e se admiraria com a perseverana dela, com sua crena na beleza e na voz autoritria da ex-freira. Nesse 
primeiro dia, porm, no sabia de nada disso. carregou o pedao de papel no bolso do jaleco branco, de um quarto de doente para outro, rememorando as letras dela 
a flurem at desenhar a forma perfeita de seu nome. Telefonou-lhe na mesma noite, levou-a para jantar na seguinte e, trs meses depois, os dois estavam casados.
         Agora, nesses ltimos meses de gravidez, o roupo coral macio a vestia perfeitamente. Ela o havia encontrado, desembrulhado e levantado para mostr-lo ao 
marido. Mas faz tanto tempo que a sua irm morreu!, exclamara, subitamente intrigada, e por um instante ele tinha congelado, sorrindo, enquanto a mentira de um ano 
antes zunia como uma ave escura pelo quarto. Ele encolheu os ombros na ocasio, sem jeito. Eu tinha que dizer alguma coisa, argumentara. Tinha que descobrir um jeito 
de saber seu nome. Ela sorriu ento, atravessando o quarto para abra-lo.
         A neve caiu. Nas horas seguintes, os dois leram e conversaram. s vezes ela pegava a mo do marido e a punha sobre sua barriga para que ele sentisse o beb 
se mexer. De tempos em tempos, ele se levantava para atiar o fogo e dar uma olhada pela janela para ver oito centmetros de neve no cho, depois doze ou quinze. 
As ruas estavam macias e silenciosas, e havia poucos carros.
         s 11 horas, ela se levantou do sof e foi para a cama. Ele continuou no trreo, lendo o ltimo nmero do Jornal de Cirurgia ssea e Articular. Era reconhecido 
como um timo mdico, com talento para o diagnstico e fama de ser habilidoso no trabalho. Formara-se em primeiro lugar em sua turma. No entanto, era to moo e 
- embora o escondesse com muito cuidado - to inseguro de suas aptides que estudava em todas as horas vagas, colecionando cada sucesso que obtinha como mais uma 
prova a seu favor. Sentia-se uma aberrao, por ter nascido com sede de saber numa famlia absorta na simples luta pela sobrevivncia, dia aps dia. Eles viam a 
instruo como um luxo desnecessrio, um meio que no levava a um fim seguro. Pobres, sempre que iam ao mdico, quando chegavam a faz-lo, era na clnica de Morgantown, 
a 80 quilmetros de distncia. Eram vividas as lembranas que ele guardava dessas raras viagens, chacoalhando na traseira da caminhonete emprestada, com a poeira 
voando em sua esteira. A estrada danante, dizia sua irm, que ocupava a cabine com os pais. Em Morgantown, os cmodos eram sombrios, do tom verde ou turquesa-escuro 
da gua dos lagos, e os mdicos eram apressados, rspidos com eles, distrados.
         Passados todos esses anos, ele ainda vivia momentos em que sentia o olhar daqueles mdicos e se achava um impostor, prestes a ser desmascarado por um nico 
erro. Sabia que sua escolha da especialidade fora um reflexo disso. Para ele, nada da agitao catica da clnica geral nem da tubulao arriscada e delicada do 
corao. Ele lidava sobretudo com membros quebrados, esculpindo moldes de gesso e examinando radiografias, enquanto observava as fraturas se consolidarem, lenta 
mas milagrosamente. Agradava-lhe o fato de os ossos serem coisas-slidas, que sobreviviam at mesmo  incandescncia da cremao. Os ossos duravam; era-lhe fcil 
depositar confiana em algo to slido e previsvel.
         Leu at bem depois da meia-noite, at as palavras tremeluzirem sem nenhum sentido nas pginas luminosamente brancas, depois jogou a revista na mesa de centro 
e se levantou para cuidar do fogo. Bateu nas toras queimadas e envoltas em chamas at que virassem borralho, abriu inteiramente o regulador da chamin e fechou a 
tela de metal da lareira. Depois que apagou as luzes, as pequenas brasas luziram suaves por entre camadas de cinzas, delicadas e brancas como a neve, que agora se 
empilhava, alta, sobre o gradil da varanda e as moitas de rododendros.
         A escada rangeu sob seu peso. Ele parou junto  porta do quarto do beb, estudando as formas sombreadas do bero e do trocador de fraldas, os bichos de 
pelcia dispostos em prateleiras. As paredes estavam pintadas de um verde-gua plido. Sua mulher tinha feito a colcha de retalhos da Mame Ganso que pendia da parede 
em frente, costurando-a com pontos minsculos, desfazendo pedaos inteiros quando notava a mais ligeira imperfeio. Uma borda de ursinhos fora desenhada logo abaixo 
do teto; tambm isso fora feito por ela.
         Num impulso, ele entrou no quarto e parou diante da janela, afastando a cortina transparente para olhar a neve, que agora atingia quase 20 centmetros sobre 
os postes de iluminao, as cercas e os telhados. Era o tipo de nevasca que raramente acontecia em Lexington, e os flocos brancos e contnuos, aliados ao silncio, 
encheram-no de uma sensao de paz. Foi um momento em que todos os retalhos dspares de sua vida pareceram costurar-se, com todas as tristezas e decepes passadas, 
todos os segredos e incertezas angustiantes escondendo-se sob as camadas brancas e macias. O dia seguinte seria quieto, com o mundo abrandado e frgil, at que a 
meninada da vizinhana sasse para romper a calma com sua correria, seus gritos e sua alegria. Ele se lembrou de dias assim em sua prpria infncia na montanha, 
raros momentos de fuga em que ele entrava nos bosques, com a respirao amplificada e a voz de algum modo abafada pela neve densa que vergava os galhos at o cho 
e se espalhava pelas trilhas, O mundo, por algumas breves horas, transformava-se.
         Ficou muito tempo parado ali, at ouvi-la mexer-se, quase sem barulho. Encontrou-a sentada na beira da cama, com a cabea inclinada e as mos agarradas 
ao colcho.
         - Acho que estou em trabalho de parto - ela disse, erguendo os olhos.
         Estava com o cabelo solto, uma mecha presa no lbio. Ele ajeitou-a de volta para trs da orelha de sua mulher. Ela balanou a cabea quando o marido sentou-se 
a seu lado.
         - No sei. Estou me sentindo estranha. Uma sensao de cibra que vem e vai.
         Ele a ajudou a deitar-se de lado e se deitou tambm, massageando-lhe as costas.
         - Provavelmente  s um alarme falso - garantiu-lhe. - Ainda faltam trs semanas, afinal, e o primeiro filho costuma se atrasar.
         Era verdade, ele sabia; acreditou nisso ao diz-lo e, a rigor, teve tanta certeza que, passado algum tempo, adormeceu. Acordou com a mulher em p junto 
 cama, sacudindo-lhe o ombro. O roupo e o cabelo dela pareciam quase brancos na estranha luz da neve que se infiltrava no quarto.
         - Estou contando o tempo. Intervalos de cinco minutos. So dores fortes, e estou com medo.
         Nesse momento, uma onda o percorreu por dentro; o nervosismo e o medo tomaram seu corpo como a espuma empurrada pela onda. Mas ele fora treinado a manter 
a calma nas emergncias, a controlar as emoes, de modo que pde levantar-se sem nenhuma urgncia, pegar o relgio e caminhar com ela, devagar e serenamente, de 
um lado para outro do corredor. Quando vinham as contraes, ela lhe apertava a mo com tamanha fora que ele tinha a sensao de que os ossos de seus dedos se fundiriam. 
As contraes vinham como a mulher tinha dito, a cada cinco minutos, depois quatro. Ele tirou a mala do armrio, subitamente entorpecido pelo carter decisivo daqueles 
acontecimentos, to esperados mas ao mesmo tempo to surpreendentes. Continuou a se movimentar, tal como sua mulher, mas o mundo entrou numa lenta calmaria a seu 
redor. Ele tinha aguda conscincia de cada gesto, do modo como a respirao se precipitava por sua lngua, do modo como sua esposa calou incomodamente os nicos 
sapatos que ainda lhe serviam, com os ps inchados formando uma crista sobre o couro cinza-escuro. Ao segurar o brao dela, teve a estranha sensao de estar suspenso 
no quarto, em algum ponto prximo do lustre, observando os dois de cima, notando cada nuance e cada detalhe: a maneira como ela tremia a cada contrao e como seus 
prprios dedos se fechavam, firmes e protetores, em torno do cotovelo da mulher. E como, l fora, a neve continuava a cair.
         Ajudou-a a vestir o mant de l verde, que pendeu desabotoado, escancarado na altura da barriga. Achou as luvas de couro que ela tambm havia usado no dia 
em que os dois tinham se visto pela primeira vez. Parecia-lhe importante cuidar desses detalhes. Os dois pararam na varanda um instante, perplexos com aquele mundo 
branco e macio.
         - Espere aqui - disse ele, e desceu os degraus, abrindo caminho por entre os montes de neve. As portas do velho carro estavam congeladas e foram precisos 
vrios minutos para abrir uma delas. Uma nuvem branca voou, cintilante, quando enfim a porta se abriu, e ele tateou o piso do banco traseiro  procura do raspador 
e da escova de neve. Quando emergiu do carro, sua mulher estava apoiada numa pilastra da varanda, com a testa sobre os braos. Nesse momento, ele compreendeu a dor 
imensa que ela sentia e tambm que o beb ia mesmo chegar, chegar exatamente naquela noite. Resistiu  nsia intensa de correr para ela e, em vez disso, empenhou 
todas as suas foras em liberar o carro, aquecendo alternadamente uma das mos e a outra sob as axilas, quando a dor da friagem se acentuava, aquecendo-as, mas sem 
parar um instante, escovando a neve do pra-brisa, das janelas e do cap e vendo-a se espalhar e desaparecer no fofo mar branco que lhe cercava as panturrilhas.
         - Voc no me contou que ia doer tanto assim - disse ela, quando o marido chegou  varanda. Ele lhe passou o brao em volta dos ombros e a ajudou a descer 
a escada.
         - Eu posso andar - insistiu ela. -  s quando vem a dor.
         - Eu sei - retrucou ele, mas no a soltou.
         Quando chegaram ao carro, ela o tocou no brao e apontou para a casa, encoberta pela neve e luzindo como uma lanterna na escurido da rua.
         - Quando voltarmos, traremos nosso beb conosco - disse. - Nosso mundo nunca mais ser o mesmo.
         Os limpadores de pra-brisa estavam congelados e a neve deslizou pelo vidro traseiro quando ele arrancou em direo  rua. Foi dirigindo devagar, pensando 
em como Lexington estava bonita, com as rvores e sebes carregadas de neve. Quando entrou na rua principal, as rodas deslizaram no gelo e o carro derrapou no cruzamento, 
fluido, por um breve instante, e parou junto a um banco de neve.
         - Est tudo bem - anunciou ele, com a cabea a mil. Por sorte, no havia nenhum outro carro  vista, O volante estava duro e frio feito pedra entre suas 
mos nuas. De vez em quando, ele limpava o pra-brisa com as costas da mo e se inclinava para olhar pelo buraco que tinha feito. - Liguei para o Bentley antes de 
sairmos - informou, referindo-se a seu colega obstetra. - Disse para ele nos encontrar no consultrio.  para l que ns vamos.  mais perto.
         Ela ficou calada por um momento, com a mo agarrada ao painel de instrumentos, enquanto respirava para enfrentar outra contrao. - Desde que eu no tenha 
meu beb neste carro velho - conseguiu dizer, tentando brincar. - Voc sabe que eu sempre o detestei.
         Ele sorriu, mas sabia que o medo da mulher era real, e o compartilhava.
         Metdico, objetivo: nem mesmo numa emergncia ele modificava sua natureza. Parou em todos os sinais luminosos, usou as setas para sinalizar nas ruas desertas. 
A intervalos de minutos, ela tornava a firmar uma das mos no painel e se concentrava na respirao, o que o fazia engolir em seco e olh-la de soslaio, mais nervoso 
nessa noite do que se lembrava de jamais ter estado. Mais nervoso do que em sua primeira aula de anatomia, com o corpo de um rapazinho escancarado para revelar seus 
segredos. Mais nervoso do que no dia do casamento, com a famlia dela enchendo um dos lados da igreja e, no outro, apenas um punhado de colegas seus. Os pais dele 
haviam morrido, sua irm tambm.
         Havia um nico carro no estacionamento da clnica - o Fairlane azul-claro da enfermeira, conservador, pragmtico e mais novo que o dele. O mdico tambm 
a havia chamado. Parou em frente  entrada e ajudou sua mulher a descer do carro. Agora que tinham chegado ao consultrio em segurana, estavam ambos animados, rindo 
ao avanarem para as luzes brilhantes da sala de espera.
         A enfermeira veio a seu encontro. No instante em que a viu, ele percebeu que havia algo errado. A mulher tinha grandes olhos azuis, num rosto plido que 
poderia ter 40 ou 25 anos, e, sempre que alguma coisa no lhe agradava, uma linha vertical fina formava-se em sua testa, bem entre os olhos. A linha estava l e 
ela lhes deu a notcia: o carro de Bentley sara de traseira na estrada rural em que ele morava, cuja neve no fora retirada, rodara duas vezes no gelo sob a neve 
e tinha cado numa vala.
         - Voc est dizendo que o Dr. Bentley no vem? - perguntou a esposa.
         A enfermeira fez que sim. Era alta, to magra e angulosa que os ossos pareciam prestes a lhe perfurar a pele a qualquer momento. Os grandes olhos azuis 
eram solenes e inteligentes. Durante meses houvera boatos e piadas, dizendo que ela estaria meio apaixonada pelo mdico. Ele os havia descartado como mexericos de 
trabalho, aborrecidos mas naturais quando um homem e uma mulher solteira trabalham numa proximidade to estreita, dia aps dia. E ento, uma noite, ele havia adormecido 
em sua escrivaninha. Sonhara com os tempos de sua casa da infncia, com a me arrumando potes de frutas que brilhavam como jias na mesa coberta de oleado, embaixo 
da janela. Sua irm de cinco anos estava sentada, segurando uma boneca com a mozinha fraca. Fora uma imagem passageira, talvez uma lembrana, mas que o enchera 
simultaneamente de tristeza e saudade. Agora a casa era dele, mas estava vazia, deserta desde a morte de sua irm e a mudana de seus pais, abandonados os cmodos 
que a me havia esfregado at deix-los com um brilho opaco, ocupados apenas pelo farfalhar dos esquilos e dos camundongos.
         Havia lgrimas em seus olhos quando ele os abriu, levantando a cabea da escrivaninha. A enfermeira estava parada no vo da porta, com o rosto enternecido 
de emoo. Estava bonita naquele momento, com um meio sorriso, e no tinha nada da mulher eficiente que trabalhava todos os dias a seu lado, silenciosa e competente. 
Seus olhos se encontraram e, para ele, foi como se a conhecesse - como se eles conhecessem um ao outro - de uma forma profunda e segura. Por um instante, absolutamente 
nada se interps entre os dois; foi uma intimidade de tal magnitude que ele ficou imvel, siderado. Depois, ela enrubesceu intensamente e desviou o olhar. Pigarreou 
e se empertigou, dizendo ter feito duas horas extras e estar de sada. Por muitos dias, seus olhos no cruzaram com os dele.
         Depois disso, quando as pessoas implicavam com ele por causa da enfermeira, ele as fazia parar. Ela  uma excelente enfermeira, dizia, erguendo uma das 
mos para barrar as piadas, em homenagem ao momento de comunho que os dois haviam compartilhado. Ela  a melhor com quem j trabalhei. Era verdade, e, nesse momento, 
ele ficou muito contente por t-la a seu lado.
         - Que tal o pronto-socorro? - perguntou a enfermeira. - Vocs conseguem chegar l?
         Ele abanou a cabea. As contraes tinham intervalos de apenas um minuto, mais ou menos.
         - Esse beb no vai esperar - disse, olhando para sua mulher. A neve derretera no cabelo dela e reluzia como uma tiara de brilhantes. - Esse beb est chegando.
         - Tudo bem - disse sua mulher, estica. Tinha a voz mais dura nesse momento, decidida. - Ser uma histria melhor para contar quando ele crescer, ele ou 
ela.
         A enfermeira sorriu, com a linha entre os olhos ainda visvel, porm mais tnue.
         - Ento, vamos levar voc para dentro - disse. - Vamos ajud-la um pouco com a dor.
         Ele foi buscar um jaleco em seu consultrio e, quando entrou na sala de exames de Bentley, sua mulher estava deitada na cama, com os ps nos suportes. O 
cmodo era azul-claro, repleto de cromados, esmaltados brancos e instrumentos delicados de ao reluzente. Ele foi at a pia e lavou as mos. Sentia-se extremamente 
alerta, cnscio dos mais nfimos detalhes, e, ao executar esse ritual corriqueiro, notou que o pnico diante da ausncia de Bentley comeava a diminuir. Fechou os 
olhos, obrigando-se a se concentrar em sua tarefa.
         - Est tudo evoluindo - disse a enfermeira, quando ele se virou. - Parece tudo bem. Eu diria que ela est com 10 centmetros; veja o que acha.
         Ele se sentou na banqueta e introduziu a mo na caverna morna e macia do corpo de sua mulher, O saco amnitico ainda estava intacto e, atravs dele, foi 
possvel sentir a cabea do beb, lisa e dura como uma bola de beisebol. Seu filho. Ele deveria estar andando de um lado para outro numa sala de espera qualquer. 
Do outro lado da sala, a persiana estava fechada sobre a nica janela e, ao retirar a mo do calor do corpo de sua mulher, ele pensou na neve, se ela continuava 
a cair, silenciando a cidade e o campo mais alm.
         - Sim - concordou. - Dez centmetros.
         - Phoebe - disse sua mulher. Ele no lhe via o rosto, mas a voz era clara. Fazia meses que os dois discutiam nomes, e no haviam chegado a nenhuma concluso.
          - Se for menina, Phoebe. E, se for menino, Paul, em homenagem ao meu tio-av. Eu lhe contei isso? - perguntou. - Pretendia lhe contar que eu tinha decidido.
         - So nomes bonitos - disse a enfermeira, tranqilizadora.
         - Phoebe e Paul - repetiu ele, mas estava concentrado na nova contrao que se avolumava no corpo da mulher. Fez um gesto para a enfermeira, que aprontou 
o gs anestsico. Durante seus anos de residncia, a norma era anestesiar completamente a mulher em trabalho de parto, at terminar a expulso, mas os tempos haviam 
mudado - era 1964 - e Bentley, ele sabia, usava o gs de modo mais seletivo. Era melhor que ela ficasse acordada para fazer fora; ele a anestesiaria nas contraes 
piores, na etapa da coroao e na expulso. Sua mulher ficou tensa e gritou, e o beb se deslocou no canal vaginal, rompendo o saco amnitico.
         - Agora - disse o mdico, e a enfermeira posicionou a mscara. As mos da parturiente relaxaram e os punhos se abriram,  medida que o gs anestsico fez 
efeito, e ela permaneceu imvel, tranqila e inconsciente, enquanto seu corpo era perpassado por mais uma contrao, depois outra.
         - Est vindo rpido, para um primeiro filho - comentou a enfermeira.
         -  - assentiu o mdico. - At aqui, tudo bem.
         Assim se passou meia hora. Sua mulher despertava, gemia e fazia fora e, quando ele achava que tinha sido o bastante - ou quando ela gritava que a dor era 
insuportvel -, fazia sinal para a enfermeira, que aplicava o gs. Exceto por essa troca silenciosa de instrues, os dois no falavam. L fora, a neve continuava 
a cair, descendo pelos lados das casas, enchendo as ruas. O mdico sentou-se numa cadeira de ao inoxidvel, reduzindo o foco de sua concentrao aos fatos essenciais. 
Fizera cinco partos durante o curso de medicina, todos bem-sucedidos e com bebs saudveis, e nesse momento se concentrou neles, buscando na memria os detalhes 
do atendimento. Ao faz-lo, sua mulher, deitada com os ps nos estribos e a barriga to alta que ele no conseguia ver seu rosto, fundiu-se aos poucos com aquelas 
outras mulheres. Seus joelhos redondos, as panturrilhas lisas e estreitas, os tornozelos, tudo to conhecido e amado, diante dele. Mas ele no pensou em lhe afagar 
a pele nem em pr a mo reconfortante sobre seu joelho. Foi a enfermeira quem segurou a mo dela enquanto a mulher fazia fora. Para o mdico, concentrado no que 
tinha imediatamente pela frente, ela se tornou no apenas ela mesma, porm mais do que ela: um corpo como os outros, uma paciente cujas necessidades ele precisava 
atender com todas as suas habilidades tcnicas. Era necessrio, mais necessrio que de hbito, manter as emoes sob controle. Com o correr do tempo, o estranho 
momento que ele vivenciara no quarto dos dois voltou-lhe  lembrana. Ele comeou a se sentir como se, de algum modo, estivesse distante daquela cena de parto, ao 
mesmo tempo presente, mas tambm flutuando noutro lugar, observando de uma distncia segura. Observou-se fazendo a inciso cuidadosa e precisa da episiotomia. Bem-feito, 
pensou consigo mesmo, enquanto o sangue brotava num filete perfeito, e no se permitiu rememorar as vezes em que tocara aquela mesma carne com paixo.
         A cabea comeou a despontar. Com mais trs impulsos, emergiu e, em seguida, o corpo escorregou para suas mos expectantes e o beb chorou, com a pele azul 
tornando-se rosada.
         Era um menino, de rosto vermelho e cabelos escuros, olhos alertas, desconfiado das luzes e do impacto frio e vivo do ar. O mdico amarrou e cortou o cordo 
umbilical. Meu filho, permitiu-se pensar. Meu filho.
         -  lindo - disse a enfermeira. Ela aguardou enquanto o mdico examinava o menino, observando as batidas regulares do corao, rpidas e seguras, as mos 
de dedos longos e a cabeleira escura. Depois, ela levou o beb at o cmodo ao lado para banh-lo e pingar nitrato de prata em seus olhos. Os gritinhos chegaram 
at eles e a esposa se mexeu. O mdico ficou onde estava, com a mo sobre o joelho dela, respirando fundo vrias vezes,  espera da expulso da placenta. Meu filho, 
tornou a pensar.
         Onde est o beb? - perguntou sua mulher, abrindo os olhos e afastando o cabelo do rosto enrubescido. - Est tudo bem?
         -  menino - disse o mdico, sorrindo para ela. - Temos um filho. Voc vai v-lo assim que ele estiver limpo.  absolutamente perfeito.
         O rosto de sua esposa, suavizado pelo alvio e pelo cansao, de repente tensionou-se com outra contrao, e o mdico, esperando a placenta, voltou para 
a banqueta entre as pernas dela e fez uma leve presso em seu abdmen. Ela deu um grito e, no mesmo instante, ele compreendeu o que estava acontecendo, to perplexo 
quanto se de repente aparecesse uma janela numa parede de concreto.
         - Est tudo bem - disse-lhe. - Tudo timo. Enfermeira! - chamou, enquanto se acentuava a contrao seguinte.
         A enfermeira veio de imediato, carregando o beb, agora envolto em mantas brancas.
         - Nota nove no Apgar - anunciou. - Isso  timo.
         A parturiente estendeu os braos para o beb e comeou a falar, mas foi apanhada pela dor e tornou a reclinar o corpo.
         - Enfermeira - disse o mdico. - Preciso de voc aqui. J.
         Aps um momento de confuso, a enfermeira ps dois travesseiros no cho, acomodou o beb sobre eles e se aproximou do mdico junto  mesa.
         - Mais gs - disse ele. Percebeu a surpresa da moa e seu aceno rpido de compreenso, j obedecendo. O mdico estava com a mo pousada no joelho de sua 
mulher e sentiu a tenso nos msculos dela relaxar-se sob o efeito do gs.
         - Gmeos? - indagou a enfermeira.
         O        mdico, que se deixara relaxar aps o nascimento do menino, sentia-se abalado nesse momento e no confiou em fazer nada alm de um aceno com a 
cabea. Firme, disse a si mesmo, quando a cabea seguinte despontou. Voc est num lugar qualquer, pensou, observando de um ponto tnue no teto, enquanto suas mos 
trabalhavam com mtodo e preciso. Isto  um parto qualquer.
         O segundo beb era menor e saiu com facilidade, deslizando to depressa para suas mos enluvadas que ele inclinou o tronco para a frente, usando o peito 
para se certificar de que a criana no casse.
         -  uma menina - disse, e aninhou-a como uma bola, de bruos, dando-lhe tapinhas nas costas at ela chorar. Em seguida, virou-a para ver seu rosto.
         O mnio branco e cremoso envolvia sua pele delicada e ela estava escorregadia, por causa do lquido amnitico e dos vestgios de sangue. Os olhos azuis 
eram nublados e o cabelo negro feito piche, porm ele mal notou esses detalhes. O que viu foram os traos inconfundveis, os olhos repuxados como que numa risada, 
a prega epicntica entre as plpebras, o nariz achatado. Um caso clssico, lembrou-se de um professor dizendo, anos antes, ao examinarem uma criana similar. Mongolide. 
Sabe o que significa isso? E ele, compenetrado, recitara os sintomas que havia decorado de um livro: tnus muscular flcido, retardo no crescimento e no desenvolvimento 
mental, possveis complicaes cardacas, morte prematura. O professor assentira com a cabea, pondo o estetoscpio no peito liso e nu do beb. Pobre criana. No 
h nada que eles possam fazer, exceto procurar mant-la limpa. Deviam poupar-se e mand-la para uma instituio.
         O mdico sentiu-se transportar para o passado. Sua irm tinha nascido com uma malformao cardaca e crescera muito devagar, com a respirao entrecortada 
em pequenos arquejos toda vez que tentava correr. Durante muitos anos, at a primeira viagem  clnica de Morgantown, eles no tinham sabido qual era o problema. 
Ento souberam, e no houve nada que pudessem fazer. Todas as atenes da me tinham ido para a menina, mas, mesmo assim, ela havia morrido aos 12 anos. Na poca, 
o mdico tinha 16 e morava na cidade para freqentar o cientfico, j a caminho de Pittsburgh, da faculdade de medicina e da vida que levava agora. No entanto, lembrava-se 
da intensidade e da persistncia da tristeza de sua me, de seu jeito de subir a colina todas as manhs para ir at o tmulo, com os braos cruzados no peito, em 
qualquer temperatura que fizesse.
         A enfermeira parou a seu lado e examinou o beb.
         - Sinto muito, doutor - disse.
         Ele segurou a criana, esquecendo-se do que devia fazer a seguir. As mos minsculas eram perfeitas. Mas ali estava o espao entre o dedo do p e os outros, 
como um dente faltando, e, ao olhar fundo nos olhos da menina, ele viu as manchas de Brushfield, minsculas e ntidas como salpicos de neve na ris. Imaginou o corao 
dela, do tamanho de uma ameixa e, muito possivelmente, malformado, e pensou no quarto do beb, to cuidadosamente pintado, com seus bichos macios e um nico bero. 
Pensou na esposa parada na calada, diante da casa coberta pelo vu luminoso de neve, dizendo: Nosso mundo nunca mais ser o mesmo.
         A mo do beb roou na sua e ele se assustou. Sem vontade, comeou a executar os procedimentos conhecidos. Cortou o cordo e verificou o corao e os pulmes. 
Pensava o tempo todo na neve, no carro prateado deslizando para uma vala, na profunda quietude da clnica deserta. Mais tarde, ao pensar nessa noite - e pensaria 
nela muitas vezes, nos meses e anos seguintes: o momento decisivo de sua vida, em torno de cujos instantes sempre giraria todo o resto -, o que lembrou foi o silncio 
da sala e a neve caindo l fora, ininterrupta. O silncio era to profundo e envolvente que ele se sentiu flutuar para uma nova altura, um ponto acima e alm daquele 
cmodo, onde ele se fundia com a neve e a cena da sala era algo que se desdobrava numa vida diferente, uma vida de que ele era um espectador fortuito, como uma cena 
vislumbrada por uma janela muito iluminada quando se anda por uma rua escura. Era isso que ele recordaria, essa sensao de espao infinito. O mdico na vala e as 
luzes de sua prpria casa brilhando ao longe.
         - Muito bem. Limpe-a, por favor - disse, depositando o frgil beb nos braos da enfermeira. - Mas deixe-a na outra sala. No quero que minha mulher saiba. 
No de imediato.
         A enfermeira fez que sim. Desapareceu e retornou para colocar o menino no moiss que havia trazido. A essa altura, o mdico estava dedicado  expulso das 
placentas, que saram lindamente, escuras e densas, cada qual do tamanho de um pratinho. Gmeos fraternos, masculino e feminino, um visivelmente perfeito, a outra 
marcada por um cromossomo extra em cada clula do corpo. Que probabilidade havia de acontecer uma coisa dessas? Seu filho estava no moiss, mexendo as mos de quando 
em quando, fluidas e aleatrias, como os rpidos movimentos aquticos do tero. O mdico injetou um sedativo em sua mulher e se abaixou para suturar a episiotomia. 
Estava quase amanhecendo, com uma luz tnue a se infiltrar pelas janelas. Ele observou os movimentos das prprias mos, pensando em como os pontos estavam sendo 
bem-feitos, minsculos como os dela, igualmente caprichados e uniformes. Ela havia arrancado um painel inteiro da colcha de retalhos por causa de um erro, invisvel 
para o marido.
         Ao terminar, o mdico encontrou a enfermeira sentada numa cadeira de balano na sala de espera com a menininha no colo. Ela o fitou sem dizer palavra e 
ele se lembrou da noite em que a moa o observara durante seu sono.
         - Existe um lugar - disse ele, escrevendo o nome e o endereo no verso de um envelope. - Eu gostaria que voc a levasse para l. Quando houver clareado, 
quero dizer. Vou emitir a certido de nascimento e telefono para avisar que voc est a caminho.
         - Mas, e a sua mulher... - disse a enfermeira, e ele ouviu, do local distante em que se achava, a surpresa e a reprovao na voz dela.
         Pensou na irm, plida e magra, tentando recobrar o flego, e na me voltada para a janela para esconder as lgrimas.
         - Voc no percebe? - perguntou. com voz suave. - O mais provvel  que essa pobre criana tenha uma grave malformao cardaca. Um problema fatal. Estou 
tentando poupar-nos a todos de uma aflio terrvel.
         Falou com convico. Acreditava em suas prprias palavras. A enfermeira continuou sentada, olhando-o fixamente, com uma expresso de surpresa, mas, afora 
isso, indecifrvel, enquanto ele aguardava sua resposta afirmativa. No estado de nimo em que se encontrava, no lhe ocorreu que ela pudesse responder de outro modo. 
Ele no imaginou, como faria mais tarde nessa noite, e em muitas noites subseqentes, a que ponto estava pondo tudo em risco. Em vez disso, impacientou-se com a 
lentido da enfermeira e sentiu um grande e sbito cansao, e a clnica, to familiar, pareceu-lhe estranha a seu redor, como se ele andasse num sonho. A moa o 
estudou, com seus olhos azuis indecifrveis. Ele retribuiu o olhar, resoluto, e por fim ela acenou com a cabea, num movimento to leve que foi quase imperceptvel.
         - A neve - murmurou ela, baixando os olhos.
           ...
         Mas a tempestade comeou a se abrandar ali pelo meio da manh, e os sons distantes das ps arranharam o ar quieto. Da janela do segundo andar, ele viu a 
enfermeira bater a neve de seu carro azul-claro e partir para o mundo branco e macio. O beb estava escondido, adormecido numa caixa forrada de cobertores, no banco 
ao lado dela. O mdico a viu virar  esquerda na rua e desaparecer. Em seguida, foi sentar-se com sua famlia.
         Sua mulher dormia, com o cabelo dourado derramando-se sobre o travesseiro. De tempos em tempos, o mdico cochilava. Acordando, olhou para o estacionamento 
vazio e observou a fumaa que subia das chamins do outro lado da rua, enquanto preparava as palavras que diria. Que no era culpa de ningum, que a filha deles 
estaria em boas mos, com pessoas iguais a ela e com atendimento ininterrupto. Que seria melhor assim para todos.
         No fim da manh, quando parou inteiramente de nevar, seu filho chorou de fome e sua mulher acordou.
         - cad o nenm? - perguntou ela, apoiando-se nos cotovelos e afastando o cabelo do rosto. Ele segurava o filho, quente e leve, e se sentou ao lado da esposa, 
acomodando o beb em seus braos.
         - Oi, meu amor - disse-lhe. - Olhe o nosso lindo filho. Voc foi muito valente.
         Ela beijou o nenm na testa, abriu o roupo e lhe ofereceu o seio. O menino o pegou no mesmo instante, e a mulher ergueu os olhos e sorriu. O mdico segurou 
sua mo livre, lembrando-se da fora com que ela o havia apertado, imprimindo os ossos dos dedos em sua carne. Lembrou-se do quanto havia desejado proteg-la.
         - Est tudo bem? - perguntou ela. - Querido? O que foi?
         - Ns tivemos gmeos - ele lhe disse devagar, pensando nas cabeleiras pretas, nos corpos escorregadios movendo-se em suas mos. As lgrimas lhe encheram 
os olhos - Um casal.
         - Oh! - fez a mulher. - Uma menininha tambm? Phoebe e Paul. Mas onde est ela?
         Seus dedos eram to finos, pensou o marido, pareciam ossos de passarinho.
         - Minha querida - comeou. A voz falhou e as palavras que ele ensaiara com tanto cuidado desapareceram. Ele fechou os olhos e, quando conseguiu falar novamente, 
vieram outras palavras, no planejadas.
         - Ah, meu amor - disse-lhe. - Eu sinto muito, muito. A nossa filhinha morreu no parto.
         
         II
         
         CAROLINE GILL ATRAVESSOU O ESTACIONAMENTO COM CUIDADO, chapinhando desajeitadamente. A neve subia at suas panturrilhas; em alguns pontos, at os joelhos. 
Ela carregava o beb, envolto em mantas, dentro de uma caixa de papelo antes usada para entregar no consultrio amostras de leite para recm-nascidos. A caixa trazia 
estampas de letras vermelhas e rostos angelicais de bebs, e as abas subiam e desciam a cada passo. Havia uma quietude crescente e antinatural no estacionamento 
quase deserto, um silncio que parecia originar-se no prprio frio, expandir-se no ar e se espalhar como as ondulaes de uma pedra atirada na gua. Uma rajada de 
neve fustigou seu rosto quando ela abriu a porta do carro. De forma instintiva, protetora, ela se curvou sobre a caixa e a colocou no banco traseiro, onde as mantas 
cor de rosa caram, macias, sobre o vinil branco do estofamento. A nenm dormia, um sono intenso e absorto de recm-nascido, com o rosto contrado, os olhos parecendo 
simples ranhuras, o nariz e o queixo meras protuberncias. Ningum diria, pensou Caroline. Se no soubesse, no diria. A enfermeira lhe dera nota oito no Apgar.
         As ruas da cidade tinham sido mal desobstrudas pelos limpa-neves e estavam difceis de trafegar. Por duas vezes o carro derrapou e por duas vezes Caroline 
quase deu meia-volta. Mas a estrada interestadual estava mais livre e, ao chegar a ela, a enfermeira seguiu num ritmo regular, passando pelos arredores industriais 
de Lexington e entrando nas elevaes e depresses suaves da zona rural onde ficavam os haras. Ali, quilmetros de cercas brancas produziam sombras ntidas na neve 
e os cavalos postavam-se escuros nos campos. O cu carregado parecia ter vida, com suas nuvens gordas e cinzentas. Caroline ligou o rdio, procurou uma estao em 
meio  esttica e o desligou. O mundo passava clere do lado de fora, corriqueiro e profundamente mudado.
         Desde o instante em que balanara a cabea, num vago aceno de concordncia com o surpreendente pedido do Dr. Henry, Caroline tinha a sensao de estar despencando 
no ar em cmera lenta,  espera de bater no cho e descobrir onde se encontrava. O que ele lhe pedira - que levasse embora sua filha recm-nascida, sem contar  
mulher sobre o nascimento da menina - parecia-lhe inominvel. Mas Caroline se comovera com a dor e a confuso estampadas no rosto dele ao examinar a filha, com a 
maneira lenta e entorpecida como ele passara a se mover daquele momento em diante, O Dr. Henry no tardaria a cair em si, disse a si mesma. Estava em choque, e quem 
poderia censur-lo? Afinal, fizera o parto de seus prprios gmeos em meio a uma nevasca - e, agora, isso.
         Caroline aumentou a velocidade, enquanto as imagens da madrugada a perpassavam como uma corrente. O Dr. Henry, trabalhando com serena habilidade, seus gestos 
concentrados e precisos. Os plos escuros entre as coxas alvas de Norah Henry e sua imensa barriga, ondulando-se com as contraes como um lago sob o vento. O sibilar 
quase silencioso do gs anestsico e o instante em que o Dr. Henry a chamara, com a voz clara, mas tensa, e o rosto to abalado que ela tivera certeza de que o segundo 
beb era natimorto. Caroline havia esperado que o mdico se mexesse, que tentasse ressuscitar o beb. E, quando ele no o tinha feito, viera-lhe a idia sbita de 
que devia aproximar-se, ser testemunha, para que depois pudesse atestar: Sim, o beb estava ciantico, o Dr. Henry tentou, ns dois tentamos, mas no havia nada 
afazer.
         Mas ento o beb havia chorado, e o choro a atraira para o lado dele. Caroline tinha olhado e compreendido.
         Ela continuou a dirigir, rechaando as lembranas. A estrada cortou o calcrio e o cu se afunilou. Caroline atingiu o topo da pequena colina e comeou 
a longa descida em direo ao rio l embaixo. Atrs dela, na caixa de papelo, a nenm continuava a dormir. Ela a olhava por cima do ombro de vez em quando, ao mesmo 
tempo tranqila e aflita por perceber que a menina no se mexia. Esse sono, lembrou a si mesma, era normal depois do esforo de vir ao mundo. Ela pensou em seu prprio 
nascimento e se perguntou se teria dormido to profundamente nas horas seguintes, mas fazia muito tempo que seus pais estavam mortos; no havia ningum que se lembrasse 
daqueles momentos. Sua me j passara dos 40 na poca de seu nascimento, e seu pai tinha 52 anos. Fazia muito que os dois haviam desistido de esperar um filho e 
aberto mo de qualquer esperana ou expectativa, e at do pesar. Levavam uma vida ordeira, calma, satisfeita.
         At que, num susto, Caroline havia chegado, uma flor brotando da neve.
         Eles a haviam amado, com certeza, mas fora um amor apreensivo, circunspecto e intenso, entremeado de cataplasmas, meias quentes e leo de rcino. Nos veres 
quentes e parados, quando havia o temor da poliomielite, Caroline era obrigada a ficar dentro de casa, com o suor brotando em gotas das tmporas quando ela se deitava 
para ler no sof-cama do corredor de cima, junto  janela. As moscas zumbiam no vidro e caam mortas no parapeito. L fora, a paisagem tremeluzia sob a luminosidade 
e o calor, e as crianas da vizinhana, crianas cujos pais eram mais moos e, portanto, menos familiarizados com a possibilidade da desgraa, gritavam umas com 
as outras ao longe. Caroline encostava o rosto e as pontas dos dedos na tela, ouvindo. Ansiando. No ar parado, o suor encharcava os ombros de sua blusa de algodo 
e o cs bem passado de sua saia. L embaixo, no jardim, de luvas, avental comprido e chapu, sua me arrancava ervas daninhas. Mais tarde, ao anoitecer, seu pai 
voltava a p do escritrio da companhia de seguros e tirava o chapu ao entrar na casa quieta, de persianas fechadas. Sob o palet, tinha a camisa manchada e mida.
         Caroline cruzou a ponte sobre os meandros do rio Kentucky, cantando os pneus, enquanto a alta carga de energia da noite anterior ia se desfazendo. Tornou 
a olhar para o beb. Norah Henry com certeza iria querer segurar essa criana, mesmo que no pudesse ficar com ela.
         E, com certeza, isso no era da conta de Caroline.
         Mas ela no deu meia-volta. Tornou a ligar o rdio - dessa vez, achou uma estao de msica clssica - e continuou dirigindo.
         Passados uns 30 quilmetros de Louisville, consultou as instrues do Dr. Henry, escritas em sua letra mida e ntida, e saiu da auto-estrada. Ali, bem 
pertinho do rio Ohio, os galhos mais altos das rvores resplandeciam com o gelo, embora as estradas estivessem desobstrudas e secas. Cercas brancas bordejavam os 
campos cobertos de neve e cavalos moviam-se feito sombras atrs delas, formando nuvens no ar com seu bafo. Caroline entrou numa estrada ainda menor, onde a terra 
se estendia sem barreiras. Logo adiante, aps um quilmetro e meio de plidas colinas, avistou o prdio de tijolos vermelhos, construdo na virada do sculo, com 
duas incongruentes alas modernas e baixas. De quando em quando, ele desaparecia,  medida que Caroline seguia as curvas e descidas da estradinha rural, e, de repente, 
surgiu  sua frente.
         Ela parou na entrada circular para automveis. Vista de perto, a casa antiga parecia levemente decrpita. A pintura descascava nos acabamentos de madeira 
e, no terceiro andar, uma janela tinha sido coberta com compensado - vidros partidos, escorados por tbuas de madeira. Caroline desceu do carro. Usava um par de 
velhos sapatos rasos, de sola fina e desgastada, guardados no armrio e calados s pressas, no meio da madrugada anterior, quando ela no conseguira encontrar suas 
botas. O cascalho a espetava atravs da neve e seus ps se enregelaram de imediato. Ela pendurou no ombro a bolsa que havia preparado, com fraldas e uma garrafa 
trmica com leite aquecido, pegou a caixa com o beb e entrou no prdio. Lampies de vitral, que h muito no eram polidos, ladeavam a porta de entrada. Havia uma 
porta interna de vidro fosco e, em seguida, um vestbulo de carvalho escuro. O ar quente, recendendo aos aromas que vinham da cozinha - cenouras, cebolas e batatas 
-, rodopiava apressado  sua volta. Caroline foi andando, hesitante, com as tbuas do piso rangendo a cada passo, mas no apareceu ningum. Uma passadeira puda 
cruzava um piso de tbuas corridas e levava, nos fundos da casa, a uma sala de espera com janelas altas e cortinas pesadas. Ela se sentou na beirada de um sof de 
veludo surrado, com a caixa junto de si, e aguardou.
         O cmodo estava superaquecido. Ela desabotoou o casaco. Ainda usava seu uniforme branco de enfermeira e, ao pr a mo no cabelo, percebeu que ainda estava 
tambm com sua touca branca e dura. Na vspera, ela se levantara de imediato com o telefonema do Dr. Henry, vestira-se depressa e sara pela nevasca noturna, e ainda 
no tinha parado desde ento. Soltou a touca, dobrou-a com cuidado e fechou os olhos. Ao longe havia um barulho de talheres e vozes cantarolando. Acima dela ressoavam 
passos. Caroline devaneou a me a preparar uma refeio num dia festivo, enquanto o pai trabalhava em sua oficina de marcenaria. Ela tivera uma infncia solitria, 
s vezes at demais, porm ainda guardava algumas lembranas: uma colcha de retalhos especial, segurada com fora. um tapetinho com rosas sob os ps, a teia de vozes 
que s a ela pertenciam.
         Ao longe, uma sineta soou duas vezes. Preciso de voc aqui, j, dissera o Dr. Henry, com tenso e urgncia na voz. E Caroline tinha se apressado, improvisando 
a desajeitada cama de travesseiros e segurando a mscara sobre o rosto da Sra. Henry, enquanto o segundo gmeo, essa menininha, deslizava para o mundo e punha alguma 
coisa em movimento.
         Em movimento. Sim, era impossvel det-lo. Mesmo sentada ali, naquele sof, na quietude daquele lugar, mesmo enquanto aguardava, Caroline perturbava-se 
com a sensao de que o mundo bruxuleava, de que as coisas se recusavam a ficar imveis. E isto?, dizia o refro em sua mente. E isto, depois de todos esses anos?
         Caroline Gill tinha 31 anos e h muito esperava que sua vida real comeasse. No que algum dia ela houvesse formulado efetivamente essa idia. Desde a infncia, 
no entanto, sentira que sua vida no seria banal. Chegaria um momento - ela o reconheceria ao v-lo - em que tudo se modificaria. Ela havia sonhado ser uma grande 
pianista, mas a iluminao do palco da escola secundria era por demais diferente das luzes de casa, e ela tinha congelado sob seu brilho ofuscante. Depois, por 
volta dos 20 anos, enquanto suas amigas da escola de enfermagem comeavam a se casar e construir famlia, Caroline tambm havia encontrado rapazes a quem admirar, 
em especial um deles, de cabelo preto, pele clara e riso gutural. Durante um perodo onrico havia imaginado que ele - e, quando ele no telefonou, alguma outra 
pessoa - transformaria sua vida. Com o passar dos anos, aos poucos ela voltara sua ateno para o trabalho, tambm sem desespero. Tinha confiana em si e em sua 
capacidade. No era pessoa de ir a meio caminho de um destino e parar, perguntando a si mesma se teria deixado o ferro ligado e se a casa estaria pegando fogo. Ela 
continuara a trabalhar. E a esperar.
         Tambm tinha lido, primeiro os romances de Pearl Buck e, depois deles, tudo o que conseguira encontrar sobre a vida na China, na Birmnia e no Laos. As 
vezes, deixava o livro escorregar das mos e olhava sonhadora pela janela de seu apartamento, pequeno e despojado, nos limites da cidade. Via-se levando uma outra 
vida, uma vida extica, difcil e gratificante. Sua clnica seria simples, instalada numa floresta exuberante, talvez perto do mar. Teria paredes brancas e luziria 
como uma prola. As pessoas fariam fila do lado de fora, agachadas sob os coqueiros, esperando. Ela, Caroline, cuidaria de todos; curaria essas pessoas. Transformaria 
a vida delas e a sua.
         Consumida por essa viso, tinha se candidatado, num grande surto de empolgao e fervor, ao cargo de missionria mdica. Num radioso fim de semana de final 
de vero, tomara o nibus com destino a St. Louis para ser entrevistada. Seu nome tinha sido includo numa lista de espera para a Coria. Mas o tempo havia passado 
e a misso fora adiada, depois cancelada. Caroline tinha sido includa noutra lista, dessa vez para a Birmnia.
         E ento, quando ainda verificava sua correspondncia e sonhava com os trpicos, o        Dr. Henry havia chegado.
         Apenas um dia comum, nenhuma indicao em contrrio. Final de outono, a estao dos resfriados, e a sala de espera apinhada de gente, repleta de espirros 
e tosses abafadas. A prpria Caroline sentia um vago arranhar no fundo da garganta ao chamar o paciente seguinte, um senhor idoso cujo resfriado viria a se agravar 
nas semanas posteriores, transformando -se na pneumonia que acabaria por mat-lo. Rupert Dean. Estava sentado na poltrona de couro, lutando com um sangramento nasal, 
e se levantou devagar, enfiando no bolso o leno de tecido com Seus pontos vividos de sangue. Ao chegar ao balco da recepo, entregou a Caroline uma fotografia 
numa moldura de papelo azul-marinho. Um retrato em preto-e-branco, levemente colorizado. A mulher retratada usava um suter claro, cor de pssego. Tinha ondas suaves 
no cabelo e olhos de um tom azul-escuro. Emelda, a mulher de Rupert Dean, j ento falecida fazia 20 anos.
         - Ela foi o amor da minha vida - anunciou ele a Caroline, falando to alto que as pessoas levantaram os olhos.
         A porta externa do consultrio se abriu, fazendo chacoalhar a porta interna de vidro.
         - Ela  um encanto - disse Caroline. Tinha as mos trmulas. Por se comover com o amor e a tristeza do homem e porque ningum jamais a amara com a mesma 
paixo. Por estar com quase 30 anos e saber que, se morresse no dia seguinte, no haveria ningum para chorar sua ausncia como Rupert Dean ainda chorava a da mulher, 
passados mais de 20 anos. Com toda certeza, ela, Caroline Lorraine Gill, devia ser to nica e to digna de amor quanto a mulher da fotografia do ancio, mas nunca 
havia descoberto um modo de revelar isso, nem pela arte nem pelo amor, e nem mesmo pela bela e altiva vocao de seu trabalho.
         Ainda tentava se recompor quando a porta do vestbulo para a sala de espera escancarou-se. Um homem de sobretudo marrom hesitou por um instante no vo da 
porta, segurando o chapu e observando o papel de parede de tonalidade amarela, a samambaia no canto, o porta-revistas metlico cheio de revistas velhas. Tinha cabelos 
castanhos, com um toque avermelhado, o rosto fino e uma expresso atenta, de avaliao. No era imponente, mas havia alguma coisa em seu porte, seu jeito - uma vivacidade 
serena, uma certa capacidade de escuta -, que o distinguia. O corao de Caroline acelerou-se e ela sentiu na pele um formigamento ao mesmo tempo agradvel e irritante. 
Os olhos dos dois se cruzaram - e ela soube. Antes que o homem atravessasse a sala para apertar sua mo, antes que abrisse a boca e dissesse seu nome, David Henry, 
com um sotaque neutro que o situava como forasteiro. Antes de tudo isso, Caroline teve certeza de um fato simples: a pessoa por quem estivera esperando havia chegado.
         Ele no era casado nessa ocasio. Nem casado nem noivo, nem tinha nenhum relacionamento, ao que ela pudesse averiguar. Caroline escutara com ateno, tanto 
nesse dia, quando ele percorreu a clnica, quanto depois, nas recepes e reunies de boas-vindas. Ouviu o que os outros, absortos no fluxo da conversa refinada, 
distrados com o sotaque pouco conhecido do mdico e com suas gargalhadas sbitas e inesperadas, no ouviram: que, afora uma ou outra meno ocasional ao perodo 
passado em Pittsburgh, informao que j era conhecida por seu currculo e seu diploma, ele nunca fazia referncia ao passado. Para Caroline, essa reticncia lhe 
conferia um ar de mistrio, e o mistrio acentuava sua sensao de conhec-lo de um modo que os outros no conheciam. Para ela, cada contato dos dois era tenso, 
como se ela lhe dissesse, por cima da escrivaninha, da mesa de exames e dos corpos belos e imperfeitos de um ou outro paciente: Conheo voc eu o compreendo; enxergo 
o que escapou aos outros. Quando entreouvia as pessoas fazendo pilhrias a respeito de sua paixo pelo novo mdico, ela enrubescia de surpresa e constrangimento. 
Mas tambm ficava secretamente satisfeita, porque talvez os boatos chegassem ao mdico de um modo que ela, com sua timidez, no conseguiria transmitir.
         Num fim de noite, aps dois meses de trabalho sossegado, ela o havia encontrado adormecido  escrivaninha. Tinha o rosto apoiado nas mos e respirava com 
a cadncia leve e ritmada do sono profundo. Caroline se encostara no batente da porta, com a cabea inclinada, e, naquele momento, todos os sonhos que havia alimentado 
durante anos tinham se fundido. Os dois iriam juntos, ela e o Dr. Henry, para algum lugar remoto do mundo, onde trabalhariam o dia inteiro, com o suor brotando na 
testa e os instrumentos ficando escorregadios nas palmas das mos, e onde,  noite, ela tocaria para ele um piano que teria sido mandado por mar, subido um rio caudaloso 
e atravessado a terra exuberante at chegar ao local em que os dois moravam. Caroline estava to imersa nesse sonho que, quando o Dr. Henry abriu os olhos, sorriu-lhe 
abertamente, de um jeito franco, como nunca sorrira para ningum at ento.
         A clara surpresa do mdico a fizera cair em si. Ela havia empertigado o corpo, passado a mo no cabelo e murmurado uma desculpa qualquer, com um intenso 
rubor nas faces. E tinha desaparecido, constrangida, mas tambm vagamente emocionada.  que agora ele teria que saber, agora finalmente a veria tal como ela o via. 
Por alguns dias, sua expectativa do que iria acontecer tinha sido to grande que lhe fora difcil estar no mesmo aposento que ele. No entanto, quando os dias se 
passaram sem que nada ocorresse, Caroline no ficara desapontada. Havia relaxado e inventado desculpas para a demora, e continuara esperando, sem se deixar perturbar.
         Trs semanas depois, ela havia aberto o jornal e deparado com a fotografia do casamento na pgina da coluna social: Norah Asher, agora Sra. David Henry 
fotografada ao virar a cabea, com seu pescoo elegante e suas plpebras ligeiramente curvas, feito conchas...
         Caroline sobressaltou-se, transpirando dentro do casaco. A sala estava quente demais e, por pouco, ela no perdeu a noo das coisas. A seu lado, a nenm 
continuava a dormir. Ela se levantou e foi at as janelas, sentindo as tbuas do piso mexerem-se e ranger sob o tapete desgastado. As cortinas de veludo roavam 
o cho - restos da era longnqua em que aquele lugar tinha sido uma residncia elegante. Ps a mo na borda de uma das cortinas de voile que serviam de forro: amareladas, 
quebradias, elas se inflavam de poeira. L fora, meia dzia de vacas fuava o campo nevado  procura de pastagem. Um homem de palet xadrez vermelho e luvas escuras 
abriu caninho para o celeiro, balanando baldes nas mos.
         Aquela poeira, aquela neve. No era justo, no era nada justo que Norah Henry tivesse tanta coisa, tivesse aquela vida feliz, impecvel. Chocada com essa 
idia e com a intensidade de seu rancor, Caroline largou a cortina e saiu da sala, em direo ao som das vozes humanas.
         Entrou num corredor em que as lmpadas fluorescentes zumbiam junto ao teto alto. O ar estava carregado, com cheiro de detergente, legumes cozidos e um vago 
odor amarelado de urina. Carrinhos chacoalhavam; vozes chamavam e murmuravam. Ela dobrou um corredor, depois outro e desceu um nico degrau, entrando numa ala mais 
moderna, com paredes de um turquesa plido. Ali, o piso de linleo afrouxava-se sobre as tbuas embaixo. Caroline passou por vrias portas, tendo vislumbres de momentos 
na vida das pessoas, imagens suspensas como fotografias: um homem olhando por uma janela, com o rosto envolto em sombras e uma idade indeterminvel. Duas enfermeiras 
fazendo uma cama, com os braos levantados e o lenol claro flutuando por um instante perto do teto. Dois quartos vazios, com encerados estendidos sobre os mveis 
e latas de tinta empilhadas num canto. Uma porta fechada e, por fim, a ltima, aberta, onde uma jovem de camisola branca de algodo sentava-se numa beirada de cama, 
com as mos cruzadas de leve no colo e a cabea abaixada. Outra mulher, uma enfermeira, postava-se atrs dela, fazendo movimentos rpidos com uma tesoura prateada. 
O cabelo escuro caa em cascata sobre os lenis brancos, descobrindo o pescoo nu da moa: fino, gracioso, plido. Caroline parou  porta.
         - Ela est com frio - ouviu-se dizer, o que fez as duas mulheres erguerem os olhos. A que estava na cama tinha olhos grandes, que luziam escuros. Seu cabelo, 
antes muito comprido, agora se projetava, irregular, na altura do queixo.
         -  - fez a enfermeira, e estendeu a mo para espanar os fios de cabelo dos ombros da moa; eles flutuaram na luz opaca e caram nos lenis e no linleo 
pontilhado de cinza. - Mas era preciso - disse, e espremeu os olhos, examinando o uniforme amarrotado de Caroline e sua cabea descoberta. - Voc  nova aqui? - 
perguntou.
         Caroline acenou com a cabea.
         - Nova - disse. - Isso mesmo.
         Mais tarde, ao relembrar esse momento - uma mulher com uma tesoura e a outra sentada, de camisola de algodo, em meio aos destroos de seu cabelo -, pensaria 
nele em preto-e-branco, e a imagem a encheria de um vazio e uma saudade desvairados. De qu no tinha certeza. O cabelo estava espalhado, irrecupervel, e uma luz 
fria entrava pela janela. Caroline sentiu os olhos se encherem de lgrimas. Vieram ecos de vozes noutro corredor e ela se lembrou do beb, que ficara dormindo numa 
caixa, no sof superestofado de veludo da sala de espera. Deu meia-volta e se precipitou para l.
         Encontrou tudo como havia deixado. A caixa, com seus querubins alegres e rosados, continuava no sof; a nenm, com os punhozinhos fechados junto ao queixo, 
ainda dormia. Phoebe, dissera Norah Henry, pouco antes de apagar com a anestesia. Se for menina, Phoebe.
         Phoebe. Caroline desdobrou delicadamente as cobertas e pegou-a no colo. Era minscula - dois quilos e meio, menor que o irmo, embora tivesse a mesma cabeleira 
escura e farta. Caroline verificou a fralda - o mecnio escuro manchava o tecido mido -, trocou-a e tornou a agasalhar a menina. Ela no tinha acordado, e a enfermeira 
a segurou por um instante, sentindo como era leve, pequenina e quente. Rostinho muito mido, voltil. Mesmo durante o sono, as expresses moviam-se por suas feies 
feito nuvens. Caroline vislumbrou o cenho franzido de Norah Henry numa delas, a escuta concentrada de David Henry em outra. Reps Phoebe na caixa e ajeitou de leve 
as cobertas em torno de seu corpo, pensando em David Henry, tenso de cansao, comendo um sanduche de queijo em sua escrivaninha, terminando uma xcara de caf meio 
frio e se levantando para reabrir as portas do consultrio nas noites de tera-feira .- atendimento gratuito para os pacientes que no podiam pagar. A sala de espera 
ficava sempre cheia nessas noites e muitas vezes, ele ainda estava l quando Caroline finalmente ia embora,  meia-noite, ela mesma to exausta que mal conseguia 
raciocinar. Era por isso que passara a am-lo, por sua bondade. No entanto, ele a mandara para esse lugar com sua filha recm-nascida, esse lugar em que uma mulher 
se sentava numa beirada de cama, com seu cabelo caindo em tufos macios na luz fria e dura do piso.
         Isso a destruiria, dissera o mdico sobre Norah. No vou deixar que ela seja destruda.
         Ouviu-se um som de passos e, em seguida, uma mulher de cabelo grisalho e uniforme branco, muito parecido com o de Caroline, postou-se no vo da porta. Era 
de estrutura slida, gil para seu tamanho, pragmtica. Numa outra situao, Caroline teria tido boa impresso dela.
         - Em que posso servi-la? - perguntou a mulher. - Est esperando h muito tempo?
         - Sim - respondeu Caroline, devagar. - Faz muito tempo que estou esperando, sim.
         Exasperada, a mulher abanou a cabea.
         - , olhe, sinto muito.  essa neve. Estamos com o pessoal reduzido hoje, por causa dela. Aqui no Kentucky bastam trs centmetros de neve para o estado 
inteiro parar. Por mim, fui criada no Iowa e no entendo o motivo de todo esse espalhafato, mas deixa pra l. Bem, enfim. Que posso fazer por voc?
         - Voc  a Sylvia? - perguntou Caroline, esforando-se para lembrar o nome escrito no papel, abaixo do endereo. Ela o deixara no carro. - Sylvia Patterson?
         A expresso da mulher carregou-se.
         - No, no sou. Meu nome  Janet Masters. A Sylvia no trabalha mais aqui.
         - Ah - fez Caroline, e parou. Essa mulher no sabia quem ela era; estava claro que no havia falado com o Dr. Henry. Ainda segurando a fralda suja, Caroline 
baixou as mos junto ao corpo, para no deixar que ela fosse vista.
         Janet Masters plantou firmemente as mos nas cadeiras e espremeu os olhos.
         - Voc  representante dessa empresa de leite para recm-nascidos? - indagou, apontando com a cabea para a caixa em cima do sof, na qual os querubins 
vermelhos sorriam seu sorriso benigno. - A Sylvia tinha um arranjo qualquer com aquele vendedor, ns todos sabamos disso, e, se voc  da mesma empresa, pode pegar 
suas coisas e cair fora - e balanou a cabea com fora.
         - No sei do que voc est falando - respondeu Caroline. - Mas j vou indo - acrescentou. - Isso mesmo. Estou de sada. No voltarei a incomod-la.
         Mas Janet Masters no havia terminado.
         - Trapaceiros,  isso que vocs so. Vo deixando amostras grtis e na semana seguinte mandam a conta. Isto aqui pode ser um asilo para dbeis mentais, 
mas no  dirigido por eles, sabe?
         - Eu sei - sussurrou Caroline. - Realmente sinto muito.
         Uma sineta soou ao longe e a mulher tirou as mos das cadeiras. - Trate de estar fora daqui em cinco minutos - disse. - Fora daqui, e no volte mais.
         E se foi.
         Caroline fitou o vo deserto da porta. Uma corrente de ar roou suas pernas. No instante seguinte, ela depositou a fralda suja no centro da mesinha bamba 
ao lado do sof, que mais parecia uma forma de torta. Depressa, antes que pudesse pensar no que estava fazendo, entrou no corredor espartano, cruzou as duas portas 
e a rajada de ar frio do mundo l fora foi to espantosa quanto nascer.
         Tornou a acomodar Phoebe no carro e foi embora. Ningum tentou det-la, ningum prestou a menor ateno. Mesmo assim, Caroline acelerou ao chegar  rodovia 
interestadual, com o cansao escorrendo pelo corpo feito gua ao descer das rochas. Nos primeiros 50 quilmetros, discutiu consigo mesma, por vezes em voz alta. 
O que voc fez?, perguntou-se em tom severo. Tambm discutiu com o Dr. Henry, imaginando as rugas a se aprofundarem em sua testa e o msculo que lhe saltava no rosto 
sempre que ele se aborrecia. O que voc tem na cabea?, ele exigiria saber, e Caroline teria de confessar que no fazia a mnima idia.
         Mas a energia no tardou a se esgotar nessas conversas e, j na rodovia interestadual, ela dirigiu mecanicamente, sacudindo a cabea de vez em quando para 
se manter acordada. Era final de tarde; fazia quase 12 horas que Phoebe estava dormindo. Logo seria preciso aliment-la. Quase sem esperana, Caroline desejou que 
as duas estivessem em Lexington quando isso acontecesse.
         Tinha acabado de passar pela ltima sada, em Frankfort, a 51 quilmetros de casa, quando as luzes de freio do carro  sua frente se acenderam. Ela reduziu, 
depois reduziu um pouco mais e teve que pisar firme no freio. A noite j comeava a cair e o sol era um brilho opaco no cu encoberto. Quando Caroline ia chegando 
ao alto da subida, o trnsito parou por completo - uma longa fila de luzes traseiras que terminava num aglomerado, onde o vermelho e o branco piscavam. Um acidente: 
um engavetamento. Ela sentiu vontade de chorar. O marcador de gasolina pairava abaixo de um quarto de tanque, o bastante para voltar a Lexington, porm nada mais, 
e aquela fila de carros... bem, eles poderiam passar horas ali. E ela no podia correr o risco de desligar o motor e perder o aquecimento, no com uma recm-nascida 
no carro.
         Conservou-se imvel por vrios minutos, paralisada. A ltima rampa de sada ficara 400 metros atrs, separada dela por uma fileira reluzente de carros. 
O calor subia do cap do Fairlane azul-claro, bruxuleando de leve  luz crepuscular e derretendo os poucos flocos de neve que tinham comeado a cair. Phoebe deu 
um suspiro e seu rosto tensionou-se de leve, depois relaxou. Caroline, seguindo um impulso que depois a deixaria admirada, girou o volante e deslocou o Fairlane 
da pista asfaltada para o acostamento de cascalho mido. Engatou marcha a r e comeou a recuar, passando lentamente pela fileira estanque de carros. Era estranho, 
como se ela passasse por um trem. Havia uma mulher de casaco de pele; trs crianas fazendo caretas; um homem de jaqueta de lona, fumando. Caroline recuou lentamente 
na penumbra suave, pelo trnsito imvel como um rio congelado.
         Chegou  sada sem nenhum incidente. A rampa a levou  Rota 60, onde as rvores estavam de novo carregadas de neve. As campinas eram pontilhadas de casas, 
a princpio poucas, depois numerosas, com as janelas j reluzindo no anoitecer. Pouco depois, Caroline passava pela avenida principal de Versailles, encantada com 
as fachadas de tijolos das lojas,  procura de placas de sinalizao que lhe indicassem o caminho de casa.
         Um letreiro azul-marinho do supermercado Kroger ergueu-se a um quarteiro de distncia. Essa viso conhecida, com os folhetos de ofertas decorando as vitrines 
iluminadas, foi reconfortante para Caroline e a fez perceber, subitamente, como estava faminta. E agora era o qu: sbado, e ainda por cima  noite? Todas as lojas 
estariam fechadas no dia seguinte e havia pouqussima comida em seu apartamento. Apesar da exausto, ela entrou no estacionamento e desligou o motor.
         Phoebe, quentinha e leve, com 12 horas de nascida, estava mergulhada no sono. Caroline pendurou a sacola das fraldas no ombro e enfiou a nenm embaixo do 
casaco, mida, bem enroscadinha e aquecida. O vento se deslocava pelo asfalto, espanando os restos de neve e alguns flocos novos e os fazendo rodopiar para os cantos. 
Caroline abriu caminho pela neve suja e parcialmente derretida, com medo de cair e machucar a nenm, e ao mesmo tempo pensando em como seria fcil simplesmente larg-la 
numa caamba de lixo, na escadaria de uma igreja ou em qualquer lugar. Seu poder sobre aquela vida minscula era absoluto. Ela se sentiu invadir por um profundo 
sentimento de responsabilidade que a deixou meio zonza.
         A porta de vidro se abriu, liberando uma onda de luz e calor. O mercado estava cheio. Os clientes iam sendo cuspidos para fora, com pilhas de compras nos 
carrinhos. Na porta havia um empacotador.
         - S estamos abertos at agora por causa do mau tempo - avisou, quando Caroline entrou. - Vamos fechar daqui a meia hora.
         - Mas a nevasca passou - disse ela, e o rapazinho riu, animado e incrdulo. Tinha o rosto enrubescido pelo calor que descia sobre as portas automticas 
e se derramava na noite.
         - A senhora no est sabendo? Deve vir outra esta noite, mas das grandes.
         Caroline acomodou Phoebe num carrinho de metal e percorreu os corredores desconhecidos. Refletiu sobre marcas de leite em p, aquecedores de mamadeira, 
fileiras de mamadeiras com seu sortimento de bicos e babadores. Comeou a se encaminhar para a caixa, mas percebeu que era melhor comprar leite para ela prpria, 
mais algumas fraldas e algum tipo de alimento. As pessoas passavam por ela e, ao verem Phoebe, todas sorriam; algumas at paravam para afastar a manta e olhar seu 
rostinho. E diziam Ah, que gracinha! e Quanto tempo?. Caroline mentia sem nenhum remorso. Duas semanas, dizia.
         - Oh, voc no devia estar com ela na rua num tempo desses - repreendeu-a uma senhora de cabelos grisalhos. - Onde j se viu! Devia levar esse beb para 
casa.
         No corredor 6, enquanto Caroline escolhia latas de sopa de tomate, Phoebe se mexeu, com as mozinhas sacudindo furiosamente, e comeou a chorar. Caroline 
hesitou por um instante, depois pegou a nenm e a sacola volumosa e foi para o banheiro no fundo da loja. Sentou-se num canto, numa cadeira de plstico laranja, 
escutando a gua pingar da torneira, equilibrou a recm-nascida no colo e derramou numa mamadeira o leite da garrafa trmica. A nenm levou vrios minutos para se 
acomodar, porque estava muito agitada e tinha um reflexo de suco precrio. Mas acabou pegando o bico e ento bebeu como havia dormido: ferozmente, intensamente, 
com os punhos cerrados junto ao queixo. Quando relaxou, saciada, o alto-falante anunciava que a loja ia fechar. Caroline precipitou-se para a caixa, onde um nico 
funcionrio esperava, entediado e impaciente. Pagou depressa, aninhando o saco de papel num dos braos e Phoebe no outro. Quando saiu, as portas se fecharam atrs 
dela.
         O estacionamento estava quase vazio, com os ltimos carros aquecendo o motor ou saindo lentamente para a rua. Caroline descansou a sacola de compras no 
cap e acomodou Phoebe em sua caixa no banco traseiro. As vozes indistintas dos empregados ecoavam pelo estacionamento. Alguns flocos dispersos de neve rodopiavam 
nos cones de luz dos postes de iluminao, nem mais nem menos do que antes. A meteorologia muitas vezes se enganava. A neve que comeara a cair antes do nascimento 
de Phoebe - foi s ontem  noite, lembrou-se Caroline, embora parecessem sculos - nem tinha sido prevista. Ela enfiou a mo no saco de papel pardo, abriu um pacote 
de po e tirou uma fatia, pois no havia comido o dia inteiro e estava faminta. Foi mastigando enquanto fechava a porta, pensando, com uma saudade cansada, em seu 
apartamento despojado e arrumado, na cama de solteiro com a colcha branca de chenile, tudo em ordem e nos devidos lugares. Estava dando a volta por trs do carro 
quando percebeu que suas luzes traseiras tinham um plido brilho vermelho.
         Estancou, olhando fixo. Durante todo aquele tempo, enquanto ela se alvoroava pelos corredores do mercado, enquanto se sentava no banheiro desconhecido, 
alimentando Phoebe calmamente, aquela luz se derramara pela neve.
         Quando Caroline experimentou a ignio, ela no fez mais do que um clique, com a bateria to arriada que o motor nem gemeu.
         A enfermeira desceu do carro e parou junto  porta aberta. Agora o estacionamento estava deserto; o ltimo automvel se fora. Ela desatou a rir. No era 
um riso normal, at Caroline pde perceber: a voz alta demais, a meio caminho de um soluo.
         - Eu estou com um beb - exclamou em voz alta, atnita. - Tenho um beb neste carro!
         Mas o estacionamento se estendia silencioso  sua frente, com as luzes das vitrines do mercado desenhando grandes retngulos na neve enlameada.
         - Estou com um beb aqui! - repetiu Caroline, com a voz sumindo depressa no ar. - Um beb! - gritou para o vazio.
           III
         NORAH ABRIU OS OLHOS. L FORA, O CU EMPALI DECIA COMO ALVORECER  mas a lua ainda estava presa nas rvores, derramando uma luz esmaecida sobre o quarto. 
Ela estivera sonhando, procurando alguma coisa perdida no cho congelado. As folhas de relva, afiadas e quebradias, despedaavam-se ao seu toque e deixavam cortes 
minsculos em sua pele. Ao acordar, ela levantou as mos, momentaneamente confusa, mas no havia qualquer marca, apenas as unhas cuidadosamente lixadas e pintadas.
         A seu lado, no bero, seu filho chorava. Num movimento suave, mais de instinto que de inteno, Norah o levantou e o ps na cama. Os lenis a seu lado 
eram de um frio branco rtico. David tinha sado, atendendo a um chamado da clnica, enquanto ela dormia. Norah puxou o filho para a curva morna de seu corpo e abriu 
a camisola. As mozinhas do menino agitaram-se sobre seus seios intumescidos, feito asas de mariposa; ele pegou o bico. Uma dor aguda, que cedeu numa onda quando 
o leite veio. Ela afagou o cabelo do filho, seu couro cabeludo frgil. Era espantosa a fora do corpo. As mos dele se acalmaram, repousando como estrelinhas sobre 
a arola do seio.
         Norah fechou os olhos, oscilando lentamente entre o sono e a viglia. Um poo em suas entranhas abriu-se e foi liberado, O leite fluiu e, misteriosamente, 
ela se sentiu transformar num rio ou no vento, abarcando tudo: os narcisos na cmoda e a grama que crescia l fora, delicada e silenciosa, com as folhas novas fazendo 
presso para se abrir contra os brotos das rvores. Larvas minsculas, brancas como prolas e escondidas no solo, transformavam-se em lagartas, mede-palmos e abelhas. 
Pssaros em vos ligeiros, piando. Tudo isso era dela. Paul cerrou os punhos minsculos sob o queixo. Suas bochechas moviam-se ritmicamente enquanto ele mamava. 
Ao redor dos dois, o universo cantarolava, primoroso e exigente.
         O corao de Norah transbordava de amor, com uma felicidade e uma tristeza grandes e difceis de controlar.
         Ela no tinha chorado de imediato pela filha, embora David o houvesse feito. Um beb ciantico, ele lhe dissera, com as lgrimas engastadas nos fios da 
barba de um dia por fazer. Uma menininha que nunca chegou a respirar. Paul estava no colo de Norah e ela o havia estudado: o rostinho mido, muito sereno e enrugado, 
a touquinha de l listrada, os dedos de beb, rosados, delicados e curvos. As unhinhas minsculas, ainda moles, transparentes como a luz durante o dia. Norah no 
podia absorver o que David dissera, no realmente. Suas lembranas da noite anterior eram ntidas, depois embotadas: houvera a neve e o longo trajeto para a clnica 
pelas ruas desertas, com David parando em todos os sinais luminosos, enquanto ela lutava contra a nsia ondulada, ssmica e intensa de fazer fora para expulsar. 
Depois disso, ela s lembrava de coisas dispersas, coisas estranhas: o silncio inusitado da clnica, a sensao macia de um tecido azul colocado sobre seus joelhos. 
O frio da mesa de exames aoitando suas costas nuas. O relgio de ouro de Caroline Gil cintilando toda vez que ela estendia a mo para aplicar o gs anestsico. 
Depois, ela havia acordado e Paul estava em seus braos, e David chorava a seu lado. Norah erguera os olhos, fitando-o com preocupao e com um desapego interessado. 
Era a medicao, o ps-parto, um pico hormonal. Outro beb, um beb ciantico - como era possvel? Ela se lembrava da segunda nsia de fazer fora e da tenso na 
voz de David, como pedras sob uma corredeira. Mas o beb em seus braos era perfeito, lindo, mais do que suficiente. Est tudo bem, ela dissera a David, afagando-lhe 
o brao, est tudo bem.
         S quando eles saram do consultrio, pisando hesitantes no ar frio e mido da tarde seguinte,  que a perda enfim se fizera sentir. Quase havia anoitecido, 
e o ar estava cheio de neve derretendo e terra mida e fria. O cu nublado era branco e granuloso por trs dos galhos totalmente nus das rvores. Norah carregava 
Paul, leve como um gato, pensando em como aquilo era estranho - levar uma pessoa inteiramente nova para casa. Ela havia decorado com extremo cuidado o quarto do 
beb, escolhido o bero e a cmoda, lindos, colado o papel de parede cheio de ursinhos espalhados, feito as cortinas e costurado  mo a colcha de retalhos. Estava 
tudo em ordem, tudo preparado, e ela levava o filho no colo. Na entrada do prdio, porm, parou entre as duas pilastras pontiagudas de concreto, incapaz de dar outro 
passo.
         - David - disse. O marido se virou, plido, com sua cabeleira escura, parecendo uma rvore recortada contra o cu.
         - Que ? O que foi? - perguntou ele.
         - Eu quero v-la - disse Norah com a voz sussurrada, mas de algum modo imperiosa, no silncio do estacionamento. - S uma vez. Antes de irmos embora. Tenho 
que v-la.
         David enfiou as mos nos bolsos e estudou a calada. Durante o dia inteiro haviam cado pedaos de gelo dos beirais ziguezagueantes do telhado, e agora 
eles jaziam perto da escada.
         - Ah, Norah - disse o mdico, baixinho. - Vamos para casa, por favor. Ns temos um filho lindo.
         - Eu sei - disse ela, porque era 1964, David era seu marido e ela sempre se submetera completamente a ele. Mas parecia incapaz de se mexer, no enquanto 
sentisse, como sentia, que estava deixando para trs uma parte essencial dela mesma.
          - Ah, s por um instante, David. Por que no?
         Seus olhos se encontraram e a angstia presente nos dele fez com que os dela se enchessem de lgrimas.
         - Ela no est aqui - disse a voz magoada de David. -  por isso. H um cemitrio na fazenda da famlia do Bentley. No condado de Woodford. Pedi que ele 
a levasse para l. Podemos ir l depois, na primavera. Oh, Norah, por favor. Voc est me deixando arrasado.
         Norah fechou os olhos, sentindo algo drenar-se de seu corpo, ao pensar num beb, sua filhinha, sendo depositado na terra fria de maro. Seus braos, que 
seguravam Paul, estavam rgidos e firmes, porm o resto de seu corpo parecia lquido, como se tambm ela pudesse escorrer pelos bueiros e desaparecer com a neve. 
David tinha razo, pensou, ela no precisava saber disso. Quando ele subiu a escada e lhe envolveu os ombros, Norah assentiu com a cabea e os dois atravessaram 
o estacionamento vazio, na luz do crepsculo. Ele firmou o banco do carro; levou-os para casa com cuidado, metodicamente; os dois carregaram Paul pela varanda da 
frente, cruzaram a porta e ento o puseram em seu quarto, adormecido. Norah sentiu um certo consolo pelo modo como David havia cuidado de tudo, o modo como cuidara 
dela, e no voltou a discutir com ele sobre seu desejo de ver a filha.
         Agora, porm, sonhava toda noite com coisas perdidas.
         Paul adormeceu. Para l da janela, os ramos das cerejeiras, apinhados de brotos novos, balanavam contra o cu de um anil plido. Norah virou-se, passou 
Paul para o outro seio e tornou a fechar os olhos, divagando. Acordou de repente com a umidade e o choro, com o sol batendo em cheio no quarto. Seus seios j comeavam 
a se encher de novo; trs horas haviam passado. Ela se sentou, sentindo-se pesada, oprimida, com a pele da barriga to mole que se acumulava em dobras toda vez que 
ela se deitava, os seios duros e intumescidos de leite, as articulaes ainda doloridas do parto. No corredor, as tbuas do piso rangeram sob seu peso.
         No trocador, Paul chorou ainda mais alto, adquirindo uma raivosa colorao salpicada de vermelho. Norah tirou-lhe as roupas midas e a fralda de algodo 
encharcada. A pele do menino era muito delicada; as pernas, magricelas e vermelhas como asas de frango depenadas. Num canto da mente da me pairava a filha perdida, 
vigilante e silenciosa. Ela limpou com lcool o cordo umbilical de Paul, jogou a fralda no balde para deix-la de molho e tornou a vestir o filho.
         - Meu bebezinho - murmurou, pegando-o no colo. - Meu amorzinho. - E desceu com ele para o trreo.
         Na sala, as persianas ainda estavam fechadas, assim como as cortinas. Norah foi para a confortvel poltrona de couro num canto e abriu o roupo. O leite 
tornou a afluir, com seus irresistveis ritmos de mar - uma fora to intensa que parecia eliminar tudo o que ela fora at ento. Eu acordo para dormir, pensou 
consigo mesma, recostando-se, perturbada por no conseguir lembrar quem tinha escrito isso.
         A casa estava em silncio. O aquecedor dava estalos e as folhas farfalhavam nas rvores do lado de fora. Ao longe, a porta do banheiro abriu e fechou, com 
um vago som de gua corrente. Bree, a irm de Norah, desceu a escada pisando de Leve, usando uma velha camisa cujas mangas lhe desciam at a ponta dos dedos. Tinha 
as pernas brancas, e seus ps estreitos estavam descalos no piso de madeira.
         - No acenda a luz - disse Norah.
         - Est bem.
         Bree aproximou-se e tocou de leve no couro cabeludo de Paul.
         - E como vai meu sobrinhozinho? - perguntou. - Como vai o meu doce Paul?
         Norah olhou para o rosto pequenino do filho, surpresa, como sempre, ao ouvir seu nome. O menino ainda no crescera o bastante para assimil-lo, ainda o 
usava como uma pulseira que poderia soltar-se facilmente e desaparecer. Ela havia lido sobre pessoas - tambm no se lembrava onde - que se recusavam a dar nome 
aos filhos durante vrias semanas por acharem que eles ainda no faziam parte da Terra, ainda estavam suspensos entre dois mundos.
         - Paul - repetiu em voz alta, um nome slido e claro, quente como uma pedra sob o sol. Uma ncora.
         Em silencio, de si para si, acrescentou: Phoebe.
         - Ele est com fome - disse ainda. - Est sempre com muita fome.
         - Ah! Ento, saiu  tia. Vou pegar umas torradas com caf. Quer alguma coisa?
         - Talvez um pouco de gua - disse Norah, vendo Bree sair da sala, com seus membros longos, graciosa. Era muito estranho que sua irm, que sempre fora seu 
oposto, sua nmeses, fosse a pessoa com quem ela queria estar, mas era verdade.
         Bree tinha apenas 20 anos, mas era to voluntariosa e segura de si que, muitas vezes, parecia a Norah ser a mais velha. Trs anos antes, na penltima srie 
do curso mdio, tinha fugido com o farmacutico que morava do outro lado da rua, um solteiro com o dobro de sua idade. As pessoas haviam condenado o farmacutico, 
que j era velho o bastante para ter mais juzo. Atriburam a impetuosidade de Bree ao fato de ela haver perdido o pai, subitamente, nos primeiros anos da adolescncia: 
- uma idade vulnervel, todos concordavam. E previram que o casamento duraria pouco e acabaria mal, como tinha acontecido.
         Mas, se elas imaginavam que o casamento fracassado de Bree a amansaria, estavam enganadas. Alguma coisa comeara a se modificar no mundo desde quando Norah 
era pequena, e Bree no tinha voltado para a casa dos pais, como seria de esperar, emendada e constrangida. Em vez disso, matriculara-se na universidade e trocara 
seu nome, Brigitte, por Bree, porque gostava desse som: arejado, dizia ela, e livre.
         A me das duas, mortificada com o casamento escandaloso e o divrcio mais escandaloso ainda, casara-se com um piloto da TWA e se mudara para St. Louis, 
deixando as filhas por sua prpria conta. Bem, pelo menos uma de minhas filhas sabe se comportar, tinha dito, erguendo os olhos do caixote de loua que estava embalando. 
Isso fora no outono, com seu ar revigorante, repleto de douradas folhas cadentes. O cabelo louro esbranquiado da me estava enrolado como uma nuvem fofa, e suas 
feies tinham se abrandado com a emoo repentina. Ah, Norah, fico muito grata por ter uma filha direita, voc nem pode imaginar. Mesmo que nunca se case, querida 
voc sempre ser uma dama. Norah, guardando um retrato emoldurado do pai numa caixa, ficara rubra de aborrecimento e frustrao. Tambm ela se havia chocado com 
a desfaatez de Bree, com seu atrevimento, e sentia raiva de as normas parecerem ter se modificado, de Bree ter mais ou menos se safado - do casamento, do divrcio 
e do escndalo.
         Detestava o que Bree fizera com toda a famlia. Desejava desesperadamente ter sido a primeira a faz-lo.
         Mas isso nunca lhe teria ocorrido. Ela sempre fora boazinha, era essa a sua tarefa. Tinha sido muito apegada ao pai, um homem desorganizado e afvel, perito 
em ovelhas, que passava os dias no quarto fechado no alto da escada, lendo publicaes especializadas, ou no centro de pesquisas, parado em meio ao rebanho, os olhos 
amarelos estranhos e oblquos. Norah o adorava e, durante toda a sua vida, sentira uma compulso de compensar de algum modo a desateno dele para com a famlia 
e a decepo de sua me por ter se casado com um homem que, afinal, era to alheio a ela. Com o falecimento do pai, essa compulso de retificar as coisas, de consertar 
o mundo, s fizera intensificar-se. E, assim, Norah seguira em frente, estudando sossegada e fazendo o que se esperava dela. Depois da formatura, trabalhara seis 
meses na companhia telefnica, num emprego que no lhe agradava e do qual ficara muito feliz em abrir mo ao se casar com David. O encontro dos dois no setor de 
Lingerie da loja de departamentos Wolf Wile, assim como seu casamento secreto, impetuoso e acelerado, tinham sido o mximo que ela havia se aproximado da irreflexo.
         A vida de Norah, Bree gostava de dizer, parecia um seriado de televiso. Para voc est timo, dizia ela, jogando os longos cabelos para trs, com os braos 
cheios de pulseiras prateadas quase at o cotovelo. Eu no agentaria. Ficaria maluca em uma semana. Em um dia!
         Norah fervilhava por dentro, desdenhava Bree e a invejava, e mordia a lngua; Bree fizera um curso sobre Virginia Woolf, fora morar com o gerente de um 
restaurante natural em Louisville e parara de visit-la. No entanto, estranhamente, tudo havia mudado com a gravidez de Norah. Bree recomeara a aparecer, levando-lhe 
botinhas de renda e minsculas pulseiras de prata para o tornozelo, importadas da ndia; estas ela havia encontrado numa loja em So Francisco. E tambm levara folhas 
mimeografadas com instrues sobre o aleitamento materno, ao tomar conhecimento de que Norah planejava abrir mo das mamadeiras. E Norah ficara feliz em v-la nessa 
ocasio. Feliz com os presentes meigos e sem utilidade prtica, feliz com o apoio da irm; em 1964, amamentar no seio era uma idia radical, e Norah tivera dificuldade 
para encontrar informaes sobre o assunto. A me se recusara a discutir a idia; as mulheres de seu crculo de costura tinham lhe dito que poriam cadeiras nos banheiros 
para garantir sua privacidade. Para seu alvio, Bree tinha zombado disso tudo, em alto e bom som. Que bando de pudicas!, insistira. No preste ateno nelas.
         No entanto, embora se sentisse grata pelo apoio de Bree, s vezes Norah tambm ficava secretamente constrangida. No mundo de Bree, que parecia existir sobretudo 
noutros lugares, na Califrnia, em Paris ou em Nova York, as jovens andavam em casa com os seios  mostra, tiravam fotos com seus bebs mamando nos seios enormes 
e escreviam colunas que defendiam os benefcios nutricionais do leite materno. Isso  completamente natural, est na nossa natureza de mamferos, explicava Bree, 
mas a prpria idia de si mesma como um mamfero movido por instintos, uma idia descrita por palavras como lactante (que tanto se aproximava de cio, a seu ver, 
reduzindo uma coisa bonita ao nvel de um celeiro), fazia Norah corar e ter vontade de sair da sala.
         Nesse momento, Bree voltou com uma bandeja de caf e po fresco com manteiga. Seus longos cabelos lhe caram sobre os ombros quando ela se inclinou para 
colocar um copo alto de gua gelada na mesa, ao lado de Norah. Ela empurrou a bandeja na mesinha de centro e se acomodou no sof, cruzando as longas pernas brancas 
embaixo do corpo.
         - O David saiu?
         Norah fez que sim:
         - Eu nem o ouvi levantar.
         - Voc acha bom ele estar trabalhando tanto?
         - Acho - respondeu Norah, com firmeza. - Acho, sim - repetiu.
         O        Dr. Bentley havia conversado com os outros mdicos da clnica, e eles ofereceram uma licena a David, mas este havia recusado.
         - Acho que ficar ocupado  bom para ele neste momento.
         -  mesmo? E quanto a voc? - indagou Bree, dando uma mordida no po.
         - Eu? Sinceramente, estou tima.
         Bree balanou sua mo livre.
          - Voc no acha... - comeou, mas Norah a interrompeu antes que ela pudesse criticar David outra vez.
         -  muito bom voc estar aqui - comentou. - Ningum mais quer conversar comigo.
         - Isso  birutice. A casa tem estado cheia de gente querendo conversar com voc.
         - Eu tive gmeos, Bree - retrucou Norah, baixinho, consciente de seu sonho, da paisagem deserta e congelada, de sua busca frentica. - Ningum mais quer 
dizer uma palavra sobre ela. Todos agem como se, j que tenho o Paul, eu devesse ficar satisfeita. Como se as vidas fossem intercambiveis. Mas eu tive gmeos. Tambm 
tive uma filha...
         Parou, interrompida pelo n repentino na garganta.
         - Esto todos tristes - disse Bree, delicadamente. - Muito felizes e muito tristes, tudo ao mesmo tempo. Eles no sabem o que dizer,  s isso.
         Norah ajeitou Paul, j adormecido, apoiando-o em seu ombro. A respirao do filho era quente em seu pescoo; ela lhe afagou as costas, no muito maiores 
do que a palma de sua mo.
         - Eu sei - concordou. - Eu sei. Mas, mesmo assim...
         - O David no devia ter voltado to depressa ao trabalho - disse Bree. - Faz apenas trs dias.
         - Para ele o trabalho  um consolo - contraps Norah. - Se eu tivesse um emprego, iria trabalhar.
         - No - retrucou Bree, abanando a cabea. - No, voc no iria, Norah. Sabe, detesto dizer isso, mas o David s est se fechando, trancafiando todos os 
sentimentos. E voc continua tentando preencher o vazio. Consertar as coisas. E no pode.
         Observando a irm, Norah se perguntou que sentimentos o farmacutico teria mantido isolados; a despeito de toda a sua franqueza, Bree nunca havia falado 
de seu breve casamento. E, embora Norah se inclinasse a concordar com ela nesse momento, sentia-se na obrigao de defender David, que, enfrentando sua prpria tristeza, 
havia cuidado de tudo: do enterro sigiloso, sem a presena de ningum, das explicaes aos amigos, do remendo rpido das pendncias esfarrapadas do luto.
         - Ele tem que fazer as coisas a seu modo - continuou Norah, estendendo a mo para abrir as persianas. O cu havia adquirido um azul vivo e os brotos pareciam 
ter se multiplicado nos galhos, mesmo nessas poucas horas. - Eu s queria t-la visto, Bree. As pessoas acham que isso  macabro, mas eu queria, sim. Gostaria de 
t-la tocado, nem que fosse s uma vez.
         - No  macabro - disse Bree em voz baixa. - A mim me soa perfeitamente sensato.
         Seguiu-se um silncio, que Bree rompeu sem jeito, hesitante, oferecendo a Norah um pedao de po com manteiga.
         - No estou com fome - mentiu Norah.
         - Voc tem que comer - insistiu Bree. - O peso vai sumir, de qualquer jeito. Esse  um dos benefcios no decantados do aleitamento.
         - Decantados sim - repetiu Norah. - Voc no pra de falar a respeito.
         - Acho que sim - riu Bree.
         - Sinceramente - disse Norah, pegando o copo de gua -, fico feliz por voc estar aqui.
         - Ei - fez Bree, meio sem graa -, onde mais eu estaria?
         A cabea de Paul era um peso morno, com seu cabelo fino e farto roando o pescoo da me. Ser que ele sente falta da gmea, perguntou-se Norah, daquela 
presena desaparecida, da companheira ntima de sua curta vidinha? Ser que sempre vivenciaria uma sensao de perda? Ela afagou a cabea do filho, olhando pela 
janela. Para alm das rvores, tnue em seu contraste com o cu, vislumbrou a esfera longnqua e esmaecida da Lua.
           ...
         Mais tarde, enquanto Paul dormia, Norah tomou um banho. Experimentou e descartou trs roupas diferentes - saias que apertavam na cintura, calas espichadas 
nos quadris. Sempre fora mida, esbelta e bem-proporcionada, e a deselegncia de seu corpo a deixava surpresa e deprimida. Por fim, em desespero, acabou vestindo 
sua velha jardineira da gravidez, gratificantemente solta, que ela havia jurado nunca mais usar. Vestida, mas descala, perambulou pela casa, de um cmodo para outro. 
Tal como seu corpo, os aposentos transbordavam de coisas, desarrumados, caticos, sem controle. Havia poeira fina acumulada em toda parte, roupas espalhadas por 
todas as superfcies e cobertas cadas das camas por fazer. Havia uma trilha riscada na poeira da cmoda, onde David tinha posto um vaso de narcisos, j escurecidos 
nas pontas; as janelas tambm estavam embaadas. Dentro de mais um dia, Bree iria embora e chegaria a me delas. Ao pensar nisso, Norah sentou-se em desamparo na 
beira da cama, com uma gravata de David pendendo das mos. A desordem da casa a oprimia como um peso, como se a prpria luz do sol houvesse adquirido substncia, 
gravidade. Ela no tinha foras para combat-la. Pior, e ainda mais aflitivo, no parecia se incomodar.
         A campainha tocou. Os passos ntidos de Bree moveram-se pelos cmodos, fazendo eco.
         Norah reconheceu prontamente as vozes. Por mais um instante, permaneceu onde estava, sentindo-se com as energias esgotadas e pensando em como poderia fazer 
Bree mand-las embora. Mas as vozes se aproximaram, perto do vo da escada, e tornaram a diminuir quando entraram na sala de estar; era o grupo noturno de sua igreja, 
trazendo presentes e ansiando por uma espiada no novo beb. Dois conjuntos de amigas j a tinham visitado, um de seu grupo de costura, outro do clube de pintura 
em porcelana, enchendo sua geladeira de comida e passando Paul de mo em mo, feito um trofu. Norah tinha feito essas mesmas coisas, repetidas vezes, por outras 
novas mames, e nesse momento ficou chocada ao descobrir que experimentava mais ressentimento do que gratido: as interrupes, o nus dos cartes de agradecimento, 
e ela nem dava importncia  comida; nem sequer a queria.
         Bree a chamou. Norah desceu sem se dar ao trabalho de pr batom ou mesmo escovar o cabelo. Continuava descala.
         - Estou com uma aparncia pssima - anunciou, desafiadora, ao entrar na sala.
         - Oh, no - contraps Ruth Starling, dando um tapinha no sof a seu lado, embora Norah observasse, com estranha satisfao, a troca de olhares entre as 
demais. Sentou-se obedientemente, cruzando as pernas na altura dos tornozelos e descansando as mos no colo, como costumava fazer na escola, quando menina.
         - Paul acabou de adormecer - disse. - No vou acord-lo.
         Havia raiva em sua voz, agresso de verdade.
         - Est tudo certo, meu bem - disse Ruth. Era uma mulher de quase 70 anos, com o cabelo branco e fino, cuidadosamente penteado. Seu marido, de um casamento 
de 50 anos, falecera no ano anterior. Quanto lhe teria custado, pensou Norah, quanto lhe custaria agora manter sua aparncia, sua postura animada?
         - Voc passou por um mau pedao - disse Ruth.
         Norah tornou a sentir a presena da filha, uma presena pouco alm da viso, e reprimiu uma nsia repentina de subir correndo para ver como estava Paul. 
Estou ficando maluca, pensou, e olhou fixo para o cho.
         - Que tal um ch? - perguntou Bree vivamente para disfarar o embarao. Antes que algum pudesse responder, desapareceu na cozinha.
         Norah fez o melhor que pde para se concentrar na conversa: algodo ou cambraia para os travesseiros do hospital, o que as pessoas achavam do novo pastor, 
se elas deviam ou no doar cobertores ao Exrcito da Salvao. E, ento, Sally anunciou que o beb de Kay Marshall, uma menina, tinha nascido na noite anterior.
         - Exatos trs quilos e duzentos - disse. - A Kay est maravilhosa. A nenm  linda. Deram-lhe o nome de Elizabeth, por causa da av. Dizem que foi um parto 
tranqilo.
         Fez-se silncio, enquanto todas percebiam o que havia acontecido. Norah teve a sensao de que o silncio se expandia de algum ponto no centro de seu corpo, 
abrindo-se em ondas pela sala. Sally ergueu os olhos, rubra de arrependimento.
         - Oh - disse. - Ah, Norah, eu sinto muitssimo.
         Norah teve vontade de falar e repor as coisas em andamento. As palavras certas pairaram em sua cabea, mas ela pareceu no conseguir encontrar a voz. Permaneceu 
calada, e o silncio transformou-se num lago, num oceano em que todas poderiam afogar-se.
         - Bem - disse Ruth, finalmente, em tom animado. - Voc  uma santa criatura, Norah. Deve estar exausta - e pegou um pacote volumoso, embrulhado em papel 
colorido, com uma poro de fitinhas estreitas e encaracoladas. - Fizemos uma vaquinha, achando que, provavelmente, voc j tinha todos os alfinetes de fralda que 
uma me pode querer.
         As mulheres riram, aliviadas. Norah tambm sorriu e abriu a caixa, rasgando o papel: um andador com armao de metal e assento de tecido, parecido com o 
que ela havia admirado na casa de uma amiga, certa vez.
         -  claro que ele no vai poder us-lo por alguns meses - disse Sally. - Mesmo assim, no conseguimos pensar em nada melhor, quando ele comear a rodar 
por a!
         - E tome - disse Flora Marshall, levantando-se, com dois embrulhos macios nas mos.
         Flora era mais velha que as outras do grupo, mais at do que Ruth, porm era rija e ativa. Tricotava mantas para todos os novos bebs da igreja. Desconfiando, 
pelo tamanho de Norah, que ela poderia ter gmeos, havia tricotado dois cobertores de enrolar, trabalhando neles durante as reunies vespertinas e na hora do caf, 
na igreja, com os novelos de l brilhantes e macios saltando de sua sacola. Os amarelos e verdes pastis, os azuis-claros e o cor-de-rosa misturavam-se - Flora no 
estava ali para apostar se seriam meninos ou meninas, brincava. Mas que seriam gmeos, disso tinha certeza. Ningum a levara a srio na ocasio.
         Norah aceitou os dois embrulhos, reprimindo as lgrimas. A l macia e conhecida cascateou em seu colo quando ela abriu o primeiro, e sua filha perdida pareceu-lhe 
muito prxima. Norah sentiu uma onda de gratido a Flora, que, com a sabedoria das avs, soubera exatamente o que fazer. Abriu o segundo embrulho, ansiosa pela outra 
manta, to colorida e macia quanto a primeira.
         -  meio grande - desculpou-se Flora, quando o macaco caiu no colo de Norah. - Mas eles crescem muito depressa nessa idade.
         - Onde est o outro cobertor? - exigiu Norah. Ouviu sua voz rspida, como um grito de pssaro, e ficou perplexa; durante a vida inteira, ela fora conhecida 
por sua calma, orgulhara-se de seu temperamento tranqilo e de suas escolhas criteriosas. - Onde est a manta que voc fez para a minha filhinha?
         Flora enrubesceu e correu os olhos pela sala em busca de ajuda. Ruth pegou a mo de Norah e a apertou com fora. Norah sentiu-lhe a pele macia, a presso 
surpreendente dos dedos. David lhe dissera o nome desses ossos, um dia, mas ela no conseguia lembrar quais eram. Pior, estava chorando.
         - Vamos, vamos. Voc tem um menininho lindo - disse Ruth.
         - Ele tinha uma irm - sussurrou Norah, decidida, olhando para todos os rostos. As mulheres estavam ali por bondade. Sentiam-se tristes, sim, e ela as deixava 
mais tristes a cada segundo. O que estava acontecendo com ela? Durante toda a vida, tentara com enorme esforo fazer as coisas certas. - O nome dela era Phoebe. 
Quero que algum diga o nome dela. Esto me ouvindo? - E se levantou. - Quero que algum se lembre do nome dela.
         Vieram ento a toalha fria sobre sua testa e mos ajudando-a a se deitar no sof. Disseram-lhe para fechar os olhos, e Norah os fechou. As lgrimas continuavam 
a deslizar sob as plpebras - uma nascente que se avolumava e que ela parecia incapaz de conter. As pessoas haviam recomeado a falar, vozes rodopiando como neve 
ao vento, discutindo o que fazer. No era incomum, disse algum. Mesmo nas melhores circunstncias, no era nada estranho haver essa depresso sbita uns dias depois 
do parto. Elas deviam ligar para David, outra voz sugeriu, mas nesse momento apareceu Bree, calma e afvel, para conduzi-las todas  porta. Depois que elas se foram, 
Norah abriu os olhos e topou com Bree usando um de seus aventais, cujo cs de acabamento de sianinha amarrava-se frouxo em sua cintura fina.
         A manta de Flora Marshall estava no cho, em meio aos papis de presente, e Bree a apanhou e entrelaou os dedos nos fios macios. Nora enxugou os olhos 
e falou.
         - O David disse que o cabelo dela era preto. Como o dele.
         Bree lanou-lhe um olhar atento.
         - Voc disse que ia mandar celebrar um ofcio fnebre, Norah. Por que esperar? Por que no faz-lo agora? Talvez isso lhe traga um pouco de paz.
         Norah abanou a cabea.
         - O que o David diz, o que todos dizem, aquilo faz sentido. Devo me concentrar no beb que eu tenho.
         Bree deu de ombros.
         - S que no  o que voc est fazendo. Quanto mais tenta no pensar nela, mais pensa. O David  apenas um mdico - acrescentou. - Ele no sabe tudo. No 
 Deus.
         -  claro que no - concordou Norah. - Eu sei disso.
         - s vezes, no tenho tanta certeza.
         Norah no respondeu. Desenhos brincavam no piso de madeira polida, sombras de folhas que cavavam buracos na luz. O relgio sobre o console da lareira tiquetaqueava 
baixinho. Ela achou que devia ficar com raiva, mas no ficou. A idia de um ofcio fnebre parecia haver suspendido a drenagem de energia e vontade que tivera incio 
na escadaria da clnica e no havia parado at esse momento.
         - Talvez voc tenha razo - disse. - No sei. Pode ser. Uma coisa bem pequena. Uma coisa discreta.
         Bree entregou-lhe o telefone.
         - Tome. Comece a fazer perguntas.
          Norah respirou fundo e comeou. Ligou primeiro para o novo pastor e se descobriu explicando que queria fazer uma cerimnia, sim, e ao ar livre, no ptio. 
Sim, com chuva ou com sol. Para a Phoebe, minha filha, que morreu no parto. Nas duas horas seguintes, ela repetiu as palavras, uma vez aps outra: para o florista, 
para a mulher dos anncios classificados de The Leader, para suas amigas do grupo de costura, que concordaram em fazer as flores. A cada telefonema, Norah sentia 
sua calma ampliar-se e crescer, algo parecido com o alvio de ver Paul pegar o seio e mamar, religando-a com o mundo.
         Bree saiu para sua aula e Norah andou pela casa silenciosa, avaliando o caos. No quarto, a luz vespertina inclinava-se pela vidraa, mostrando cada desateno. 
Ela vira essa desordem todos os dias, sem se incomodar, mas agora, pela primeira vez desde o parto, sentiu foras, em vez de inrcia. Esticou os lenis nas camas, 
abriu as janelas, tirou o p. Foi-se a jardineira dos tempos da gravidez. Ela vasculhou o armrio at encontrar uma saia que coubesse e uma blusa que no ficasse 
esticada nos seios. Franziu o cenho para sua imagem no espelho, ainda muito gorducha, muito volumosa, mas se sentiu melhor. Tambm se demorou no cuidado com o cabelo: 
100 escovadelas. Quando terminou, a escova estava cheia de fios, uma densa rede dourada - era toda a exuberncia da gravidez caindo,  medida que seus nveis hormonais 
se readaptavam. Norah sabia que isso aconteceria. Mesmo assim, a perda lhe deu vontade de chorar.
         J chega, disse severamente a si mesma, passando o batom e piscando para conter as lgrimas. J chega, Norah Asher Henry.
         Vestiu um suter antes de descer e encontrou os sapatos rasos de cor bege. Pelo menos os ps estavam magros de novo.
         Foi ver como estava Paul - ainda dormindo, com a respirao leve, mas real, ao toque de seus dedos -, colocou um dos pratos congelados no forno, ps a mesa 
e abriu uma garrafa de vinho. Estava jogando fora as flores murchas, cujas hastes lhe deixavam uma sensao fria e pastosa nas mos, quando a porta de entrada se 
abriu. Seu corao se acelerou ao som dos passos de David - e logo ele parou no vo da porta, com o terno escuro pendendo frouxo em sua estrutura fina e o rosto 
enrubescido pela caminhada. Estava cansado, e ela o viu registrar com alvio a casa limpa, a roupa familiar da mulher e o aroma da comida assando. Segurava outro 
ramo de narcisos, colhido no jardim. Quando Norah o beijou, sentiu seus lbios frios contra os dela.
         - Oi - disse David. - Parece que voc teve um bom dia por aqui.
         - . Foi bom - respondeu Norah, e quase lhe contou o que tinha feito, mas, em vez disso, serviu-lhe um drinque: usque puro, como ele gostava. David encostou-se 
na bancada enquanto ela lavava a alface.
         - E voc? - perguntou Norah, fechando a torneira.
         - No foi muito ruim. Atarefado. Desculpe por ontem  noite. Um paciente com um infarto. No fatal, felizmente.
         - Houve ossos envolvidos?
         - Ah, sim, ele caiu da escada. Quebrou a tbia. O nenm est dormindo?
         Norah olhou para o relgio e deu um suspiro.
         - Eu deveria acord-lo, provavelmente - respondeu -, se algum dia quiser faz-lo entrar no horrio.
         - Eu fao isso - disse David, levando as flores para o segundo andar. Ela o ouviu movimentar-se l em cima e o imaginou curvando-se para tocar de leve a 
testa de Paul, para segurar sua mozinha. Em poucos minutos, porm, David desceu sozinho, de calas jeans e suter.
         - Ele parecia muito sossegado - explicou. - Vamos deix-lo dormir.
         Foram para a sala e sentaram-se juntos no sof. Por um momento foi como antes, apenas os dois, e o mundo a seu redor era um lugar compreensvel, cheio de 
promessas. Norah havia planejado contar seus projetos a David durante o jantar, mas nesse momento, de repente, viu-se explicando a cerimnia simples que havia organizado 
e o anncio que mandara pr no jornal. Enquanto falava, notou que o olhar de David foi ficando tenso, profundamente vulnervel, de algum modo. A expresso do marido 
a fez hesitar; era como se ele houvesse tirado uma mscara e Norah estivesse conversando com um estranho, cujas reaes no sabia prever. Os olhos dele estavam mais 
escuros do que ela jamais os vira, e Norah sentiu-se incapaz de dizer o que lhe passava pela cabea.
         - Voc no gostou da idia - comentou.
         - No  isso.
         Norah tornou a ver a tristeza em seus olhos, a ouvi-la em sua voz. No desejo de aplac-la, quase desistiu de tudo, mas sentiu sua inrcia anterior, que 
com enorme esforo ela pusera de lado, espreitando na sala.
         - Fazer isso foi bom para mim - disse. - No est errado.
         - No, no est errado - concordou David.
         Pareceu prestes a dizer mais alguma coisa, porm se conteve e, em vez disso, levantou-se, foi at a janela e fitou a escurido l fora, no jardinzinho do 
outro lado da rua.
         - Mas, que diabo, Norah - disse, com voz grave e spera, num tom que nunca havia usado antes. Aquilo a assustou, a raiva subjacente s palavras do marido. 
- Por que voc tem que ser to teimosa? Por que no falou comigo, pelo menos, antes de ligar para os jornais?
         - Ela morreu - retrucou Norah, agora tambm enraivecida. - No h nenhuma vergonha nisso. No h por que guardar segredo.
         David, com os ombros rgidos, no se voltou. Na poca em que tinha sido um estranho, carregando no brao um roupo cor de coral na loja de departamentos 
Wolf Wile, ele parecera estranhamente familiar, como algum que Norah um dia houvesse conhecido bem e que tivesse passado anos sem ver. Mas agora, aps um ano de 
casamento, ela mal o conhecia.
         - David, o que est acontecendo conosco? - perguntou.
         Ele no se virou. O aroma de carne com batatas enchia o aposento; Norah lembrou-se do jantar que estava aquecendo no forno e seu estmago se agitou, com 
a fome que ela havia negado o dia inteiro. No andar de cima, Paul comeou a chorar, mas ela continuou onde estava,  espera de uma resposta.
         - No h nada acontecendo conosco - disse ele, afinal.
         Quando se virou, a tristeza ainda era vvida em seus olhos, e havia mais alguma coisa - uma espcie de determinao - que ela no compreendeu.
         - Voc est fazendo uma tempestade em copo d'gua, Norah. O que  compreensvel, imagino.
         Frio. Indiferente. Condescendente. Paul chorava com mais vigor. A intensidade da raiva de Norah a fez girar nos calcanhares e ela irrompeu escada acima, 
pegou o beb e lhe trocou a fralda, com muita, muita delicadeza, tremendo de dio o tempo todo. Depois vieram a cadeira de balano, os botes e o alvio abenoado. 
Ela fechou os olhos. L embaixo, David andava pelos cmodos. Ele, pelo menos, havia tocado a filha, tinha visto seu rosto.
         Norah estava decidida a realizar o oficio fnebre, houvesse o que houvesse. Faria isso por si mesma.
         Bem devagar, enquanto Paul mamava e a luz ia esmaecendo, Norah se acalmou, tornando-se mais uma vez um rio tranqilo e largo, que aceitava o mundo e o carregava 
com facilidade em sua correnteza. L fora, a grama continuava seu crescimento lento e silencioso, casulos de ovos de aranhas rompiam-se e as asas dos pssaros pulsavam 
em vo. Isto  sagrado, Norah pensou, ligada, atravs da criana em seu colo e da criana na terra, a tudo o que era vivo e que um dia j vivera. Demorou muito a 
abrir os olhos e, quando o fez, assustou-se com a escurido e a beleza a seu redor: uma pequena forma oblonga de luz, reflexo da maaneta de vidro, estremecia na 
parede. A nova manta de Paul, amorosamente tricotada, cascateava do bero em ondas. E, na cmoda, os narcisos de David, delicados como a pele e quase luminosos, 
colhiam a luz que vinha do corredor.
           Iv
         QUANDO SUA VOZ SE ESVAIU AT UM NADA NO ESTACIONAMENTO  deserto, Caroline bateu a porta do carro e comeou a andar pela neve enlameada. Depois de alguns 
passos, parou e voltou para buscar o beb. O choro agudo de Phoebe elevou-se na escurido, impelindo Caroline a atravessar o asfalto e passar pelos largos quadrados 
brancos de luz, at chegar s portas automticas do supermercado. Trancadas. Ela gritou e bateu, entremeando sua voz com os gritos de Phoebe. L dentro, os corredores 
feericamente iluminados estavam vazios. Um balde com um esfrego fora largado num canto, enquanto as latas reluziam no silncio. A prpria Caroline ficou calada 
por vrios minutos, ouvindo o choro de Phoebe e o farfalhar distante do vento nas rvores. Depois, recomps-se e andou at os fundos da loja. Aporta rolante de metal 
da plataforma de carga e descarga estava fechada, mas mesmo assim ela foi at l, consciente do cheiro de frutas e legumes apodrecidos no concreto frio e engordurado 
onde a neve tinha derretido. Chutou a porta com fora, to satisfeita com o eco estrondoso que tornou a chut-la vrias outras vezes, at perder o flego.
         - Se eles ainda estiverem l dentro, o que eu duvido, provavelmente no vo abrir essa porta to cedo.
         Uma voz de homem. Caroline virou-se e o viu parado mais abaixo, na espcie de rampa que permitia s carretas entrarem de marcha a r na rea de carga e 
descarga. Mesmo quela distncia, ela percebeu que se tratava de um homem grande. Usava um sobretudo pesado e um gorro de l. Tinha as mos enfiadas nos bolsos.
         - Meu beb est chorando - disse ela, como se fosse necessrio. - A bateria do meu carro pifou. H um telefone do lado de dentro, bem perto da porta de 
entrada, mas no consigo chegar l.
         - Que idade tem o seu beb? - perguntou o homem.
         - Ela  recm-nascida - disse Caroline, quase sem pensar, com um toque de lgrimas e pnico na voz. Aquilo era ridculo, uma idia que sempre lhe fora abominvel, 
e, no entanto, ali estava ela: uma donzela em perigo.
         -  noite de sbado - observou o homem, cuja voz cruzou o espao cheio de neve entre os dois. Para l do estacionamento a rua estava quieta. -  provvel 
que todas as oficinas da cidade estejam fechadas.
         Caroline no respondeu.
         - Escute, moa - comeou ele, devagar, com a firmeza da voz parecendo uma espcie de ncora. Caroline percebeu que ele se mostrava deliberadamente calmo, 
deliberadamente tranqilizador; talvez at achasse que ela era louca. - Deixei por acaso meus cabos de carregar bateria com outro caminhoneiro, na semana passada, 
de modo que no posso ajud-la nisso. Mas est frio aqui fora, como a senhora disse. Eu penso o seguinte: por que no vem sentar-se comigo no caminho? L dentro 
est quente. Entreguei uma carga de leite aqui, h umas duas horas, e estava esperando para ver como ficava o tempo. A senhora  bem-vinda para se sentar na cabine 
comigo. Talvez isso lhe d algum tempo para pensar.
         Quando Caroline no respondeu de imediato, ele acrescentou:
         - Estou pensando no beb.
         Ela olhou nessa hora para o outro lado do estacionamento, bem na extremidade, onde um caminho-ba de cabine escura e reluzente estava parado em ponto morto. 
Caroline o vira antes, mas no o tinha assimilado, com sua longa carroceria de prata fosca, sua presena que lembrava um prdio no limite do mundo. Em seu colo, 
Phoebe arquejou, recobrou o flego e recomeou a chorar.
         - Est bem - decidiu. - Pelo menos por enquanto.
         Contornou com cuidado uns restos de cebolas. Quando chegou  beira da rampa, l estava ele, estendendo a mo para ajud-la a descer. Ela a aceitou, aborrecida, 
mas tambm grata, pois j sentia a camada de gelo sob os legumes estragados e a neve. Ergueu os olhos para o rosto do homem, com sua barba espessa, um bon puxado 
at as sobrancelhas e, abaixo destas, olhos escuros: olhos bondosos. Ridculo, disse a si mesma, enquanto os dois cruzavam o estacionamento. Maluquice. Idiotice 
tambm. Ele podia ser um assassino que matava pessoas a machadadas. Mas a verdade  que Caroline estava cansada demais para se incomodar.
         Ele a ajudou a buscar algumas coisas no carro e a se acomodar na cabine, segurando Phoebe enquanto Caroline subia para o assento alto e, depois, entregando-lhe 
a nenm. Caroline ps mais leite da garrafa trmica na mamadeira. Phoebe estava to agitada que levou alguns momentos para perceber que a comida havia chegado e, 
mesmo nessa hora, teve de se esforar para sugar. Caroline afagou-lhe gentilmente a bochecha e, por fim, ela segurou firme o bico e comeou a mamar.
         -         meio estranho, no ? - disse o homem, quando a criana se acalmou. Havia subido para o banco do motorista. O motor zumbia na escurido, reconfortante 
como um gato gigantesco, e o mundo se estendia para o horizonte escuro. - Quero dizer, esse tipo de neve no Kentucky.
         - Acontece com alguns anos de intervalo - disse Caroline. - O senhor no  daqui?
         - Sou de Akron, no Ohio. Originalmente, bem entendido. Agora faz cinco anos que estou na estrada: Gosto de pensar em mim mesmo como sendo do mundo, nestes 
ltimos tempos.
         - No se sente solitrio? - perguntou Caroline, pensando em si mesma numa noite qualquer, sentada sozinha em seu apartamento. Mal podia acreditar que estava 
ali, falando com tanta intimidade, com um estranho. Era esquisito, mas tambm emocionante, como confiar numa pessoa que se conheceu num trem ou num nibus.
         - , um pouco - admitiu ele. -  um trabalho solitrio, com certeza. Mas muitas vezes tambm me acontece conhecer uma pessoa inesperada. Como esta noite.
         A cabine estava quentinha e Caroline se sentiu entregando-se a ela, acomodando-se no banco alto e confortvel. A neve continuava a borrifar os postes de 
luz. O carro dela estava parado no meio do estacionamento, como uma sombra escura e solitria, salpicada de neve.
         - Para onde a senhora estava indo? - perguntou o homem.
         - S at Lexington. Houve uma batida na estrada interestadual, uns quilmetros atrs. Pensei em poupar tempo e aborrecimento.
         O        rosto dele era suavemente iluminado pela luz da rua e o homem sorriu. Para surpresa de Caroline, ela fez o mesmo, e ambos caram na risada.
         - Os planos mais perfeitos... - disse ele.
         Caroline assentiu com a cabea.
         - Escute - disse o homem, aps um silncio. - Se  s de Lexington que estamos falando, posso lhe dar uma carona. Tanto posso estacionar o caminho aqui 
quanto l. Amanh... bom, amanh  domingo, no ? Mas na segunda-feira, logo cedo, a senhora pode chamar um reboque para buscar seu carro. Ele ficar seguro aqui, 
com certeza.
         A luz do poste da rua caa sobre o rostinho minsculo de Phoebe. O homem se aproximou e, com muita delicadeza, afagou-lhe a testa com sua mo enorme. Caroline 
gostou de seu jeito canhestro e de sua calma.
         - Est bem - decidiu. - Se no for atrapalh-lo.
         - Ah, no - fez ele. - Claro que no. Lexington fica no meu caminho.
         Ele foi buscar o resto das coisas no carro de Caroline, as sacolas de compras e os cobertores. Chamava-se Al, Albert Simpson. Tateou o piso e encontrou 
uma xcara extra embaixo do banco. Limpou-a cuidadosamente com um leno, colocou um pouco de caf da garrafa trmica e o serviu  enfermeira. Ela o bebeu, contente 
por estar escuro, contente pelo calor e pela companhia de algum que no sabia coisa alguma a seu respeito. Sentia-se segura e estranhamente feliz, embora o ar fosse 
abafado e cheirasse a meias sujas, e houvesse um beb que no lhe pertencia dormindo em seu colo. Enquanto dirigia, Al conversou, contando-lhe histrias de sua vida 
na estrada, dos restaurantes para caminhoneiros onde havia chuveiro e dos quilmetros que deslizavam sob as rodas enquanto ele avanava, noite aps noite.
         Embalada pelo zumbir dos pneus, pelo calor e pela neve que atingia os faris, Caroline resvalou para um sono leve. Quando eles pararam no estacionamento 
de seu condomnio, o caminho ocupou cinco vagas. Al saltou para ajud-la a descer e deixou o motor em ponto morto, enquanto carregava as coisas dela pela escada 
externa. Caroline o seguiu, com Phoebe no colo. Uma cortina abriu e fechou rapidamente numa janela inferior - Lucy Martin, espiando, como sempre. Caroline fez uma 
pausa, momentaneamente tomada por uma espcie de vertigem.  que tudo estava exatamente igual, mas ela, com certeza, no era a mesma mulher que sara dali no meio 
da noite anterior, andando com dificuldade pela neve at o carro. Com certeza, sofrera uma transformao to completa que deveria entrar em aposentos diferentes, 
sob uma luz diferente. No entanto, sua chave conhecida encaixou-se na fechadura e emperrou no lugar de praxe. Quando a porta se abriu, ela levou Phoebe para um cmodo 
que conhecia de cor: o tapete marrom-escuro, o sof e a poltrona em tecido xadrez que ela comprara numa liquidao, a mesa de centro com tampo de vidro, o romance 
que ela estivera lendo antes de se deitar - Crime e castigo -, com o marcador cuidadosamente posicionado. Ela deixara Raskolnikov confessando-se a Snia, sonhara 
com os dois em sua mansarda fria, e fora acordada pelo toque do telefone e a neve enchendo as ruas.
         Al hesitou, sem jeito, ocupando todo o vo da porta. Poderia ser um assassino em srie, um estuprador ou um vigarista. Poderia ser qualquer coisa.
         - Tenho um sof-cama - disse Caroline. - Voc  bem-vindo para us-lo esta noite.
         Aps um momento de relutncia, Al entrou.
         - E o seu marido? - perguntou, dando uma olhada em volta.
         - No tenho marido - disse ela, e se deu conta de seu erro. - No tenho mais.
         Al a estudou, parado com gorro de l na mo, seus cachos surpreendentemente escuros a se projetar da cabea. Caroline sentia-se lerda, mas alerta por causa 
do caf, e de repente pensou em como pareceria aos olhos dele - ainda com o uniforme de enfermeira, o cabelo sem pentear h horas, o casaco escancarado, aquele beb 
no colo e os braos exaustos.
         - No quero lhe causar nenhum problema - disse Al.
         - Problema? Eu ainda estaria presa num estacionamento, se voc no tivesse aparecido.
         Ele sorriu, foi at o caminho e voltou minutos depois com uma mochilinha de lona verde-escura.
         - Havia algum espiando por uma janela l embaixo. Tem certeza de que no vou lhe criar nenhum aborrecimento aqui?
         - Aquela era Lucy Martin - respondeu Caroline. Phoebe estava irrequieta, de modo que ela tirou a mamadeira do aquecedor eltrico, verificou a temperatura 
do leite no brao e se sentou. - Ela  uma fofoqueira terrvel. Confie em mim. Voc a fez ganhar o dia.
         Phoebe, porm, no quis mamar, comeou a chorar alto, e Caroline se levantou e andou de um lado para outro na sala, murmurando. Enquanto isso, Al ps mos 
 obra. Em dois tempos abriu e forrou o sof-cama, com rgidas dobras militares em cada canto. Quando Phoebe finalmente se acalmou, Caroline fez um aceno de cabea 
para ele e sussurrou um boa-noite. Fechou com firmeza a porta do quarto. Havia lhe ocorrido que Al era o tipo de pessoa que notaria a falta de um bero.
         No trajeto, Caroline tinha feito alguns planos e, nesse momento, tirou uma gaveta da cmoda e ps seu contedo bem arrumado numa pilha no cho. Depois, 
dobrou duas toalhas no fundo e as envolveu com um lenol dobrado, aninhando Phoebe entre as cobertas. Quando deitou em sua cama, a fadiga atravessou-a como uma sucesso 
de ondas e ela dormiu de imediato, um sono pesado e sem sonhos. No ouviu Al roncando alto na sala, o barulho dos limpa-neves deslocando-se no estacionamento nem 
o estardalhao dos caminhes de lixo na rua. Quando Phoebe se mexeu, entretanto, mais ou menos no meio da madrugada, Caroline ps-se de p num instante. Moveu-se 
na escurido como se estivesse na gua, esgotada, mas com deliberao, trocou-lhe a fralda e aqueceu a mamadeira, concentrando-se no beb em seu colo e nas tarefas 
que tinha pela frente, todas urgentes, absorventes e imperiosas - tarefas que, dali em diante, s ela poderia executar, tarefas que no poderiam esperar.
           ...
         Caroline acordou com uma inundao de luz e o cheiro de ovos com bacon. Levantou-se, fechou o roupo e se curvou para tocar o rosto tranqilo da nenm. 
Depois foi at a cozinha, onde Al passava manteiga nas torradas.
         - Ol! - fez ele, levantando os olhos. Havia penteado o cabelo, ainda meio desgrenhado. Al tinha um ponto de calvcie na parte posterior do couro cabeludo 
e usava no pescoo um medalho de ouro, pendurado numa corrente. - Espero que voc no se incomode por eu ter tomado a liberdade. Perdi o jantar ontem  noite.
         - Est com um cheiro bom - disse Caroline. - Tambm estou com fome.
         - Bem, nesse caso, que bom que fiz bastante - comentou ele, entregando-lhe uma xcara de caf. - Voc tem um belo lugarzinho aqui. Muito bem arrumado.
         - Voc gosta? - perguntou ela. O caf estava mais forte e mais preto do que costumava prepar-lo. - Estou pensando em me mudar.
         Suas prprias palavras a surpreenderam, mas, uma vez proferidas e soltas no ar, soaram verdadeiras. Uma luz comum incidia sobre o tapete marrom-escuro e 
o brao do sof. L fora, a gua caa dos beirais. Fazia anos que Caroline vinha economizando dinheiro, imaginando-se numa casa ou numa aventura, e agora ali estava: 
com um beb no quarto, um estranho  mesa e o carro preso em Versailles.
         - Estou pensando em ir para Pittsburgh - disse, tornando a se surpreender.
         Al mexeu os ovos com uma esptula, depois os serviu nos pratos.
         - Pittsburgh? tima cidade. O que a levaria para l?
         - Ah, minha me tinha parentes por l - respondeu Caroline, enquanto  Al punha os pratos na mesa e se sentava em frente a ela. Parecia no haver fim para 
as mentiras que uma pessoa era capaz de dizer, depois de comear.
         - Sabe, andei pensando em lhe dizer que sinto muito... - comentou Al, com seus bondosos olhos escuros. - Pelo que quer que tenha acontecido com o pai do 
seu beb.
         Caroline quase se esquecera de ter inventado um marido, e por isso ficou surpresa ao ouvir na voz de Al que ele no acreditava que um dia tivesse havido 
algum. Ele a tomava por me solteira - deslumbrou-se. Os dois comeram sem falar muito, tecendo comentrios de vez em quando sobre o tempo, o trnsito e o destino 
de Al, que era Nashville, no Tennessee.
         - Nunca estive em Nashville - disse Caroline.
         - No? Bom,  s embarcar, voc e a sua filhinha tambm - sugeriu Al. Era brincadeira, mas na brincadeira havia um oferecimento. Um oferecimento no a ela, 
realmente, mas a uma me solteira em apuros. Apesar disso, por um momento Caroline se imaginou saindo porta afora com suas caixas e cobertores e nunca mais olhando 
para trs.
         - Da prxima vez, quem sabe - disse ela, pegando o caf. - Tenho umas coisas para resolver aqui.
         Al fez que sim.
         - O.k. Sei como  isso.
         - Mas obrigada. Agradeo pela idia.
         - um enorme prazer - disse Al, a srio, e se levantou para ir embora.
         Da janela, Caroline o viu andar at o caminho, subir os degraus da cabine e se virar uma vez, para dar adeus da porta aberta. Ela retribuiu o aceno, feliz 
por ver-lhe o sorriso fcil e espontneo e surpresa com o aperto em seu peito. Teve um impulso de correr atrs dele, ao lembrar a cama estreita na traseira da cabine, 
onde ele s vezes dormia, e de seu jeito de tocar a testa de Phoebe, com tanta delicadeza. Um homem que levava aquela vida solitria certamente seria capaz de guardar 
seus segredos e acolher seus sonhos e temores. Mas o motor pegou, a fumaa subiu do cano prateado da cabine e logo ele saiu com cuidado do estacionamento, entrou 
na rua sossegada e se foi.
           ...
         Nas 24 horas seguintes, Caroline dormiu e acordou conforme os horrios de Phoebe, ficando de p apenas o tempo suficiente para comer. Era estranho: ela 
sempre fora criteriosa com as refeies, temendo os lanches indisciplinados como um sinal de excentricidade e solido egocntrica, mas, nessa ocasio e em horas 
disparatadas, comeu cereal direto da caixa e sorvete tirado da embalagem s colheradas, em p, junto  bancada da cozinha. Era como se houvesse entrado numa zona 
crepuscular prpria, num estado a meio caminho entre o sono e a viglia, no qual ela no tinha que considerar com muito rigor as conseqncias de suas decises, 
o destino da nenm que dormia na gaveta de sua cmoda nem tampouco o seu.
         Na manh de segunda-feira, ela levantou a tempo de ligar para o trabalho e dizer que estava doente. Ruby Centers, a recepcionista, atendeu o telefone.
         - Tudo bem com voc, querida? - perguntou ela. - Voc est com uma voz terrvel.
         -  gripe, eu acho - disse Caroline. -  provvel que eu falte uns dias. Alguma novidade por a? - perguntou, tentando dar um tom displicente  voz. - A 
mulher do Dr. Henry teve o beb?
         - Bem, eu  que no sei - respondeu Ruby. Caroline a imaginou franzindo o cenho, pensativa, sua escrivaninha arrumada e pronta para o dia de trabalho, com 
um vasinho de flores de plstico num canto. - Ainda no chegou mais ningum, exceto uns 100 pacientes. Parece que esto todos com o seu resfriado, Srta. Caroline. 
No instante em que ela desligou o telefone houve uma batida na porta da frente. Lucy Martin, sem dvida. Caroline ficou surpresa por ela haver demorado tanto.
         Lucy usava um vestido com flores cor-de-rosa grandes e vivas, um avental com babados debruados de cor-de-rosa e chinelos felpudos. Quando a enfermeira abriu 
a porta, foi entrando direto, carregando metade de um po de banana envolto em plstico.
         Lucy tinha um corao de ouro, diziam todos, mas sua simples presena deixava Caroline com aflio nos dentes. Os bolos, tortas e pratos quentes de Lucy 
eram seu bilhete de entrada para o centro de todos os dramas: mortes e acidentes, nascimentos, casamentos e velrios. Havia qualquer coisa de errado com sua sofreguido, 
uma estranha espcie de voyeurismo em sua necessidade de ms notcias, e Caroline costumava procurar mant-la  distncia.
         - Vi sua visita - disse Lucy dando um tapinha no brao de Caroline. - Nossa! Que sujeito bonito, hein? Mal pude esperar para saber do furo.
         Lucy sentou-se no sof-cama, j fechado. Caroline acomodou-se na poltrona. A porta do quarto, onde Phoebe dormia, estava aberta.
         - Voc no est doente, est, meu bem? - dizia Lucy. - Porque, pensando bem, nesse horrio voc costuma j ter sado h muito tempo, de manh.
         Caroline estudou o rosto vido de Lucy, cnscia de que o que quer que dissesse correria rapidamente a cidade - de que, em dois ou trs dias, algum se aproximaria 
dela no mercado ou na igreja e perguntaria pelo estranho que passara a noite em seu apartamento.
         - Aquele que voc viu ontem  noite foi meu primo - disse ela prontamente, de novo surpresa com a facilidade sbita que tinha desenvolvido, com a fluncia 
e a desenvoltura de suas mentiras. Elas lhe ocorriam completas, nem sequer a faziam pestanejar.
         - Ah, eu estava intrigada - disse Lucy, com ar meio desapontado.
         - Eu sei - fez Caroline. E ento, num golpe preventivo que a deixou admirada, ao rememor-lo depois, acrescentou: - Coitado do Al. A mulher dele est hospitalizada 
- e inclinou o corpo, chegando um pouco mais perto e baixando a voz. -  muito triste, Lucy. Ela s tem 25 anos, mas esto achando que talvez esteja com cncer no 
crebro. Andava levando muitos tombos, e a o Al a trouxe de Somerset para consultar o especialista. E eles tm uma nenenzinha. Por isso eu falei para ele ficar 
com ela no hospital dia e noite, se for preciso, e deixar a menina comigo. E acho que eles se sentiram  vontade com isso, por eu ser enfermeira. Espero que o choro 
dela no a tenha incomodado.
         Por alguns instantes, a perplexidade emudeceu Lucy, e Caroline compreendeu o prazer - o poder - de um golpe desferido de supeto, vindo do nada.
         - Coitados, coitadinhos do seu primo e da mulher dele! Que idade tem a nenm?
         - S trs semanas - disse Caroline, e ento, inspirada, levantou-se. - Espere aqui.
         Foi at o quarto e tirou Phoebe da gaveta da cmoda, mantendo-a bem enrolada nas cobertas.
         - No  linda? - perguntou, sentando-se ao lado de Lucy.
         - Ah, , sim.  uma gracinha! - falou Lucy, tocando uma das mozinhas de Phoebe.
         Caroline sorriu, sentindo uma onda inesperada de orgulho e prazer. Os traos que ela havia notado na sala de parto - os olhos rasgados, o rosto ligeiramente 
achatado - tinham se tornado to familiares que ela mal os notava. Lucy, que no tinha o olhar treinado, nem sequer os enxergou. Phoebe se parecia com qualquer outro 
beb - delicado, adorvel, feroz em suas exigncias.
         - Adoro olhar para ela - confessou Caroline.
         - Ah, aquela pobre mezinha! - murmurou Lucy. - Eles tm esperana de que ela sobreviva?
         - Ningum sabe. O tempo dir - respondeu Caroline.
         - Eles devem estar arrasados.
         - . Esto, sim. Perderam completamente o apetite - confidenciou Caroline, prevenindo com isso a chegada de um dos famosos pratos de Lucy.
           ...
         Nos dois dias seguintes, Caroline no saiu. O mundo chegava at ela sob a forma de jornais, entregas de compras, leiteiros e o som do trnsito. O tempo 
mudou e a neve se foi, to sbito quanto havia chegado, cascateando pelas laterais dos prdios e desaparecendo nos ralos. Para Caroline, esses dias entrecortados 
fundiram-se vagamente numa sucesso de imagens e impresses ao acaso: a viso de seu Ford Fairlane, de bateria recarregada, sendo trazido para o estacionamento; 
a luz do sol vazando pelas janelas embaadas; o cheiro penetrante de terra molhada; um tordo no comedouro dos pssaros. Ela teve seus momentos de preocupao, mas 
muitas vezes, sentada com Phoebe, surpreendeu-se ao se descobrir em perfeita paz. O que dissera a Lucy Martin era verdade: ela adorava olhar para a nenm. Adorava 
sentar-se sob o sol e segur-la no colo. No, no podia se enamorar de Phoebe: ela era apenas uma parada temporria. Na clnica, Caroline havia observado David Henry 
um nmero suficiente de vezes para confiar em sua compaixo. Naquela noite em que ele levantara a cabea da escrivaninha e a fitara, ela vira em seus olhos uma capacidade 
infinita de bondade. No tinha dvida de que o mdico faria a coisa certa, uma vez que superasse o choque.
         Toda vez que o telefone tocava, ela levava um susto. Mas trs dias se passaram sem uma nica palavra dele.
         Na manh de quinta-feira bateram na porta. Caroline apressou-se a atender, ajeitando o cinto do vestido e o cabelo. Mas era apenas um entregador, trazendo 
um vaso de flores: tons de vermelho-escuro e rosa plido, em meio a uma nuvem de cravos-de-amor. Vinham de Al. Muito obrigado pela hospitalidade, escrevera ele no 
carto. Talvez eu a reveja em minha prxima passada.
         Caroline levou-as para dentro e as colocou na mesinha de centro. Agitada, pegou o exemplar de The Leader, que passara dias sem ler, tirou o elstico e folheou 
as matrias, sem realmente entender nenhuma delas. Uma escalada da tenso no Vietn, notcias sociais sobre quem oferecera recepes a quem na semana anterior, uma 
pgina com mulheres do lugar servindo de modelos para os novos chapus de primavera. Caroline estava prestes a largar o jornal quando um quadrado de bordas pretas 
captou sua ateno.
          Oficio fnebre em homenagem  nossa amada filha, Phoebe Grace Henry, nascida e falecida em 7 de maro de 1964. Igreja Presbiteriana de Lexington, sexta-feira, 
13 de maro de 1964, s 9h.
          Caroline sentou-se, devagar. Releu as palavras uma vez, depois outra. Chegou at a toc-las, como se, de algum modo, isso pudesse torn-las mais claras, 
explicveis. Ainda com o jornal na mo, levantou-se e foi at o quarto. Phoebe dormia em sua gaveta, com um bracinho plido estendido sobre as cobertas. Nascida 
e falecida. Caroline voltou  sala e telefonou para o consultrio. Ruby atendeu ao primeiro toque.
         - Imagino que voc no venha, no ? - perguntou ela. - Isto aqui est um hospcio. Parece que todas as pessoas da cidade esto gripadas - e baixou a voz. 
- Voc soube, Caroline? Sobre o Dr. Henry e os bebs? Eles tiveram gmeos, afinal. O garotinho est timo,  um encanto. Mas a menina morreu no parto. Uma tristeza.
         - Li a notcia no jornal - disse Caroline, com o queixo e a lngua enrijecidos. - Ser que voc pode pedir ao Dr. Henry para me telefonar? Diga-lhe que 
 importante. Eu vi o jornal - repetiu. - Diga isso a ele, sim, Ruby?
         Desligou e ficou sentada, olhando fixo para o estacionamento l fora.
         Uma hora depois, ele bateu na porta.
         - Bem - fez a enfermeira, convidando-o a entrar.
         David Henry entrou e se sentou no sof, com as costas encurvadas, girando o chapu na mo. Caroline sentou-se na poltrona em frente, observando-o como se 
nunca o tivesse visto.
         - Foi a Norah quem ps o anncio - explicou ele. Quando David ergueu os olhos, Caroline sentiu-se invadir por uma onda de comiserao, a despeito de si 
mesma, pois ele tinha o cenho franzido e os olhos injetados, como se no dormisse fazia dias. - Ela fez isso sem falar comigo.
         - Mas ela pensa que a filha morreu - contraps Caroline. - Foi isso que o senhor lhe disse?
         Ele assentiu com um lento aceno da cabea.
         - Eu pretendia contar-lhe a verdade. Mas, quando abri a boca, no consegui. Naquele momento, achei que a estava poupando do sofrimento.
         Caroline pensou em suas prprias mentiras, fluindo uma aps outra.
         - No a deixei em Louisville - informou, baixinho. Acenou com a cabea para a porta do quarto. - Ela est ali. Dormindo.
         David Henry ergueu os olhos. Caroline inquietou-se, porque o rosto dele ficou branco; ela nunca o vira to abalado assim.
         - Por que no? - perguntou o mdico,  beira da raiva. - Por que  que no?
         - O senhor j esteve naquele lugar? - retrucou ela, recordando a moa plida cujo cabelo caa no linleo frio. - J viu aquele lugar?
         - No - foi a resposta. David franziu o cenho. - O lugar foi muito bem recomendado, s isso. J encaminhei outras pessoas para l, no passado. No tive 
nenhuma informao negativa.
         - Era terrvel - disse Caroline, aliviada. Ento, ele no sabia o que estava fazendo. Ela continuava com vontade de odi-lo, mas se lembrou das muitas noites 
em que ele ficara na clnica para cuidar de pacientes que no podiam pagar pelo atendimento de que precisavam. Pacientes vindos do interior, das montanhas, que faziam 
a rdua viagem para Lexington, com pouco dinheiro e grandes esperanas. Os outros scios da clnica no gostavam, mas o Dr. Henry sempre os atendia. No era um homem 
mau, ela sabia. No era um monstro. Mas aquilo - um oficio fnebre para uma criana viva -, aquilo era monstruoso.
         - O senhor tem que contar a ela - insistiu.
         O        rosto de David estava plido, imvel, mas resoluto.
         - No - retrucou. - Agora  tarde demais. Faa o que tiver que fazer, Caroline, mas no posso contar a ela. No vou contar.
         Era estranho: Caroline sentiu enorme averso por ele depois dessas palavras, mas, naquele momento, tambm sentiu a maior intimidade que j tivera com qualquer 
pessoa. Agora os dois estavam juntos numa coisa colossal e, houvesse o que houvesse, sempre estariam. Ele pegou a mo da enfermeira, o que lhe pareceu natural, correto. 
Levou-a aos lbios e a beijou. Caroline sentiu nos ns dos dedos a presso de seus lbios e, na pele, o calor de sua respirao.
         Se houvesse uma expresso calculista no rosto de David quando ele ergueu os olhos, se houvesse algo menor que uma confuso sofrida quando ele lhe soltou 
a mo, ela teria feito a coisa certa. Teria apanhado o telefone e ligado para o Dr. Bentley, ou para a polcia, e teria confessado tudo. Mas havia lgrimas nos olhos 
do mdico.
         - Est em suas mos - disse ele, soltando-a. - Deixo a seu critrio. Acho que o asilo em Louisville  o lugar certo para essa criana. No tomei essa deciso 
levianamente. Ela vai precisar de uma assistncia mdica que no poder receber em outro lugar. Mas, o que quer que voc tenha que fazer, eu respeitarei sua deciso. 
E, se optar por chamar as autoridades, assumirei a culpa. No haver nenhuma conseqncia para voc, eu prometo.
         Ele tinha a expresso carregada. Pela primeira vez, Caroline pensou alm do imediato, alm do beb no quarto ao lado. At aquele momento, no lhe ocorrera 
realmente que a carreira de ambos corria perigo.
         - No sei - disse ela, devagar. - Tenho que pensar. No sei o que fazer.
         David puxou a carteira e a esvaziou. Trezentos dlares. Caroline ficou chocada ao ver que ele carregava uma soma to grande.
         - No quero seu dinheiro - disse.
         - No  para voc.  para a menina.
         - Phoebe. O nome dela  Phoebe - disse Caroline, afastando as notas. Pensou na certido de nascimento, que ficara em branco, a no ser pela assinatura de 
David Henry, em sua pressa naquela manh de nevasca. Seria muito fcil datilografar o nome de Phoebe e o dela prpria.
         - Phoebe - ele repetiu. Levantou-se para sair, deixando o dinheiro na mesa. - Por favor, Caroline, no faa nada sem primeiro me dizer.  a nica coisa 
que eu lhe peo. Que voc me avise, seja qual for a sua deciso.
         Em seguida, retirou-se, e tudo voltou a ser como antes: o relgio no console da lareira, o quadrado de luz no cho, as sombras ntidas dos galhos nus. Em 
poucas semanas haveria folhas novas, abrindo-se em plumas nas rvores e modificando as formas nos pisos. Ela j vira tudo aquilo inmeras vezes, mas, nesse momento, 
o cmodo lhe pareceu estranhamente impessoal, como se ela nunca houvesse morado ali. Ao longo dos anos, Caroline comprara pouqussimas coisas para si, sendo frugal 
por natureza e sempre imaginando que sua verdadeira vida aconteceria noutro lugar. O sof de tecido xadrez, a poltrona combinando - sim, ela gostava bastante desses 
mveis, escolhera-os pessoalmente, mas percebeu ento que os deixaria sem dificuldade. Deixaria tudo, sups, correndo os olhos pelas gravuras emolduradas de paisagens, 
pelo porta-revistas de vime junto ao sof, pela mesinha baixa de centro. De repente, seu apartamento pareceu-lhe to impessoal quanto uma sala de espera de qualquer 
clnica da cidade. E, afinal, o que mais ela fizera ali, em todos aqueles anos, seno esperar?
         Tentou silenciar os pensamentos. Com certeza, devia haver outro caminho menos dramtico. Era o que teria dito sua me, balanando a cabea e lhe dizendo 
para no bancar a Sarah Bernhardt. Caroline passara anos sem saber quem era Sarah Bernhardt, mas entendia com bastante clareza o que a me queria dizer: qualquer 
excesso de emoo era ruim, perturbava a ordem serena de seus dias. E, assim, Caroline havia guardado todas as suas emoes, como quem guarda um casaco. Deixara-as 
de lado e imaginara que depois as recuperaria, mas  claro que nunca o tinha feito, no at receber a nenm dos braos do Dr. Henry. E assim havia comeado alguma 
coisa, e agora ela no podia det-la. Duas sensaes gmeas a perpassaram: medo e excitao. Ela poderia deixar esse lugar nesse mesmo dia. Poderia comear vida 
nova em algum outro local. Teria que faz-lo, de qualquer modo, independentemente do que decidisse a respeito do beb. A cidade era pequena; Caroline no poderia 
ir ao mercado sem deparar com um conhecido. Imaginou os olhos de Lucy Martin arregalados, seu prazer secreto em relatar as mentiras de Caroline, em falar de sua 
afeio por essa criana descartada. Pobre solteirona, diriam as pessoas a seu respeito, to desesperada para ter seu prprio filho.
         Est em suas mos, Caroline. E o rosto dele envelhecera, crispado como uma noz.
           ...
         Na manh seguinte, Caroline acordou cedo. Fazia um lindo dia e ela abriu as janelas, deixando entrar o ar fresco e o aroma da primavera. Phoebe havia acordado 
duas vezes durante a noite e, enquanto ela dormia, Caroline havia empacotado e transportado suas coisas para o carro, na escurido. Possua muito pouco, como constatou 
- s umas poucas malas, que caberiam facilmente no bagageiro e no banco traseiro do Fairlane. Na realidade, ela poderia partir para a China, a Birmnia ou a Coria, 
sendo avisada com um minuto de antecedncia. Isso lhe agradava. Tambm estava satisfeita com sua eficincia. At o meio-dia da vspera havia tomado todas as providncias: 
uma instituio beneficente buscaria a moblia; uma firma de servios de limpeza e conservao cuidaria do apartamento. Ela mandara suspender o fornecimento de energia 
e outros servios e enviara cartas aos bancos, solicitando o encerramento de suas contas.
         Caroline esperou, tomando caf, at ouvir a porta bater l embaixo e o motor do carro de Lucy roncar, ganhando vida. Rapidamente, pegou Phoebe e parou por 
um instante  porta do apartamento em que havia passado tantos anos esperanosos, anos que agora lhe pareciam efmeros, como se nunca tivessem acontecido. Em seguida, 
fechou a porta com firmeza e desceu a escada.
         Colocou Phoebe em sua caixa no banco traseiro e tomou o rumo do centro da cidade, passando pela clnica, com suas paredes turquesa e seu telhado laranja, 
pelo banco, pela lavanderia a seco e por seu posto de gasolina favorito. Ao chegar  igreja, estacionou na rua e deixou Phoebe dormindo no carro. O grupo reunido 
no ptio era maior do que ela havia esperado, e Caroline parou a meia distncia, perto o bastante para ver a nuca de David Henry, avermelhada pelo frio, e o cabelo 
louro de Norah Henry, preso num coque formal. Ningum a notou. Seus saltos afundaram na lama na beira da calada. Ela apoiou o peso do corpo nos dedos dos ps, relembrando 
os cheiros ranosos da instituio para onde o Dr. Henry a mandara na semana anterior. Relembrando a mulher de camisola, com o cabelo escuro caindo no cho.
         As palavras vagaram pelo sereno ar matinal. To clara  a noite quanto o dia; as trevas e a luz so inteis para Ti.
         Caroline havia trabalhado em todo e qualquer horrio. Comera bolachas  janela da cozinha, em p, no meio da madrugada. Seus dias e suas noites tinham se 
tornado indistinguveis, estilhaando de uma vez por todas os padres reconfortantes de sua vida.
         Norah Henry enxugou os olhos com um leno de renda. Caroline lembrou-se do aperto de sua mo ao expulsar um beb, depois outro, e das lgrimas em seus olhos, 
tambm naquele momento. Isso a destruiria, declarara David Henry. E o que aconteceria se Caroline desse um passo  frente agora levando no colo o beb perdido? E 
se interrompesse aquele luto, apenas para introduzir muitos outros?
          Diante de Ti puseste as nossas iniqidades e os nossos pecados ocultos  luz do Teu rosto.
         David Henry se remexia enquanto o pastor falava. Pela primeira vez, Caroline compreendeu no prprio corpo o que estava prestes a fazer. Sua garganta apertou-se 
e a respirao ficou mais curta. Era como se o cascalho lhe pressionasse os ps atravs dos sapatos, e o grupo reunido no ptio tremeu diante de seus olhos, e ela 
achou que ia cair. Muito sria, pensou consigo mesma, ao ver as longas pernas de Norah se dobrarem, to graciosas, ajoelhando de repente na lama. O vento bateu no 
vu curto de Norah e lhe repuxou o chapeuzinho sem aba.
          Pois as coisas que se vem so transitrias, mas as coisas invisveis so eternas.
         Caroline observou a mo do pastor e, quando ele voltou a falar, as palavras, embora quase indistintas, pareceram dirigir-se no a Phoebe, mas a ela prpria, 
com uma espcie de carter final e irreversvel.
          Aos elementos entregamos seu corpo, da terra  terra, das cinzas s cinzas, do p ao p. Que o Senhor a abenoe e guarde, que o Senhor faa brilhar Seu 
rosto sobre ela e lhe conceda a paz.
          A voz fez uma pausa, o vento mexeu-se nas rvores e Caroline se recomps, enxugou os olhos com o leno e sacudiu depressa a cabea. Deu meia-volta e foi 
para o carro, onde Phoebe continuava a dormir, com uma pequena rstia de luz solar pousada em seu rosto.
         Em todo fim, portanto, havia um comeo. Pouco depois, Caroline dobrou a esquina da fbrica de monumentos, com suas fileiras de lpides, e rumou para a rodovia 
interestadual. No seria mau agouro ter uma fbrica de lajes sepulcrais marcando a entrada de uma cidade? Mas, logo em seguida, ela deixou tudo isso para trs ao 
chegar  bifurcao da rodovia, escolheu o rumo norte, em direo a Cincinnati e, depois, Pittsburgh, seguindo o rio Ohio at o local em que o Dr. Henry vivera parte 
de seu misterioso passado. A outra estrada, para Louisville e o Asilo para Dbeis Mentais, desapareceu no espelho retrovisor.
         Caroline dirigia depressa, sentindo-se imprudente, com o corao repleto de uma empolgao viva como o dia. Porque, na verdade, que importncia teriam os 
maus pressgios naquele momento? Afinal, aos olhos do mundo, a criana que seguia a seu lado j estava morta. E ela, Caroline Gill, estava desaparecendo da face 
da Terra, processo que a deixava sentindo-se leve, mais leve, como se o prprio carro houvesse comeado a flutuar sobre os campos tranqilos do sul de Ohio. Em toda 
aquela tarde ensolarada, viajando para o norte e para o leste, Caroline sentiu absoluta confiana no futuro. E por que no sentiria? Afinal, se aos olhos do mundo 
o pior j lhes havia acontecido, ento, com certeza, era o pior que elas estavam deixando para trs.
           1965   FEVEREIRO DE 1965   DESCALA, NORAH SE EQUILIBRAVA PRECARIAMENTE NUM BANQUINHO NA  sala de jantar, prendendo fitas cor-de-rosa no lustre de bronze. 
Tiras de coraes de papel, em tons de rosa e magenta, pendiam acima da mesa, com as pontas roando na porcelana do casamento, com suas flores vermelho-escuras e 
seus frisos dourados, na toalha de renda e nos guardanapos de linho. Enquanto ela trabalhava, o aquecedor zumbia e tiras de papel crepom eram sopradas no ar, resvalando 
em sua saia e tornando a cair delicadamente no piso, farfalhantes.
         Paul, com 11 meses, estava sentado a um canto, ao lado de uma velha cesta de palha cheia de cubos de madeira. Mal havia aprendido a andar e, durante a tarde 
inteira, divertira-se passeando pela nova casa, batendo os pezinhos com seu primeiro par de sapatos. Cada cmodo era uma aventura. Ele deixara cair pregos nas aberturas 
do sistema de calefao, encantado com o eco que eles produziam. Havia arrastado pela cozinha um saco de mistura para rejuntamento, deixando  sua passagem uma trilha 
branca e estreita. Agora, de olhos arregalados, observava as fitas decorativas, belas e esquivas como borboletas; apoiou-se numa cadeira para ficar de p e partiu 
no encalo delas, com passos trpegos. Segurou uma fita cor-de-rosa e puxou, balanando o lustre. Depois, perdeu o equilbrio e caiu sentado. Atnito, comeou a 
chorar.
          -        Ah, amorzinho - disse Norah, descendo da banqueta para peg-lo no colo. - Passou, passou - murmurou para o filho, deslizando a mo sobre seu cabelo 
macio e escuro.
         Do lado de fora, um par de faris piscou e desapareceu e ouviu-se a batida de uma porta de automvel. Ao mesmo tempo, o telefone comeou a tocar. Norah 
levou Paul  cozinha e tirou o fone do gancho no exato momento em que algum batia  porta.
         - Al? - disse. Encostou os lbios na testa de Paul, mida e delicada, enquanto se esforava para ver de quem era o carro na entrada da garagem. Bree no 
era esperada em menos de uma hora. - Nenenzinho querido - sussurrou. Depois, repetiu ao telefone: - Al?
         - Sra. Henry?
         Era a enfermeira do novo consultrio de David - ele passara a integrar a equipe do hospital um ms antes -, uma mulher que Norah nunca havia encontrado. 
Sua voz era calorosa e grave: Norah a imaginava de meia-idade, robusta e slida, com o cabelo preso num cuidadoso penteado bolo-de-noiva. Caroline Gil - que lhe 
havia segurado a mo durante as ondas de contraes, e cujos olhos azuis de expresso firme estavam inextricavelmente ligados, para Norah, quela agitada noite de 
nevasca - havia simplesmente desaparecido. Um mistrio e um escndalo.
         - Sra. Henry,  Sharon Smith. O Dr. Henry foi chamado para uma cirurgia de emergncia, bem na hora, eu juro, em que estava saindo pela porta e indo para 
casa. Houve um acidente terrvel perto da Estrada Leestown. Adolescentes, a senhora sabe como ; esto muito feridos, O Dr. Henry me pediu para telefonar. Chegar 
em casa assim que puder.
         - Ele disse quanto tempo vai demorar? - perguntou Norah. O ar recendia a lombinho assado, chucrute e batatas de forno: a refeio favorita de David.
         - No. Mas dizem que foi uma batida terrvel. C entre ns, meu bem, pode ser que leve horas.
         Norah balanou a cabea. Ao longe, a porta de entrada abriu e fechou. Houve um som de passos, leves e conhecidos, no saguo, na sala de estar e na sala 
de jantar: Bree, chegando cedo para buscar Paul e deixar Norah e David a ss nessa vspera do Dia dos Namorados, seu aniversrio de casamento.
         O projeto de Norah, sua surpresa, seu presente para ele.
         - Obrigada - disse  enfermeira, antes de desligar. - Obrigada por ter telefonado.
         Bree entrou na cozinha, trazendo consigo o cheiro da chuva. Sob a capa comprida, usava botas pretas at os joelhos, e suas coxas longas e brancas desapareciam 
na saia mais curta que Norah j tinha visto. Os brincos prateados, engastados de turquesas, danavam com a luz. Ela viera direto do trabalho - gerenciava o escritrio 
de uma estao de rdio local - e tinha a bolsa carregada de jornais e livros das aulas que vinha freqentando.
         - Uau! - exclamou Bree, pondo a bolsa na bancada e estendendo os braos para Paul. - Est tudo lindo, Norah. Mal posso acreditar no que voc fez com a casa 
em to pouco tempo.
         - Ela tem me mantido ocupada - concordou Norah, pensando nas semanas que gastara descolando o papel de parede com vapor e aplicando novas demos de tinta. 
Ela e David tinham decidido mudar-se, achando que, tal como o novo emprego dele, isso os ajudaria a deixar o passado para trs. Norah, que no desejava outra coisa, 
entregara-se de corpo e alma a esse projeto. Mas no tinha sido to til quanto ela havia esperado: muitas vezes, sua sensao de perda ainda se agitava, como chamas 
emergindo de brasas. S neste ltimo ms, em duas ocasies ela havia contratado uma bab para Paul e deixado a casa para l, com seus remates parcialmente pintados 
e seus rolos de papel de parede. Dirigira muito depressa pelas estreitas estradas rurais at o cemitrio particular, assinalado por um porto de ferro batido, onde 
sua filha fora sepultada. As lpides eram baixas, algumas muito antigas e quase alisadas pelo desgaste. A de Phoebe era simples, feita de granito cor-de-rosa, com 
as datas de sua curta vida entalhadas a fundo sob seu nome. Na rida paisagem de inverno, com o vento a lhe aoitar o cabelo, Norah havia ajoelhado na grama gelada 
e quebradia de seu sonho. Ficara quase paralisada de tristeza, enlutada demais at para chorar. Mas tinha passado horas ali, antes de finalmente se levantar, sacudir 
a roupa e ir para casa.
         Nesse momento, Paul brincava com Bree, tentando puxar-lhe o cabelo.
         - Sua mame  incrvel - disse Bree ao menino. - Ultimamente, ela anda um perfeito exemplo de prendas do lar, no ? No, amorzinho, os brincos no - acrescentou, 
segurando a mozinha de Paul.
         - Prendas do lar? - repetiu Norah, com a raiva subindo  cabea como uma onda. - Que quer dizer com isso?
         - Eu no quis dizer nada - respondeu Bree, que fazia caretas bobas para Paul e, nesse momento, ergueu os olhos, surpresa. - Puxa, francamente, Norah!
         - Prendas do lar? - insistiu ela. - Eu s queria que as coisas ficassem bonitas no meu aniversrio de casamento. Que h de errado nisso?
         - Nada - suspirou Bree. - Est tudo lindo. No foi o que eu acabei de dizer? E estou aqui para bancar a bab, lembra-se? Por que voc est to zangada?
         Norah fez um aceno com a mo.
         - Deixa pra l. Ora, droga, deixa pra l. David est em cirurgia.
         Bree esperou um segundo antes de dizer:
         - Logo vi.
         Norah ia comear a defend-lo, mas parou. Levou as mos ao rosto.
         - Ah, Bree, por que hoje?
         - um horror - concordou a irm. O rosto de Norah ficou tenso, ela sentiu os lbios se comprimirem num muxoxo e Bree riu. - Ora, vamos, seja franca. Talvez 
no seja culpa do David. Mas isso  exatamente o que voc acha, no ?
         - No  culpa dele - fez Norah. - Houve um acidente. Mas est certo. Voc tem razo. ,  o fim da picada.  absolutamente o fim da picada, est bem?
         - Eu sei - disse Bree, com a voz surpreendentemente meiga. -  uma droga mesmo. Sinto muito, maninha - e sorriu. - Olhe, eu trouxe um presente para voc 
e o David. Talvez ele a anime.
         Bree trocou Paul de brao e vasculhou sua gigantesca sacola acolchoada, tirando uma barra de chocolate, uma pilha de folhetos sobre uma passeata prxima, 
culos escuros numa caixa de couro surrada e, por ltimo, uma garrafa de vinho, que cintilou como cristal quando ela serviu uma taa para cada uma.
         - Ao amor - brindou, entregando uma taa a Norah e erguendo a outra. -  felicidade e ao paraso eternos.
         As duas riram juntas e beberam um gole. O vinho tinha o tom escuro das bagas e        um vago aroma de carvalho. A chuva escorria das calhas. Anos depois, 
Norah se lembrarei dessa noite, da amarga decepo e de Bree trazendo simbolos tremeluzentes de um outro mundo: suas botas brilhantes, seus brincos, sua energia, 
que era uma espcie de luz. Como eram bonitas essas coisas para Norah, e como eram distantes, inatingveis! Depresso: anos depois, ela compreenderia a luz pardacenta 
em que habitava, mas ningum falava disso em 1965. Ningum sequer o considerava. Certamente no em relao a Norah, que tinha sua casa, seu beb, seu marido mdico. 
Esperava-se que vivesse feliz.
         - Ei, a sua antiga casa j foi vendida? - perguntou Bree, colocando a taa na bancada. - Vocs resolveram aceitar a oferta?
         - No sei - disse Norah. - A oferta  menor do que espervamos. David quer aceitar, s para acabar com isso, mas no sei. Era nossa casa. Ainda detesto 
a idia de me desfazer dela.
         Pensou em sua primeira casa, s escuras e vazia, com uma placa de VENDE- SE fincada no jardim, e, para ela, foi como se o mundo houvesse se tornado muito 
frgil. Norah apoiou-se na bancada para se equilibrar e tomou outro gole de vinho.
         - E como anda a sua vida amorosa, ultimamente? - perguntou, mudando de assunto. - Como vo as coisas com aquele sujeito com quem voc estava saindo, como 
era o nome dele... Jeff?
         - Ah, aquele - fez Bree. Uma expresso melanclica perpassou-lhe o rosto e ela sacudiu a cabea, como que para desanuvi-la. - No lhe contei? H umas duas 
semanas, cheguei em casa e o encontrei na cama, na minha cama, com uma jovenzinha que trabalhou conosco na campanha para a prefeitura.
         - Oh! Sinto muito.
         Bree balanou a cabea.
         - No se incomode. No  como se eu o amasse nem nada.  s que funcionvamos bem juntos, sabe? Eu achava, pelo menos.
         - Voc no o amava? - repetiu Norah, ouvindo e detestando o tom desaprovador de sua me saindo de sua prpria boca. Ela no queria ser aquela pessoa que 
tomava xcaras de ch na casa bem arrumada e silenciosa de sua infncia. Mas tambm no queria ser a pessoa em que parecia estar se transformando, largada pelo luto 
num mundo que no fazia sentido.
         - No - disse Bree. - No, no amava, embora tivesse achado que poderia, durante algum tempo. Mas isso j nem vem ao caso. A questo  que ele transformou 
tudo o que tnhamos num chavo. Isso  o que eu detesto mais do que tudo, fazer parte de um chavo.
         Bree ps a taa vazia na bancada e passou Paul para o outro brao. Seu rosto sem maquiagem era delicado, de belos ossos; as faces e os lbios coloriam-se 
de um rosa plido.
         - Eu no poderia viver como voc - comentou Norah. Desde o nascimento de Paul, desde a morte de Phoebe, ela sentia necessidade de manter uma viglia constante, 
como se um segundo de desateno pudesse abrir as portas para a desgraa. - Eu simplesmente no conseguiria.., romper todas as regras. Jogar tudo para o alto.
         - O mundo no acaba - disse Bree, tranqila. -  incrvel, mas no acaba mesmo.
         Norah balanou a cabea.
         - Pode acabar. A qualquer momento, alguma coisa pode acontecer.
         - Eu sei. Eu sei, meu bem - disse Bree.
         A irritao anterior de Norah foi varrida para longe por uma sbita onda de gratido. Bree sempre escutaria e responderia, no pediria seno a verdade de 
sua experincia.
         - Voc tem razo, Norah, tudo pode acontecer, a qualquer momento. Mas as coisas que correm mal no so culpa sua. Voc no pode passar o resto da vida pisando 
em ovos, tentando evitar os desastres. No funciona. Voc s acabar perdendo a vida que tem.  Norah no tinha resposta para isso, de modo que estendeu os braos 
para Paul que se contorcia no colo de Bree, com fome, com seu cabelo comprido - comprido demais, mas Norah no suportava a idia de cort-lo - balanando de leve 
toda vez que ele se mexia, como se estivesse embaixo d'gua.
         Bree serviu mais vinho para as duas e pegou uma ma na fruteira da bancada. Norah cortou pedacinhos de queijo, po e banana e os espalhou na bandeja da 
cadeirinha de refeies de Paul. Bebericou vinho enquanto cuidava disso. Aos poucos, o mundo a seu redor meio que clareou, ficou mais vvido. Ela notou as mozinhas 
de Paul, como estrelas-do-mar, espalhando cenouras no cabelo. A lmpada da cozinha lanava sombras pela balaustrada da varanda dos fundos, desenhando na grama listras 
de escurido e luz.
         - Comprei uma mquina fotogrfica para o David, pelo nosso aniversrio - disse Norah, desejando poder captar esses instantes fugazes, guard-los para sempre. 
- Ele anda trabalhando muito, desde que aceitou esse novo emprego. Precisa de uma distrao. Nem acredito que tenha que trabalhar esta noite.
         - Sabe de uma coisa? - disse Bree. - Por que eu no levo o Paul, de qualquer maneira? Quero dizer, quem sabe se o David no chega cedo o bastante para jantar? 
E da, se for  meia-noite? Por que no? Nesse caso, vocs poderiam pular o jantar, tirar os pratos e fazer amor na mesa da sala.
         - Bree!
         Bree riu.
         - Por favor, Norah! Eu adoraria lev-lo.
         - Ele precisa de um banho - disse Norah.
         - Tudo bem. Prometo no deixar que ele se afogue na banheira.
         - No tem graa. No tem graa nenhuma - retrucou Norah.
         Mas acabou concordando, e embalou as coisas de Paul. O cabelo macio do filho encostado em seu rosto, seus grandes olhos escuros a fit-la, srios, enquanto 
Bree o carregava porta afora, e pronto, l se foi ele. Da janela, Norah ficou vendo as luzes traseiras do carro de Bree desaparecerem na rua, levando embora seu 
filho. Foi o que pde fazer para se impedir de correr atrs deles. Como  que algum podia deixar uma criana crescer e sair por aquele mundo perigoso e imprevisvel? 
Ela ficou parada vrios minutos, os olhos fixos na escurido. Depois, foi at a cozinha, onde cobriu o lombo assado com papel-alumnio e apagou o forno. Eram sete 
horas. A garrafa de vinho trazida por Bree estava quase vazia. Na cozinha, to silenciosa que dava para ouvir o tique-taque do relgio, Norah abriu outra garrafa, 
cara e francesa, que havia comprado para o jantar.
         A casa estava muito quieta. Ser que ela havia ficado sozinha, uma vez que fosse, desde o nascimento de Paul? Achava que no. Tinha evitado esses momentos 
de solido, momentos de calmaria em que pudessem surgir idias sobre sua filha morta. O oficio fnebre, realizado no ptio da igreja, sob a luz inclemente do sol 
novo de maro, havia ajudado, mas s vezes, inexplicavelmente, Norah ainda tinha a sensao da presena da filha, como se pudesse virar-se e v-la na escada, ou 
parada l fora, no jardim.
         Apoiou a palma da mo na parede e sacudiu a cabea, para desanuvi-la. Depois, com a taa na mo, andou pela casa, com os passos soando ocos sobre os pisos 
recm-encerados, inspecionando o trabalho que fizera. L fora, a chuva caa sem parar, embaando as luzes do outro lado da rua. Norah lembrou-se de outra noite, 
da neve rodopiante. David a segurara pelo cotovelo, ajudando-a a vestir o velho casaco verde, que agora estava um farrapo, mas do qual ela no conseguia se desfazer. 
O casaco ficara aberto sobre sua barriga protuberante e os olhos dos dois haviam se encontrado. David estava muito preocupado, muito srio, eletrizado pelo nervosismo; 
naquele momento, Norah tivera a sensao de conhec-lo to bem quanto a si mesma.
         No entanto, tudo havia mudado. David tinha mudado.  noite, quando se sentava ao lado dela no sof, examinando suas revistas, j no estava realmente presente. 
Antigamente, no tempo em que ela era telefonista interurbana, Norah costumava tocar as chaves frias e os botes de metal da mesa telefnica, ouvir a campainha distante, 
o clique da ligao. Um momento, por favor, dizia, e as palavras ecoavam, retardavam-se; as pessoas falavam uma vez e paravam, deixando revelar-se a noite erma e 
esttica que havia entre elas. s vezes, Norah escutava o encontro das vozes de pessoas que jamais conheceria, transmitindo suas notcias formais e emocionadas: 
de nascimentos ou casamentos, doenas ou mortes. Ela sentia a noite tenebrosa daquelas distncias e o poder que havia em sua capacidade de faz-las desaparecer.
         Mas era um poder que Norah tinha perdido - pelo menos agora, e no que havia de mais importante. s vezes, mesmo depois de os dois se amarem no meio da noite, 
ainda enlaados, um corao batendo contra o outro, ela olhava para David e sentia os ouvidos se encherem do bramido obscuro e distante do universo.
         Passava de oito horas. O mundo se abrandara em suas arestas. Ela voltou  cozinha e parou junto ao fogo, beliscando o lombinho ressecado. Comeu uma das 
batatas, direto da panela, amassando-a no molho com o garfo. Os brcolis com queijo haviam coalhado e comeavam a ressecar; Norah tambm os provou. A comida queimou-lhe 
a boca e ela estendeu a mo para a taa. Vazia. Bebeu um copo d'gua, de p diante da pia, depois outro, apoiando-se na beira da bancada, porque o mundo oscilava 
muito. Estou bbada, pensou, surpresa e levemente satisfeita consigo mesma. Nunca havia se embriagado, embora Bree, uma vez, tivesse voltado de um baile e vomitado 
em todo o linleo. Algum havia "batizado" seu ponche, ela dissera  me, mas confessara tudo a Norah: a garrafa num saco de papel pardo e as amigas reunidas nos 
arbustos, com a respirao desenhando nuvenzinhas ntidas na noite.
         O telefone parecia estar muito longe. Ao andar, Norah sentiu-se estranha, como se flutuasse, meio fora de si. Apoiou uma das mos no batente da porta e 
discou com a outra, segurando o fone entre o ombro e o ouvido. Bree atendeu ao primeiro toque.
         - Eu sabia que era voc - disse. - Paul est bem. Lemos um livro, tomamos um banho, e agora ele est dormindo a sono solto.
         - Ah, que bom. Sim, que maravilha - fez Norah. Havia pretendido falar com Bree sobre esse mundo tremeluzente, mas, de algum modo, agora ele parecia privado 
demais, um segredo.
         - E voc? - perguntou a irm. - Est tudo bem?
         - Tudo bem - disse Norah. - David ainda no chegou, mas eu estou bem.
         Desligou depressa, serviu-se de outra taa de vinho e foi at a varanda, onde ergueu o rosto para o cu. Pairava uma leve neblina no ar. Agora, o vinho 
parecia percorr-la como o calor ou a luz, espalhando-se por seus membros at as pontas dos dedos das mos e dos ps. Quando ela se virou, de novo seu corpo pareceu 
flutuar por um instante, como se ela deslizasse para fora de si. Norah lembrou-se do carro percorrendo as ruas cobertas de gelo, como que saindo do cho, rabeando 
ligeiramente antes que David conseguisse control-lo. As pessoas tinham razo: ela no conseguia lembrar-se das dores do parto, mas nunca se esquecera daquela sensao, 
no carro, do mundo escorregando, girando, e de suas mos segurando com fora o painel frio, enquanto David, metdico, parava em todos os sinais luminosos.
         Onde estaria ele, perguntou-se, com lgrimas sbitas nos olhos, e por que se casara com ele, afinal? Por que ele a havia desejado tanto? No turbilho das 
semanas depois de eles se conhecerem, David estivera todos os dias em seu apartamento, oferecendo-lhe rosas, jantares e passeios pelo campo. Na noite de Natal, a 
campainha havia tocado e ela fora atender, usando seu roupo velho, esperando que fosse Bree. Em vez disso, ao abrir a porta, tinha deparado com David, o rosto ruborizado 
pelo frio e caixas embaladas em cores vivas nos braos. Era tarde, dissera, ele sabia disso, mas ser que ela o acompanharia num passeio de carro?
         No, ela havia respondido, Voc  doido!, mas rira o tempo todo daquela maluquice, dera um passo atrs e o deixara entrar, aquele homem em seu degrau, carregado 
de flores e presentes. Norah ficara admirada, envaidecida e meio perplexa. Tinha havido momentos - ao ver outras moas sarem para as festas dos grmios estudantis 
femininos, ou sentada em sua banqueta na sala sem janelas da companhia telefnica, enquanto as colegas planejavam suas cerimnias de casamento at o ltimo aplique 
de flores e a ultima balinha de hortel da recepo - em que Norah, muito calma e reservada, tinha achado que ficaria solteira pelo resto da vida. No entanto, l 
estava David, bonito, mdico, parado  porta de seu apartamento, dizendo: Venha, por favor, h uma coisa especial que eu quero lhe mostrar.
         Era uma noite clara, com estrelas vividas no cu. Norah sentara-se no amplo banco dianteiro de vinil do antigo carro de David. Usava um vestido vermelho 
de l e se sentia bonita, naquele ar muito frio, com as mos de David no volante e o carro percorrendo a escurido, atravessando o frio, enveredando por estradas 
cada vez mais estreitas, em direo a uma paisagem que ela no reconhecia. Ele havia parado junto a um antigo moinho de trigo. Desceram do carro ao som da gua corrente. 
As guas escuras captavam o luar e o derramavam nas pedras, fazendo girar a grande roda do moinho. O prdio escuro recortava-se contra um cu ainda mais escuro, 
encobrindo as estrelas, e o ar estava cheio dos sons agitados e borrifantes da gua.
         - Est com frio? - perguntara David, elevando a voz acima do som da correnteza, e Norah tinha rido, trmula, e dito que no, no estava, estava tima.
         - E suas mos? - gritara ele, com a voz repicando, cascateando como a gua. - Voc no trouxe luvas.
         - Estou tima - ela gritara de volta, mas David j segurava suas mos nas dele, apertando-as contra o peito, aquecendo-as entre suas luvas e a l escura 
e salpicada do casaco.
         -  lindo aqui! - exclamara Norah, e David rira. Depois, ele inclinara a cabea e a beijara, soltando-lhe as mos e enfiando as dele por dentro de seu casaco, 
afagando-lhe as costas. A gua corria, ecoando nas pedras.
         - Norah - gritara ele, com a voz integrada na noite, rolando como a correnteza, as palavras claras mas quase abafadas em meio aos outros sons. - Norah! 
Quer se casar comigo?
         Ela rira, jogando a cabea para trs, sentindo o ar noturno se derramar sobre seu corpo.
         - Sim! - respondera num grito, tornando a espalmar as mos sobre o casaco de David. - Sim, eu quero!
         Ele pusera um anel em seu dedo naquele momento: um aro fino de ouro branco, do seu tamanho exato, com um diamante oval ladeado por duas esmeraldas minsculas. 
Para combinar com OS seus olhos, dissera-lhe depois, e com o casaco que ela estava usando no dia em que os dois haviam se conhecido.
         Norah voltou para dentro e parou  porta da sala de jantar, girando esse mesmo anel no dedo. As fitas da decorao balanavam. Uma roou-lhe o rosto, outra 
havia mergulhado a ponta em sua taa de vinho. Fascinada, ela ficou vendo a mancha espalhar-se lentamente para cima. Tinha quase exatamente a mesma cor dos guardanapos, 
observou. Aquilo era mesmo um exemplo perfeito de prendas do lar: ela no teria conseguido encontrar uma combinao melhor se a tivesse buscado. O vinho tambm respingara 
da taa e salpicara a toalha, manchando o papel de listras douradas de seu presente para David. Norah o pegou e, num impulso, rasgou o papel. Estou mesmo muito bbada, 
pensou.
         A mquina fotogrfica era compacta, um peso agradvel. Norah passara semanas pensando num presente adequado, at v-la na vitrine da Sears. Preta e de cromo 
reluzente, com controles e alavancas complexos e nmeros gravados em volta das lentes, fazia lembrar o equipamento mdico de David. Jovem e ansioso, o vendedor a 
havia cumulado de informaes tcnicas sobre aberturas, distncias focais e lentes grande-angulares. Os termos haviam escorrido por ela feito gua, mas Norah gostara 
do peso da cmera em suas mos, da textura fria e do jeito como o mundo se emoldurava com preciso quando ela a colocava junto do olho.
         Hesitante, nesse momento ela puxou a alavanca prateada. Um clique e um estalo soaram alto na sala, ao ser liberado o obturador. Norah girou o botozinho 
para avanar o filme - lembrou-se de que o vendedor tinha usado essa expresso, avanar o filme, elevando a voz por um instante acima do fluxo de rudos da loja. 
Olhou pelo visor, emoldurando de novo a mesa desarrumada, depois girou dois anis diferentes para encontrar o foco. Dessa vez, quando apertou o obturador, a luz 
explodiu na parede. Ofuscada, ela virou a mquina e examinou a lmpada, agora escurecida e empolada. Substituiu-a, queimando os dedos, mas sentindo-se distante dessa 
dor, de algum modo.
         Levantou-se e olhou para o relgio: 21h45.
         A chuva era fina, incessante. David tinha ido a p para o trabalho, e ela o imaginou caminhando cansado para casa pelas ruas escuras. Num impulso, pegou 
o casaco e a chave do carro - iria at o hospital fazer-lhe uma surpresa.
         O carro estava frio. Ela saiu de r da entrada da garagem, tateando para ligar o aquecimento, e, por um antigo hbito, virou na direo errada. Mesmo depois 
de se aperceber do erro, continuou a dirigir pelas mesmas ruas estreitas e chuvosas, de volta a sua antiga casa, onde havia decorado com tanta esperana inocente 
o quarto do beb, onde se sentara amamentando Paul no escuro. Ela e David tinham concordado em que era sensato se mudarem, mas a verdade  que Norah no suportava 
a idia de vender aquele lugar. Ainda ia l quase todos os dias. A vida que sua filha conhecera, o que quer que Norah tivesse vivenciado de sua filha, havia acontecido 
naquela casa.
         Exceto por estar s escuras, a casa parecia a mesma: a ampla varanda da frente, com suas quatro colunas brancas, o calcrio spero, a nica lmpada acesa. 
L estava a Sra. Michaels na casa ao lado, a poucos metros de distncia, movimentando-se pela cozinha, lavando loua e espiando a noite pela janela; l estava o 
Sr. Bennett em sua poltrona, com as cortinas abertas e a televiso ligada. Norah quase pde acreditar, ao subir os degraus, que ainda morava ali. Mas a porta se 
abriu para cmodos desertos, vazios, chocantes em sua pequenez.
         Andando pela casa fria, Norah esforou-se para desanuviar a cabea. O efeito do vinho parecia muito mais forte agora, e ela sentia dificuldade de ligar 
um momento a outro. Carregava a nova mquina fotogrfica de David numa das mos. Uma realidade, no uma deciso. Restavam 15 fotos e ela levava flashes extras no 
bolso. Tirou uma foto do lustre, contente quando o flash acendeu, porque agora sempre teria consigo aquela imagem; jamais acordaria no meio da noite, dali a 20 anos, 
sem conseguir lembrar-se daquele detalhe, daquelas graciosas curvaturas douradas.
         Andou de um cmodo para outro, ainda bria, mas resoluta, enquadrando janelas, luminrias, os veios espiralados do piso. Parecia de uma importncia vital 
que registrasse cada detalhe. A certa altura, na sala, uma lmpada gasta e empolada do flash escorregou-lhe da mo e se espatifou; quando ela deu um passo atrs, 
o vidro perfurou seu calcanhar. Norah examinou por um instante os ps calados apenas de meias, divertida e impressionada com o grau de sua embriaguez - devia ter 
deixado os sapatos molhados junto  porta da frente, por hbito. Perambulou mais duas vezes pela casa, documentando interruptores, janelas, o cano pelo qual o gs 
subia para o segundo andar. Somente na descida apercebeu-se de que o p estava sangrando, deixando uma trilha de manchas: coraes feridos, bilhetinhos de amor ensangentados. 
Norah ficou chocada e tambm estranhamente emocionada com o estrago que conseguira infligir-se.
         Achou os sapatos, saiu. O calcanhar latejava quando ela entrou no carro, com a cmera ainda pendurada no pulso.
         Mais tarde, ela no se lembraria de muita coisa do trajeto, apenas das ruas estreitas e escuras, do vento nas folhas, da luz piscando nas poas e da gua 
espirrada pelos pneus. No se lembraria da batida de metal contra metal, apenas da viso sbita e assustadora do reluzente lato de lixo voando  frente do carro. 
Molhado de chuva, ele pareceu suspenso no ar por um longo minuto, antes de comear a cair. Norah lembrou-se de que ele bateu no cap e rolou, estilhaando o pra-brisa; 
lembrou-se do carro quicando no meio-fio e parando devagarzinho no canteiro central, embaixo de um carvalho-da-amrica. No se recordava da pancada no pra-brisa, 
mas ele parecia uma teia de aranha, com as linhas intricadas abrindo-se em leque, delicadas, belas e precisas. Quando Norah levou a mo  testa, os dedos voltaram 
ligeiramente sujos de sangue.
         Ela no saiu do carro. O lato rolou pela rua. Sombras escuras - gatos - espreitaram das bordas do lixo, espalhado num arco. Luzes acenderam-se na casa 
 direita e um homem saiu de roupo e chinelos, correndo pela calada em direo ao carro.
         - A senhora est bem? - perguntou, abaixando-se para olhar pela janela, que Norah abriu devagar, com o ar noturno a lhe lamber o rosto. - O que aconteceu? 
A senhora est bem? Sua testa est sangrando - acrescentou o homem, tirando um leno do bolso.
         - No  nada - disse Norah, gesticulando para recusar o leno, suspeitamente amarrotado. Tornou a pressionar de leve a testa com a palma da mo, tirando 
outra mancha de sangue. A cmera, ainda pendurada em seu pulso, tamborilou no volante. Norah a soltou e a colocou cuidadosamente a seu lado, no banco. -  meu aniversrio 
de casamento - informou ao estranho. - Meu calcanhar tambm est sangrando.
         - A senhora precisa de um mdico? - indagou o homem.
         - Meu marido  mdico - respondeu Norah, notando a expresso insegura do homem, consciente de que talvez no tivesse feito muito sentido no instante anterior. 
De que talvez no estivesse dizendo coisa com coisa nesse momento. - Ele  mdico - repetiu com firmeza. - Vou procur-lo.
         - No tenho certeza de que a senhora deva dirigir - disse o homem. - Por que no larga o carro aqui e me deixa chamar uma ambulncia?
         Diante da bondade dele, os olhos de Norah se encheram de lgrimas, mas ento ela imaginou a cena, as luzes, as sirenes, as mos delicadas, e o modo como 
David viria correndo e a encontraria no pronto-socorro, desgrenhada, ensangentada e meio bbada: um escndalo e uma vergonha.
         - No - disse, passando a tomar muito cuidado com as palavras. - Estou bem, realmente. Um gato correu pela rua e me assustou. Mas  verdade, eu estou bem. 
Vou para casa agora e meu marido cuidar deste corte. Realmente no  nada.
         O        homem hesitou por um bom momento, com a luz da rua reluzindo prateada em seu cabelo, depois encolheu os ombros, fez um aceno com a cabea e recuou 
para o meio-fio. Norah saiu com cuidado, devagar, usando adequadamente as setas na rua deserta. Pelo retrovisor, viu o homem, de braos cruzados, observando-a at 
ela dobrar a esquina e desaparecer.
         O mundo estava silencioso quando ela regressou pelas ruas conhecidas, o efeito do vinho comeando a se dissipar. Sua nova casa estava toda iluminada, com 
luzes acesas em todas as janelas, em cima e embaixo, luzes que se derramavam como um lquido que houvesse transbordado e j no pudesse ser contido. Ela estacionou 
na entrada da garagem e desceu, parando por um instante na grama mida, com a chuva caindo fininha, formando gotas em seu cabelo e em seu casaco. No lado de dentro, 
vislumbrou David sentado no sof. Paul estava em seu colo, dormindo, com a cabea apoiada de leve no ombro do pai. Norah pensou em como havia deixado as coisas - 
no vinho derramado, nas fitas pendentes e no assado perdido. Apertou o casaco em volta do corpo e subiu depressa os degraus.
         - Norah! - exclamou David, indo encontr-la  porta, ainda com Paul no colo. - Norah, o que aconteceu? Voc est sangrando.
         - Est tudo bem, eu estou bem - disse ela, rejeitando a mo de David quando ele tentou ajud-la. Seu p doa, mas a dor aguda a deixou contente: como um 
contraponto  cabea latejante, parecia subir em linha reta por seu corpo e mant-la em equilbrio. Paul dormia um sono pesado, com a respirao lenta e uniforme. 
Norah descansou de leve a palma da mo sobre suas costas midas.
         - Onde est a Bree? - perguntou.
         - Est procurando voc - disse David, olhando de relance para a sala. Norah acompanhou seu olhar, vendo o jantar estragado e todas as fitas emboladas no 
cho. - Quando no a encontrei em casa, entrei em pnico e liguei para ela. Bree trouxe        se Paul e saiu  sua procura.
         - Estive na casa antiga. Bati numa lata de lixo - disse Norah. Ps a mo na testa e fechou os olhos.
         - Voc bebeu - foi o comentrio calmo de David.
         - Vinho no jantar. Voc se atrasou.
         - H duas garrafas vazias, Norah.
         - Bree esteve aqui. Foi uma longa espera.
         Ele acenou com a cabea.
         - Sabe os garotos de hoje, os do acidente? Havia cerveja por toda parte. Fiquei apavorado, Norah.
         - Eu no estava bbada.
         O telefone tocou e ela atendeu, sentindo-o pesar em sua mo. Era Bree, com a voz aflita, querendo saber o que havia acontecido.
         - Eu estou bem - disse Norah, tentando falar com calma e com clareza. - Estou tima.
         David a observava, estudando as linhas escuras da palma de sua mo, onde o sangue se havia depositado e secado. Norah fechou os dedos sobre as manchas e 
virou o rosto.
         - Pronto - disse David, com delicadeza, depois que ela desligou, tocando-lhe o brao. - Venha c.
         Subiram. Enquanto David acomodava Paul no bero, Norah tirou as meias destrudas e se sentou na beirada da banheira. O mundo comeava a ficar mais claro 
e mais firme e ela piscou sob as lmpadas fortes, tentando ordenar adequadamente os acontecimentos da noite. Ao voltar, David afastou-lhe o cabelo da testa, com 
gestos delicados e precisos, e comeou a limpar o corte.
         - Espero que voc tenha deixado o outro sujeito em piores condies - disse ele, e Norah imaginou que talvez o marido dissesse a mesma coisa aos pacientes 
que passavam por seu consultrio: conversa  toa, brincadeiras, palavras vazias, para distrair.
         - No havia mais ningum - retrucou, pensando no homem de cabelos prateados que se debruara sobre sua janela. - Um gato me assustou e eu derrapei. Mas 
o pra brisas... ai! - exclamou, quando ele ps anti-sptico no corte. - Ai, David, isso di.
         - No vai demorar - fez ele, pondo a mo no ombro da mulher por um instante.
          Depois, ajoelhou-se junto  banheira e segurou seu p.
         Ela o observou retirar os cacos de vidro. David era cuidadoso e calmo, absorto em seus pensamentos. Norah sabia que ele cuidaria de qualquer paciente com 
os mesmos gestos tarimbados.
         - Voc  muito bom para mim - murmurou, querendo reduzir a distncia entre os dois, a distncia que ela havia criado.
         David balanou a cabea, fez uma pausa no trabalho e ergueu os olhos.
         - Por que voc foi l, Norah,  nossa casa antiga? Por que no quer se desfazer dela?
         - Porque ela  a ltima coisa... - disse Norah, surpresa com a segurana e a tristeza em sua voz. -  a ltima forma de a deixarmos para trs.
         No breve instante antes de ele desviar os olhos houve no rosto de David um lampejo de tenso, de raiva rapidamente controlada.
         - O que voc gostaria que eu fizesse? Achei que esta nova casa nos faria felizes. Ela faria feliz a maioria das pessoas, Norah.
         Ante o tom do marido, Norah sentiu-se perpassada pelo medo; poderia perd-lo tambm. Seu p latejava, assim como a cabea, e ela fechou os olhos por um 
instante, ao pensar na cena que havia causado. No queria ficar presa para sempre nessa noite escura e esttica, com David a uma distncia intransponvel.
         - Est bem - disse. - Vou ligar para o corretor amanh. Vamos aceitar a oferta.
         Uma pelcula fechou-se sobre o passado enquanto ela falava, uma barreira quebradia e frgil como gua a se cristalizar em gelo. A barreira cresceria e 
ficaria mais densa. Tornar-se-ia impenetrvel, opaca. Norah sentiu isso e teve medo do que ocorreria se a barreira se quebrasse. Sim, eles levariam a vida adiante. 
Esse seria o presente dela para David e para Paul.
         Quanto a Phoebe, ela a manteria viva no corao.
         David envolveu-lhe o p numa toalha e se agachou sobre os calcanhares.
         - Escute, no nos imagino voltando para l - disse, agora mais meigo, depois de Norah haver cedido. - Mas poderamos voltar. Se voc realmente quiser, podemos 
vender esta casa e nos mudar de novo para l.
         - No. Agora ns moramos aqui - disse Norah.
         - Mas voc anda muito triste. Por favor, no fique triste. Eu no me esqueci, Norah. No me esqueci do nosso aniversrio. Nem de nossa filha. Nem de nada.
         - Ah, David - fez ela.- Deixei seu presente no carro.
         Pensou na mquina fotogrfica, nos anis e alavancas precisos. A guardi de memrias, dizia a embalagem, em letras brancas grifadas; tinha sido por isso, 
percebeu, que a havia comprado - para que o marido captasse cada momento, para que nunca se esquecesse.
         - Est bem - disse David, pondo-se de p. - Espere. Espere quietinha a.
         Desceu a escada correndo. Ela ficou mais um momento sentada na beirada da banheira, depois levantou-se e mancou pelo corredor at o quarto de Paul. O tapete 
era azul-escuro e espesso sob seus ps. Norah havia pintado nuvens nas paredes azul-claras e pendurado um mbile de estrelas acima do bero. Paul dormia sob as estrelas 
flutuantes, com o cobertor jogado para o lado e as mozinhas estendidas. Ela o beijou com delicadeza e ajeitou as cobertas, passando a mo pelo cabelo macio do filho, 
tocando-lhe a palma com o indicador. Ele j estava muito crescido, andando e comeando a falar. Aquelas noites, fazia quase um ano, em que Paul mamava com tanta 
intensidade e David tinha enchido a casa de narcisos, para onde teriam ido? Norah lembrou-se da mquina fotogrfica e de como havia percorrido a casa deserta, determinada 
a registrar cada detalhe, como uma barreira contra o tempo.
         - Norah?
         David entrou no quarto e parou atrs dela.
         - Feche os olhos.
         Uma linha fina luziu sobre sua pele. Ela baixou os olhos e viu as esmeraldas, uma longa fileira de pedras escuras, presas no fluxo dourado da corrente encostada 
em sua pele. Para combinar com o anel, ele estava dizendo. Para combinar com seus olhos.
         -  lindo - murmurou Norah, tocando o ouro clido. - Ah, David.
         As mos do marido estavam sobre seus ombros e, por um instante, Norah sentiu-se em meio ao som da gua que corria do moinho, com uma felicidade to plena 
quanto a noite a seu redor. No respire, pensou. No se mexa. Mas no havia como deter coisa alguma. L fora, a chuva caa mansinho e havia sementes palpitando sob 
a terra escura e molhada. Paul suspirou e se remexeu em seu sono. No dia seguinte, ele acordaria, cresceria e mudaria. Os trs levariam sua vida, um dia atrs do 
outro, afastando-se passo a passo da filha perdida.
          MARO DE 1965   A GUA DO CHUVEIRO CORRIA E O VAPOR RODOPIAVA, EMBAANDO O  espelho e a janela, nublando a lua plida. Caroline andava de um lado para 
outro no banheirinho roxo, apertando Phoebe no colo. A respirao dela estava curta e acelerada, o coraozinho batendo muito depressa. Fique boa, minha nenm, murmurava 
Caroline, afagando-lhe o cabelo escuro e macio. Melhore, minha menininha, fique boa. Fez uma pausa, cansada, para olhar a lua, uma mancha de luz aprisionada nos 
galhos dos pltanos, e a tosse de Phoebe recomeou, no fundo do peito. O corpo dela se enrijeceu sob as mos de Caroline, enquanto a menina expulsava o ar da garganta 
estreitada com sons agudos e chiados. Era um caso clssico de laringite. Caroline bateu nas costas de Phoebe, pouco maiores do que sua mo. Terminado o acesso de 
tosse, ela recomeou a andar, por medo de oscilar e dormir em p. Em mais de uma ocasio, nesse ano, acordara assustada e se descobrira de p com Phoebe ainda em 
segurana em seus braos, milagrosamente. Os degraus rangeram, depois as tbuas do piso, mais perto, e a porta roxa se abriu, deixando entrar uma rajada de ar frio. 
Dorothy, com um robe de seda preta por cima da camisola e os cabelos grisalhos caindo soltos sobre os ombros, entrou.
         - Est muito ruim? - perguntou. - O som  terrvel. Quer que eu pegue o carro?
         - Acho que no. Mas pode fechar a porta? O vapor ajuda.
          Dorothy fechou a porta e se sentou na beirada da banheira.
         - Acordamos voc - disse Caroline, com a respirao leve de Phoebe em seu pescoo. - Desculpe.
          Dorothy deu de ombros.
         - Voc sabe como eu sou com o sono. Estava acordada mesmo, lendo.
         - Alguma coisa interessante? - perguntou Caroline.
         Limpou a janela com o punho do roupo; o luar caa sobre as rvores do jardim, trs andares abaixo, e brilhava como gua na grama.
         - Revistas cientficas. Maantes como poeira, at para mim. A meta  pegar no sono.
          Caroline sorriu. Dorothy tinha doutorado em fsica; trabalhava na universidade, no departamento anteriormente dirigido por seu pai. Leo March, brilhante 
e renomado, estava na casa dos 80, fisicamente forte, mas sujeito a lapsos de memria e de raciocnio. Onze meses antes, Dorothy havia contratado Caroline como acompanhante 
dele.
         Era uma ddiva esse emprego, ela sabia. Caroline emergira do tnel de Fort Pitt, na ponte alta sobre o rio Monongahela, com as montanhas de esmeralda erguendo 
sedas plancies ribeirinhas e a cidade de Pittsburgh reluzindo de repente diante dela, imediata, vvida, to espantosa em sua vastido e beleza que ela havia perdido 
o flego e reduzido a velocidade, por medo de perder o controle do carro.
         Durante um longo ms, Caroline ficara morando num motel barato, na periferia da cidade, circulando anncios de emprego e vendo suas economias minguarem. 
Ao comparecer a essa entrevista, sua euforia inicial havia se transformado num pnico surdo. Ela havia tocado a campainha e parado na varanda, esperando. Narcisos 
de um amarelo vivo balanavam sobre a grama alta de primavera; na casa ao lado, uma mulher de roupo acolchoado varria a fuligem da escada. As pessoas dessa casa 
no se incomodaram com isso: a cadeirinha de automvel de Phoebe estava apoiada numa acumulao arenosa de vrios dias. Uma poeira que lembrava neve escurecida; 
as pegadas de Caroline eram ntidas s suas costas.
         Quando Dorothy March, alta e magra em seu elegante terninho cinza, finalmente abriu a porta, Caroline ignorou seu olhar desconfiado para Phoebe, levantou 
a cadeirinha e entrou. Sentou-se na beirada de uma cadeira meio bamba, cujas almofadas de veludo vinho tinham desbotado para um tom de rosa, exceto por alguns pontos 
escuros perto dos taches do estofamento. Dorothy March sentou-se de frente para ela, num sof de couro rachado, escorado por um tijolo numa das extremidades. Acendeu 
um cigarro. Passou vrios momentos estudando Caroline, com seus olhos azuis rpidos e vivos. No disse nada de imediato. Depois, pigarreou, exalando fumaa.
         - Para ser muito franca, eu no estava contando com um beb.
         Caroline lhe estendeu seu currculo.
         - Fui enfermeira durante 15 anos. Posso oferecer muita experincia e compaixo nesse cargo.
         Dorothy March havia segurado os papis com a mo livre, examinando-os.
         - , voc parece ter mesmo muita experincia. Mas aqui no diz onde trabalhou. Voc no foi nada especfica.
         Caroline havia hesitado. Tentara uma dzia de respostas diferentes a essa pergunta, em uma dzia de entrevistas diferentes nas semanas anteriores, e todas 
haviam resultado em nada.
         -  que eu fugi - dissera, quase zonza. - Fugi do pai da Phoebe. E por isso no posso lhe dizer de onde sou nem posso lhe dar nenhuma referncia. Essa  
a nica razo de eu j no estar empregada. Sou uma excelente enfermeira e, francamente, a senhora ter sorte se me contratar, considerando o que est oferecendo 
de salrio.
         Diante disso, Dorothy March dera uma risada nervosa, assustada.
         - Que afirmao atrevida! Minha cara, este  um trabalho para a pessoa residir no emprego. Por que razo no mundo eu correria esse risco com uma perfeita 
estranha?
         - Eu comeo agora, em troca de casa e comida - insistira Caroline, pensando no quarto de motel, com o papel de parede descascado e as manchas no teto, o 
quarto que ela no poderia pagar por mais uma noite. - Farei isso por duas semanas, e ento a senhora decide.
         O cigarro havia queimado at acabar na mo de Dorothy March. Ela o fitara e, em seguida, amassara-o no cinzeiro abarrotado.
         - Mas como  que voc conseguiria? E com um beb ainda por cima? Meu pai no  um homem paciente. No ser um paciente paciente, posso lhe assegurar.
         - Uma semana - respondera Caroline. - Se a senhora no gostar de mim em uma semana, irei embora.
         Agora, quase um ano havia se passado. Dorothy levantou-se, no banheiro de cores suavizadas pelo vapor. As mangas do robe de seda preta, estampadas de pssaros 
tropicais coloridos, escorregaram para seus cotovelos.
         - Deixe-me segur-la. Voc parece exausta, Caroline.
         O chiado no peito de Phoebe havia diminudo e sua cor tinha melhorado; as bochechas tinham um tom rosa plido. Caroline entregou-a, sentindo a friagem repentina 
de sua ausncia.
         - Como est o Leo hoje? - perguntou Dorothy. - Causou-lhe algum aborrecimento?
          Por um momento, Caroline no respondeu. Estava cansada demais e tinha percorrido uma longa distancia nesse ltimo ano, viajando de uma hora para outra, 
e sua vida cuidadosa e solitria havia sofrido uma profunda transformao. De algum modo, ela fora parar ali naquele minsculo banheiro roxo, como me de Phoebe, 
acompanhante de um homem brilhante com a mente fraca, e amiga improvvel, mas certeira, daquela mulher: estranhas um ano antes, mulheres que poderiam ter se cruzado 
na rua sem se olhar uma segunda vez, sem um lampejo de ligao, agora elas tinham suas vidas entremeadas pelas exigncias do dia-a-dia e por um respeito cauteloso 
e seguro.
         - Ele no queria comer. Acusou-me de ter posto saplio no pur de batatas. Portanto, um dia bem tpico, eu diria.
         - No  nada pessoal, voc sabe - disse Dorothy, baixinho. - Ele nem sempre foi assim.
         Caroline fechou o chuveiro e se sentou na beirada da banheira roxa.
         Dorothy fez sinal com a cabea para a janela embaada. As mos de Phoebe eram plidas como estrelas em contraste com seu robe.
         - Aquele era o nosso parquinho, l na montanha. Antes de construrem a auto-estrada. As garas costumavam fazer ninhos nas rvores, sabia? Mame plantou 
narcisos numa primavera, centenas de bulbos. Meu pai voltava todos os dias do trabalho no trem das seis, ia direto at l e colhia um ramo de flores para ela. Voc 
no o reconheceria.
         - Eu sei - disse Caroline, delicada. - Eu me dou conta disso.
         Calaram-se por um momento. A torneira pingava e o vapor rodopiava no ar.
         - Acho que ela dormiu - disse Dorothy. - Ser que vai ficar bem?
         - Vai. Acho que sim.
         - Qual  o problema dela, Caroline? - perguntou Dorothy, agora com voz decidida, as palavras numa precipitao resoluta. - Querida, eu no entendo nada 
de bebs, mas at eu percebo que h alguma coisa errada. A Phoebe  muito linda, muito meiga, mas h um problema, no h? Ela tem quase um ano e s agora est aprendendo 
a sentar.
         Caroline olhou para a lua pela janela riscada de vapor e fechou os olhos. Quando recm-nascida, Phoebe fora de uma quietude que parecia, mais do que qualquer 
outra coisa, uma ddiva de serenidade, de ateno, e Caroline permitiu-se acreditar que no havia nenhum problema. Depois dos seis meses, porm, quando a menina 
foi crescendo, mas continuou pequena para a idade, ainda sem fora nos braos, quando passou a acompanhar com os olhos um molho de chaves e, s vezes, a balanar 
os braos, mas sem nunca os estender para peg-lo, quando no deu sinal de se sentar sozinha, Caroline comeou a ir com ela  biblioteca em seu dia de folga. Nas 
amplas mesas de carvalho da Carnegie, nos sales arejados e espaosos, com seus tetos altos, ela havia empilhado livros e artigos e comeado a ler - viagens sombrias 
para instituies lgubres, vidas encurtadas, nenhuma esperana. Era uma sensao estranha, um buraco que se abria no estmago a cada palavra. No entanto, ali estava 
Phoebe, remexendo-se em sua cadeirinha de automvel, risonha, e acenando com as mos: um beb, no um relato de caso.
         - A Phoebe tem sndrome de Down - obrigou-se a responder. - O nome  esse.
         - Ah, Caroline! - fez Dorothy. - Sinto muito! Foi por isso que voc deixou seu marido, no foi? Voc disse que ele no a queria. Ah, meu bem, eu sinto muito, 
muito mesmo!
         - No fique triste - disse Caroline, estendendo os braos para pegar Phoebe de volta. - Ela  linda.
         - Ah, sim. Sim, ela . Mas, Caroline... O que acontecer com ela?
         Phoebe estava quentinha e pesada em seu colo, o cabelo escuro e macio caindo sobre o rosto plido. Caroline, protetora, tocou-lhe a face com toda a delicadeza.
         - O que acontecer com qualquer um de ns? Quero dizer, diga-me francamente, Dorothy: algum dia voc imaginou que sua vida seria assim?
         Dorothy desviou os olhos, com uma expresso de sofrimento no rosto. Anos antes, seu noivo tinha morrido ao pular de uma ponte no rio quando algum desafiou 
sua coragem. Ela havia chorado por ele e nunca se casara, no tivera os filhos que ansiara.
         - No - respondeu, por fim. - Mas  diferente.
         - Por qu? Diferente por qu?
         - Caroline - disse Dorothy, tocando-lhe o brao -, no vamos falar nisso. Voc est cansada. Eu tambm.
         Caroline acomodou Phoebe no bero, enquanto o som dos passos de Dorothy diminua, descendo a escada. Adormecida sob o brilho plido da luz da rua, a menina 
parecia uma criana qualquer, com o futuro to inexplorado quanto o leito dos oceanos, igualmente rico em possibilidades. Os carros corriam pela auto-estrada, com 
as luzes dos faris brincando na parede, e Caroline imaginou as garas alando vo no terreno pantanoso, levantando as asas na plida luz dourada do amanhecer. O 
que acontecer com ela? Na verdade, s vezes Caroline passava a noite em claro, lutando com essa mesma pergunta.
         Em seu quarto, as cortinas de croch, feitas e penduradas nas janelas pela me de Dorothy dcadas antes, projetavam sombras delicadas; o luar era to claro 
que se poderia ler. Sobre a escrivaninha estava um envelope com trs fotos de Phoebe ao lado de um papel dobrado em quatro. Caroline o abriu e leu o que tinha escrito:
         Caro Dr. Henry, Escrevo para dizer que estamos bem, Phoebe e eu. Estamos seguras e felizes. Tenho um bom emprego. De modo geral, Phoebe  um beb saudvel, 
apesar de freqentes preocupaes respira trias. Envio-lhe algumas fotografias. At o momento, cruze os dedos, ela no tem nenhum problema no corao.
          Deveria remeter essa carta - fazia semanas que a tinha escrito -, mas, toda vez que estava prestes a envi-la, pensava em Phoebe, no toque macio de suas 
mos ou nos sons que ela fazia quando ficava contente - e no conseguia. Nesse momento, tornou a pr a carta de lado e se deitou, resvalando prontamente para o limiar 
do sono. Uma vez, tivera um sonho com a sala de espera da clnica, com suas plantas murchas e o calor agitando as folhas, e acordara assustada, inquieta, sem saber 
direito onde estava.
         Aqui, disse a si mesma, tocando os lenis frios. Estou bem aqui.
           ...
         De manh, quando Caroline acordou, o quarto estava banhado de sol e inundado pelo som de trompetes. Phoebe, em seu bero, estendia os braos, como se as 
notas fossem borboletas ou vaga-lumes que ela pudesse pegar. Caroline ps uma roupa, vestiu a menina e levou-a para baixo, parando no segundo andar, onde Leo March 
estava instalado em seu ensolarado escritrio amarelo, com livros cados em toda a volta do sof-cama, no qual se deitara com as mos atrs da cabea, olhando para 
o teto. Caroline o observou do vo da porta - no tinha permisso de entrar naquele cmodo, a menos que fosse convidada -, mas ele no registrou sua presena. Idoso 
e calvo, com uma franja de cabelo grisalho, ainda usando a roupa da vspera, ele escutava atentamente a msica que estrondava dos alto-falantes, sacudindo a casa.
         - Quer tomar caf? - gritou ela.
         Leo abanou a mo, indicando que ele mesmo o buscaria. Bem, timo.
         Caroline desceu mais um lance de escada at a cozinha e comeou a preparar o caf. At mesmo l embaixo os trompetes se faziam ouvir vagamente. Ela sentou 
Phoebe na cadeirinha de alimentao e lhe deu pur de ma, ovo e queijo cottage. Trs vezes entregou-lhe a colher; trs vezes ela caiu com estardalhao na bandeja 
de metal.
         - No faz mal - disse Caroline em voz alta, mas com o corao apertado. A voz de Dorothy ecoou no ar: O que acontecer com ela? E que aconteceria? Aos 11 
meses, Phoebe j deveria ser capaz de segurar pequenos objetos.
         Caroline arrumou a cozinha e foi at a sala de jantar para dobrar a roupa tirada da corda; cheirava a vento. Phoebe ficou deitada de costas no cercadinho, 
batendo nas argolas e brinquedos que Caroline pendurara acima dela. De vez em quando, a enfermeira interrompia seu trabalho e ia ajeitar os objetos de cores vivas, 
na esperana de que Phoebe, atrada por seu brilho, virasse de bruos.
         Aps cerca de meia hora, a msica cessou abruptamente e os ps de Leo apareceram na escada, em sapatos de couro amarrados e lustrados com preciso, com 
uma tira de tornozelo branco e sem meias aparecendo de relance abaixo das pernas das calas, que eram curtas demais. Aos poucos, todo ele entrou no campo visual 
- um homem alto, antes forte e musculoso, agora com a pele balanando flcida sobre o esqueleto ossudo.
         - Ah, que bom - disse ele -, andvamos precisando de uma empregada.
         - Caf? - perguntou ela.
         - Eu mesmo pego.
         - Ento, v em frente.
         - Na hora do almoo voc estar despedida - Leo gritou da cozinha.
         - V em frente - repetiu Caroline.
         Ouviu-se uma cascata de panelas caindo e a voz do velho xingando. Caroline o imaginou agachando-se para empurrar o emaranhado de utenslios para dentro 
do armrio. Deveria ir ajud-lo - mas no, ele que se arranjasse. Nas primeiras semanas, ela tivera medo de responder mal, medo de no atender de um salto toda vez 
que Leonard March a chamava, at que um dia Dorothy a puxara de lado. Escute, voc no  empregada. Sua responsabilidade  comigo; voc no tem que ficar  disposio 
dele. Est indo muito bem, e voc tambm mora aqui, dissera ela, e Caroline havia entendido que seu perodo de experincia tinha chegado ao fim.
         Leo entrou, carregando um prato de ovos e um copo de suco de laranja.
         - No se preocupe - disse, antes que ela pudesse falar. - Apaguei a porcaria do fogo. E agora vou levar meu caf da manh l para cima e comer em paz.
         - Veja como fala - disse Caroline.
         Ele resmungou uma resposta e subiu a escada, pisando duro. Caroline interrompeu o trabalho, de repente  beira das lgrimas, e ficou observando um cardeal 
pousar na moita de lilases, do lado de fora da janela, e depois voar. O que ela estava fazendo ali? Que anseio a levara a essa deciso radical, a esse lugar sem 
volta? E o que, afinal, aconteceria com ela?
         Passados alguns minutos, os trompetes recomearam l em cima e a campainha da porta tocou duas vezes. Caroline tirou Phoebe do cercado.
         - Eles chegaram - disse, secando os olhos com o pulso. - Hora do exerccio.
         Sandra estava parada na varanda e, quando Caroline abriu, ela irrompeu porta adentro, segurando Tim por uma das mos e arrastando um grande saco de pano 
com a outra. Era alta, de ossos grandes, loura e vigorosa; sentou-se sem cerimnia no meio do tapete, derrubando os brinquedos de montar numa pilha.
         - Desculpe o atraso - disse. - O trnsito est um horror. Voc no fica doida, morando to perto assim da via expressa? Isso me deixaria biruta. Enfim, 
olhe s o que eu achei. Olhe para esses brinquedos geniais de montar: plstico, cores diferentes. O Tim os adora.
         Caroline tambm se sentou no cho. Como Dorothy, Sandra era uma amiga improvvel, algum com quem Caroline jamais se relacionaria em sua vida anterior. 
Tinham se conhecido na biblioteca, num dia lgubre de janeiro em que, saturada de especialistas e de estatsticas sombrias, Caroline havia fechado um livro com fora, 
em desespero. Sandra, duas mesas adiante, em meio a sua prpria pilha de livros, cujas lombadas e capas eram terrivelmente familiares para Caroline, levantara os 
olhos. Ah, eu sei exatamente o que voc est sentindo. Fico com tanta raiva que seria capaz de quebrar uma janela.
         As duas tinham comeado a conversar, a princpio cautelosamente, depois aos borbotes. O filho de Sandra, Tim, estava com quase quatro anos. Tambm tinha 
sndrome de Down, mas no comeo Sandra no soubera. Que ele se desenvolvia mais devagar do que seus outros trs filhos, isso ela havia notado, mas, para Sandra, 
lento era apenas lento e no servia de desculpa para nada. Como me atarefada, ela simplesmente esperara que Tim fizesse o que os outros filhos tinham feito e, se 
ele levasse mais tempo, tudo bem. Aos dois anos, ele andava; aos trs, havia controlado os esfncteres. O diagnstico tinha chocado a famlia, e a sugesto do mdico 
- de que o menino fosse internado numa instituio - enraivecera Sandra e a instigara a agir.
         Caroline havia escutado atentamente, animando-se a cada palavra.
         As duas tinham sado da biblioteca para tomar um caf. Caroline jamais se esqueceria daquelas horas, da empolgao que sentira, como se despertasse de um 
sonho longo e lento. O que aconteceria, conjecturaram as duas, se elas simplesmente continuassem a presumir que seus filhos fariam tudo? Talvez no depressa. Talvez 
no de acordo com as regras. Mas e se elas simplesmente apagassem aquelas tabelas de crescimento e desenvolvimento, com seus pontos e curvas exatos e restritivos? 
E se conservassem suas expectativas, mas apagassem a linha temporal? Que mal poderia fazer? Por que no tentar?
         Sim, por que no? Elas haviam comeado a se encontrar, ali ou na casa de Sandra, com seus meninos mais velhos e bagunceiros. Carregavam livros e brinquedos, 
pesquisas e histrias e suas experincias pessoais - as de Caroline como enfermeira, as de Sandra como professora primria e me de quatro filhos. Grande parte era 
apenas bom senso. Se Phoebe precisava aprender a virar de bruos, era s colocar uma bola brilhante um pouco alm do seu alcance; se um precisava trabalhar a coordenao, 
era dar-lhe uma tesoura cega e papel brilhante e deix-lo recortar. O progresso era lento, s vezes invisvel, mas, para Caroline, aquelas horas haviam se transformado 
numa fonte de salvao.
         - Hoje voc parece cansada - disse Sandra.
         Caroline assentiu com a cabea. - A Phoebe teve laringite esta noite. Na verdade, no sei quanto tempo ela vai agentar. Alguma novidade sobre os ouvidos 
do Tim?
         - Gostei do novo mdico - disse Sandra, reclinando-se. Seus dedos eram longos e de pontas grossas; ela sorriu para Tim e lhe entregou uma xcara amarela. 
- Ele me pareceu compassivo. No nos descartou pura e simplesmente. Mas a noticia no  muito boa. O Tim tem uma certa perda auditiva, e provavelmente  por isso 
que a fala tem demorado tanto. Tome, benzinho - acrescentou, dando um tapinha na xcara que ele deixara cair. - Mostre  Srta. Caroline e a Phoebe o que voc sabe 
fazer.
         Tim no estava interessado; voltara a ateno para a felpa do tapete, que alisava repetidamente, fascinado e encantado. Mas Sandra era firme, calma e decidida. 
Por fim, ele pegou a xcara amarela, encostou a borda na bochecha por um instante, depois a colocou no cho e comeou a empilhar outras numa torre.
         Nas duas horas seguintes, ambas brincaram com os filhos e conversaram. Sandra tinha opinies slidas sobre tudo e no tinha medo de dizer o que pensava. 
Caroline adorava sentar-se na sala e conversar com essa mulher inteligente e ousada, de me para me. Nessa poca, muitas vezes ela sentia saudade da prpria me, 
morta j fazia quase 10 anos, e tinha vontade de lhe telefonar e pedir conselhos ou simplesmente passar pela casa dela para v-la segurar Phoebe no colo. Ser que 
sua me sentira tudo isso - o amor e a frustrao - enquanto Caroline crescia? De repente, Caroline compreendeu sua infncia de outra maneira. A preocupao constante 
com a plio - aquilo, a seu modo estranho, tinha sido amor. E o trabalho rduo do pai, sua concentrao cuidadosa nas finanas da famlia  noite, aquilo tambm 
era amor.
         Caroline no tinha a me, mas tinha Sandra, e as manhs que passavam juntas eram o ponto alto de sua semana. Puseram-se a contar histrias de vida, trocando 
idias e sugestes sobre a funo dos pais, riram juntas quando Tim tentou empilhar as xcaras em suas cabeas, enquanto Phoebe se esforava para alcanar a bola 
cintilante, at que, por fim, a despeito de si mesma, ela virou de bruos. Nessa manh, ainda preocupada, Caroline balanou vrias vezes as chaves do carro diante 
de Phoebe. Elas reluziam, captando a luz da manh, e as mozinhas de Phoebe se abriam, esticadas como estrelas-do-mar. A msica, as partculas de luz: ela tambm 
estendeu as mos para as chaves. No entanto, por mais que tentasse, no conseguiu peg-las.
         - Da prxima vez - disse Sandra. - Espere s para ver. Vai acontecer.
         Ao meio-dia, Caroline ajudou-os a levarem as coisas para o carro, depois ficou na varanda com Phoebe no colo, j cansada, mas tambm contente, acenando 
enquanto Sandra se afastava com sua caminhonete. Quando entrou, o disco de Leo havia emperrado, tocando repetidamente os mesmos trs compassos.
         Velho rabugento, pensou com seus botes, e comeou a subir a escada.
         - No pode diminuir isso? - falou, exasperada, ao abrir a porta. Mas o disco estava pulando num cmodo vazio. Leo havia sumido.
         Phoebe comeou a chorar, como se tivesse uma espcie de barmetro interno para medir o conflito e a tenso. Ele devia ter escapulido pelos fundos enquanto 
Caroline ajudava Sandra. Ah, Leo era esperto, embora, nos ltimos tempos, s vezes deixasse os sapatos na geladeira. Sentia grande prazer em lhe pregar peas desse 
tipo. J tinha fugido trs vezes, uma delas nu em plo.
         Caroline desceu correndo e enfiou os ps num par de mocassins de Dorothy, um nmero menor que o seu, enregelada. Um casaco para Phoebe, aninhada no carrinho; 
quanto a ela mesma, iria sem agasalho.
         O dia ficara nublado, com nuvens baixas e cinzentas. Phoebe choramingou, agitando as mozinhas, quando elas passaram pela garagem em direo ao beco. Eu 
sei, murmurou Caroline, afagando-a na cabea. Eu sei, benzinho, eu sei. Avistou uma pegada de Leo numa crosta de neve semiderretida - a sola quadriculada de suas 
botas - e sentiu uma onda de alvio. Ento, ele fora por ali, e estava vestido.
         Bem, pelo menos estava de botas.
         No fim do quarteiro seguinte, ela chegou aos 105 degraus que desciam at o Campo Koenig. Leo  que lhe tinha dito quantos eram, numa noite em que exibira 
um estado de nimo mais civilizado no jantar. Agora, l estava ele na base da longa cascata de cimento, com as mos balanando junto ao corpo, o cabelo espigado 
e um ar to perplexo, to perdido e to aflito que a raiva de Caroline se desfez. Ela no gostava de Leo March - no era o tipo de pessoa de quem se gostasse -, 
mas a animosidade que pudesse sentir por ele era complicada pela compaixo. E que, em momentos assim, ela percebia como era o mundo para esse homem e via um ancio 
senil e esquecido, e no o universo que tinha sido e ainda era Leo March.
         Leo virou-se, a viu e, passado um momento, a confuso dissipou-se em seu rosto.
         - Veja isto! - gritou ele. - Veja isto, mulher, e chore!
         Rapidamente, indiferente ao gelo, um riacho cristalizado que descia pelo centro dos degraus, Leo subiu correndo em direo a ela, bombeando as pernas, alimentadas 
por alguma antiga adrenalina e pela necessidade.
         - Aposto que voc nunca viu nada assim - disse, ao chegar ao topo, sem flego.
         - Tem razo. Nunca vi. E espero nunca ver de novo - disse Caroline.
         Leo riu, com um rosa vvido nos lbios, contrastando com a pele branca feito um lenol.
         - Fugi de voc - disse ele.
         - No chegou muito longe.
         - Mas podia ter chegado. Se quisesse. Da prxima vez.
         - Da prxima vez, leve um casaco - recomendou Caroline.
         - Da prxima vez - disse ele, enquanto comeavam a andar -, vou desaparecer em Timbuctu.
         - Faa isso - retrucou Caroline, sentindo-se invadir por uma onda de cansao. Flores roxas e brancas de aafro brotavam da relva brilhante; agora, Phoebe 
comeara a chorar para valer. Caroline estava aliviada por levar Leo a reboque, por t-lo encontrado so e salvo, e se sentia grata por ter sido evitada uma desgraa. 
Seria culpa sua se o velho se perdesse ou se machucasse, por ela estar to concentrada em Phoebe, que vinha estendendo as mos havia vrias semanas e ainda no aprendera 
a segurar.
         Deram mais alguns passos em silncio.
         - Voc  uma mulher inteligente - disse Leo.
         Ela estancou na calada, atnita.
         - Como? O que foi que disse?
         Leo a encarou, lcido, exibindo nos olhos o mesmo azul vivo e perscrutador dos olhos de Dorothy.
         - Eu disse que voc  inteligente. Minha filha contratou oito enfermeiras diferentes antes de voc. Nenhuma delas durou mais de uma semana. Aposto que voc 
no sabia disso.
         - No - disse Caroline. - No, eu no sabia.
           ...
         Mais tarde, enquanto limpava a cozinha e levava o lixo para fora, Caroline pensou nas palavras de Leo. Sou inteligente, disse a si mesma, parada no beco, 
junto ao lato de lixo. O ar estava mido e frio. Sua respirao saa em pequenas nuvens. Inteligncia no lhe arranjar um marido, disse a voz de sua me numa resposta 
rspida, mas nem isso diminuiu seu prazer pelas primeiras palavras gentis que Leo j lhe dirigira.
         Ficou parada mais um momento na friagem, grata pelo silncio. As garagens inclinavam-se em ziguezague, uma atrs da outra, ladeira abaixo. Pouco a pouco, 
Caroline se deu conta de uma figura parada na base da alameda. Um homem alto, de jeans escuros e jaqueta marrom - cores to discretas que ele quase se tornava mais 
uma parte da paisagem de fim de inverno. Alguma coisa nele - alguma coisa em seu jeito de parar e olhar intensamente na direo dela - deixou Caroline inquieta. 
Ela reps a tampa na lata de lixo e cruzou os braos. Agora ele vinha andando em sua direo, um homem grande, de ombros largos e andar ligeiro. Sua jaqueta no 
tinha nada de marrom, e sim um quadriculado plido com riscas vermelhas. Ele tirou do bolso um bon vermelho vivo e o ps na cabea. Caroline sentiu-se estranhamente 
 vontade com esse gesto, embora no soubesse por qu.
         - Ol - fez ele. - Aquele Fairlane tem funcionado direito com voc ultimamente? A apreenso de Caroline se aprofundou e ela se virou para a casa, com seus 
tijolos escuros erguendo-se contra o cu branco. Sim, l estava seu banheiro, onde ela passara a noite anterior olhando a lua no jardim. L estava sua janela, parcialmente 
aberta para o ar frio da primavera, com o vento balanando as cortinas rendadas. Quando ela tornou a se virar, o homem havia parado a poucos passos de distncia. 
Caroline o conhecia e compreendeu isso com o corpo, com o alvio que sentiu, antes de conseguir formul-lo em pensamento. Depois foi tudo to bizarro que ela mal 
pode acreditar.
          - Mas como foi que... - comeou.
         - No foi fcil - disse Al, rindo. Deixara crescer uma barba fofa e seus dentes brancos reluziram por um instante. Nos olhos escuros tinha uma expresso 
calorosa, satisfeita e divertida. Caroline lembrou-se dele servindo bacon em seu prato, acenando da cabine prateada do caminho ao se afastar.
         - Voc  uma moa difcil de achar. Mas tinha falado em Pittsburgh. Acontece que eu fao uma parada aqui a cada duas semanas, mais ou menos. Procurar Voc 
virou uma espcie de hobby - continuou ele, e sorriu. - Agora, no sei o que farei de mim.
          Caroline no conseguiu responder. Sentia prazer em v-lo, mas havia tambm uma grande confuso. Durante quase um ano, ela no se permitira pensar muito 
na vida que deixara para trs, mas, nesse momento, tudo ressurgiu com grande fora e intensidade: o cheiro de desinfetante e o sol na sala de espera, a sensao 
de voltar para seu apartamento tranqilo e ordeiro, no fim de um longo dia de trabalho, preparar uma refeio modesta e se sentar  noite com um livro. Ela abrira 
mo voluntariamente desses prazeres, abraara essa mudana, por algum anseio profundo e no reconhecido. E agora seu corao palpitava. Ela fitou a alameda, perturbada, 
como se, sbito, tambm pudesse ver David Henry. Era por isso, compreendeu de repente, que nunca tinha enviado aquela carta. E se ele quisesse Phoebe de volta, ou 
se Norah a quisesse? Essa possibilidade encheu-a de uma onda excruciante de medo.
         - Como foi que voc fez? - perguntou. - Como me encontrou? Por qu?
         Surpreso, Al deu de ombros.
         - Dei uma passada em Lexington para dar um al. Seu apartamento estava vazio. Em pintura. Aquela sua vizinha me disse que fazia trs semanas que voc tinha 
ido embora. Acho que no gosto de mistrios, porque continuei a pensar em voc - e fez uma pausa, como se debatesse se devia ou no continuar. - E depois... diabos, 
eu gostei de voc, Caroline, e imaginei que voc devia estar passando por algum aperto, para sumir de uma hora para outra daquele jeito. Com certeza estava com todo 
o ar de encrencada naquele dia, parada no estacionamento. Achei que talvez eu pudesse dar uma mozinha. Achei que talvez voc precisasse.
         - Eu estou muito bem - disse ela. - E, agora, o que voc est imaginando?
         Caroline no tivera a inteno de que as palavras sassem como saram, to duras e rspidas. Fez-se um longo silncio antes de Al recomear a falar.
         - Acho que estou percebendo que me enganei com umas coisas - fez ele. Balanou a cabea. - Pensei que a gente tivesse se dado bem, voc e eu.
         - E nos demos - disse Caroline. - S estou surpresa, s isso. Achei que eu tinha cortado todos os meus laos.
         Al pousou nela os olhos castanhos e os dois se fitaram.
         - Levei um ano inteiro. Se voc est com medo que algum mais a descubra, lembre-se disso. E eu sabia por onde comear. e dei sorte. Comecei a verificar 
os motis que eu conheo, perguntando por uma mulher com um beb. A cada vez eu ia a um lugar diferente e, na semana passada, acertei na mosca. A recepcionista do 
lugar em que voc se hospedou lembrou-se de voc. Ela vai se aposentar na semana que vem, alis. Cheguei pertinho assim de perd-la para sempre - concluiu, juntando 
o polegar e o indicador.
         Caroline acenou com a cabea, lembrando-se da mulher atrs do balco, com a cabeleira branca presa num coque cuidadoso e os brincos de prola reluzentes. 
O motel estava com sua famlia havia 50 anos, O aquecimento chacoalhava a noite inteira e as paredes viviam constantemente midas, fazendo o papel descascar. Hoje 
em dia, dissera a mulher, empurrando a chave por cima do balco, nunca se sabe quem vai entrar pela porta.
         Al gesticulou com a cabea para o cap azul-claro do Fairlane.
          -        Eu soube que a tinha encontrado no minuto em que vi isso - comentou. - Como vai a nenm?
         Caroline lembrou-se do estacionamento deserto, de toda a luz que se havia derramado na neve e desaparecido, do modo como a mo dele tinha pousado, com toda 
a delicadeza, na testa minscula de Phoebe.
         - Voc quer entrar? - ouviu-se perguntar. - Eu ia mesmo acord-la. E lhe fao um ch. Conduziu-o pela calada estreita e pelos degraus da varanda dos fundos. 
Deixou-o na sala de jantar e subiu a escada, sentindo-se zonza, sem firmeza, como se de repente houvesse entendido que o planeta sob seus ps girava no espao, deslocando 
seu mundo, por mais que ela tentasse mant-lo imvel. Trocou a fralda de Phoebe e borrifou gua em seu prprio rosto, procurando acalmar-se.
         Al estava sentado  mesa da sala de jantar, olhando pela janela. Virou-se quando ela desceu a escada e seu rosto se abriu num largo sorriso. Estendeu os 
braos para Phoebe no mesmo instante, exclamando o quanto ela havia crescido, como estava bonita. Caroline sentiu uma onda de prazer, e Phoebe, encantada, riu, com 
seus cachos escuros caindo em volta do rosto. Al enfiou a mo na camisa e puxou um medalho - plstico transparente envolvendo letras turquesa e douradas, que diziam 
GRAND OLE OPRY. Contou que o comprara em Nashville. Venha comigo, dissera ele, todos aqueles longos meses antes, de brincadeira, mas, ao mesmo tempo, falando srio.
         E agora estava ali, depois de percorrer todo aquele caminho para encontr-la.
         Phoebe emitia sons suaves, estendendo os braos. Suas mos roavam o pescoo de Al, sua clavcula, sua camisa xadrez escura. No comeo, Caroline no se 
deu conta do que estava acontecendo, depois, de repente, percebeu. O que quer que Al estivesse dizendo ficou em segundo plano, fundindo-se com os passos de Leo no 
andar de cima e com a pressa do trnsito l fora - sons dos quais desde ento Caroline se lembraria como sons que davam sorte.
         Phoebe estava estendendo a mo para o medalho. No sacudindo-a no ar, como fizera de manh, mas usando o peito de Al para encontrar resistncia, com os 
dedinhos arranhando o medalho contra a palma da mo, at conseguir fechar o punho em volta dele. Radiante com o sucesso, puxou-o com fora da corrente, o que fez 
Al levar a mo ao ponto de atrito.
         Caroline tambm levou a mo ao pescoo, sentindo a ardncia sbita da alegria. Isso mesmo, pensou. Agarre-o, minha querida. Agarre o mundo.
           MAIO DE 1965
         NORAH SEGUIA  FRENTE DELE, DESLOCANDO- SE COMO UM RAIO,  lampejos de branco e azul em meio s rvores, ora visvel, ora no. David ia atrs, abaixando-se 
de vez em quando para catar pedras. Geodos de superfcie spera, fsseis entalhados no xisto. Em dado momento, uma ponta de flecha. David segurava cada um deles 
por um instante, satisfeito com o peso e a forma, com a frieza das pedras na palma da mo, antes de enfi-los nos bolsos. Quando menino, as prateleiras de seu quarto 
sempre tinham sido cobertas de pedras e, at essa idade, ele no conseguia deix-las de lado, com seus mistrios e possibilidades, embora lhe fosse difcil abaixar-se 
nesse momento, com Paul preso ao seu peito e a mquina fotogrfica raspando em seus quadris.
         L adiante, Norah parou para dar um aceno, depois pareceu sumir numa parede de pedra cinzenta e lisa. Vrias outras pessoas, todas com o mesmo bon azul 
de beisebol, surgiram de repente, uma a uma, do mesmo paredo cinza. Ao se aproximar, David percebeu que a escada que levava  ponte natural de pedra comeava ali, 
pouco adiante de seu campo visual.
         - Olhe bem onde pisa - disse-lhe uma mulher que descia. -  to ngreme que nem d para acreditar. E escorregadia tambm.
         Sem flego, ela parou e ps a mo no peito.
         Notando sua palidez e a falta de ar, David estancou:
         - Senhora? Eu sou mdico. A senhora est bem?
         - Palpitaes - respondeu a mulher, abanando a mo livre. - Tenho sofrido disso a vida inteira.
         David segurou-lhe o pulso gorducho e mediu seus batimentos, rpidos mas firmes, que foram diminuindo  medida que ele contava. Palpitaes: as pessoas usavam 
esse termo livremente para falar de qualquer acelerao cardaca, mas ele logo percebeu que a mulher no estava realmente em sofrimento. No como a irm dele, que 
crescera com tonteiras e falta de ar e era obrigada a se sentar toda vez que simplesmente atravessava a sala correndo. Problema de corao, dissera o mdico de Morgantown, 
balanando a cabea. No fora mais especifico, e no tinha importncia, no havia nada que ele pudesse fazer. Anos depois, na faculdade de medicina, David se recordara 
dos sintomas da irm e lera at alta madrugada para fazer seu prprio diagnstico: um estreitamento da aorta, ou, quem sabe, uma anormalidade na vlvula cardaca. 
June tinha exibido movimentos lentos e dificuldade para respirar, seu estado piorara com o passar dos anos e a pele havia ficado plida e levemente azulada nos meses 
que antecederam sua morte. Ela adorava borboletas, ficar de p com o rosto virado para o sol, de olhos fechados, e comer gelia feita em casa com as bolachas de 
sal fininhas que sua me comprava no centro da cidade. June estava sempre cantando, inventava melodias que cantarolava baixinho s para si, e tinha o cabelo claro, 
quase branco, da cor do leite. Durante meses, depois da morte da irm, David acordava de madrugada pensando ter ouvido a vozinha dela cantando como o vento nos pinheiros.
         - A senhora disse que tem tido isso a vida inteira? - perguntou  mulher em tom grave, soltando sua mo.
         - Ah, sempre - fez ela. - Os mdicos me dizem que no  grave. S incmodo.
         - Bom, acho que a senhora vai ficar bem. Mas no se esforce demais - disse David.
         Ela agradeceu, afagou a cabea de Paul e disse:
         - E o senhor, trate de tomar cuidado com o baixinho.
         David agradeceu com um aceno e seguiu adiante, protegendo a cabea de Paul com a mo livre enquanto subia a escada entre as paredes midas de pedra. Estava 
contente - era bom poder ajudar as pessoas necessitadas, oferecer-se para trat-las, coisa que ele parecia no conseguir fazer por aqueles a quem mais amava. Paul 
dava tapinhas de leve em seu peito, segurando o envelope que David enfiara no bolso: uma carta de Caroline Gil, entregue em seu consultrio naquela manh. Ele s 
a lera uma vez, rapidamente, e a pusera de lado com a chegada de Norah, procurando esconder sua agitao. Estamos bem, Phoebe e eu, dizia. At o momento, ela no 
tem nenhum problema no corao.
         David segurou os dedinhos de Paul delicadamente. O filho levantou a cabea, olhinhos arregalados, curioso, e ele sentiu uma onda profunda e rpida de amor.
          - Ei - disse-lhe, sorrindo-, eu amo voc, rapazinho. Mas no coma isso, est bem? Paul o estudou com seus olhos grandes e escuros, depois virou a cabea 
e apoiou o        rosto no peito de David, irradiando calor. Usava um chapeuzinho branco com patos amarelos que Norah havia bordado nos dias calmos e vigilantes 
que se seguiram a seu acidente. A cada pato surgido, David tinha respirado com um pouco mais de alvio. Ele vira a tristeza de sua mulher, o buraco que a dor lhe 
deixara no corao, ao mandar revelar o filme da nova mquina fotogrfica: um aps outro, os cmodos vazios da casa antiga, doses dos caixilhos das janelas, as sombras 
ntidas do corrimo da escada, as lajotas do piso, enviesadas e tortas. E as pegadas de Norah, aquela trilha instvel e ensangentada. Ele jogara as fotos no lixo, 
inclusive os negativos, mas elas ainda o assombravam. David temia que sempre o assombrassem. Afinal, ele havia mentido: tinha dado a filha dos dois. Que houvesse 
conseqncias terrveis parecia inevitvel e justo. Mas os dias tinham passado, agora fazia quase trs meses, e Norah parecia ter voltado ao que era antes. Cuidava 
do jardim, ria ao telefone com as amigas, ou levantava Paul do cercadinho com seus braos magros e graciosos. Observando-a, David dissera a si mesmo que ela estava 
feliz.
         Agora, os patinhos balanavam alegremente a cada passo, captando a luz do sol, quando David saiu da escada estreita para a ponte natural de pedra que cruzava 
o desfiladeiro. Norah, de short de brim e blusa branca sem mangas, estava no centro da ponte, com as pontas dos tnis brancos avermelhadas pelas bordas rochosas. 
Lentamente, com a graa de uma bailarina, ela abriu os braos e arqueou as costas, de olhos fechados, como quem se oferecesse ao cu.
         - Norah! - David chamou, horrorizado. - Isso  perigoso!
         Paul empurrou o peito de David com as mozinhas. Oso, repetiu, ao ouvir o pai dizer perigoso - uma palavra usada na fala com os bebs para classificar tomadas 
eltricas, escadas, lareiras, cadeiras e, agora, a queda vertiginosa que se estendia at o fundo do penhasco sob os ps de sua me.
         -  espetacular! - respondeu Norah, deixando cair os braos. Virou-se, fazendo as pedrinhas deslizarem sob seus ps e escorregarem pela borda. - Venha ver!
         Com cautela, ele subiu na ponte e se colocou ao lado da mulher, na beirada. L embaixo, figuras minsculas moviam-se devagar na trilha em que um dia correra 
um rio. Agora, as colinas subiam e desciam numa primavera exuberante, com centenas de matizes diferentes de verde contrastando com o lmpido cu azul. David respirou 
fundo, lutando contra uma onda de vertigem, com medo at de olhar Norah de relance. Ele quisera poup-la, proteg-la da morte e do sofrimento; no tinha entendido 
que a morte a acompanharia de qualquer modo, moldando a vida com a mesma persistncia de uma corrente fluvial. Tambm no tinha previsto sua prpria tristeza crescente, 
entremeada com os fios escuros de seu passado. Quando imaginava a filha de que abrira mo, era o rosto de sua irm que ele via, com os cabelos plidos e o sorriso 
srio.
         - Deixe eu bater uma foto - disse, dando um passo atrs, depois outro. - Venha para o meio da ponte. A luz  melhor.
         - Num minuto - disse ela, com as mos nas cadeiras. -  lindo mesmo.
         - Norah, voc est realmente me deixando nervoso.
         - Ah, David - retrucou ela, balanando a cabea sem olh-lo. - Por que voc se preocupa o tempo todo? Eu estou tima.
         Ele no respondeu, consciente do movimento dos prprios pulmes, da profunda irregularidade de sua respirao. Tivera a mesma sensao ao abrir a carta 
de Caroline, endereada a seu antigo consultrio na letra descuidada da enfermeira, parcialmente coberta pelo selo. Trazia um carimbo de Toledo, em Ohio. Ela havia 
anexado trs fotografias de Phoebe, um beb de vestido cor-de-rosa. O endereo da remetente era uma caixa postal em Cleveland, no em Toledo. Cleveland, um lugar 
onde ele nunca estivera, o lugar em que Caroline Gill parecia estar morando com sua filha.
         - Vamos sair daqui - disse ele, por fim. - Deixe eu tirar sua foto.
         Ela fez que sim, mas, quando ele alcanou a segurana do centro da ponte e se virou, Norah ainda estava perto da beirada, de frente para ele, com os braos 
cruzados, sorridente.
         - Tire-a aqui mesmo. Vai dar a impresso de que estou andando no ar.
         David agachou-se, mexendo nos controles da cmera, sentindo o calor irradiar-se das pedras douradas e nuas. Paul contorceu-se em seu colo e comeou a se 
agitar. David se lembraria disso tudo - que no foi visto nem registrado - quando a imagem comeasse a emergir na soluo reveladora, mais tarde, tomando forma lentamente. 
Enquadrou Norah no visor, com o vento a lhe balanar o cabelo, a pele morena e saudvel, e pensou em tudo que a mulher lhe escondia.
         O ar primaveril era clido e suavemente perfumado. Eles desceram a trilha, passando por entradas de cavernas e ramas de rododendros roxos e loureiros da 
montanha. Norah os levou para fora da trilha principal e os conduziu por entre as rvores, acompanhando um riacho, at emergirem num local ensolarado de que ela 
se lembrava por seus morangos silvestres. O vento soprava de leve na grama alta, e as folhas verde-escuras dos morangueiros tremeluziam baixas, junto  terra. O 
ar estava carregado de um aroma doce, do zumbir dos insetos e de calor.
         Estenderam seu piquenique no cho: queijo, biscoitos e cachos de uva. David sentou-se no cobertor, acomodando a cabea de Paul contra o peito enquanto o 
desamarrava, pensando vagamente em seu prprio pai, corpulento e forte, cujos dedos hbeis e rudes cobriam as mos de David ao lhe ensinar a levantar um machado 
ou a ordenhar a vaca, ou a bater um prego nas tbuas de cedro. Seu pai, que cheirava a suor e resina e  terra escura e oculta das minas em que trabalhava durante 
o inverno. Mesmo na adolescncia, quando passava a semana inteira numa penso na cidade, para poder cursar o cientfico, David adorava voltar para casa nos fins 
de semana e l encontrar o pai, fumando seu cachimbo na varanda.
         Oso, disse Paul. Uma vez solto, tirou no mesmo instante um dos ps do sapato. Estudou-o atentamente, soltou-o quase de imediato e saiu engatinhando em direo 
ao mundo relvado fora do cobertor. David o viu arrancar um punhado de grama e lev-lo  boca, com um olhar de surpresa lampejando em seu rostinho ao sentir a textura. 
Sbito, David desejou ardentemente, furiosamente, que seus pais estivessem vivos para conhecer o neto.
         - Ruim, no ? - disse, baixinho, ao filho, tirando a grama babada de seu queixo. Norah se movimentava ao lado dele, calada, eficiente, pegando os talheres 
e os guardanapos. David manteve o rosto virado; no queria que ela o visse to agitado pela emoo. Tirou um geodo do bolso e Paul o segurou com as duas mos, girando-o.
         - Ele pode pr isso na boca? - perguntou Norah, acomodando-se ao lado do marido, to perto que ele sentiu seu calor e seu aroma de suor e sabonete enchendo 
o ar.
         -  provvel que no - David respondeu, recuperando a pedra e dando um biscoito a Paul, em lugar dela. O geodo era morno e mido. David deu uma pancada 
forte na rocha, abrindo-a e revelando seu interior roxo e cristalino.
         - Que lindo - murmurou Norah, girando-o entre os dedos.
         - Mares antigos - disse David. - A gua ficou presa a dentro e se cristalizou, ao longo dos sculos.
         Eles comeram sem pressa, depois colheram morangos silvestres, quentes de sol e macios. Paul os comeu aos punhados, com o sumo a lhe escorrer pelos pulsos. 
Dois gavies circulavam preguiosamente no cu azul profundo. Sainho, disse Paul, erguendo um dedo gorducho para apontar. Depois, quando ele adormeceu, Norah o acomodou 
num cobertor  sombra, sobre a relva.
         - Isto  bom - comentou Norah, acomodando-se encostada num pedregulho.
          - S ns trs, sentados ao sol.
         Estava descala, e David tomou-lhe os ps entre as mos, massageando-os, sentindo os ossos delicados que se escondiam sob a carne.
         - Ah, isso  bom mesmo - disse ela. - Voc vai me fazer dormir.
         - Fique acordada - ele pediu. - Diga-me no que est pensando.
         - No sei. Estava s lembrando de uma pequena campina perto da criao de ovelhas. Quando Bree e eu ramos pequenas, costumvamos esperar papai l. Colhamos 
ramos enormes de amarelinhas e cenouras silvestres, O sol era exatamente como este: parecia um abrao. Mame punha as flores nos vasos pela casa toda.
         - Isso tambm  bom - disse David, soltando um dos ps dela e se dedicando ao outro. Correu o polegar de leve pela cicatriz branca e fina deixada pelo flash. 
- Gosto de pensar em voc l.
         A pele de Norah era macia. Ele se lembrou dos dias ensolarados de sua prpria infncia, antes de June adoecer, quando a famlia saa para catar ginseng, 
uma planta frgil que se escondia na penumbra em meio s rvores. Seus pais tinham se conhecido numa dessas buscas. David tinha a fotografia do casamento dos dois 
e, no dia de seu prprio casamento, Norah o presenteara com ela, numa bela moldura de carvalho. A me, de pele alva e cabelo ondulado, cintura fina e um vago sorriso 
matreiro. O pai, barbudo, de p atrs dela, com o chapu na mo. Depois da cerimnia de casamento, os dois tinham sado do cartrio e se mudado para a cabana que 
seu pai havia construdo na encosta da montanha, com vista para seus campos.
         - Meus pais adoravam a vida ao ar livre - acrescentou David. - Mame plantava flores por toda parte. Havia um aglomerado de nabos-da-ndia junto ao riacho 
perto da nossa casa.
         -  uma pena eu nunca os ter conhecido. Eles deviam sentir muito orgulho de voc.
         - No sei. Talvez. Ficaram contentes por minha vida ser mais fcil.
         - Contentes - Norah concordou devagar, abrindo os olhos e fitando Paul, que dormia serenamente, com pintas de luz em seu rosto. - Mas tambm meio tristes, 
quem sabe? Eu ficaria, se o Paul crescesse e se mudasse para longe.
         - Sim,  verdade - disse David, assentindo com a cabea. - Eles ficaram orgulhosos e tristes ao mesmo tempo. No gostavam da cidade. S me visitaram uma 
vez em Pittsburgh.
         Lembrou-se dos pais, sentados sem jeito em seu quarto de estudante, a me se assustando toda vez que soava um apito de trem. June j havia morrido nessa 
poca, e, enquanto os trs tomavam caf fraco em sua pequena mesa de estudos, ele se lembrou de ter pensado com amargura que os dois no sabiam o que fazer deles 
mesmos sem terem June para cuidar. A filha tinha sido o centro de sua vida por muito tempo.
         - Eles s passaram uma noite comigo - continuou David. - Depois que meu pai morreu, mame foi morar com a irm, no Michigan. No andava de avio e nunca 
aprendeu a dirigir. Depois disso, s estive com ela uma vez.
         - Isso  muito triste - disse Norah, tirando uma manchinha de terra da canela.
         - .  muito triste mesmo - concordou David. Pensou em June, em como seu cabelo ficava loirssimo sob o sol a cada vero, no cheiro de sua pele - sabonete 
e calor e alguma coisa metlica, feito uma moeda - enchendo o ar, quando eles se agachavam lado a lado, escavando o cho com gravetos. Ele a amara muito, seu riso 
meigo. E odiava voltar para casa e encontr-la deitada num colcho de palha na varanda, nos dias de sol, e ver o rosto tenso de preocupao de sua me, sentada ao 
lado da forma flcida da filha, cantando baixinho, descascando milho ou ervilhas.
         David olhou para Paul, que dormia profundamente no cobertor, com a cabea de lado e o cabelo comprido encaracolando-se no pescoo mido. Seu filho, pelo 
menos, ele havia protegido da tristeza. Paul no cresceria, como crescera David, sofrendo com a perda da irm. No seria forado a se arranjar sozinho, pelo fato 
de sua irm no poder faz-lo.
         Essa idia e a fora de sua amargura chocaram David. Ele queria acreditar que fizera a coisa certa ao entregar sua filha a Caroline Gil. Ou, pelo menos, 
que tivera as razes certas. Mas talvez no fosse isso. Talvez no tivesse sido propriamente Paul que ele havia protegido naquela noite de nevasca, mas uma verso 
perdida dele mesmo.
         - Voc est parecendo muito distante - observou Norah.
         Ele mudou de posio, chegou mais perto e tambm se encostou na pedra.
         - Meus pais tinham grandes sonhos para mim - disse. - Mas eles no combinavam com meus prprios sonhos.
         - Parece minha me e eu - disse Norah, abraando os joelhos. - Ela disse que vir nos visitar no ms que vem. Eu lhe contei? Ela tem uma passagem de avio 
grtis.
         - Isso  bom, no ? Paul vai mant-la ocupada.
         Norah riu.
         - Vai mesmo, no vai? Essa  a grande razo de ela vir.
         - Norah, com que voc sonha? O que voc sonha para o Paul?
         Norah no respondeu de imediato.
         - Acho que quero que ele seja feliz - disse, finalmente. - Qualquer coisa que o faa feliz na vida,  isso que eu quero que ele tenha. No me importa o 
que seja, desde que ele cresa bom e fiel a si mesmo. E generoso e forte, como o pai.
         - No - disse David, pouco  vontade. - Voc no gostaria que ele sasse a mim.
         Norah olhou-o atentamente, surpresa.
         - Por que no?
         David no respondeu. Aps um longo momento de hesitao, ela tornou a falar.
         - Qual  o problema? - perguntou, no em tom agressivo, mas pensativo, como se tentasse decifrar a resposta enquanto falava. - Quero dizer, entre ns, David.
         Novamente ele no respondeu, lutando contra uma onda repentina de raiva. Por que Norah precisava remexer as coisas outra vez? Por que no podia deixar o 
passado para trs e seguir adiante? Mas ela voltou a falar.
         - As coisas no tm sido as mesmas desde que Paul nasceu e Phoebe morreu. E, mesmo assim, voc continua se recusando a falar sobre isso.  como se quisesse 
apagar o fato de que ela existiu.
         - Norah, o que voc quer que eu diga?  claro que a vida no tem sido a mesma.
         - No fique zangado, David.  s uma espcie de estratgia, no ? Para que eu no fale mais dela. Mas no pretendo recuar. O que estou dizendo  verdade.
         Ele deu um suspiro.
         - No estrague este dia lindo, Norah - disse, finalmente.
         - No vou estragar - disse ela, afastando-se. Deitou-se no cobertor e fechou os olhos. - Estou perfeitamente contente com o dia de hoje.
         David olhou-a por um momento, com o sol batendo em seu cabelo louro, o peito subindo e descendo de leve a cada respirao. Sentiu vontade de estender a 
mo e seguir a curva delicada dos ossos de suas costelas; sentiu vontade de beij-la no ponto em que os ossos se encontravam, abrindo-se como asas.
         - Norah, eu no sei o que fazer - disse. - No sei o que voc quer.
         - No, no sabe.
         - Voc podia me dizer.
         - Suponho que sim. Talvez eu diga. Eles se amavam muito? - perguntou de repente, sem abrir os olhos. Sua voz continuava baixa e calma, porm David intuiu 
uma nova tenso no ar. - Seu pai e sua me.
         - No sei - ele respondeu devagar, com cuidado, tentando determinar a origem da pergunta. - Os dois se amavam. Mas ele passava muito tempo fora. Como eu 
disse, a vida deles era difcil.
         - Meu pai amava minha me mais do que ela o amava - disse Norah, e David sentiu um desconforto agitar-se em seu corao. - Ele a amava, mas no parecia 
capaz de demonstrar seu amor de um modo que fosse significativo para ela. Mame o achava excntrico, meio bobo. Havia muito silncio na minha casa quando eu cresci... 
Tambm somos muito calados l em casa - acrescentou, e David pensou nas noites calmas em que ela curvava a cabea sobre o chapeuzinho branco com os patos.
         -  um silncio bom - disse.
         -        s vezes.
         - E nas outras vezes?
         - Ainda penso nela, David - disse Norah, virando-se de lado e enfrentando o olhar do marido. - Em nossa filha. Em como ela seria.
         David no respondeu e a viu chorar em silncio, cobrindo o rosto com as mos. Aps um momento, estendeu a mo e a tocou no brao. Norah secou as lgrimas 
dos olhos.
         - E voc? - perguntou, agora enfurecida. - Nunca sente falta dela, como eu?
         - Sim - respondeu ele, em tom sincero. - Penso nela o tempo todo.
         Norah ps a mo no peito do marido e, em seguida, seus lbios, sujos de morango, pousaram nos dele, com uma doura penetrante como o desejo em sua lngua. 
David teve a sensao de estar caindo, com o sol na pele e os seios dela a se eriarem devagar, como pssaros, em suas mos. Norah procurou os botes da camisa do 
marido e sua mo roou na carta que ele escondera no bolso.
         David livrou-se da camisa, mas, apesar disso, ao tornar a envolv-la nos braos, pensou consigo mesmo: Amo voc. Eu a amo muito, mas menti para voc. E 
a distncia entre eles, de apenas milmetros, s o espao para respirar, alargou-se e se aprofundou, tornou-se uma caverna em cuja borda ele se deteve. David afastou-se, 
de volta para a luz e a sombra, as nuvens que ora o encobriam ora no, e para a rocha quente de sol s suas costas.
         - O que foi? - perguntou Norah, afagando-lhe o peito. - Puxa, David, qual  o problema?
         - Nada.
         - David. Ah, David. Por favor.
         Ele hesitou,  beira de confessar tudo, e no conseguiu.
          -        um problema no trabalho. Um paciente. No consigo tirar o caso da cabea.
         - Deixe pra l. Estou mais do que farta do seu trabalho - disse Norah.
         Gavies voando alto nas correntes ascendentes e o sol aquecendo muito. Tudo girava, voltando sempre ao mesmo ponto exato. Ele tinha que contar  mulher. 
As palavras se avolumaram em sua boca. Amo voc. Eu a amo muito, mas menti para voc.
         - Quero ter outro filho, David - disse Norah, sentando-se. - O Paul j tem idade suficiente e eu estou pronta.
         David levou tamanho susto que ficou sem fala por um momento.
         - O Paul s tem um ano - disse, por fim.
         - E da? Dizem que  mais fcil acabar logo de uma vez com as fraldas e tudo o mais.
         - Quem diz?
         Norah suspirou.
         - Eu sabia que voc ia dizer no.
         - No estou dizendo no - retrucou David, cauteloso.
         Ela no respondeu.
         - O momento me parece errado, s isso.
         - Voc est dizendo no. Est dizendo no, mas no quer admitir.
         David calou-se, lembrando do quanto Norah chegara perto da borda da ponte. Lembrando das fotos que ela tirara de coisa nenhuma e da carta em seu bolso. 
S o que ele queria era manter seguras as estruturas delicadas da vida dos dois, fazer as coisas continuarem como estavam. Para que o mundo no mudasse, para que 
o frgil equilbrio entre eles pudesse durar.
         - As coisas esto correndo bem agora - disse David, baixinho.
         - E o Paul? - perguntou Norah. Gesticulou com a cabea em direo ao filho, que dormia quieto e sereno em seu cobertor. - Ele sente falta dela.
         - No  possvel que ele se lembre - rebateu David, spero.
         - Nove meses - disse Norah. - Crescendo corao com corao. Como  que ele no se lembraria, em algum nvel?
         - No estamos preparados. Eu no estou.
         - No se trata s de voc. Voc quase j no pra em casa. Talvez seja eu que sinto saudade dela, David. s vezes, sinceramente, tenho a sensao de que 
ela est muito perto, logo ali, no cmodo ao lado, e de que eu a esqueci. Sei que deve parecer maluquice, mas  verdade.
         David no respondeu, embora soubesse exatamente o que ela queria dizer. O ar tinha um perfume denso de morangos. A me dele costumava fazer conservas no 
fogo do lado de fora, mexendo a mistura fumegante enquanto ela se transformava em xarope, depois aferventando e enchendo os potes para disp-los feito jias numa 
prateleira. Ele e June comiam a gelia no rigor do inverno, roubando colheradas quando a me no estava olhando e se escondendo sob o oleado da mesa para lamber 
as colheres at deix-las imaculadas. A morte de June havia abatido o esprito de sua me, e David j no conseguia acreditar-se imune ao azar. Era estatisticamente 
improvvel que eles tivessem outro filho com sndrome de Down, mas era possvel, tudo era possvel - e ele no podia correr esse risco.
         - Mas ter outro filho no consertaria as coisas, Norah. No  a razo certa.
         Aps um momento de silncio, ela se levantou, esfregando as mos no short, e saiu andando com raiva pela campina.
         A camisa de David ficou amarrotada a seu lado, com um canto do envelope branco aparecendo. Ele no o pegou; no precisava. O bilhete era curto e, apesar 
de ele s ter dado uma olhadela nas fotos, elas lhe eram to claras como se ele mesmo as houvesse tirado, O cabelo de Phoebe era escuro e fino, como o de Paul. Os 
olhos eram castanhos e ela sacudia os punhos gorduchos no ar, como se tentasse pegar alguma coisa fora da viso da cmera. Talvez Caroline, segurando a mquina. 
Ele a vira de relance na cerimnia fnebre, alta e solitria com seu casaco vermelho, e depois fora direto ao apartamento da enfermeira, inseguro de suas intenes, 
sabendo apenas que precisava v-la. Mas, quela altura, Caroline j se fora, O apartamento tinha exatamente a mesma aparncia, com seus mveis atarracados e as paredes 
lisas; uma torneira pingava no banheiro. Mesmo assim, o ar estava parado demais, as prateleiras nuas. As gavetas da cmoda e os armrios estavam vazios. Na cozinha, 
com a luz plida derramada sobre o linleo preto e branco, David ficara escutando o bater de seu corao inquieto.
         Deitou-se de costas, com as nuvens a correr l no alto, luz e sombra. No havia tentado encontrar Caroline e, como a carta no trazia um endereo til da 
remetente, ficara sem idia de por onde comear. Agora est em suas mos, ele lhe dissera. Mas se apanhava aflito em momentos estranhos: sozinho no novo consultrio, 
ou ao revelar fotografias e ver as imagens emergirem, misteriosamente, das folhas de papel em branco, ou deitado ali, naquela rocha morna, enquanto Norah, magoada 
e enraivecida, se afastava.
         David estava cansado e se sentiu pegando no sono. Os insetos zumbiam ao sol e ele se inquietava vagamente com as abelhas. As pedras em seu bolso lhe faziam 
presso na perna. Nas noites da infncia, s vezes encontrava o pai na cadeira de balano da varanda, os choupos a cintilar de vida com os vaga lumes. Numa dessas 
noites, o pai lhe havia entregado uma pedra lisa, uma cabea de machado que encontrara ao cavar uma trincheira. Tem mais de dois mil anos, dissera ele. Imagine s, 
David. Ela j esteve em outras mos, faz uma eternidade, mas sob esta mesma lua.
         Isso tinha sido numa ocasio. Havia outros dias em que eles saam para procurar cascavis. Do pr-do-sol ao amanhecer, andavam pelos bosques carregando 
forquilhas, com sacos de pano jogados no ombro e uma caixa de metal balanando na mo de David.
         Para David, era sempre como se o tempo parasse nesses dias, com o sol eternamente no cu e as folhas secas deslocando-se sob seus ps. O mundo se reduzia 
a apenas ele, o pai e as cobras, mas tambm se expandia, com a vastido do cu se abrindo a seu redor, mais alto e mais azul a cada passo, e tudo ficava mais lento, 
at o instante em que ele detectava um movimento em meio s cores da terra e s folhas secas, pois os losangos desenhados no dorso s se tornavam visveis quando 
a cobra comeava a se mexer. O pai lhe ensinara a ficar imvel, observando os olhos amarelos e a lngua agitada. Toda vez que a cobra troca de pele, o chocalho fica 
mais longo, de modo que era possvel dizer, pela altura do chocalhar no silncio da floresta, quais eram a idade e o tamanho da cascavel e quanto dinheiro ela daria. 
No caso das maiores, cobiadas por zoolgicos, cientistas e, s vezes, adestradores de cobras, era possvel receber cinco dlares por uma.
         A luz filtrava-se por entre as rvores e fazia desenhos no solo da floresta, e havia o som do vento. Depois vinham o chocalhar e a cabea recuada da cobra, 
e o brao do pai de David, forte e slido, fincando a forquilha para prend-la pelo pescoo. As presas se projetavam e batiam com fora na terra mida, enquanto 
o chocalho se agitava, arisco e furioso. Com dois dedos fortes, seu pai segurava firme a cobra, por trs da mandbula aberta, e a apanhava: fria, seca, contorcendo-se 
feito um chicote. Ele jogava a cobra num saco de pano, fechava-o com um puxo, e o saco virava uma coisa viva, palpitando no solo. O pai de David o atirava na caixa 
de metal e fechava a tampa. Sem dizer nada, eles seguiam em frente, contando de cabea o dinheiro das cobras. Havia semanas, no vero e no fim do outono, em que 
conseguiam ganhar 25 dlares com isso. O dinheiro servia para comprar comida; quando eles iam ao mdico em Morgantown, pagava por isso tambm.
         - David!
         A voz de Norah lhe chegou fraca e urgente, cruzando o passado remoto e a floresta e penetrando no dia. David se apoiou nos cotovelos e a viu de p no extremo 
oposto do campo de morangos maduros, hipnotizada por alguma coisa no cho. Ele sentiu uma onda de adrenalina e medo. As cascavis gostavam de troncos ensolarados 
como aquele perto do qual Norah havia parado; punham ovos na frtil madeira apodrecida. David deu uma espiada em Paul, que ainda dormia calmamente na sombra, levantou 
e saiu correndo, com cardos a lhe arranhar os tornozelos e morangos se esborrachando macios sob seus ps, e j enfiando a mo no bolso das calas e fechando o punho 
sobre a pedra maior. Quando chegou perto o bastante para vislumbrar a linha escura da cobra, atirou a pedra com toda a fora. Ela descreveu um arco lento no ar, 
rodopiando. Caiu uns 15 centmetros aqum da cobra e estourou, exibindo o ncleo roxo, vivo e reluzente.
         - Mas o que voc est fazendo? - exclamou Norah.
         Ele j a havia alcanado. Arfante, olhou para baixo. No era cobra alguma, apenas um graveto escuro, descansando sobre o casco seco do toro.
         - Achei que voc tinha me chamado - disse, confuso.
         - Chamei - confirmou Norah. Apontou para um aglomerado de flores plidas, logo adiante da linha de sombra. - Nabos-da-ndia. Como os que sua me costumava 
plantar. David, voc est me assustando.
         - Pensei que fosse uma cobra - explicou ele, apontando para o graveto e tornando a sacudir a cabea na tentativa de afastar o passado. - Uma cascavel. Acho 
que eu estava sonhando. Pensei que voc precisasse de ajuda.
         Norah fez um ar intrigado e David abanou a cabea para se livrar do sonho. Sentiu-se terrivelmente tolo, de repente. O graveto era um graveto, nada mais. 
O dia parecia absurdamente normal. Os pssaros piavam e as folhas recomearam a se mexer nas rvores.
         - Por que voc estava sonhando com cobras? - perguntou Norah.
         - Eu costumava captur-las. Por dinheiro.
         - Por dinheiro? - repetiu ela, intrigada. - Dinheiro para qu?
         A distncia se reinstalara entre eles, um abismo do passado que David no conseguia transpor. Dinheiro para a comida e para aquelas idas  cidade. Norah 
vinha de um mundo diferente, jamais entenderia isso.
         - Elas ajudaram a pagar meus estudos na escola, aquelas cobras.
         Norah assentiu com a cabea e pareceu prestes a fazer mais perguntas, mas no as fez.
         - Vamos - disse ela, esfregando o ombro. - Vamos pegar o Paul e voltar para casa.
         Cruzaram de volta o campo e guardaram as coisas. Norah carregou Paul; ele, a cesta de piquenique.
           ...
         Enquanto caminhavam, David recordou-se do pai, parado no consultrio do mdico, e das notas verdes caindo como folhas sobre o tampo do balco. A cada uma, 
o menino se lembrava das cobras, do aoite dos chocalhos, das bocas se escancarando num V intil, da frieza da pele delas entre os dedos e de seu peso. Dinheiro 
de cobras. Ele era um garoto de oito ou nove anos, e aquela era a nica coisa que sabia fazer.
         Aquilo e proteger June. Cuide da sua irm, advertia a me, erguendo os olhos do fogo. Alimente as galinhas, limpe o galinheiro e tire as ervas daninhas 
do jardim. E cuide da June.
         David cuidava, mas no muito bem. Ficava de olho em June, mas no a impedia de escavar a terra e esfreg-la no cabelo. No a consolava quando ela tropeava 
numa pedra e caa, ralando o cotovelo. Seu amor pela irm era to profundamente entremeado de ressentimento que ele no conseguia desemaranhar os dois. Ela vivia 
doente, por causa do corao fraco e dos resfriados que pegava em todas as estaes e que a faziam chiar e arquejar. Mas, quando ele subia a trilha na volta da escola, 
com os livros pendurados nas costas, era June quem estava sempre  espera, era June quem o olhava no rosto e compreendia como fora o dia do irmo e queria saber 
tudo sobre ele. Seus dedos eram pequenos e ela gostava de afag-lo, com os cabelos longos e escorridos esvoaando na brisa.
         E ento, num fim de semana, ele voltou da escola e encontrou a cabana vazia, inerte, com um esfrego de banho pendurado na borda da banheira e uma friagem 
no ar. Sentou-se na varanda, com fome e com frio, e esperou. Muito tempo depois, quase ao anoitecer, avistou a me descendo a colina, de braos cruzados. Ela s 
falou ao chegar aos degraus, olhando o filho e dizendo: David, sua irm morreu. A June morreu. O cabelo da me estava repuxado para trs, uma veia pulsava em sua 
tmpora e seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Ela usava um suter cinza fininho, apertando-o junto ao corpo, e disse: David, ela se foi. E, quando o menino 
se levantou para abra-la, a me desmoronou, em prantos, e ele perguntou: Quando? E veio a resposta: Foi h trs dias, na tera-feira, logo de manh cedo; eu fui 
l fora buscar gua e, quando voltei, a casa estava em silncio, e na mesma hora eu soube. Ela estava morta. Parou de respirar. David abraou a me, sem conseguir 
pensar em mais nada para dizer. A dor que sentia estava calcada no fundo, e por cima havia uma dormncia, e ele no conseguia chorar. Ps uma manta nos ombros da 
me. Preparou-lhe uma xcara de ch, foi ao galinheiro, encontrou os ovos que ela no havia recolhido e os apanhou. Deu comida s galinhas e ordenhou a vaca. Fez 
essas coisas comuns, mas, ao entrar, a casa continuava sombria, o ar continuava silencioso e June continuava morta.
         Davey, disse sua me, muito tempo depois, das sombras em que se havia sentado: V embora para a escola. Aprenda alguma coisa que possa ajudar na vida. Ele 
se ressentiu disso; queria que sua vida fosse sua, sem ser estorvada por essa sombra, por essa perda. Sentiu-se culpado por June estar deitada na cova, com um monte 
de terra por cima, e ele continuar ali em p; estava vivo, e a respirao entrava e saa de seus pulmes; ele a sentia, assim como o corao batendo. Vou ser mdico, 
disse, e a me no respondeu, mas, passado algum tempo, ela acenou com a cabea e se levantou, tornando a grudar o suter no corpo. David, preciso que voc pegue 
a Bblia e v l no alto comigo fazer a orao. Quero que as palavras sejam ditas formalmente e direito. E, assim, os dois subiram juntos a colina. Estava escuro 
quando chegaram ao topo; ele parou sob os pinheiros, com o vento forte soprando, e leu,  luz bruxuleante da lamparina de querosene: O Senhor  meu pastor. Nada 
me faltar. Mas falta, pensou consigo mesmo, enquanto dizia as palavras. Falta. E a me chorou e os dois desceram a colina em silncio at a casa, onde ele escreveu 
uma carta ao pai para dar a notcia. Mandou-a pelo correio na segunda-feira, ao voltar para a cidade alvoroada, de luzes brilhantes. Ps-se atrs do balco, cujo 
carvalho fora alisado pelo desgaste de uma gerao de comrcio, e jogou a carta simples e branca na caixa do correio.
           ...
         Quando os trs enfim chegaram ao carro, Norah parou para examinar o ombro, avermelhado pelo sol. Estava de culos escuros e, quando olhou para David, ele 
no pde ler sua expresso.
         - Voc no tem que ser todo esse heri - disse Norah. Suas palavras foram categricas e experientes, e David percebeu que a mulher estivera pensando nelas, 
ensaiando-as, talvez, no trajeto de volta.
         - No estou tentando ser heri.
         - No? - fez ela, desviando os olhos. - Acho que est. E a culpa  minha tambm. Durante muito tempo, eu quis ser salva, percebo isso. S que no quero 
mais. Agora voc no precisa me proteger o tempo todo. Detesto isso.
         Em seguida, pegou a cadeirinha para automvel e tornou a virar o rosto. Sob a luz manchada do sol, a mo de Paul puxou o cabelo da me, e David experimentou 
uma sensao de pnico, quase vertigem, por tudo que no sabia; por tudo que sabia e no podia consertar. E raiva: esta ele tambm sentiu, de repente, numa grande 
onda. Raiva de si mesmo, mas tambm de Caroline, que no tinha feito o que ele pedira, que havia tornado ainda pior uma situao impossvel. Norah sentou-se no banco 
da frente e bateu a porta do carro. David procurou as chaves no bolso e, em vez delas, tirou o ltimo geodo, cinzento e liso, com a forma da Terra. Segurou-o, sentindo-o 
aquecer-se em sua palma, e pensou em todos os mistrios que o mundo encerrava: camadas de pedra escondidas sob a capa de terra e grama; aquelas pedras opacas, com 
seus cintilantes coraes ocultos.
           1970   MAIO DE 1970   I
         - ELE  ALRGICO A ABELHAS - DISSE NORAH  PROFESSORA, VENDO PAUL correr pela grama nova do parquinho. Ele subiu no escorregador, sentou-se no alto por 
um instante, com as mangas curtas brancas adejando ao vento, e deslizou, pulando de alegria ao chegar ao cho. As azalias floresciam, compactas, e o ar, morno como 
a pele, ressoava com o zumbir de insetos e pssaros. - O pai dele tambm  alrgico. Isso  muito grave.
         - No se preocupe - retrucou a Srta. Throckmorton. - Cuidaremos bem dele. A Srta. Throckmorton era jovem, recm-formada, morena, esguia e entusistica. 
Usava uma saia rodada e sandlias rasas resistentes, e seus olhos nunca se afastavam dos grupos de crianas que brincavam no parque. Parecia equilibrada, competente, 
concentrada e gentil. Mesmo assim, Norah no confiava completamente em que ela soubesse o que estava fazendo.
         - Ele pegou uma abelha - insistiu -, uma abelha morta, cada no peitoril da janela. Segundos depois, comeou a inchar feito um balo.
         - No se preocupe, Sra. Henry- repetiu a Srta. Throckmorton, um pouco menos paciente. J comeava a se afastar, com a voz clara e tranqilizadora como um 
sino, para ajudar uma menininha com areia nos olhos.
         Norah deixou-se ficar sob o sol novo de primavera, observando Paul. Ele brincava de pique, com as faces coradas, correndo com os braos abaixados junto 
ao corpo - tambm costumava dormir desse jeito quando beb. Seu cabelo era escuro, mas tirando isso o menino se parecia com Norah, diziam, com a mesma estrutura 
ssea e a tez clara. Ela se via no filho, era verdade, e David tambm estava ali, na forma do queixo de Paul, na curvatura das orelhas, no jeito como ele gostava 
de ficar de braos cruzados, escutando a professora. Acima de tudo, porm, Paul era simplesmente ele mesmo. Adorava msica e passava o dia inteiro cantarolando melodias 
inventadas. Embora tivesse apenas seis anos, j havia cantado solos na escola, dando um passo  frente dos colegas com uma inocncia e uma confiana que deixavam 
Norah perplexa, com sua voz doce a se elevar no auditrio, clara e melodiosa como a gua de um riacho.
         Ele parou para se agachar ao lado de outro garotinho, que usava um graveto para tirar folhas da gua escura de uma poa. Seu joelho direito estava ralado, 
o band-aid se soltando. O sol cintilava em seu cabelo preto e curto. Norah o observou, srio e completamente absorto em sua tarefa, e exultou com a simples realidade 
da existncia dele. Paul, seu filho. Ali, no mundo.
         - Norah Henry! Exatamente a pessoa que eu queria encontrar!
         Norah virou-se e viu Kay Marshall, de calas justas cor-de-rosa e suter creme e rosa, sandlias douradas de couro e reluzentes brincos de ouro. Kay empurrava 
a filha pequena num carrinho de vime antigo enquanto Elizabeth, a mais velha, andava a seu lado. Elizabeth, nascida uma semana depois de Paul, na sbita primavera 
que se seguira quela nevasca estranha e repentina. Nessa manh, ela usava um vestido rosa de bolinhas e sapatos de verniz branco. Impaciente, afastou-se de Kay 
e correu pelo parquinho at os balanos.
         - Est um dia lindo - comentou Kay, ao v-la afastar-se. - Como vai voc, Norah?
         - Eu vou bem - ela respondeu, resistindo ao impulso de passar a mo no cabelo, com aguda conscincia da simplicidade de sua blusa branca e sua saia azul, 
sem nenhuma jia. Onde e quando quer que Norah a visse, Kay estava sempre assim: calma e descontrada, com tudo combinando nos mnimos detalhes, os filhos vestidos 
com perfeio e bem comportados. Kay era o tipo de me que Norah sempre imaginara vir a ser, lidando com todas as situaes com uma serenidade relaxada e instintiva. 
Norah a admirava e tambm a invejava. s vezes, chegava a pensar que, se fosse mais parecida com Kay, mais tranqila e segura, talvez seu casamento melhorasse; ela 
e David seriam mais felizes.
         - Eu vou bem - repetiu, olhando para a nenm, que a fitou com olhos grandes e inquisitivos. - Olhe s como a ngela est crescida!
         Num impulso, abaixou-se e pegou a menina, a segunda filha de Kay, vestida num cor-de-rosa fofo para combinar com a roupa da irm. Sentiu-a leve e clida 
em seu colo, e a nenm deu-lhe tapinhas no rosto, com suas mos midas, rindo. Norah sentiu uma onda de prazer, lembrando-se de Paul naquela idade, com seu cheirinho 
de sabonete e leite, a pele macia. Olhou para o outro lado do parque, onde ele voltara a correr, brincando de pique. Agora que estava na escola, ele tinha sua prpria 
vida. J no gostava de sentar-se aninhado na me, a menos que estivesse doente ou lhe pedisse para ler uma histria antes de dormir. Parecia impossvel que um dia 
tivesse sido pequeno assim, impossvel que houvesse se tornado um menino crescido, dono de um velocpede vermelho, que espetava gravetos em poas e cantava lindamente.
         - Ela est fazendo 10 meses hoje - disse Kay. - D para acreditar?
         - No. O tempo passa muito depressa - disse Norah.
         - Voc esteve no campus? Soube do que est acontecendo?
         Norah fez que sim com a cabea.
         - A Bree me ligou ontem  noite.
         Ela ficara em p, com o telefone numa das mos e a outra no peito, assistindo ao noticirio cheio de chuviscos na televiso: quatro estudantes mortos a 
tiros na Universidade Estadual Kent. At em Lexington, fazia semanas que a tenso vinha se acumulando, com os jornais repletos de guerra, protestos e inquietao, 
num mundo voltil e mutvel.
         -  de assustar - disse Kay, mas seu tom era calmo, mais reprovador que desalentado: o mesmo que ela usaria para falar do divrcio de algum. Ela pegou 
ngela, beijou-a na testa e a reps delicadamente no carrinho.
         - Eu sei - concordou Norah. Usou o mesmo tom, mas, para ela, a inquietao parecia profundamente pessoal, um reflexo do que vinha acontecendo em seu ntimo 
havia anos. Por um instante, sentiu outra fisgada profunda e aguda de inveja. Kay vivia na inocncia, intocada pelo luto, achando que sempre estaria segura; o mundo 
de Norah havia mudado com a morte de Phoebe. Todas as suas alegrias tinham ganho um ntido relevo em funo dessa perda e da possibilidade de outras mais, que agora 
ela vislumbrava a cada momento. David vivia lhe dizendo para relaxar, contratar uma empregada, no se desgastar tanto. Irritava-se com os projetos dela, seus comits, 
seus planos. Mas Norah no conseguia ficar parada; isso a deixava inquieta demais. Assim, organizava reunies e preenchia seus dias, sempre com a sensao desesperada 
de que, se baixasse a guarda por um instante sequer, viria a desgraa. A sensao piorava no fim da manh; quase sempre, ela tomava uma dose de bebida nessa hora 
- gim, s vezes vodca - para ajud-la a enfrentar a tarde. Gostava da calmaria que se espalhava por seu corpo, feito luz. Mantinha as garrafas cuidadosamente escondidas 
de David.
         - Enfim - dizia Kay -, eu queria responder ao convite para sua festa. Adoraramos ir, mas vamos chegar meio atrasados. H alguma coisa que eu possa levar?
         - Apenas vocs - disse Norah. - Est tudo quase pronto. S que tenho que ir para casa derrubar um ninho de vespas.
         Os olhos de Kay se arregalaram um pouquinho. Ela vinha de uma antiga famlia de Lexington e tinha seu "pessoal", como o chamava. O pessoal da piscina, o 
pessoal da limpeza, o pessoal do jardim e o pessoal da cozinha. David sempre dizia que Lexington era como o calcrio sobre o qual se erguia: camadas de estratificao, 
nuances do ser e do pertencer em que o lugar de cada um na hierarquia fora fixado na pedra desde longa data. Sem dvida, Kay tambm devia ter o pessoal dos insetos.
         - Um ninho de vespas? Coitada de voc!
         - Pois  - fez Norah. - Vespes. O ninho est pendurado perto da garagem.
         Sentiu prazer em chocar Kay, nem que fosse um pouquinho; gostou do som concreto da tarefa que tinha pela frente. Vespas. Ferramentas. O desmantelamento 
de um ninho. Norah torcia para que isso ocupasse a manh inteira. No mais, poderia apanhar-se dirigindo, como fizera tantas vezes nas semanas anteriores, em alta 
velocidade, com uma garrafinha prateada na bolsa. Era capaz de chegar ao rio Ohio em menos de duas horas. A Louisville ou Maysville, ou ento, como fizera uma vez, 
at mesmo a Cincinnati. Estacionava numa ribanceira e descia do carro, para olhar a gua distante e em perene movimento l embaixo.
         A campainha da escola tocou e as crianas comearam a se afunilar na entrada. Norah procurou a cabea escura de Paul e o viu desaparecer.
         - Adorei vocs dois cantando juntos - disse Kay, jogando beijos para Elizabeth.
          - O Paul tem uma voz linda.  mesmo um dom.
         - Ele adora msica - concordou Norah. - Sempre adorou.
         Era verdade. Uma vez, aos trs meses, quando ela conversava com amigas, de repente ele havia comeado a balbuciar uma cascata de sons que inundara a sala 
como flores que se derramassem de repente de uma rstia de luz, interrompendo a conversa por completo.
         - Alis, essa  uma outra coisa que eu queria lhe pedir, Norah.  sobre o evento beneficente que vou organizar no ms que vem. O tema  Cinderela, e fui 
encarregada de juntar todos os pajens que puder. Pensei no Paul.
         A despeito de si mesma, Norah sentiu uma onda de prazer. Perdera a esperana de receber esse tipo de convite depois do casamento e do divrcio escandalosos 
de Bree.
         - Um pajem? - repetiu Norah, absorvendo a notcia.
         - Bem,  o melhor papel - confidenciou Kay. - E no  s um pajen... O Paul cantaria. Um dueto. Com a Elizabeth.
         - Entendo - fez Norah, e era verdade. A voz de Elizabeth era agradvel, mas uma vozinha mida. Ela cantava com uma animao forada, como bulbos de primavera 
em janeiro, dardejando olhares ansiosos pela platia. Sua voz no seria sonora o bastante sem a de Paul.
         - Significaria muito para todo mundo, se ele cantasse.
         Norah acenou com a cabea devagar, decepcionada, aborrecida consigo mesma por se importar. Mas a voz de Paul era pura, alada; ele adoraria ser um pajem. 
E, pelo menos, assim como as vespas, essa festa daria outra ncora aos dias de Norah.
         - Esplndido! - exclamou Kay. - Ah, que maravilha! Espero que voc no se incomode - acrescentou -, mas tomei a liberdade de reservar uma roupinha de gala 
para ele. Tinha certeza de que voc diria que sim!
         Kay deu uma olhada no relgio, agora com ar eficiente, pronta para ir embora.
         - Foi um prazer v- La - disse a Norah, dando adeusinho ao se afastar, empurrando o carrinho.
         O parquinho estava deserto. Norah passou pelos balanos e escorregadores coloridos em direo ao carro. O rio, com seus remoinhos tranqilizadores, a chamava. 
Em duas horas ela poderia estar l. A tentao da corrida veloz, do vento batendo, da gua, era quase irresistvel, to grande que, no ltimo feriado escolar, ela 
ficara surpresa ao se encontrar em Louisville - com Paul assustado e quieto no banco traseiro - com o cabelo despenteado e o efeito do gim j diminuindo. L est 
o rio, dissera ela, parada com a mozinha de Paul na sua, olhando para a gua pardacenta e revolta. E, agora, iremos ao zoolgico, anunciara, como se essa tivesse 
sido sua inteno desde o inicio.
         Norah saiu da escola e seguiu para o centro da cidade pelas ruas arborizadas, passando pelo banco e pela joalheria com uma nsia to vasta quanto o cu. 
Reduziu a velocidade ao passar pela World Travei. Na vspera, fizera uma entrevista de emprego ali. Tinha visto o anncio no jornal e se sentira atrada pelo prdio 
baixo de tijolos, com seus cartazes glamourosos nas vitrines: praias e edifcios esplendorosos, cus e cores vividos. No havia realmente querido o emprego at chegar 
l, e ento, de repente, quis. Sentada com seu vestido justo de linho estampado, a bolsa branca no colo, ela havia desejado aquele emprego mais do que qualquer outra 
coisa. A agncia de viagens pertencia a um homem chamado Pete Warren, um cinqento calvo no cocuruto, que ficara batendo com a ponta do lpis em sua prancheta e 
fizera piadas sobre o time da Universidade de Kentucky, os Wildcats. O homem tinha gostado dela, Norah sabia, embora ela fosse formada em lngua inglesa e no tivesse 
nenhuma experincia. Warren ficara de lhe dar a resposta hoje.
         Atrs dela, algum tocou a buzina. Norah acelerou. Essa rua passava pelo centro da cidade e cruzava a auto-estrada. Mas, quando ela se aproximou da universidade, 
o trnsito ficou mais pesado. As ruas estavam to cheias de gente que ela reduziu at quase parar e, em seguida, teve que estacionar o carro. Desceu e seguiu a p. 
Ao longe, de um ponto mais interno do campus, vinha um crescendo obscuro de vozes ritmadas, um canto cheio de energia que, de algum modo, aparentava-se com os botes 
que floresciam nas rvores. O desassossego e a ansiedade de Norah pareceram ser respondidos por esse momento, e ela entrou na correnteza humana.
         O cheiro de suor e leo de patchouli enchia o ar, e o sol lhe aquecia os braos. Norah pensou na escola primria, a apenas um quilmetro e meio dali, com 
seu jeito ordeiro e trivial, e imaginou o tom reprovador de Kay Marshall, mas seguiu em frente. Ombros, braos e cabelos esbarraram nela. A correnteza comeou a 
diminuir o ritmo e a se acumular; uma multido se aglomerava diante do prdio do Corpo de Formao de Oficiais da Reserva, o ROTC, onde havia dois rapazes em p 
na escada, um deles com um megafone. Norah tambm parou, esticando o pescoo para ver o que estava acontecendo. Um dos rapazes, de palet e gravata, segurava no 
alto uma bandeira norte-americana, com suas listras esvoaando. Enquanto ela olhava, o outro rapaz, igualmente bem-vestido, aproximou a mo da ponta da bandeira. 
No comeo, as chamas foram invisveis, uma intensidade de calor bruxuleante, depois pegaram o tecido e subiram, desenhando-se contra a folhagem e o azul verdejante 
do dia.
         Norah assistiu aquilo como se acontecesse em cmera lenta. Em meio ao ar tremeluzente, viu Bree, deslocando-se pelo permetro da aglomerao prxima do 
edifcio, distribuindo panfletos. Tinha o cabelo comprido preso num rabo-de-cavalo que balanava contra sua blusa branca de camponesa. Ela  linda, pensou Norah, 
ao vislumbrar a determinao e a animao no rosto da irm, um instante antes de ela desaparecer. A inveja tornou a invadi-la como uma chama: inveja de Bree, por 
sua segurana e sua liberdade. Norah abriu caminho na multido.
         Avistou a irm outras duas vezes - um lampejo de seu cabelo louro, seu rosto de perfil - antes de finalmente alcan-la. Nessa hora, Bree estava parada 
no meio-fio, falando com um rapaz de cabelo avermelhado, os dois to absortos na conversa que, quando Norah enfim tocou o brao da irm, Bree se virou, intrigada 
e sem enxergar, com a expresso totalmente vazia por um longo instante, at reconhecer a irm.
         - Norah?! - exclamou. Ps a mo no peito do homem ruivo, num gesto to seguro e ntimo que o corao de Norah parou. -  minha irm - explicou Bree. - Norah, 
este  o Mark.
         Ele acenou com a cabea sem sorrir e apertou a mo de Norah, avaliando-a.
         - Puseram fogo na bandeira- comentou Norah, de novo consciente de sua roupa, to deslocada ali quanto no parquinho, por motivos completamente diferentes.
         Os olhos castanhos de Mark espremeram-se ligeiramente e ele deu de ombros.
         - Eles lutaram no Vietn - disse o rapaz. - Portanto, acho que tinham suas razes.
         - O Mark perdeu metade do p no Vietn.
         Norah olhou para as botas de Mark, amarradas acima dos tornozelos.
         - A metade da frente - fez ele, batendo com o p direito. - Os dedos e mais alguma coisa.
         - Entendo - disse Norah, profundamente constrangida.
         - Escute, Mark, pode nos dar um minuto? - perguntou Bree.
         Ele olhou para a multido agitada.
         - Na verdade, no. Sou o prximo orador.
         - Est bem. Eu volto j - disse Bree, que puxou Norah pela mo por alguns passos e parou, meio abaixada, sob um grupo de amendoeiras.
         - O que est fazendo aqui? - perguntou.
         - No tenho certeza - disse Norah. - Tive que parar quando vi a multido, s isso.
         Bree assentiu com a cabea e seus brincos de prata faiscaram.
         -  incrvel, no? Deve haver umas cinco mil pessoas. Torcamos por algumas centenas.  por causa da Universidade Estadual Kent.  o fim.
         O fim de qu?, pensou Norah, enquanto as folhas esvoaavam a seu redor. Em algum lugar, a Srta. Throckmorton chamava os alunos e Pete Warren sentava-se 
sob os lustrosos cartazes de turismo, preenchendo bilhetes de viagem. E as vespas voejavam, preguiosas, pelo ar ensolarado, perto de sua garagem. Podia o mundo 
acabar num dia assim?
         -  seu namorado? - perguntou  irm. - Aquele de quem voc andou me falando?
         Bree assentiu com a cabea, dando um sorriso reservado.
         - Ora, vejam s! Voc est apaixonada!
         - Acho que sim - disse Bree, baixinho, olhando de relance para Mark. - Acho que estou.
         - Bom, espero que ele a esteja tratando bem - disse Norah, estarrecida ao se ouvir com a voz da me, inclusive na entonao. Mas Bree estava feliz demais 
para fazer outra coisa seno rir.
         - Ele me trata muito bem - disse. - Ei, posso lev-lo esse fim de semana?  sua festa?
         -  claro - respondeu Norah, embora no tivesse a menor certeza.
         -        timo. Ah, Norah, voc conseguiu o emprego que queria?
         As folhas das amendoeiras balanavam ao vento como coraes verdes e flexveis e, adiante delas, a multido murmurava e oscilava.
         - Ainda no sei - respondeu Norah, pensando no escritrio colorido e bem decorado. De repente, suas aspiraes pareceram muito banais.
         - Mas como foi a entrevista? - insistiu Bree.
         - Bem. Correu bem.  s que j no tenho certeza de querer o emprego, s isso.
         Dree prendeu uma mecha do cabelo atrs da orelha e franziu o cenho.
         - Por qu? Norah, ainda ontem voc estava desesperada por esse emprego. Toda empolgada.  o David, no ? Dizendo que voc no pode.
         Aborrecida, Norah balanou a cabea.
         - O David nem sabe ainda. Bree,  s um escritrio, mais parece uma caixinha. Maante. Burgus. Voc no ia querer ser encontrada morta l.
         - Eu no sou voc - assinalou Bree. - Voc no  igual a mim. Voc queria esse emprego, Norah. Por causa do glamour. Pela independncia, pelo amor de Deus!
         Era verdade, ela havia desejado o emprego, mas tambm era verdade que agora sentia a raiva se inflamar de novo: era fcil para Bree, que estava ali desencadeando 
revolues, destin-la a uma vida de escritrio das nove s cinco.
         - Eu iria datilografar, no viajar. Levaria anos e anos para ganhar uma viagem. No  exatamente o que imaginei para minha vida, Bree.
         - E passar o aspirador ?
         Norah pensou nas rajadas de vento impetuosas, no rio Ohio, a apenas 130 quilmetros dali. Espremeu os lbios e no respondeu.
         - Voc me deixa doida, Norah. Por que tem tanto medo da mudana? Por que no pode apenas ser e deixar que a vida acontea?
         - Eu sou - retrucou. - Estou sendo. Voc nem faz idia!
         - Voc est enfiando a cabea na areia,  isso que eu vejo.
         - Voc no v nada alm do prximo homem disponvel.
         - Est bem. Ficamos por aqui.
         Bree deu um nico passo e foi imediatamente tragada pela multido: um lampejo de cor e, pronto, sumiu.
         Norah continuou parada por um momento sob as amendoeiras, trmula de raiva, uma raiva que sabia ser injustificvel. Qual era o seu problema? Como era possvel 
que ela invejasse Kay Marshall num minuto e Bree no instante seguinte, por motivos completamente diversos?
         Voltou para o carro por entre a multido. Depois da turbulncia e dramaticidade do protesto, as ruas da cidade pareciam insossas, desprovidas de cor, detestavelmente 
corriqueiras. Passara-se tempo demais; agora ela s dispunha de duas horas antes de ter que buscar Paul. No havia mais tempo para o rio. Em casa, na sua cozinha 
ensolarada, preparou um gim-tnica. O copo em sua mo deu-lhe uma sensao slida e fria, e o gelo tilintou com um brilho tranqilizador. Na sala, ela parou diante 
de sua fotografia na ponte natural de pedra. Quando relembrava aquele dia - a caminhada e o piquenique -, nunca pensava no presente. Ao contrrio, lembrava-se do 
mundo estendido sob seus ps, do sol e do vento na pele. Deixe eu tirar sua foto, dissera David, insistente, e ela se virara e o vira ajoelhado, ajustando o foco, 
fazendo questo de preservar um momento que nunca existira de verdade. Ela tivera razo sobre a mquina fotogrfica, para seu prprio pesar. Com um fascnio que 
o deixava obcecado, David tinha construdo uma cmara escura em cima da garagem.
         David. Como  que o marido se tornara mais misterioso para ela com o passar dos anos, ao mesmo tempo que mais familiar? Ele tinha deixado um par de abotoaduras 
cor de mbar na mesinha, abaixo das fotos. Norah as pegou e segurou-as na mo, ouvindo o relgio bater baixinho na sala de estar. As pedras se aqueceram em sua mo 
e a superfcie lisa a reconfortou. Norah encontrava pedras por toda parte, amontoadas nos bolsos de David, espalhadas pela cmoda, enfiadas em envelopes na escrivaninha. 
Vez por outra, avistava David e Paul no quintal, inclinando juntos a cabea sobre alguma pedra bonita. Ao v-los, seu corao sempre se abria, com uma espcie de 
alegria desconfiada. Esses momentos eram raros; David andava muito ocupado ultimamente. Pare, Norah sentia vontade de dizer. Fique um minuto. Passe algum tempo aqui. 
Seu filho est crescendo muito depressa.
         Enfiou as abotoaduras no bolso e levou o drinque para o lado de fora. Parou diante do ninho, que parecia feito de papel, vendo as vespas rode-lo e desaparecer 
em seu interior. De vez em quando, uma voava para perto dela, atrada pelo cheiro adocicado do gim. Norah bebericou e observou. Seus msculos, suas prprias clulas, 
foram relaxando numa lquida reao em cadeia, como se ela houvesse engolido o calor do dia. Terminou a bebida, ps o copo na entrada da garagem e foi buscar as 
luvas e o chapu de jardinagem, contornando o velocpede de Paul. O filho j estava grande demais para ele; era preciso embalar o triciclo com as outras coisas, 
as roupas de beb, os brinquedos que no serviam mais. David no queria outros filhos e, agora que Paul estava na escola, Norah tinha desistido de discutir com ele 
sobre isso. Era difcil imaginar um retorno s fraldas e s mamadas das duas horas da manh, embora muitas vezes ela ansiasse por segurar outro beb no colo - como 
ngela, nessa manh, sentindo o doce calor e o peso dela. Kay tinha muita sorte e nem sabia.
         Norah calou as luvas e recuou para o sol. No tinha experincia com vespas nem abelhas, a no ser por uma picada no dedo do p aos oito anos, que tinha 
dodo por uma hora e sarado. No dia em que Paul apanhara a abelha morta no cho e gritara de dor, ela no havia sentido o menor pnico. Gelo para o inchao e um 
abrao demorado no balano da varanda; ficaria tudo bem. Mas o edema e a vermelhido tinham comeado na mo e se espalhado depressa. O rosto de Paul intumescera 
e ela havia gritado por David, com medo na voz. Ele soubera no mesmo instante o que estava acontecendo, que injeo aplicar. Em poucos minutos, Paul havia comeado 
a respirar com mais facilidade. No foi nada, dissera David. Era verdade, mas aquilo ainda a deixava doente de medo. E se David no estivesse em casa?
         Norah passou alguns minutos observando as vespas, pensando nos manifestantes que protestavam na universidade, no mundo tremeluzente e instvel. Ela sempre 
fizera o que era esperado. Freqentara a faculdade e aceitara um empreguinho; fizera um bom casamento. No entanto, desde o nascimento dos filhos - Paul, deslizando 
pelo escorregador com os braos abertos, e Phoebe, de algum modo presente pela ausncia, aparecendo-lhe em sonhos, parada no limiar invisvel de cada momento -, 
Norah j no conseguia entender o mundo do mesmo jeito. Sua perda lhe deixara uma sensao de desamparo, que ela combatia preenchendo os dias.
         Estudou as ferramentas com deliberao. Ela mesma lidaria com aqueles insetos.
         A enxada de cabo comprido pesou-lhe nas mos. Norah a levantou devagar e desferiu um golpe largo no ninho, cujo envoltrio empapelado foi facilmente rompido 
pela lmina. S que, quando retirou a enxada, as vespas, furiosas e decididas, saram num enxame do ninho rasgado e voaram diretamente em sua direo. Uma a picou 
no pulso, outra, na bochecha. Ela largou a enxada e correu para dentro de casa, batendo a porta e nela apoiando as costas, sem flego.
         L fora, o enxame descrevia crculos, zumbindo enraivecido em volta do ninho destroado. Algumas vespas pousaram no peitoril da janela, movendo de leve 
as asas delicadas. Enxameadas, raivosas, elas a fizeram pensar nos estudantes que vira de manh; fizeram-na pensar em si mesma. Norah entrou na cozinha e preparou 
outro drinque, salpicando um pouco de gim na bochecha e no pulso, onde as picadas comeavam a inchar, O gim era revigorante, delicioso, enchendo-a de uma sensao 
clida e lquida de bem-estar e poder. Ela ainda dispunha de uma hora antes de sair para buscar Paul.
         - Est certo, suas vespas desgraadas - disse em voz alta -, agora acabou-se.
         Havia repelente para espantar insetos no armrio da entrada, acima dos casacos, dos sapatos e do aspirador de p - um Electrolux azul-metlico, novinho 
em folha. Norah lembrou-se de Bree, afastando do rosto o cabelo louro. Passar o aspirador -  isso que voc quer da vida?
         Estava a meio caminho da porta quando teve a idia.
         As vespas estavam atarefadas, j refazendo o ninho, e pareceram no notar quando Norah saiu de novo, carregando o Electrolux. O aparelho ficou na garagem, 
incongruente e bizarro como um porco azul-metlico. Norah tornou a calar as luvas, ps o chapu e vestiu um casaco. Enrolou uma echarpe em volta do rosto. Ligou 
o aspirador na tomada e o ps para funcionar, deixando-o zumbir por um instante, com um som estranhamente baixo ao ar livre, antes de pegar o bocal. Confiante, meteu-o 
no que restava do ninho. As vespas zumbiram e investiram, furiosas - a bochecha e o brao de Norah deram fisgadas  simples viso delas -, mas foram prontamente 
sugadas com um som crepitante, como bolotas batendo no telhado. Ela agitou o bocal no ar como uma vara de condo, capturando todos os insetos raivosos e esfrangalhando 
o ninho delicado. No tardou a pegar todos. Manteve o aspirador em funcionamento, enquanto procurava um modo de tampar o bocal; no queria que aquelas vespas industriosas 
e obstinadas escapassem. Fazia um dia quente e ensolarado, e os drinques a haviam relaxado muito. Ela enfiou o bocal na terra, mas o aparelho comeou a fazer um 
som estranho de esforo. Foi ento que notou o cano de descarga do carro: sim, o bocal encaixou nele perfeitamente. Satisfeitssima com sua proeza, Norah desligou 
o aspirador e entrou em casa.
         Em frente  pia do banheiro, com o sol entrando pelas janelas de vidro jateado, desatou a echarpe e tirou o chapu, estudando sua imagem no espelho. Olhos 
verde-escuros, cabelos louros e um rosto emagrecido pela preocupao. O cabelo estava achatado e a pele exibia uma pelcula de suor. Um caroo vermelho inflamado 
erguia-se em sua bochecha. Norah mordiscou a parte interna do lbio, pensando no que David via quando a olhava. Perguntou-se quem ela era, de verdade, querendo entrosar-se 
com Kay Marshall num minuto e com os amigos de Bree no outro, dirigindo feito louca at o rio, nunca se sentindo em casa em parte alguma. Qual desses eus David via? 
Ou ser que era uma mulher inteiramente diferente que dormia ao lado dele todas as noites? Ela prpria, sim, mas no como jamais veria a si mesma. Nem tampouco como 
se vira antes, assim como no via o homem com quem havia se casado quando David chegava em casa toda noite, pendurava cuidadosamente o palet numa cadeira e abria 
o jornal vespertino.
         Norah enxugou as mos e foi buscar gelo para colocar no rosto inchado. O ninho de vespas pendia, vazio e rasgado, do beiral da garagem. O Electrolux continuava 
plantado na entrada de automveis, ligado ao cano de descarga do carro por seu longo tubo rugoso, um cordo umbilical prateado que brilhava ao sol. Ela imaginou 
David chegando e constatando que as vespas tinham desaparecido, vendo o quintal decorado, a festa planejada at o ltimo e perfeito detalhe. Ele ficaria surpreso, 
esperava, e satisfeito.
         Olhou para o relgio. Hora de buscar Paul. Na escada dos fundos, parou, procurando a chave de casa na bolsa. Um barulho estranho que vinha da entrada de 
automveis a fez erguer os olhos. Era uma espcie de zumbido e, a princpio, ela achou que as vespas comeavam a fugir. Mas o ar azul estava lmpido, vazio, O zumbido 
transformou-se num chiado, e veio ento o cheiro eltrico de oznio e fiao queimada. Tudo aquilo, percebeu Norah, com uma espcie de assombro vagaroso, vinha do 
Electrolux. Ela desceu a escada correndo. Seus ps j iam tocando o asfalto e ela estendia a mo no luminoso ar primaveril quando, de repente, o Electrolux explodiu, 
escapou do seu alcance e disparou de lado pela relva do jardim, indo bater na cerca com tanta fora que quebrou uma das tbuas. O aparelho azul caiu entre os rododendros, 
soltando fumaa em nuvens oleosas, ganindo como um animal ferido.
         Norah ficou imvel, com a mo estendida, to cristalizada no tempo quanto uma das fotos de David, tentando assimilar o que tinha acontecido. Um pedao do 
cano de descarga fora arrancado do carro. Ao constatar isso, ela compreendeu: os vapores da gasolina deviam ter se acumulado no motor ainda quente do aspirador de 
p, fazendo-o explodir. Norah pensou em Paul, alrgico a abelhas, um menino com voz de flauta que poderia ter estado no caminho do aspirador, se estivesse em casa.
         Enquanto ela observava, uma vespa saiu do cano de descarga enfumaado e voou para longe.
         Por algum motivo, aquilo foi demais para Norah. Todo o esforo de seu trabalho, sua engenhosidade, e agora, apesar de tudo, as vespas iam escapar. Ela atravessou 
o jardim. Com um gesto gil e decidido, abriu o Electrolux, enfiou a mo pela nuvem de fumaa, puxou o saco de papel cheio de poeira e insetos, jogou-o no cho e 
comeou a pular em cima dele, numa dana selvagem. O saco derramou-se numa das extremidades e uma vespa escapou; o p de Norah desceu sobre ela. Era por Paul que 
ela estava lutando, mas tambm por alguma compreenso de si mesma. Voc tem medo da mudana, dissera Bree. Por que no pode simplesmente ser? Mas ser o qu? Norah 
se intrigara com isso o dia inteiro. Ser o qu? Um dia ela soubera: tinha sido filha, estudante e telefonista interurbana, papis que havia manejado com facilidade 
e segurana. Depois, tinha sido noiva, jovem esposa e me, e havia descoberto que essas palavras eram pequenas demais para algum dia abarcar essa experincia. Mesmo 
depois de ficar claro que todas as vespas dentro do saco deviam estar mortas, Norah continuou a danar, desenfreada e resoluta, sobre a massa pastosa. Alguma coisa 
estava acontecendo, alguma coisa havia mudado no mundo e em seu corao. Nessa noite, enquanto o prdio do ROTC queimasse at o cho no campus, com as chamas brilhantes 
desabrochando na noite morna de primavera, Norah sonharia com vespas e abelhas, imensos abelhes onricos flutuando em meio ao capim alto. No dia seguinte, substituiria 
o aspirador de p, sem jamais mencionar o incidente a David. Cancelaria o aluguel do traje de gala para a festa beneficente de Kay; aceitaria aquele emprego. Glamour, 
sim, e aventura, e uma vida prpria.
         Tudo isso iria acontecer, mas, naquele momento, ela no pensou em nada alm do movimento dos ps e no saco que aos poucos se transformava numa massa suja 
de asas e ferres. Ao longe, a multido de manifestantes bramia, e o som crescente percorreu o luminoso ar primaveril e chegou at ela. O sangue pulsava em suas 
tmporas. O que acontecia l acontecia ali tambm, no silncio de seu prprio quintal, nos espaos secretos de seu corao: uma exploso tamanha que a vida nunca 
mais poderia ser a mesma.
         Uma vespa solitria zumbiu perto das azalias e se afastou, enraivecida. Norah saiu de cima do saco de papel empapado. Aturdida, mas sbria, atravessou 
o gramado, apanhando as chaves. Entrou no carro, como se fosse um dia qualquer, e foi buscar o filho. 
           II   PAI! PAPAI?
         Ao som da voz de Paul, de seus passos leves e ligeiros na escada da garagem, David ergueu os olhos da folha de papel j exposto que acabara de colocar no 
revelador.
         - Espere a! - gritou. - S um segundo, Paul!
         Mas, no instante mesmo em que falava, a porta se abriu e deixou que a luz invadisse o aposento.
         - Diabos! - exclamou David, vendo o papel escurecer depressa, a imagem perdida no jorro sbito de luz. - Que inferno, Paul, ser que eu j no lhe disse, 
um milho, um bilho, um trilho de vezes, para no entrar aqui quando a luz vermelha estiver acesa?
         - Desculpe. Desculpe, papai.
         David respirou fundo, arrependido. Paul s tinha seis anos e, parado no vo da porta, parecia muito pequeno.
         - Tudo bem, Paul. Entre. Desculpe eu ter gritado com voc.
         Agachou-se e abriu os braos, nos quais Paul mergulhou, apoiando por um instante a cabea no ombro do pai, e seu novo corte de cabelo, ao mesmo tempo macio 
e espichado, roou o pescoo de David. Paul era leve, esguio e musculoso, um menino que se movia pelo mundo feito mercrio, calado, atento e ansioso por agradar. 
David beijou-lhe a testa, lamentando aquele momento de raiva, maravilhado com as omoplatas do filho, elegantes e perfeitas, estendidas como asas sob camadas de pele 
e msculos.
         - Muito bem. O que foi to importante assim para voc estragar minhas fotografias? - perguntou, sentando-se sobre os calcanhares.
         - Pai, olhe! -exclamou Paul. - Veja o que eu achei.
         Abriu o punho pequenino. Na palma da mo segurava diversas pedras achatadas, discos finos com um furo no centro, do tamanho de botes.
         - So uma beleza - disse David, pegando uma delas. - Onde as achou?
         - Foi ontem, quando eu fui com o Jason  fazenda do avo dele. L tem um riozinho, e a gente tem que tomar cuidado, porque o Jason viu uma cobra venenosa 
no vero passado. Mas agora est muito frio para as cobras, ento a gente ficou brincando e eu achei isso bem na beirinha da gua.
         - Puxa! - fez David. Passou os dedos pelos fsseis leves e delicados, milenares: era o        tempo, preservado com mais clareza do que qualquer foto seria 
capaz de fazer.
          - Esses fsseis foram parte de um lrio-do-mar, Paul. Sabe, muito tempo atrs, grande parte do Kentucky ficava embaixo de um oceano.
         -  mesmo? Bacana! Tem alguma foto no livro das pedras?
         - Pode ser. Vamos verificar, assim que eu fizer a limpeza. Como  que estamos de tempo? - acrescentou, chegando  porta da cmara escura e dando uma espiada 
para fora. Era um belo dia de primavera, de brisa suave e clida, com as cerejeiras em flor em toda a volta do jardim. Norah havia disposto as mesas, cobertas por 
toalhas coloridas. Arrumara os pratos e o ponche, cadeiras e guardanapos, vasos de flores. Num lamo esguio, enfeitado como mastro de festa da primavera no centro 
do quintal, esvoaavam fitas de cores vivas. Ela tambm fizera isso sozinha. David se oferecera para ajudar, mas Norah havia recusado a oferta. No atrapalhe, dissera. 
 o melhor que voc pode fazer neste momento. E ele assim tinha feito.
         David voltou para dentro da cmara escura, fria e escondida, com a iluminao vermelha e fraca e seu cheiro pronunciado de produtos qumicos.
         - A mame t se arrumando - falou Paul. - Disse que  pra eu no me sujar.
         - Uma ordem difcil - comentou David, colocando as garrafas de fixador e revelador numa prateleira alta, fora do alcance do filho. - V L para baixo, sim? 
Eu j estou indo. Vamos dar uma olhada nesses lrios-do-mar.
         Paul desceu a escada correndo; David o viu chispar pelo gramado, deixando bater a porta de tela ao entrar em casa. Lavou as bandejas e as colocou para secar, 
depois tirou o filme do revelador e o ps de Lado. Era sossegado ali na cmara escura, fresca e silenciosa, e ele se deixou ficar mais alguns segundos antes de ir 
atrs de Paul. Do lado de fora, as toalhas das mesas esvoaavam na brisa. Cestinhas de papel, cheias de flores primaveris, decoravam cada prato. Na vspera, que 
tinha sido a verdadeira data da Festa da Primavera, Paul tambm levara cestinhas como essas para os vizinhos, pendurando-as em cada porta de entrada, batendo e correndo, 
para se esconder e v-las serem descobertas. Idia de Norah, seus dotes artsticos, sua energia e sua imaginao.  Ela estava na cozinha, com um avental sobre o 
terninho de seda cor de coral, arrumando ramos de salsa e tomates-cereja numa travessa de frios.
         - Tudo pronto? - perguntou David. - Est lindo l fora. H alguma coisa que eu possa fazer?
         - Vestir-se? - sugeriu Norah, olhando para o relgio. Enxugou as mos num pano de prato. - Mas, primeiro, ponha esta travessa na geladeira l de baixo, 
sim? A daqui j est cheia. Obrigada.
         David pegou a travessa, sentindo a frieza do vidro nas mos.
         - Que trabalheira! - comentou. - Por que voc no contrata uma firma para fornecer o buf nessas festas?
         Ele tinha pretendido ajudar, mas Norah se deteve, franzindo o cenho, na sada da porta.
         - Porque eu gosto disso. De planejar, cozinhar, tudo - disse. - Porque me d muito prazer organizar uma coisa bonita a partir do nada. Tenho uma poro 
de talentos - acrescentou com frieza -, quer voc se d conta ou no.
         - No foi isso que eu quis dizer - suspirou David. Nos ltimos tempos, eles pareciam dois planetas orbitando o mesmo sol, sem colidir, mas tambm sem se 
aproximar. - O que eu quis dizer foi: por que no contar com um pouco de ajuda? Contratar uma equipe que fornea o buf. Ns certamente podemos pagar.
         - No se trata do dinheiro - retrucou Norah, que abanou a cabea e se retirou.
         David guardou a travessa e subiu para fazer a barba. Paul o acompanhou e sentou-se na beirada da banheira, falando mil palavras por minuto e batendo com 
os calcanhares na porcelana. Adorava a fazenda do av de Jason, tinha ajudado a ordenhar uma vaca, e o av de Jason o deixara beber leite ainda morno, com gosto 
de grama.
         David espalhou a espuma de barbear com um pincel macio, comprazendo-se em ouvir. A lmina deslizava suave, abrindo faixas bem demarcadas em seu queixo e 
projetando partculas de luz no teto. Por um momento, o mundo inteiro pareceu deter-se, suspenso: a brisa fresca da primavera, o perfume da espuma e a voz empolgada 
de seu filho.
         - Eu costumava ordenhar vacas - disse David. Enxugou o rosto e pegou a camisa. - Conseguia esguichar um jato de leite direto na boca do gato.
         - Foi isso que o pai do Jason fez! Eu gosto do Jason. Queria que ele fosse meu irmo.
         Pondo a gravata, David observou o reflexo de Paul no espelho. No silncio que no era bem um silncio - com o pinga-pinga da torneira da pia, o tiquetaque 
baixinho do relgio, o sussurro do tecido roando no tecido -, seu pensamento vagou at a filha. A intervalos de meses, ao examinar a correspondncia do consultrio, 
ele deparava com a letra confusa de Caroline. Embora as primeiras cartas tivessem vindo de Cleveland, agora cada envelope trazia um carimbo postal diferente. Vez 
por outra, Caroline anexava um novo nmero de caixa postal - sempre em lugares diferentes, vastas cidades impessoais - e, toda vez que ela o fazia, David mandava 
dinheiro. Os dois nunca haviam se conhecido muito bem, mas, ao longo dos anos, as cartas dela tinham se tornado cada vez mais ntimas. As mais recentes pareciam 
ter sido arrancadas de seu dirio, comeando por Caro David, ou simplesmente David, e derramando as idias numa enxurrada. De quando em quando, ele tentava jog-las 
fora sem abrir, mas sempre acabava por pesc-las no lixo e l-las depressa. Guardava-as trancadas a chave no armrio de arquivo da cmara escura para sempre saber 
onde elas estavam. Para que Norah nunca as encontrasse.
         Uma vez, anos antes, quando as cartas tinham comeado a chegar, David fizera a viagem de oito horas at Cleveland. Passara trs dias andando pela cidade, 
examinando catlogos telefnicos, verificando todos os hospitais. Na agncia central do correio, chegara a pr os dedos na portinha de metal que exibia o nmero 
621, mas o chefe da agncia se recusara a lhe fornecer o nome ou o endereo do proprietrio. Nesse caso, vou ficar aqui e esperar, dissera David, e o homem dera 
de ombros. V em frente, tinha dito. Mas  melhor trazer alguma coisa para comer. s vezes leva semanas para uma dessas caixas postais ser aberta.
         No fim, ele havia desistido e voltado para casa, deixando os dias correrem, um por um, enquanto Phoebe crescia sem ele. Toda vez que mandava dinheiro, ele 
juntava um bilhete em que pedia a Caroline para lhe dizer onde morava, mas no chegava a pression-la nem contratou um detetive particular, como algumas vezes tinha 
imaginado fazer. O desejo de ser encontrada teria que partir dela, achava. David acreditava que queria encontr-la. Acreditava que, quando o fizesse - quando conseguisse 
consertar as coisas -, seria capaz de dizer a verdade a Norah.
         Acreditava nisso tudo e, todas as manhs, levantava-se e ia a p para o hospital. Fazia cirurgias, examinava radiografias, voltava para casa, cortava a 
grama e brincava com Paul; tinha uma vida cheia. Mesmo assim, porm, a cada dois ou trs meses, sem nenhuma razo previsvel, despertava de sonhos em que Caroline 
Gill o fitava  porta da clnica, ou do outro lado do ptio da igreja. Levantava trmulo, vestia-se e ia para o consultrio, ou ento para a cmara escura l fora, 
onde trabalhava em seus arquivos ou mergulhava suas fotografias nos banhos qumicos, observando as imagens aparecerem onde antes no havia nada.
         - Papai, voc esqueceu de olhar os fsseis - disse Paul. - Voc prometeu.
         - Est bem - respondeu David, obrigando-se a voltar ao presente e ajeitando o n da gravata. - Est certo, filho. Eu prometi.
         Desceram juntos at o escritrio e espalharam os livros conhecidos na escrivaninha. O fssil era um crinide, proveniente de um pequeno animal marinho cujo 
corpo se assemelhava a uma flor. As pedras, parecidas com botes, tinham sido placas formadoras da coluna hasteada. David descansou de leve a mo nas costas do filho, 
sentindo sua carne quente e viva e as vrtebras delicadas, logo abaixo da pele.
         - Vou mostrar pra mame - disse o menino. Pegou os fsseis, atravessou a casa correndo e saiu pela porta dos fundos. David pegou uma bebida e parou  janela. 
Alguns convidados tinham chegado e se espalhavam pelo jardim, os homens com ternos azul-escuros, as mulheres lembrando flores vivas de primavera, em tons de rosa, 
amarelo vibrante e azul-claro. Norah deslocava-se por entre eles, abraando as mulheres, trocando apertos de mo com os homens, cuidando das apresentaes. Era muito 
tmida na poca em que David a conhecera, calma, reservada e atenta. Ele nunca a teria imaginado nesse momento, to socivel e descontrada, promovendo uma festa 
que havia orquestrado nos mnimos detalhes. Ao observ-la, encheu-se de uma espcie de saudade. De qu? Da vida que eles poderiam ter tido, talvez. Norah parecia 
muito feliz, rindo no jardim. Mas David sabia que esse sucesso no bastaria nem mesmo por um dia.  noite, ela j teria passado para o projeto seguinte e, se ele 
acordasse de madrugada e lhe alisasse a curva das costas, na esperana de excit-la, ela resmungaria, seguraria sua mo e viraria para o outro lado, tudo sem acordar.
         Paul estava no balano nesse momento, voando alto no cu azul. Usava os crinides no pescoo, presos numa tira comprida de barbante; eles subiam e desciam, 
quicando em seu peito mido, s vezes batendo nas correntes do balano.
         - Paul - chamou Norah, fazendo ouvir claramente sua voz pela porta aberta. - Paul, tire isso do pescoo.  perigoso.
         David pegou o copo e foi para o lado de fora. Encontrou a mulher no jardim.
         - No faa isso - disse baixinho, pondo-lhe a mo no brao. - Ele mesmo fez o colar.
         - Eu sei - retrucou ela. - Fui eu que lhe dei o barbante. Mas ele pode us-lo depois. Se escorregar enquanto est brincando e o cordo ficar preso, pode 
sufoc-lo.
         Norah estava muito tensa; David retirou a mo. - Isso no  provvel - disse, e desejou poder apagar a perda que os dois tinham sofrido e tudo que ela fizera 
a ambos. - No vai acontecer nada de mau com ele, Norah.
         - Isso voc no sabe.
         - Mesmo assim, o David tem razo, Norah.
         A voz veio de trs. David virou-se e viu Bree, cuja impetuosidade, paixo e beleza moviam-se pela casa deles como uma ventania. Usava um vestido primaveril 
de tecido difano que parecia flutuar a seu redor quando ela andava, e estava de mos dadas com um rapaz um pouco mais baixo: alinhado, de cabelo curto meio ruivo, 
sandlias e colarinho desabotoado.
         - Bree,  verdade, o colar pode ficar preso e faz-lo sufocar - insistiu Norah, virando-se tambm.
         - Ele est no balano - disse Bree, descontrada, enquanto Paul subia bem alto, com a cabea inclinada para trs e o sol batendo no rosto. - Olhe para ele, 
est todo contente. No o faa descer e ficar cheio de preocupaes. O David est certo. No vai acontecer nada de mau.
         Norah forou um sorriso.
         - No? O mundo pode acabar. Foi o que voc mesma disse ontem.
         - Mas isso foi ontem - retrucou Bree. Ps a mo no brao de Norah e as duas se entreolharam longamente, ligadas de um modo que exclua qualquer outra pessoa.
         David observou-as, sentindo uma onda de saudade ante a lembrana sbita da irm, os dois escondidos embaixo da mesa da cozinha, espiando por entre as dobras 
do oleado e abafando o riso. Lembrou-se dos olhos dela, do calor de seu brao e da alegria de sua companhia.
         - O que aconteceu ontem? - perguntou, afastando a lembrana, mas Bree o ignorou, dirigindo-se a Norah.
         - Desculpe, minha irm. As coisas estavam meio loucas ontem. Fui impertinente.
         - Tambm peo desculpas - disse Norah. - Que bom que voc veio  festa.
         - O que aconteceu ontem? Voc esteve naquele incndio, Bree? - tornou a perguntar David. Ele e Norah haviam acordado de madrugada com o barulho das sirenes, 
o cheio acre de fumaa e um brilho estranho no cu. Tinham sado para se juntar aos vizinhos na escurido silenciosa dos gramados, molhando os tornozelos de orvalho 
enquanto no campus o prdio do ROTC pegava fogo. Os protestos vinham aumentando, com camadas de tenso no ar, invisveis mas reais, enquanto nos vilarejos ao longo 
do rio Mekong as bombas caam e gente corria com os filhos agonizantes nos braos. Agora, em Ohio, do outro lado do rio, havia quatro estudantes mortos. Mas ningum 
tinha imaginado uma coisa dessas em Lexington, no Kentucky: um coquetel molotov, um prdio em chamas e a polcia fervilhando nas ruas.
         Bree virou-se para ele, cabelos compridos balanando nos ombros, e abanou a cabea.
         - No, no estive l, mas o Mark esteve.
         Sorriu para o rapaz a seu lado e enfiou o brao esguio no dele.
         - Este  Mark Bell.
         - O Mark lutou no Vietn - acrescentou Norah. - Est aqui fazendo protestos contra a guerra.
         - Ah, um agitador - fez David.
         - Um participante dos protestos, eu diria - corrigiu Norah, acenando para o outro lado do jardim. - L est a Kay Marshall. Vocs me do licena?
         - Ento, um participante dos protestos - repetiu David, vendo-a afastar-se, com a brisa balanando de leve as mangas de seu terninho de seda.
         - Isso mesmo - disse Mark, com firmeza meio zombeteira e um sotaque vagamente familiar que fez David lembrar a voz de seu pai, grave e melodiosa. - A busca 
incessante da imparcialidade e da justia.
         - Voc estava no noticirio - disse David, lembrando-se de repente. - Ontem  noite. Estava fazendo uma espcie de discurso. Pois . Deve estar contente 
com o incndio.
         Mark deu de ombros.
         - Contente, no. Nem triste. Aconteceu, s isso. Ns seguimos em frente.
         - Por que est sendo to agressivo, David? - perguntou Bree, fixando nele os olhos verdes.
         - No estou sendo agressivo - disse David, conscientizando-se, no prprio ato de falar, de que estava. E percebendo tambm que comeava a alargar e esticar 
as vogais, convocado pela atrao profunda da linguagem, por estilos de fala conhecidos e irresistveis como a gua. - Estou colhendo informaes, s isso. De onde 
voc ? - perguntou a Mark.
         - Da Virgnia Ocidental. Perto de Elkms. Por qu?
         - Curiosidade. J tive famlia por l.
         - Eu no sabia disso a seu respeito, David. Pensei que voc fosse de Pittsburgh - disse Bree.
         - Meus pais eram das imediaes de Elkins - repetiu David. - Faz muito tempo.
         -  mesmo? - indagou Mark, que agora o observava com menos desconfiana. - Trabalhavam nas minas de carvo?
         - s vezes, no inverno. Eles tinham uma fazenda. Era uma vida dura, mas no tanto quanto o trabalho com o carvo.
         - Eles ainda tm a terra?
         - Sim - confirmou David, pensando na casa que no via fazia quase 15 anos.
         - Foram espertos. J o meu pai vendeu a casa da famlia. Quando morreu nas minas, cinco anos depois, ficamos sem ter para onde ir. Sem lugar nenhum mesmo. 
Mark deu um sorriso amargo e ficou pensativo por um instante. Em seguida, perguntou:
         - Voc costuma voltar l?
         - Faz muito tempo que no. E voc?
         - No. Depois do Vietn, fui para a faculdade. Em Morgantown, com base na lei dos ex-combatentes. Voltar ficou meio esquisito. Eu fazia e no fazia parte 
daquilo, se entende o que eu quero dizer. Quando sa, no achei que estivesse fazendo uma escolha. Mas foi o que acabou sendo.
         David acenou com a cabea.
         - Eu sei. Sei o que voc quer dizer -, concordou.
         - Bem - disse Bree, aps um longo momento de silncio. - Agora vocs dois esto aqui. E eu com mais sede a cada segundo - acrescentou. - Mark? David? Querem 
uma bebida?
         - Vou com voc disse Mark, estendendo a mo a David. - Mundo pequeno, no ? Foi um prazer conhec-lo.
         - O        David  um mistrio para todos ns - disse Bree, puxando-o para longe. - Pergunte s  Norah.
         David os viu misturarem-se ao grupo animado que circulava pelo jardim. Um simples encontro, mas ele se sentiu estranhamente agitado, exposto e vulnervel, 
com o passado a se avolumar como o oceano. Toda manh, parava por um instante na entrada do consultrio, inspecionando seu mundo limpo e simples: a disposio ordeira 
dos instrumentos, o tecido branco e bem passado que cobria a mesa de exames. Por qualquer padro externo, ele era um sucesso, mas nunca se sentia tomado por uma 
sensao de orgulho e segurana, como havia esperado. Ento,  isso a, dissera seu pai, batendo a porta da caminhonete e parando no meio-fio, no ponto de nibus, 
no dia em que David partira para Pittsburgh. Imagino que seja a ltima vez que podemos esperar alguma notcia sua, agora que voc vai subir na vida e tudo mais. 
Voc j no ter tempo para gente como ns. E David, parado no meio-fio, com as primeiras folhas de outono a carem a seu redor, tivera uma profunda sensao de 
desespero, porque, j naquele momento, havia intudo a verdade das palavras do pai: quaisquer que fossem suas intenes, por mais que ele os amasse, a vida o levaria 
para longe.
         - Tudo bem com voc, David? - perguntou Kay Marshall. Ia passando, com um vaso de tulipas rosa-claro, cada ptala to delicada quanto as bordas de um pulmo. 
- Voc parece estar a um milho de quilmetros daqui.
         - Ol, Kay - disse ele. Kay o fazia lembrar um pouco de Norah, sempre com uma espcie de solido por baixo da superfcie cuidadosamente polida. Um dia, 
depois de beber demais numa outra festa, Kay o seguira por um corredor escuro, envolvera-o nos braos e o beijara. No susto, ele havia retribudo o beijo. O momento 
tinha passado e, embora muitas vezes pensasse no contato frio e surpreendente dos lbios dela nos seus, David tambm se perguntava, toda vez que a via, se aquilo 
tinha realmente acontecido.
         - Voc est linda como sempre, Kay - e ergueu o copo. Ela sorriu, deu uma risada e seguiu em frente.
         David entrou no clima fresco da garagem e subiu a escada, pegou sua cmera no armrio e ps um filme novo. A voz de Norah se elevava sobre o burburinho 
do grupo e ele se lembrou da sensao de sua pele, quando a havia procurado naquela manh, e da curva suave de suas costas. Lembrou-se do momento que ela havia compartilhado 
com Bree, da profunda ligao entre elas, um vnculo maior do que ele jamais voltaria a ter com sua mulher. Nada me faltar. Mas falta, pensou consigo mesmo, pendurando 
a cmera no pescoo. Falta.
         Deslocou-se pelas bordas do grupo, sorrindo e cumprimentando, trocando apertos de mo, afastando-se das conversas para captar momentos da festa em filme. 
Parou diante das tulipas de Kay, focalizando-as em close, e pensou no quanto elas realmente se pareciam com o tecido delicado dos pulmes e em como seria interessante 
tirar fotos dos dois e pendur-las lado a lado, explorando sua idia de que o corpo, de um modo misterioso, espelhava perfeitamente o mundo. Ficou absorto nisso, 
sentindo os sons da festa se distanciarem, enquanto se concentrava nas flores, e levou um susto ao sentir a mo de Norah em seu brao.
         - Guarde a cmera - disse ela. - Por favor.  uma festa, David.
         - Essas tulipas so lindas - comeou ele, mas no conseguiu se explicar, pr em palavras a razo por que aquelas imagens o atraam tanto.
         -  uma festa - repetiu Norah. - Voc pode perd-la e tirar fotografias ou pegar uma bebida e participar.
         - J estou com uma bebida - ele assinalou. - Ningum se incomoda por eu tirar umas fotos, Norah.
         - Eu me incomodo.  grosseria.
         Continuaram falando em voz baixa e, durante todo o dilogo, Norah no parou  de sorrir. Tinha a expresso serena; acenava com a cabea e as mos para outras 
pessoas no jardim. Mas David sentiu a tenso que emanava dela, assim como a raiva contida.
         - Tive muito trabalho - disse ela. - Organizei tudo. Preparei toda a comida. Acabei at com as vespas. Por que voc no pode simplesmente aproveitar?
         - Quando foi que voc derrubou o ninho? - indagou ele, em busca de um assunto seguro, olhando para o beiral limpo da garagem.
         - Ontem - respondeu Norah, e lhe mostrou o pulso e o calombo ainda avermelhado. - No queria correr nenhum risco, com as suas alergias e as de Paul.
         - A festa est linda - disse David. Num impulso, levou o pulso dela aos lbios e beijou suavemente o lugar em que ela fora picada. Norah o fitou, arregalando 
os olhos de surpresa, com um lampejo de prazer, depois retirou a mo.
         - David - disse baixinho -, pelo amor de Deus, aqui no. Agora no.
         - Ei, papai! - gritou Paul, e David olhou em volta, tentando localizar o filho.
          - Me, pai, olhem pra mim. Olhem pra mim!
         - Ele est no carvalho - disse Norah, cobrindo os olhos com a mo para fazer sombra e apontando para o outro Lado do jardim. - Olhe, l em cima, mais ou 
menos no meio da copa. Como foi que ele fez isso?
         - Aposto que subiu pelo balano. Oi! gritou David, acenando.
         - Desa j da! - gritou Norah. E, voltando-se para David: - Ele est me deixando nervosa.
         - Ele  um garoto - fez David. - Garotos trepam em rvores. Ele vai ficar bem.
         - Ei, me! Pai! Socorro! - gritou Paul, mas, quando os dois olharam, o menino estava rindo.
         - Lembra de quando ele fazia isso na mercearia? - perguntou Norah. - Lembra, quando ele estava aprendendo a falar, como costumava gritar socorro no meio 
da loja? As pessoas achavam que eu era uma seqestradora.
         - Uma vez ele fez isso na clnica - disse David. - Lembra disso?
         Os dois riram juntos. David sentiu uma onda de alegria.
         - Guarde a cmera - pediu Norah, com a mo em seu brao.
         - Est bem. Vou guardar.
         Bree tinha se aproximado do mastro da primavera e segurado uma fita azul-arroxeada. Intrigadas, outras pessoas a imitaram. David comeou a se encaminhar 
para a garagem, olhando para as pontas balanantes das fitas. Sbito, ouviu um remexer e farfalhar de folhas, o rudo alto de um galho partindo. Viu Bree levantar 
as mos, deixando cair a fita, e estend-las para cima. Fez-se silncio por um longo instante e, em seguida, Norah gritou. David virou-se a tempo de ver Paul bater 
no cho com um baque surdo, depois quicar de leve uma vez, com as costas, com o colar de lrios-do-mar arrebentado e os preciosos crinides espalhados pelo cho. 
Saiu correndo, passando por entre os convidados, e se ajoelhou ao lado do filho. Os olhos escuros de Paul estavam cheios de medo. Ele segurou a mo do pai, esforando-se 
para respirar.
         - Est tudo bem - fez David, alisando-lhe a testa. - Voc caiu da rvore e perdeu o flego, s isso. Relaxe. Respire outra vez. Vai ficar tudo bem.
         - Ele est bem? - perguntou Norah, ajoelhando-se ao lado do marido com seu terninho coral. - Paul, meu amor, voc est legal?
         Paul arquejou e tossiu, com os olhos marejados.
         - Meu brao t doendo - disse, quando conseguiu recobrar a fala. Estava plido, com uma fina veia azul aparecendo na testa, e David percebeu que o filho 
se esforava para no chorar. - Meu brao t doendo muito.
         - Qual brao? - perguntou David, com a voz mais calma do mundo. - Pode me mostrar onde di?
         Era o brao esquerdo e, quando David o levantou, cuidadosamente, sustentando o cotovelo e o pulso, o menino gritou de dor.
         - David! - exclamou Norah. - Est quebrado?
         - Bem, no tenho certeza - respondeu ele, calmamente, embora estivesse quase certo de que sim. Apoiou com delicadeza o brao de Paul em seu peito e ps 
a mo nas costas de Norah, para consol-la. - Paul, vou levantar voc. Vou lev-lo para o carro. E depois vamos ao meu consultrio, sim? Vou lhe mostrar tudo sobre 
os raios X.
         Devagar, delicadamente, levantou Paul. O filho era muito leve em seu colo, Os convidados se afastaram para deix-los passar. David ps o menino no banco 
traseiro, pegou um cobertor na mala e o ajeitou em volta do filho.
         - Eu tambm vou - disse Norah, sentando-se no banco da frente, ao lado do marido.
         - E a festa?
         - Tem muita comida e vinho. Eles tero que se arranjar.
         Partiram para o hospital na alegre brisa primaveril. De vez em quando, Norah ainda implicava com David por causa da noite do parto, por seu jeito vagaroso 
e metdico de dirigir pelas ruas desertas, mas ele tambm no conseguiu acelerar nesse dia. Passaram pelo prdio do ROTC, que ainda fumegava. Pequenos tufos de fumaa 
erguiam-se como renda negra. Perto dele havia cerejeiras em flor, cujas ptalas claras e frgeis contrastavam com a parede enegrecida.
         - O mundo est caindo aos pedaos,  essa a sensao - comentou Norah. baixinho.
         - Agora no, Norah.
         David olhou para Paul pelo retrovisor. O filho estava calado, sem reclamar, mas as lgrimas corriam por seu rosto plido.
         No pronto-socorro, David usou sua influncia para apressar o processo de admisso e o uso do raio- X. Ajudou Paul a se acomodar numa cama, deixou Norah 
contando-lhe histrias de um livro que havia apanhado na sala de espera e foi buscar as radiografias. Ao receb-las do tcnico, viu que estava com as mos trmulas 
e seguiu ento para seu consultrio, cruzando os corredores estranhamente silenciosos naquela linda tarde de sbado. A porta fechou s suas costas e, por um instante, 
David ficou sozinho no escuro, tentando se recompor. Sabia que as paredes eram verde-gua e que havia papis espalhados na escrivaninha. Sabia que os instrumentos 
de ao e cromo estavam alinhados em bandejas, embaixo dos armrios de portas de vidro. Mas no enxergava nada. Levantou a mo e encostou a palma no nariz, mas nem 
mesmo a uma distncia to pequena conseguiu enxergar sua prpria pele, apenas senti-la.
         Tateou  procura do interruptor, que cedeu a seu contato. Um painel montado na parede piscou e se encheu de uma luz branca e firme, que tirava a cor dos 
outros objetos. No painel havia negativos que ele tinha revelado na semana anterior: uma srie de fotos de uma veia humana, tiradas em seqncia, em gradaes de 
luz controladas com preciso, com o nvel de contraste sutilmente alterado a cada uma. O que empolgava David era a preciso a que ele havia chegado e o modo como 
as imagens menos pareciam uma parte do corpo humano do que outras coisas: um raio descendo em ramos sobre a terra, rios de guas sombrias, um trecho oscilante de 
mar.
         Suas mos estavam trmulas. David obrigou-se a respirar fundo vrias vezes, depois retirou os negativos e prendeu as radiografias de Paul nos grampos. Os 
ossos pequenos do filho, slidos, mas delicados, destacaram-se com assombrosa clareza. David percorreu com as pontas dos dedos a imagem repleta de luz. To lindos 
os ossos de seu filho pequeno, opacos, mas visveis ali como se estivessem iluminados, imagens translcidas que flutuavam na escurido do consultrio, fortes e delicadas 
como os galhos entrelaados de uma rvore.
         A leso era bem simples: fraturas claras e bem delineadas do cbito e do rdio. Eram ossos paralelos; o maior perigo era que, ao se consolidarem, os dois 
viessem a se fundir.
         David acendeu a luz do teto e voltou pelo corredor, pensando no belo mundo oculto dentro do corpo. Anos antes, numa sapataria em Morgantown, enquanto seu 
pai experimentava botas de trabalho e franzia o cenho diante do preo, David subira num aparelho que lhe radiografara os ps, transformando seus dedos comuns numa 
coisa fantasmagrica, misteriosa. Extasiado, ele havia estudado as varas e bulbos de luz e sombra que eram seus artelhos, seus calcanhares.
         Aquele tinha sido, embora ele houvesse levado anos para perceb-lo, um momento definidor. A existncia de outros mundos, invisveis, desconhecidos, alm 
at da imaginao, tinha sido uma revelao para David. Nas semanas seguintes, ao ver cervos correndo ou pssaros levantando vo, folhas balanando e coelhos surgindo 
de repente das moitas, ele ficara olhando atentamente, tentando vislumbrar as estruturas ocultas. E June, sentada nos degraus da varanda, descascando ervilhas ou 
milho calmamente, com os lbios entreabertos de concentrao: tambm ela o menino havia fitado.  que a irm era e no era igual a ele, e o que os separava era um 
grande mistrio.
         Sua irm, aquela menina que adorava o vento, ria para o sol em seu rosto e no tinha medo de cobras. Ela morrera aos 12 anos, e agora no passava da lembrana 
do amor - nada alm de ossos.
         E sua filha de seis anos andava pelo mundo, mas David no a conhecia.
         Quando ele voltou, Norah segurava Paul no colo, embora o menino estivesse crescido demais para esse tipo de consolo, apoiando sem jeito a cabea no ombro 
da me. Seu brao tremia, com pequenas convulses provocadas pelo trauma.
         - Est quebrado? - perguntou Norah, no mesmo instante.
         - Sim, receio que sim - disse David. - Venha dar uma olhada.
         Ps as radiografias no painel iluminado e apontou para as linhas escurecidas das fraturas.
         Esqueletos no armrio, diziam as pessoas,  osso duro de roer, e ossos do oficio. Mas os ossos tinham vida; cresciam e se consertavam; podiam juntar o que 
fora separado.
         - Tomei tanto cuidado com as abelhas - disse Norah, ajudando o marido a carregar Paul de novo para a mesa de exames. - Com as vespas, digo. Livrei-me das 
vespas e, agora, isto.
         - Foi um acidente - disse David.
         - Eu sei - retrucou ela, quase em lgrimas. - O problema  todo esse.
         David no respondeu. Havia apanhado o material para fazer o molde e se concentrou em aplicar o gesso. Fazia muito tempo que no executava essa tarefa - 
em geral, reduzia a fratura e deixava o resto por conta da enfermeira - e achou-a reconfortante. O brao de Paul era pequeno e o gesso foi crescendo aos poucos, 
branco como uma concha alvejada, luminoso e sedutor como uma folha de papel. Em poucos dias estaria transformado num cinza opaco, coberto de vivos rabiscos infantis.
         - Trs meses - disse David. - Em trs meses voc tira o gesso.
         - Isso  quase o vero inteiro - comentou Norah.
         - E a Liga Mirim de Beisebol? - perguntou Paul. - E nadar?
         - Voc disse que no ia acontecer nada - repreendeu Norah -, e agora ele est com o brao quebrado. Simples assim. Podia ter sido o pescoo dele. A coluna.
         Sbito, David sentiu-se cansado, dilacerado por causa de Paul, exasperado com Norah.
         - , podia ter sido, mas no foi. Portanto, pare. Est bem? Pare com isso, Norah. Paul ficara quieto e ouvia atentamente, concentrado no tom e na carncia 
alterados da voz dos pais. David perguntou-se como o filho recordaria esse dia. Ao imagin-lo no futuro incerto, num mundo em que se podia ir a uma passeata e acabar 
morto, com uma bala no pescoo, compartilhou o medo de Norah. Ela estava certa. Tudo podia acontecer. David ps a mo na cabea do filho, sentindo em sua palma o 
espetar do corte  escovinha.
         - Desculpe, papai - disse Paul com voz mida. - Eu no queria estragar as fotos.
         Aps um minuto de confuso, David lembrou-se de sua gritaria, horas antes, quando a luz da cmara escura se acendera, e recordou Paul imvel, com a mo 
no interruptor, apavorado demais para se mexer.
         - Ah, no. No, meu filho, no estou zangado por causa daquilo, no se preocupe - e afagou o rosto do menino. - As fotos no tm importncia. Eu s estava 
cansado hoje de manh, sim?
         Paul passou o dedo pela borda do gesso.
         - Eu no tive inteno de assust-lo - disse David. - No estou zangado.
         - Posso escutar o estetoscpio?
         -  claro - disse David. Fixou as pontas pretas do estetoscpio nos ouvidos do filho e se agachou. Ps o disco frio de metal em seu prprio corao.
         Pelo canto do olho, viu Norah observando os dois. Fora da movimentao animada da festa, ela carregava sua tristeza como uma pedra escura agarrada na mo. 
David sentiu vontade de consol-la, mas no conseguiu pensar em nada para dizer. Gostaria que existisse algum tipo de viso de raios X do corao humano: o de Norah 
e o seu.
         - Eu gostaria que voc fosse mais feliz - disse baixinho. - Gostaria que houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer.
         - No precisa se preocupar - disse ela. - No comigo.
         - No preciso?
         David respirou fundo, para que Paul pudesse ouvir o fluxo do ar.
         - No. Ontem eu arranjei um emprego.
         - Emprego?
         - . Um bom emprego.
         Norah contou-lhe tudo: uma agncia de viagens, turno da manh. Ela chegaria em casa a tempo de buscar Paul na escola. Enquanto a mulher falava, David teve 
a sensao de que ela voava para longe.
         - Tenho andado maluca - acrescentou Norah, com uma impetuosidade que o surpreendeu. - Completamente maluca, com tempo demais sobrando. Isso vai ser bom.
         - Certo - fez ele. - Tudo bem. Se voc faz tanta questo de um emprego, aceite-o.
         Fez ccegas em Paul e pegou o otoscpio.
         - Tome - disse ao filho. - Examine meus ouvidos. Veja se deixei algum passarinho dentro deles.
         Paul riu, e o metal frio deslizou pelo ouvido de David.
         - Eu sabia que voc no ia gostar - disse Norah.
         - O que quer dizer? Eu lhe disse para aceitar o emprego.
         - Eu me refiro ao seu tom. Voc devia se ouvir.
         - Bom, o que  que voc esperava? - disse David, tentando manter a voz inalterada, para o bem de Paul. -  difcil no encarar isso como uma crtica.
         - S seria crtica se dissesse respeito a voc.  isso que voc no entende. Mas no tem a ver com voc. Tem a ver com a liberdade. Tem a ver com levar 
uma vida prpria. Gostaria que voc pudesse compreender isso.
         - Liberdade? - fez David. Ela andara conversando com a irm de novo, isso ele podia apostar. - Voc acha que algum  livre, Norah? Acha que eu sou?
         Houve um longo silncio, e David sentiu-se grato quando Paul o quebrou.
          - Nenhum passarinho, papai. S girafas.
         -  mesmo? Quantas?
         - Seis.
         - Seis! Puxa vida!  melhor examinar o outro ouvido.
         - Pode ser que eu deteste o emprego - disse Norah. - Mas, pelo menos, vou ficar sabendo.
         - Nenhum passarinho - disse Paul. - Nem girafas. S elefantes.
         - Elefantes no canal auditivo - repetiu David, pegando o otoscpio. -  melhor irmos logo para casa.
         Obrigou-se a sorrir, agachando-se para pegar Paul no colo, com gesso e tudo. Ao sentir o peso do filho, o calor do brao bom em volta de seu pescoo, perguntou-se 
como teria sido a vida deles se houvesse tomado uma deciso diferente seis anos antes. A neve caa, ele ficara inteiramente s naquele silncio e, num momento crucial, 
tinha alterado tudo. David, escrevera Caroline Gill em sua ltima carta, agora tenho um namorado. Ele  muito bom, e a Phoebe est tima; adora pegar borboletas 
e cantar.
         - Estou contente com o emprego - disse a Norah, enquanto esperavam o elevador no corredor. - No quero ser teimoso, mas no acredito que isso no tenha 
nada a ver comigo.
         Norah deu um suspiro.
         - No, voc no poderia acreditar, no ?
         - Que quer dizer?
         - Voc se acha o centro do universo. O ponto imvel em torno do qual gira todo o resto.
         Pegaram as coisas e entraram no elevador. L fora ainda fazia um lindo dia, um fim de tarde claro e ensolarado. Ao chegarem em casa, os convidados tinham 
ido embora. Restavam apenas Bree e Mark, levando travessas de comida para dentro. As fitas do mastro da Festa da Primavera esvoaavam na brisa. A cmera de David 
estava em cima de uma mesa, e os fsseis de Paul, arrumados numa pilha ao lado dela. David parou e inspecionou o jardim, com suas cadeiras dispersas. Houvera um 
tempo em que todo aquele mundo estivera escondido sob um mar raso. Ele levou Paul para dentro, subindo a escada. Deu-lhe um copo d'gua e uma aspirina mastigvel, 
sabor laranja, de que ele gostava, e se sentou na cama com o filho, segurando-lhe a mo. Aquela mozinha mida, muito quente e viva. Relembrando as imagens iluminadas 
dos ossos de Paul, sentiu-se tomado por um sentimento de admirao. Era isso que ele ansiava por captar no celulide: esses raros momentos em que o mundo parecia 
unificado, coerente, todo contido numa nica imagem fugaz. Uma simplicidade que guardava beleza, esperana e movimento - uma espcie de poesia em prata, assim como 
o corpo era poesia em carne, sangue e ossos.
         - L uma histria pra mim, papai - disse Paul, e David acomodou-se na cama, com o filho no colo, virando as pginas de George, o curioso, que nessa histria 
estava no hospital, com uma perna quebrada. No trreo, Norah circulava pelos cmodos, cuidando da limpeza. A porta de tela abria e fechava, abria e fechava outra 
vez. David a imaginou passando por ela, vestida de terninho, a caminho do novo emprego e de uma vida que o exclua. A tarde estava chegando ao fim e uma luz dourada 
enchia o quarto. Ele virou outra pgina e segurou Paul, sentindo seu calor, sua respirao regular. Uma brisa levantava as cortinas. L fora, as cerejeiras formavam 
uma nuvem brilhante, em contraste com as tbuas escuras da cerca. David fez uma pausa na leitura, vendo as ptalas brancas carem e flutuarem no ar. Sentiu-se reconfortado 
e perturbado por sua beleza, tentando no notar que,  distncia, elas pareciam neve.
           JUNHO DE 1970
         - BEM, A PHOEBE COM CERTEZA TEM O SEU CABELO - OBSERVOU DOROTHY.
         Caroline levou a mo  nuca, pensando. Elas estavam na zona leste de Pittsburgh, num antigo prdio de fbrica que fora transformado numa pr-escola progressista. 
A luz entrava pelas janelas altas e respingava em partculas e desenhos no piso de tbuas; destacava os toques castanho-avermelhados das tranas finas de Phoebe, 
parada diante de uma grande arca de madeira, pegando punhados de lentilhas e deixando-os cascatear em potes. Aos seis anos, ela era rechonchuda, com covinhas nos 
joelhos e um sorriso irresistvel. Seus olhos eram delicadamente amendoados, puxados para cima, de um tom castanho-escuro. As mos eram pequenas. Nessa manh, ela 
usava um vestido listrado rosa e branco, que tinha escolhido e vestido sozinha - de trs para a frente. Usava tambm um suter cor-de-rosa que havia causado um espetacular 
acesso de raiva em casa. No h dvida de que ela tem o seu gnio - era o que Leo, morto havia quase um ano, gostava de resmungar, e Caroline sempre ficara perplexa, 
no tanto por ele ter visto uma ligao gentica onde no podia haver nenhuma, mas por algum defini-la como uma mulher geniosa.
         - Voc acha? - perguntou, passando a mo no cabelo atrs da orelha. - Acha que o cabelo dela  igual ao meu?
         - Ah, , com certeza.
         Nessa hora, Phoebe afundava as mos nas lentilhas aveludadas, rindo com o garotinho a seu lado. Levantava punhados delas no ar e as deixava escorrer por 
entre os de dos, e o menino estendia uma xcara amarela de plstico para peg-las. Para as outras crianas daquele jardim-de-infncia, Phoebe era simplesmente ela 
mesma, uma amiga que gostava de azul, de picols e de girar em crculos; ali, suas diferenas passavam despercebidas. Nas primeiras semanas, Caroline havia observado, 
desconfiada, preparada para os tipos de comentrios que ouvia com enorme freqncia nos parquinhos, no armazm, no consultrio mdico. Ah, que lstima! Voc est 
vivendo o meu pior pesadelo. E, certa vez, Pelo menos ela no ter que viver muito, o que  uma bno. Irrefletidos, ignorantes ou cruis, no vinha ao caso: ao 
longo dos anos, esses comentrios tinham deixado uma ferida em carne viva no corao de Caroline. Ali, porm, os professores eram jovens e entusiasmados, e os pais 
haviam seguido em silencio o seu exemplo: Phoebe poderia ter que fazer um esforo maior, ir mais devagar, porm, Como qualquer criana, ela aprenderia.
         As lentilhas se espalharam no cho quando o menino largou sua pazinha e correu para o corredor. Phoebe foi atrs, com as tranas balanando, a caminho da 
sala verde, onde ficavam os cavaletes e os potes de tinta.
         - Este lugar tem sido timo para ela - comentou Dorothy.
         Caroline assentiu com a cabea.
         - Eu gostaria que a Diretoria de Ensino pudesse v-la aqui.
         - Vocs tm um argumento forte e um bom advogado. Dar tudo certo.
         Caroline olhou para o relgio. Sua amizade com Sandra se transformara numa fora poltica e, nesse dia, a Upside!, Sociedade de Pais e Amigos de Crianas 
com Sndrome de Down, com seus mais de 500 membros, pediria  Diretoria de Ensino que inclusse suas crianas em escolas pblicas. As chances eram boas, mas Caroline 
ainda estava muito nervosa. Inmeras coisas dependiam dessa deciso.
         Um menino em disparada quase caiu ao passar por Dorothy, que o segurou gentilmente pelos ombros, O seu cabelo j estava inteiramente branco, um branco puro, 
em contraste marcante com os olhos escuros e a pele lisa e morena. Ela nadava todas as manhs e havia comeado a jogar golfe, e, nos ltimos tempos, muitas vezes 
Caroline a apanhava sorrindo sozinha, como se tivesse um segredo.
         - Foi muito bom voc ter vindo hoje para me dar cobertura - disse Caroline, vestindo o casaco.
         Dorothy balanou a mo:
         - No foi nada. Na verdade, prefiro muito mais estar aqui do que brigando com o departamento por causa dos papis de papai.
         A voz dela soava cansada, mas um sorriso bailou momentaneamente em seu rosto.
         - Dorothy, se eu no soubesse das coisas, diria que voc est apaixonada.
         A amiga apenas riu.
         - Que idia atrevida! - disse. - E, por falar em amor, posso esperar o Al hoje  tarde? Afinal,  sexta-feira.
         Os desenhos de luz e sombra nos sicmoros traziam uma grande calma, como gua em movimento. Sim, era sexta-feira, mas fazia uma semana que Caroline no 
tinha notcias de Al. Em geral, ele telefonava da estrada, de Columbus, Atlanta ou at Chicago. Ele a havia pedido em casamento duas vezes nesse ano; em ambas, o 
corao de Caroline tinha se alegrado diante dessa possibilidade, mas em ambas ela dissera no. Os dois tinham brigado na ultima visita - Voc me mantm  distncia, 
reclamara ele - e Al sara zangado, sem se despedir.
          -        Somos apenas bons amigos, Al e eu. As coisas no so to fceis.
         - No seja ridcula. Nada poderia ser mais simples - Contraps Dorothy.
         Pois, ento, era amor, pensou Caroline. Beijou o rosto suave de Phoebe e foi embora no velho Buick de Leo: preto, imenso, deslizando feito um barco. Em 
seu ltimo ano de vida, Leo ficara frgil, passando a maior parte dos dias numa poltrona junto  janela, com um livro no colo, olhando para a rua. Um dia, Caroline 
o encontrara desabado, com o cabelo grisalho espetado num ngulo estranho e a pele - at os lbios - muito plida. Morto. Ela soubera disso antes mesmo de toc-lo. 
Tirara seus culos, pusera as pontas dos dedos em suas plpebras e as fechara. Depois de levarem o corpo, ela havia sentado na poltrona de Leo, tentando imaginar 
como tinha sido a vida dele, com os galhos das rvores mexendo-se silenciosamente fora da janela, os passos dela e de Phoebe descrevendo desenhos em seu teto. - 
Ah, Leo - dissera em voz alta, falando com o vento. - Sinto muito por voc ter sido to s.
         Depois do funeral - um evento discreto, cheio de catedrticos de fsica e gardnias -, Caroline se oferecera para ir embora, mas Dorothy no quisera nem 
ouvir falar do assunto. Estou acostumada com voc. Estou acostumada a ter companhia. No, voc fica. Vamos viver um dia atrs do outro.
         Caroline cruzou a cidade que havia passado a amar, aquela cidade dura, poeirenta, de uma beleza marcante, com seus prdios altssimos, suas pontes ornamentadas, 
seus jardins imensos, seus bairros encravados em cada colina verde-esmeralda. Encontrou uma vaga na rua estreita e entrou no prdio, com suas pedras escurecidas 
por dcadas de fumaa de carvo. Atravessou o saguo de teto alto, de intricado piso de mosaico, e subiu dois andares de escada. A porta de madeira tinha manchas 
escuras, um painel de vidro embaado e um nmero de lato enodoado: 304B. Ela respirou fundo - no ficava nervosa desse jeito desde suas provas orais - e abriu a 
porta. O ar decrpito da sala a surpreendeu. A grande mesa de carvalho estava arranhada e as janelas eram sujas, fazendo o dia l fora parecer plido e cinzento. 
Sandra j estava esperando, com meia dzia de outros pais da diretoria da Upside! Caroline sentiu uma onda de afeio. No comeo, eles haviam aparecido nas reunies 
um a um, gente com quem ela e Sandra tinham travado conhecimento em mercados ou em nibus; depois, a notcia se espalhara e as pessoas haviam comeado a telefonar. 
O advogado do grupo, Ron Stone, sentara-se ao lado de Sandra, cujo cabelo louro estava puxado para trs com severidade, e o rosto, srio e plido. Caroline ocupou 
o assento que restava ao lado dela.
          - Voc est parecendo cansada - murmurou.
         Sandra assentiu com a cabea.
         - O Tim est resfriado. Justamente hoje. Mame teve que vir de McKeesport para ficar cuidando dele.
         Antes que Caroline pudesse dizer alguma coisa, a porta tornou a se abrir e os homens da Diretoria de Ensino comearam a entrar, descontrados, brincando 
uns com os outros, trocando apertos de mo. Quando todos se acomodaram e a reunio foi iniciada, Ron Stone levantou-se e limpou a garganta.
         - Todas as crianas merecem educao - comeou, proferindo suas palavras conhecidas. As provas que apresentou eram claras, especficas: desenvolvimento 
contnuo, tarefas realizadas. Mesmo assim, Caroline viu os rostos  sua frente tornarem-se impassveis, como que mascarados. Pensou em Phoebe sentada  mesa na noite 
anterior, com um lpis numa das mos, escrevendo as letras de seu nome: de trs para frente, ocupando a pgina inteira, trmulas, mas escritas. Os homens da Diretoria 
remexiam nos papis e pigarreavam. Quando Ron Stone fez uma pausa, um rapaz de cabelo preto e ondulado tomou a palavra.
         - Sua paixo  admirvel, Sr. Stone. Ns, da Diretoria, apreciamos tudo o que o senhor disse e valorizamos o empenho e a dedicao desses pais. Mas essas 
crianas so mentalmente retardadas; essa  a sntese. Suas realizaes, por mais significativas que sejam, ocorreram num ambiente protegido, com professores capazes 
de lhes dar uma ateno extra, talvez exclusiva. Esse me parece ser um aspecto muito significativo.
         Caroline e Sandra se entreolharam. Essas palavras tambm eram conhecidas.
         - "Mentalmente retardadas"  uma denominao pejorativa - replicou Ron Stone, com a voz firme. - Essas crianas tm um retardo, sim, ningum questiona isso. 
Mas no so burras. Ningum nesta sala sabe o que elas sero capazes de fazer. A melhor esperana para seu crescimento e desenvolvimento, assim como para o de todas 
as crianas,  um meio educacional que no tenha limites predeterminados. O que pedimos hoje  apenas imparcialidade.
         - Ah, imparcialidade. Sim. Mas no dispomos dos recursos - disse outro homem, magro, de cabelo grisalho e ralo. - Para sermos imparciais, teramos que aceitar 
todas elas, uma enxurrada de indivduos retardados que sobrecarregariam o sistema. Dem uma olhada.
         Circulou cpias de um relatrio e comeou a fazer uma anlise de custos e benefcios. Caroline respirou fundo. De nada adiantaria ela perder a pacincia. 
Uma mosca zumbiu, aprisionada entre as vidraas das velhas janelas. Caroline tornou a pensar em Phoebe, aquela criana encantadora e imprevisvel, que achava objetos 
perdidos, uma menina capaz de contar at 50, se vestir sozinha e recitar o alfabeto, uma menina que talvez se esforasse para falar, mas que sabia ler num instante 
o estado de nimo de Caroline.
         Limitadas, diziam as vozes. Inundando as escolas. Um empecilho para os recursos e para as crianas mais inteligentes.
         Caroline sentiu uma onda de desespero. Eles nunca veriam Phoebe de verdade, aqueles homens nunca a veriam como mais do que uma criana diferente, lenta 
para falar e para dominar coisas novas. Como poderia mostrar-lhes sua filha linda, Phoebe, sentada no tapete da sala de estar construindo uma torre de cubos, com 
o cabelo macio caindo sobre as orelhas e uma expresso de absoluta concentrao no rosto? Phoebe, pondo um disco de 45 rotaes na vitrolinha que Caroline havia 
comprado para ela, extasiada com a msica, danando pelos pisos lisos de carvalho. Ou a mozinha macia de Phoebe apoiando-se de repente no joelho da me, num momento 
em que Caroline ficava pensativa ou distrada, absorta no mundo e em suas preocupaes. Est tudo bem, mame?, dizia, ou, simplesmente, Eu amo voc. Phoebe, montada 
nos ombros de Al  luz do entardecer, Phoebe abraando todas as pessoas que encontrava. Phoebe tendo acessos de raiva, obstinadamente desafiadora. Phoebe vestindo-se 
naquela manh, toda orgulhosa.
         O        assunto  mesa havia passado para os nmeros e a logstica, a impossibilidade de mudana. Caroline levantou-se, trmula. A mo de sua me morta 
voou em direo a sua boca, horrorizada. A prpria Caroline mal podia acreditar no quanto sua vida a havia modificado, na pessoa em que se transformara. Mas no 
havia como voltar atrs. Uma enxurrada de retardados mentais, ora essa! Ela apoiou as mos na mesa e esperou. Um por um, os homens pararam de falar e a sala ficou 
em silncio.
         - No se trata de nmeros - disse Caroline -, e sim de crianas. Tenho uma filha de seis anos. Ela leva mais tempo para dominar coisas novas,  verdade. 
Mas aprendeu a fazer tudo o que qualquer outra criana aprende: a engatinhar e andar, falar e usar o banheiro, a se vestir, como fez hoje de manh. O que eu vejo 
 uma menininha que quer aprender e que gosta de todas as pessoas que v. E vejo uma sala cheia de homens que parecem ter se esquecido de que, neste pas, prometemos 
educao a todas as crianas, independentemente de sua capacidade.
         Por um momento, ningum falou. A janela alta chacoalhou de leve na brisa. A tinta comeava a fazer bolhas e descascar nas paredes de cor bege.
         A voz do homem de cabelo preto foi gentil.
         - Tenho.., todos temos.., uma grande simpatia por sua situao. Mas qual  a probabilidade de que sua filha, ou qualquer dessas crianas, domine habilidades 
acadmicas? E o que  que isso faria com a auto-imagem dela? Se fosse comigo, eu preferiria que ela fosse colocada num oficio til e produtivo.
         - Ela tem seis anos - retrucou Caroline. - No est preparada para aprender um oficio.
         Ron Stone estivera observando atentamente o dilogo e, nesse momento, tomou a palavra.
         - Na verdade, toda essa discusso no vem ao caso - disse. Abriu a maleta e tirou um mao grosso de papis. - Essa no  apenas uma questo moral ou logstica. 
 a lei. Aqui est uma petio, assinada por esses pais e por outros 500. Ela foi anexada a uma ao judicial coletiva em favor dessas famlias para permitir a admisso 
de seus filhos nas escolas pblicas de Pittsburgh.
         - Essa  a legislao dos direitos civis - disse o homem grisalho, erguendo os olhos do documento. - O senhor no pode usar isso. No  essa a letra nem 
o esprito dessa lei.
          - Examinem esses documentos - disse Ron Stone, fechando a maleta. - Entraremos em contato.
         Do lado de fora, na velha escadaria de pedra, comearam a conversar. Ron estava satisfeito, cautelosamente otimista, mas os outros mostravam-se radiantes, 
abraando Caroline para agradecer por sua fala. Ela sorriu, retribuindo os abraos, sentindo-se a um tempo extenuada e comovida com sua profunda afeio por aquelas 
pessoas: Sandra,  claro, que ainda ia a sua casa toda semana, para tomar um caf; Colleen, que, junto com a filha, havia colhido os nomes para a petio; Carl, 
um homem alto e animado, cujo nico filho morrera pequeno, por complicaes cardacas relacionadas com a sndrome de Down, e que lhes oferecera espao em seu depsito 
de tapetes para que eles pudessem trabalhar. Quatro anos antes, Caroline no conhecia nenhum deles, exceto Sandra, mas agora todos estavam ligados a ela pelas muitas 
noites trabalhando at altas horas, por muitas lutas e pequenas vitrias e por muita esperana.
         Ainda agitada por seu discurso, Caroline voltou para o jardim-de-infncia. Phoebe deu um pulo do grupo reunido em crculo e correu para ela, abraando seus 
joelhos. Cheirava a leite e chocolate, e havia um fio de sujeira em seu vestido. O cabelo parecia uma nuvem macia sob as mos de Caroline, que contou rapidamente 
o que havia acontecido, as palavras ofensivas - enxurrada, empecilho - que ainda trazia na cabea. Dorothy, atrasada para o trabalho, afagou-lhe o brao. Conversaremos 
mais hoje  noite.
         A volta para casa foi bonita, com as rvores frondosas e os lilases desabrochando feito rajadas de espuma e fogo nas colinas. Havia chovido na noite anterior; 
o cu exibia um azul vivo e lmpido. Caroline estacionou na alameda, decepcionada ao ver que Al ainda no tinha chegado. Juntas, ela e Phoebe passaram sob a sombra 
bruxuleante dos sicmoros, em meio ao zumbido penetrante das abelhas. Caroline sentou-se num degrau da varanda e ligou o rdio. Phoebe comeou a rodar na grama macia 
com os braos abertos e a cabea inclinada para trs, o rosto voltado para o sol.
         Caroline a observou, ainda tentando dissipar a tenso e o azedume da manh. Havia motivos de esperana, mas, aps todos aqueles anos de luta para mudar 
as percepes do mundo, ela se obrigava a continuar cautelosa.
         Phoebe aproximou-se correndo e fechou as mos em concha no ouvido da me, murmurando um segredo. Caroline no conseguiu decifrar as palavras, s a rajada 
de ar, excitada e sem flego, e Phoebe correu de novo para o sol, girando em seu vestido rosa-claro. O sol derramava lampejos cor de mbar em seu cabelo escuro, 
e Caroline lembrou-se de Norah Henry sob as luzes brilhantes da clnica. Por um instante, sentiu uma fisgada de cansao e dvida.
         Phoebe parou de rodopiar, abrindo os braos para manter o equilbrio. Depois, soltou um grito e correu pelo jardim at o alto da escada, onde Al estava 
parado, olhando para baixo, com um embrulho de cores vivas numa das mos, para Phoebe, e um ramo de lilases que Caroline sabia ser para ela.
         Sentiu-se reanimar. Al a havia cortejado com pacincia lenta e persistente, aparecendo semana aps semana, com solidez e regularidade, oferecendo um ramalhete 
de flores ou outro presente alegre, e com um prazer to verdadeiro no rosto que ela no suportava recha-lo. No entanto, mantivera-se de costas para ele, sem confiar 
naquele amor que surgira to inesperadamente de uma fonte to improvvel. Nesse momento, ps-se de p, sentindo uma onda de prazer. Como tivera medo de que ele no 
voltasse mais!
         - Bonito dia - disse Al, abaixando-se para abraar Phoebe, que atirou os braos em volta de seu pescoo para lhe dar as boas-vindas. O embrulho continha 
uma rede muito fina de caar borboletas, com um punho de madeira entalhada, e a menina a pegou na mesma hora, correndo em direo a um canteiro de hortnsias azul-escuras. 
- Como foi a reunio?
         Caroline contou-lhe a histria e ele ouviu, balanando a cabea.
         - Bom, escola no  para todo mundo - disse. - Eu no gostava muito dela, com certeza. Mas a Phoebe  uma boa menina e eles no deviam impedi-la de entrar.
         - Quero que ela tenha um lugar no mundo - disse Caroline, percebendo de repente que no duvidava do amor de Al por ela, mas do amor dele por Phoebe.
         - Meu bem, ela tem um lugar - fez ele. -  bem aqui. Mas, sim, acho que voc tem razo. Acho que est fazendo a coisa certa, lutando tanto por ela.
         - Espero que a sua semana tenha sido melhor - Caroline comentou, notando as olheiras dele.
         - Ah, o mesmo de sempre, o mesmo de sempre - disse Al, sentando-se a seu lado na escada e pegando um graveto, que comeou a descascar. Ao longe, ouvia-se 
o        zumbir de cortadores de grama; o radinho de Phoebe tocava Love, Love Me, Do.
         - Fiz 3.858 quilmetros esta semana. Um recorde, at para mim.
         Ele vai me pedir em casamento de novo, pensou Caroline. Aquele era o momento certo; Al estava cansado da estrada e disposto a assentar a cabea, e faria 
o pedido. Caroline ficou a lhe observar as mos, que se moviam com habilidade, rpidas, tirando a casca do graveto, e seu corao transbordou. Dessa vez, ela diria 
sim. Mas Al continuou calado. O silncio se prolongou tanto que, por fim, ela se sentiu pressionada a romp-lo.
         - Foi um presente bonito - comentou, acenando com a cabea em direo ao gramado em que Phoebe corria, com a rede descrevendo arcos luminosos no ar.
         - Foi um cara l da Gergia que fez. timo sujeito. Estava com uma poro delas, que tinha entalhado para os netos. Comeamos a bater papo na mercearia. 
Ele coleciona rdios de ondas curtas e me convidou a dar uma passada para v-los. Passamos a noite inteira conversando, ele e eu. Bom, essa  a vantagem da vida 
errante. Ah, sim - continuou, enfiando a mo no bolso da cala e tirando um envelope branco -, aqui est sua correspondncia de Atlanta.
         Caroline pegou o envelope sem tecer comentrios. Dentro haveria vrias notas de 20 dlares, cuidadosamente dobradas num pedao de papel em branco. Al os 
trazia de Cleveland, Memphis, Atlanta, Akron, cidades que freqentava em suas entregas. Ela lhe dizia simplesmente que o dinheiro era para Phoebe, mandado pelo pai. 
Al aceitava isso sem comentrios, mas os sentimentos de Caroline eram mais complexos. s vezes, ela sonhava que estava andando pela casa de Norah Henry, tirando 
coisas das estantes e armrios, enchendo uma sacola de pano, toda contente, at deparar com Norah Henry parada junto a uma janela, com a expresso distante e infinitamente 
triste. Acordava trmula, levantava-se e preparava um ch, sentando-se no escuro. Quando chegava o dinheiro, ela o depositava no banco e no pensava mais no assunto, 
at chegar o envelope seguinte. Fazia cinco anos que repetia isso, e j havia guardado quase sete mil dlares.
         Phoebe continuava a correr, perseguindo borboletas, passarinhos, partculas de luz ou as notas flutuantes que saam do rdio. Al mexia nos botes do aparelho.
         - O que esta cidade tem de bom  que a gente pode achar msica de verdade. Em algumas daquelas cidadezinhas mixurucas em que eu me hospedo, s o que a gente 
arruma so os 40 Maiores Sucessos. Fica cansativo, depois de algum tempo.
         Al comeou a cantarolar Begin the beguine, acompanhando o rdio.
         - Meus pais costumavam danar essa msica - disse Caroline, e, por um instante, viu-se sentada na escada da casa de sua infncia, escondida, vendo a me, 
de vestido rodado, receber seus convidados  porta. - H anos eu no pensava nisso. Mas, de vez em quando, eles enrolavam o tapete da sala de jantar, numa noite 
de sbado, e recebiam outros casais e danavam.
         - Devamos ir danar um dia desses - disse Al. - Voc gosta de danar, Caroline?
          Nesse momento, ela sentiu alguma coisa remexer-se por dentro, uma empolgao. No conseguiu situar sua origem: tinha alguma coisa a ver com a raiva daquela 
manh, que se havia dissipado, e com o dia vibrante, e com o calor dos braos de Al junto aos seus. A brisa agitava os choupos, revelando o lado inferior prateado 
de suas folhas.
         - Por que esperar? - disse ela, e se levantou, estendendo a mo.
         Al ficou intrigado, perplexo, mas se levantou, apoiou a mo no ombro dela, e os dois comearam a andar para a relva ao som dos acordes agudos da msica, 
tendo como fundo os carros que passavam, velozes. A luz do sol misturou-se com o cabelo de Caroline, a grama era macia sob seus ps, apenas de meias, e os dois se 
moviam com tanta facilidade, inclinando-se e rodopiando, que a tenso que ela trouxera da reunio foi se dissipando a cada passo. Al sorriu, estreitando-a com fora, 
e o sol a tocou na nuca.
         Ah, pensou Caroline, quando ele tornou a faz-la girar, eu vou dizer sim.
         Havia o prazer do sol, o riso de Phoebe e o calor das mos de Al, que penetrava no tecido em suas costas. Os dois moveram-se pela relva, girando com a msica, 
unidos por ela. O som do trfego era presente e tranqilizador como o do oceano. Outros sons, mais finos, elevavam-se por entre os trechos musicais, em meio ao dia 
luminoso. A princpio, Caroline no os registrou. Depois, Al a girou e ela parou de danar. Phoebe estava ajoelhada na relva quente e macia, junto s hortnsias, 
soltando gritos to fortes que no conseguia falar, com a mo levantada. Caroline correu e se ajoelhou na relva, examinando o crculo inflamado e inchado na palma 
da mo da menina.
         -  uma picada de abelha - disse. - Ah, meu amorzinho, di, no ? Encostou a cabea no cabelo quentinho de Phoebe. Sua pele macia e fina, seu peito subindo 
e descendo; embaixo dele, as batidas ritmadas do corao. Aquilo era que no se podia medir, no se podia quantificar nem explicar: Phoebe era apenas ela. Era impossvel, 
enfim, categorizar um ser humano. Impossvel ter a pretenso de saber como era a vida ou o que ela reservava.
         - Ah, benzinho, est tudo bem - disse, alisando o cabelo da filha.
         Mas os soluos de Phoebe comearam a dar lugar a um chiado parecido com a laringite de que ela sofrera quando pequena. A palma da mo estava inchando; o 
dorso e os dedos, tambm. Caroline sentiu-se imobilizar por dentro, ao mesmo tempo em que levantava depressa e chamava Al.
         - Depressa! - gritou, com a voz muito alta e estranha. - Ah, Al, ela  alrgica! J ia levantando Phoebe, pesada em seu colo, mas parou, confusa, porque 
as chaves estavam em sua bolsa, na bancada da cozinha, e ela no conseguiu imaginar como abrir a porta segurando a menina, que chiava cada vez mais. E ento chegou 
Al, que pegou Phoebe e correu com ela para o carro, e de algum modo Caroline viu-se com a chave, a chave e a bolsa. Disparou o mais rpido que pde pelas ruas da 
cidade. Quando chegaram ao hospital, a respirao de Phoebe vinha em arquejos curtos, desesperados.
         Largaram o carro na entrada e Caroline agarrou a primeira enfermeira que viu.
         -  uma reao alrgica. Precisamos de um mdico j.
         A enfermeira era mais velha, meio pesadona, com o cabelo virado para dentro num penteado de pajem. Conduziu-os por uma srie de portas de ao, at Al depor 
Phoebe com toda a delicadeza numa maca. Agora a menina j lutava para respirar, com os lbios levemente azulados. Caroline tambm sentia dificuldade de respirar, 
com o medo a lhe apertar o peito. A enfermeira puxou o cabelo de Phoebe para trs, apalpando sua pulsao no pescoo. E, nesse momento, Caroline a viu olhar para 
a menina como o Dr. Henry a havia olhado, naquela noite de nevasca tanto tempo antes. Viu a enfermeira fitar os olhos lindamente rasgados da criana, as mozinhas 
que haviam segurado a rede com toda a fora, enquanto ela corria atrs de borboletas, e viu os olhos da mulher se espremerem ligeiramente. Mesmo assim, no estava 
preparada para o que veio.
         - Tem certeza? - perguntou a enfermeira, virando a cabea e encontrando o olhar de Caroline. - Tem certeza de que quer que eu chame um mdico?
          Caroline ficou imobilizada. Lembrou-se do cheiro de legumes cozidos, do dia em que tinha partido com Phoebe, das expresses impassveis dos homens da Diretoria 
de Ensino. Numa onda de alquimia selvagem, seu medo transformou-se numa raiva furiosa e penetrante. Ela levantou a mo para esbofetear o rosto despreocupado e impassvel 
da enfermeira, mas Al segurou sua mo.
         - V chamar o mdico - disse ele. - Agora!
         Ps o brao em volta de Caroline e no a soltou mais, nem quando a enfermeira se afastou nem quando apareceu o mdico - s o fez quando a respirao de 
Phoebe comeou a se regularizar e um pouco de cor voltou ao seu rosto. Depois disso, foram juntos para a sala de espera e se sentaram nas cadeiras de plstico laranja, 
de mos dadas, em meio s enfermeiras atarefadas, s vozes que vinham do sistema interno de comunicao e ao choro de bebs.
         - Ela podia ter morrido - disse Caroline. Perdeu a calma e comeou a tremer.
         - Mas no morreu - disse Al, firme.
         A mo dele era quente, grande e reconfortante. Al fora muito paciente em todos aqueles anos, voltara uma vez aps outra, dizendo que sabia reconhecer uma 
coisa boa quando a via. Dizendo que esperaria. Mas, da ltima vez, tinha passado duas semanas fora, no uma. No havia telefonado da estrada e, embora houvesse trazido 
flores, como sempre, j fazia seis meses que no propunha casamento. Ele poderia ir embora em seu caminho e nunca mais voltar, nunca mais lhe dar outra chance de 
dizer sim.
         Caroline ergueu a mo dele e a beijou na palma, forte e spera, cheia de calos e marcada por muitas linhas. Al virou-se, despertado de seus pensamentos 
num susto, intrigado como se ele prprio acabasse de receber uma picada.
         - Caroline - falou, em tom formal. - H uma coisa que eu quero dizer.
         - Eu sei - fez ela, pondo a mo do caminhoneiro em seu prprio corao e a segurando ali. - Ah, Al, eu fui to idiota!  claro que eu me caso com voc.
           1977   JULHO DE 1977   - ASSIM? - PERGUNTOU NORAH.
          Estava deitada na praia, e a areia granulosa sob seu quadril escorregava e se movia. Toda vez que ela inspirava fundo e soltava o ar, a areia lhe deslizava 
por baixo do corpo. O sol estava muito quente, como uma chapa tremeluzente de metal encostada em sua pele. Fazia mais de uma hora que ela estava ali, posando e tornando 
a posar, num re-posar que parecia piada, pois repouso era justamente o que ela desejava e no podia ter. Afinal, eram suas frias - Norah ganhara duas semanas em 
Aruba, por ter vendido o maior nmero de passagens para cruzeiros do estado de Kentucky no ano anterior -, mas ali estava ela, com areia grudada no suor dos braos 
e do pescoo, enquanto se mantinha imvel, imprensada entre o sol e a areia.
         Para se distrair, fixava o olhar em Paul, que corria pela praia como um ponto no horizonte. Ele estava com 13 anos e havia espichado feito uma rvore nova 
nos 12 meses anteriores. Alto e desengonado, corria todas as manhs, como se pudesse fugir de sua prpria vida.
         As ondas quebravam devagar na areia. A mar estava subindo e a luz ofuscante do meio-dia no tardaria a mudar, tornando impossvel at o dia seguinte a 
foto que David queria. Uma mecha de cabelo grudara-se nos lbios de Norah, fazendo ccegas, mas ela se obrigou a permanecer imvel.
         - Bom! - disse David, recurvado sobre a cmera e disparando uma rpida sucesso de tomadas. - Isso, timo, assim ficou muito bom mesmo!
         - Estou com calor.
         - S mais uns minutos. Estamos quase acabando.
         David ps-se de joelhos, a palidez hibernal das coxas contrastando com a areia. Ele trabalhava muito e tambm passava longas horas na cmara escura, prendendo 
imagens para secar na corda que havia pendurado de uma parede a outra.
         - Pense no mar - disse. - Ondas na gua, ondas na areia. Voc faz parte disso, Norah. Na foto voc vai ver. Vou lhe mostrar.
         Norah continuou imvel sob o sol, vendo-o trabalhar e lembrando os tempos do incio do casamento em que os dois saam para longas caminhadas nas noites 
de primavera, de mos dadas, em meio ao ar que recendia a madressilvas e jacintos. O que teria imaginado aquela verso mais jovem dela, andando sob a luz suave e 
calma do crepsculo, sonhando seus sonhos? No essa vida, com certeza. Nos ltimos cinco anos, Norah aprendera na ponta da lngua o que havia para saber no ramo 
de viagens. Havia organizado o escritrio e, aos poucos, comeara a supervisionar as excurses. Tinha montado uma lista estvel de clientes e aprendido a vender, 
empurrando brochuras reluzentes por cima da mesa e descrevendo, em detalhes de tirar o flego, lugares que ela mesma s havia sonhado visitar. Tornara-se especialista 
em resolver crises de ltima hora: bagagens perdidas, passaportes extraviados, vos cancelados. No ano anterior, quando Pete Warren resolvera se aposentar, ela havia 
respirado fundo e comprado a agncia. Agora era s dela, desde o prdio baixo de tijolos at as caixas com bilhetes areos em branco, guardadas no armrio. Seus 
dias eram agitados, atarefados, satisfatrios - e, toda noite, ela voltava para uma casa repleta de silncio.
         - Continuo sem entender - disse, depois que David finalmente terminou, enquanto se levantava e sacudia a areia das pernas, dos braos e do cabelo. - Para 
que tirar minha foto, se voc espera que eu simplesmente desaparea na paisagem?
         - uma questo de perspectiva - respondeu David, levantando os olhos do equipamento. Estava com o cabelo desgrenhado, as bochechas e braos avermelhados 
pelo sol do meio-dia. Ao longe, Paul fizera um retorno e estava voltando, chegando mais perto. - Tem a ver com as expectativas. As pessoas olharo para esta foto 
e vero uma praia com dunas ondeantes. Depois, vislumbraro alguma coisa meio estranha, algo conhecido no seu conjunto de curvas, ou ento lero o ttulo e tornaro 
a olhar, procurando a mulher que no viram na primeira vez, e encontraro voc.
         Havia intensidade na voz dele; o vento do mar revolvia seus cabelos pretos. Aquilo a entristeceu, porque David falava de fotografia como antes havia falado 
da medicina, do casamento dos dois, numa linguagem e num tom que evocavam o passado perdido e a enchiam de saudade. Voc e o David falam de coisas importantes ou 
de bobagens?, perguntara Bree certa vez, e Norah tinha ficado chocada ao perceber quantas de suas conversas diziam respeito a coisas rotineiras e necessrias, como 
as tarefas domsticas e os horrios de Paul.
         O        sol brilhava nos cabelos de Norah e os gros de areia grudaram na pele fina entre suas pernas. David estava concentrado em guardar a cmera. Norah 
tivera a esperana de que essas frias de sonho fossem um caminho de volta para a intimidade que um dia eles haviam partilhado. Fora isso que a havia impelido a 
passar tantas horas deitada sob o sol quente, mantendo-se imvel enquanto David batia fotos num filme aps outro, mas havia trs dias que eles estavam l e nada, 
a no ser o cenrio, era significativamente diferente de casa. Todos os dias, tomavam o caf da manh em silncio. David encontrava maneiras de trabalhar: ou tirava 
fotografias, ou saa para pescar.  noite, ficava lendo na rede. Norah fazia caminhadas, cochilava, matava o tempo e ia s compras nas lojas coloridas da cidade, 
com seus preos abusivos para turistas. Paul tocava seu violo e corria.
         Ela protegeu os olhos contra a luz e contemplou a curva dourada da praia. J mais perto, a forma do corredor havia surgido, e ela percebeu que no era Paul, 
afinal. Era um homem alto, magro, de uns 35 ou 40 anos. Usava um short de nylon azul debruado de branco, sem camisa. Os ombros, j bastante bronzeados, tinham uma 
queimadura nas bordas que parecia dolorosa. Ao chegar mais perto, ele diminuiu a velocidade e parou, com as mos nos quadris e a respirao pesada.
         - Bela cmera - comentou. Depois, olhando direto para Norah, acrescentou: - Foto interessante.
         O        homem tinha uma calvcie incipiente; os olhos eram castanho-escuros, intensos. Norah desviou o rosto, ao sentir o calor deles, enquanto David comeava 
a falar: ondas e dunas, areia e pele, duas imagens conflitantes ao mesmo tempo.
         Ela correu os olhos pela praia. Sim. L longe, quase invisvel, havia outra figura correndo: seu filho. O sol brilhava muito. Por alguns segundos, Norah 
sentiu-se zonza, com peixinhos prateados de luz piscando sob as plpebras, conforme a luminosidade se refletia na crista das ondas. Howard. Ela se perguntou de onde 
ele seria, onde teria arranjado um nome desses. Agora, ele e David conversavam animadamente sobre aberturas e filtros.
         - Quer dizer que voc  a inspirao desse estudo - disse o homem, virando-se para inclu-la na conversa.
         - Acho que sim - fez ela, tirando areia do pulso. -  meio prejudicial para a pele - acrescentou, subitamente cnscia de que seu novo biquni a deixava 
quase nua. O vento passou por ela, rodopiou em seu cabelo.
         - No, a sua pele  linda - disse Howard. Os olhos de David se arregalaram, fitando-a como se nunca a tivessem visto antes, e Norah sentiu uma onda de triunfo. 
Viu?, teve vontade de dizer. A minha pele  linda. Mas a intensidade do olhar de Howard a deteve.
         - Voc deveria ver os outros trabalhos do David - disse ela. Apontou para o chal, aconchegado sob as palmeiras, com buganvlias cascateando na trelia 
da varanda.
          - Ele trouxe o portflio - completou. Suas palavras eram uma muralha; e tambm um convite.
         - Eu gostaria muito - fez Howard, virando-se de novo para David. - Estou interessado no seu estudo.
         - Por que no? - perguntou David. - Almoce conosco.
         Mas Howard tinha uma reunio na cidade s 13 horas.
         - L vem o Paul - disse Norah. Ele corria em grande velocidade pela beira da gua, fazendo um sprint nos ltimos 100 metros, braos e pernas brilhando na 
luz, nas ondulaes do calor. Meu filho, pensou Norah, e o mundo se abriu por um instante, como s vezes fazia, em torno da simples realidade da presena dele. - 
Nosso filho - disse, dirigindo-se a Howard. - Ele tambm  corredor.
          - Est em boa forma - observou Howard. Paul chegou mais perto e comeou a reduzir a velocidade. Ao alcan-los, curvou-se com as mos nos joelhos, respirando 
fundo.
         - E fazendo um bom tempo - concordou David, com uma olhadela para o relgio. No faa isso, pensou Norah; David parecia no perceber o quanto Paul se ressentia 
das sugestes que ele fazia para seu futuro. No. Mas David insistiu: - Detesto v-lo desperdiar sua vocao. Olhe para essa altura. Imagine o que ele poderia fazer 
numa quadra. Mas ele no liga a mnima para o basquete.
         Paul ergueu os olhos, fazendo uma careta, e Norah sentiu o mpeto de uma irritao conhecida. Por que David no conseguia entender que, quanto mais insistisse 
no basquete, mais Paul resistiria? Se ele queria que Paul jogasse, seria melhor proibi-lo.
         - Eu gosto de correr - disse Paul, endireitando o corpo.
         - Quem pode censur-lo, correndo desse jeito? - fez Howard, estendendo a mo para cumpriment-lo.
          Paul apertou-lhe a mo, enrubescendo de prazer. A sua pele  linda, Howard lhe dissera, momentos antes. Norah se perguntou se seu rosto tambm teria sido 
to transparente.
         - Venha jantar conosco - sugeriu num impulso, inspirada na gentileza de Howard com Paul. Ela estava com fome e com sede, e o sol a deixara tonta. - J que 
no pode vir almoar, venha jantar. Traga sua mulher,  claro - acrescentou. - Traga a famlia. Vamos fazer uma fogueira e cozinhar na praia.
         Howard franziu o cenho, fitando a gua reluzente. Juntou as mos e as esticou atrs da cabea, alongando-se. - Infelizmente, estou sozinho aqui.  uma espcie 
de retiro. Estou prestes a me divorciar.
         - Lamento muito - disse Norah, embora no lamentasse.
         - Venha assim mesmo - falou David. - A Norah faz uns jantares maravilhosos. Eu lhe mostro o resto da srie em que estou trabalhando:  tudo sobre percepo. 
Transformao.
         - Ah, transformao - disse Howard. - Sou totalmente a favor disso. Adoraria jantar com vocs.
         David e Howard conversaram mais alguns minutos, enquanto Paul andava na beira do mar para se refrescar. Howard se foi. Minutos depois, parada na cozinha, 
cortando pepinos para o almoo, Norah o observou afastar-se pela praia, aparecendo, sumindo e tornando a aparecer, conforme a brisa levantava a cortina. Lembrou-se 
do bronzeado escuro de seus ombros, dos olhos e da voz penetrantes. A gua corria nos canos, enquanto Paul tomava banho, e havia um farfalhar baixinho de papel: 
David arrumando suas fotos na sala. Ao longo dos anos, ele lhe parecera obcecado, sempre olhando para o mundo - para ela - como que por trs da lente de uma cmera. 
A filha que os dois haviam perdido ainda pairava entre eles; a vida de ambos se moldara em torno dessa ausncia. s vezes, Norah at se perguntava se essa perda 
era o lao principal que os unia. Ps as fatias de pepino numa saladeira e comeou a descascar uma cenoura. Howard parecia um pontinho  distncia, depois sumiu. 
Tinha mos grandes, ela se lembrou, com palmas e cutculas claras, em contraste com o bronzeado. Pele linda, ele dissera, e no desgrudara os olhos dos dela.
         Depois do almoo, David cochilou na rede e Norah deitou-se na cama embaixo da janela. A brisa do mar entrou; ela se sentiu profundamente viva, de algum 
modo ligada  areia e ao mar pelo vento. Howard era s um homem comum, quase esqueltico e comeando a ficar calvo, mas era tambm misteriosamente irresistvel, 
uma atrao talvez invocada pela profunda solido e anseio da prpria Norah. Ela imaginou Bree, encantada, rindo.
         Bem, por que no? - ela diria. - De verdade, Norah, por que no?
         - Sou uma mulher casada - respondeu Norah, virando-se para olhar pela janela para a areia mvel, deslumbrante, ansiosa de que a irm a refutasse.
         - Norah, pelo amor de Deus, a gente s vive uma vez! Por que no nos divertirmos um pouco?
         Levantou-se, pisando de leve nas tbuas antigas e gastas, e preparou um gim-tnica com limo. Sentou-se no balano da varanda, indolente, sentindo a brisa 
e vendo David cochilar, to desconhecido dela nos ltimos tempos. As notas do violo de Paul flutuavam na brisa suave. A me ps-se a imagin-lo, sentado de pernas 
cruzadas na cama estreita, cabea inclinada, concentrado no novo violo Almansa, que ele adorava e que fora presente de David em seu ltimo aniversrio. Era um belo 
instrumento, com brao de bano, laterais e fundo de jacarand, cravelhas de metal. David bem que tentava com Paul. Insistia demais nos esportes, era verdade, mas 
tambm arranjava tempo para levar o filho para pescar ou fazer caminhadas pelos bosques em suas interminveis buscas de pedras. Ele passara horas pesquisando aquele 
violo, encomendara-o a uma empresa em Nova York, e seu rosto se enchera de um prazer sereno ao ver Paul tir-lo reverentemente da caixa. Norah olhou para o marido 
nesse momento, dormindo do outro lado da varanda, com um msculo pulsando na face.
         - David - murmurou, mas ele no a ouviu. - David - disse, um pouco mais alto, ele no se mexeu.
          s quatro horas, Norah levantou-se, sonhadora. Escolheu um vestido de vero de flores, franzido na cintura, de alcinhas finas. Ps um avental e comeou 
a preparar pratos simples, mas esmerados: ostras refogadas, com biscoitos crocantes para acompanhar, espigas de milho cozido, salada verde, pequenas lagostas que 
comprara no mercado naquela manh, ainda em baldes de gua salgada. Enquanto se movimentava pela cozinha minscula, improvisando assadeiras com formas de bolo e 
substituindo a manjerona por organo no molho da salada, a saia franzida de algodo roava de leve em suas coxas e quadris. A brisa, morna como um hlito, deslizava 
sobre seus braos. Ela mergulhou as mos na pia de gua gelada, lavando uma a uma as folhas delicadas de alface. Do lado de fora, Paul e David se empenhavam em acender 
o fogo da grelha meio enferrujada, cujos furos tinham sido remendados com papel-alumnio. Havia pratos de papel na mesa desbotada e vinho servido em copos de plstico 
vermelhos. Eles comeriam a lagosta com as mos, com a manteiga escorregando pelas palmas.
         Norah ouviu a voz dele antes de v-lo: um tom diferente, ligeiramente mais grave que o de David e um pouquinho mais nasalado, com um sotaque neutro do Norte; 
um ar frio, com um toque de neve, flutuava na sala a cada slaba proferida. Norah secou as mos no pano de prato e foi at a porta.
         Os trs homens - assustou-se ao pensar em Paul dessa maneira, mas agora ele estava ombro a ombro com David, quase adulto e independente, como se seu corpo 
nunca tivesse tido nada a ver com o dela - estavam agrupados na areia, pouco adiante da varanda. A grelha exalava seus aromas de fumaa e resina, e as brasas emitiam 
ondas de calor no cu. Paul, sem camisa, tinha as mos enfiadas nos bolsos da bermuda e respondia com brevidade constrangida s perguntas que lhe eram endereadas. 
Eles no a viram, o marido e o filho; tinham os olhos voltados para o fogo e para o oceano, liso como vidro fosco naquele horrio. Howard, de frente para eles, foi 
quem levantou o queixo para Norah e sorriu.
         Por um instante, antes que os outros se virassem, antes que Howard levantasse a garrafa de vinho e a passasse para suas mos, seus olhos se encontraram. 
Foi um momento real apenas para eles dois, algo que depois no se poderia provar, um instante de comunho sujeito ao que quer que o futuro impusesse. Mas foi real: 
o tom escuro dos olhos de Howard, o rosto dele e o dela abrindo-se de prazer e promessa, o mundo quebrando a seu redor, como as ondas.
         David virou-se, sorridente, e o instante se fechou como uma porta.
         -  branco - disse Howard, entregando-lhe a garrafa. Nesse momento ocorreu a Norah o quanto ele parecia comum, o jeito bobo de suas costeletas descerem 
at metade de suas faces. O sentido oculto do instante anterior - ser que ela o havia imaginado? - tinha desaparecido. - Espero que sirva.
         -  perfeito. Vamos comer lagosta.
         Sim, era muito comum essa conversa. O momento surpreendente ficara para trs, ela encenou a anfitri gentil, desempenhando seu papel com a mesma facilidade 
com que se movia dentro do vestido leve. Howard era seu convidado; Norah ofereceu-lhe uma cadeira e uma bebida. Quando voltou, trazendo garrafas de gim e gua tnica 
e um balde de gelo numa bandeja, o sol havia chegado  beira da gua. Nuvens altas inflavam-se no cu em sombras etreas de rosa e pssego.
         Jantaram na varanda. A escurido desceu depressa, e David acendeu as velas dispostas a intervalos ao longo da balaustrada. Ao longe, a mar encheu, com 
as ondas correndo invisveis para a areia.  luz bruxuleante, a voz de Howard subia, descia e tornava a subir. Ele falava de uma cmara escura que havia construdo. 
Era uma caixa de mogno que vedava toda a luz, exceto por uma nica abertura nfima. Esse pontinho projetava uma imagem minscula do mundo num espelho. O aparelho 
era o precursor da mquina fotogrfica; alguns pintores - Vermeer era um deles - o aviam usado como instrumento para atingir um nvel extraordinrio de detalhe em 
seu trabalho. Era o que Howard tambm vinha explorando.
         Norah escutou, banhada pela noite, impressionada com as imagens usadas por ele, o mundo projetado numa parede interna escurecida, figuras minsculas captadas 
pela luz, porm mveis. Era muito diferente das sesses dela com David, nas quais a cmera parecia fix-la no espao e no tempo, mant-la imobilizada. Esse, percebeu 
ela, bebericando seu vinho no escuro, era o problema no mago de tudo. Em algum ponto do caminho, ela e David tinham emperrado. Agora circundavam um ao outro, fixados 
em suas rbitas distintas. O assunto da conversa mudou e Howard contou histrias da poca que passara no Vietn, trabalhando como fotgrafo do exrcito, documentando 
batalhas.
         - Muito daquilo era maante, na verdade - disse ele, quando Paul externou sua admirao. - Boa parte era s subir e descer o Mekong num barco. Mas  um 
rio extraordinrio, um lugar extraordinrio.
         Terminado o jantar, Paul foi para seu quarto. Minutos depois, as notas do violo cascatearam por entre o som das ondas. Ele no tinha querido tirar essas 
frias; abrira mo de uma semana no acampamento de msica e teria que se apresentar num concerto importante, dias depois de eles voltarem para casa. David havia 
insistido em que ele fosse; no levava a srio as ambies musicais do filho. Como passatempo, tudo bem, mas no como carreira. S que Paul era apaixonado por violo 
e estava decidido a ir para a Escola de Msica Juilliard. David, que tanto se esfalfara para lhes dar todo o conforto, ficava tenso toda vez que o assunto vinha 
 baila. Nesse momento, as notas de Paul desciam pelo ar, aladas e graciosas, mas cada uma tambm meio cortante, uma ponta de faca perfurando a pele.
         A conversa passou da ptica para a luz rarefeita do vale do rio Hudson, onde Howard morava, e do sul da Frana, que ele gostava de visitar, O homem descreveu 
a estrada estreita, da qual subia uma poeira fina, e os campos de girassis pulsantes. Todo ele era voz, mal passando de uma sombra ao lado de Norah, mas suas palavras 
a atravessavam como a msica de Paul, dentro e fora dela ao mesmo tempo. David serviu mais vinho e mudou de assunto, e de repente todos se puseram de p e entraram 
na sala intensamente iluminada. David tirou da pasta sua srie de fotos preto-e-branco, e ele e Howard lanaram-se numa discusso animada sobre as qualidades da 
luz.
         Norah deixou-se ficar  margem. As fotografias que os homens estavam discutindo eram todas dela: seus quadris, sua pele, suas mos, seu cabelo. No entanto, 
ela fora excluda da conversa: objeto, no sujeito. Vez por outra, quando entrava num escritrio em Lexington, ela deparava com uma foto annima, porm estranhamente 
familiar - uma curva de seu corpo ou um lugar visitado na companhia de David, despidos de seu significado original e transformados: uma imagem da carne dela que 
se tornara abstrata, uma idia. Ao posar para o marido, Norah havia tentado diminuir um pouco a distncia que se alargara entre o casal. Culpa dele, dela, no tinha 
importncia, na verdade. Mas, nesse momento, vendo David absorto em sua explicao, Norah compreendeu que ele no a via realmente, fazia anos que no a via. A raiva 
brotou em seu peito numa onda que a deixou trmula. Ela deu meia-volta e saiu da sala. Desde o dia das vespas, havia bebido muito pouco, mas, nessa hora, foi  cozinha 
e encheu de vinho at a borda um copo vermelho de plstico. Em toda a sua volta havia panelas sujas e manteiga endurecida, e as carapaas rubras das lagostas lembravam 
cascas de cigarras mortas. Tanto trabalho por um prazer to curto! Em geral, David lavava a loua, mas, nessa noite, Norah amarrou um avental na cintura, encheu 
a pia e guardou as sobras de ostra refogada na geladeira. Na sala, as vozes prosseguiam, interminavelmente, subindo e descendo como as ondas do mar. O que ela havia 
pensado, ao pr aquele vestido e se deixar levar pela voz de Howard? Ela era Norah Henry, mulher de David e me de Paul, um filho quase criado. Havia fios grisalhos 
em seu cabelo, os quais no lhe parecia que ningum visse, a no ser ela mesma, espremendo os olhos sob a luz ofuscante do banheiro. Mas era verdade. Howard tinha 
ido l para conversar sobre fotografia com David, s isso.
         Norah foi at o lado de fora, levando o lixo para o lato. A areia estava ligeiramente fria sob seus ps descalos; o ar, morno como sua pele. Ela foi at 
a beira do mar e ficou parada, fitando a vastido vivida e branca do cu estrelado. Atrs dela, a porta de tela abriu e fechou. David e Howard saram, andando pela 
areia e pela escurido.
         - Obrigado por arrumar a cozinha - disse David. Tocou-a de leve nas costas e Norah ficou tensa, fazendo um esforo para no se afastar. - Desculpe eu no 
ter ajudado. Acho que nos perdemos na conversa. O Howard tem umas idias boas.
         - Na verdade, fiquei fascinado com seus braos - observou Howard, referindo-se s centenas de fotos tiradas por David. Pegou um pedao de madeira flutuante 
e o jogou longe, com fora. Os trs o ouviram bater na gua e ser lambido pelas ondas, que o levaram para o mar.
         Atrs deles, a casa parecia uma lanterna, desenhando um crculo luminoso, mas os trs se achavam numa escurido to completa que Norah mal conseguia enxergar 
o rosto de David, o de Howard ou suas prprias mos. Eles no passavam de formas ensombrecidas e vozes incorpreas na noite. A conversa girou aqui e ali, retornando 
 tcnica e aos mtodos. Norah sentiu-se prestes a soltar um grito. Ps um p descalo atrs do outro, na inteno de dar meia-volta e se retirar, quando, de repente, 
uma mo roou sua coxa. Assustada, ela parou. Esperou. Num instante, os dedos de Howard subiram de leve pela costura de seu vestido e, em seguida, a mo dele deslizou 
para dentro de seu bolso, levando um calor sbito e secreto  sua pele.
         Norah prendeu a respirao. David continuava a falar de suas fotografias. Ela continuava de avental, e estava muito escuro. Passado um momento, virou um 
pouco para o lado e a mo de Howard abriu-se em flor sobre o tecido fino, sobre sua barriga lisa.
         - Bem,  verdade - disse ele, com a voz baixa e fluente. - Voc sacrificaria um pouco da claridade, se usasse esse filtro. Mas o efeito com certeza valeria 
a pena.
         Norah soltou a respirao bem devagar, perguntando-se se Howard conseguia sentir a pulsao desvairada e rpida de seu sangue. Os dedos dele irradiavam 
calor, e ela se encheu de um desejo to intenso que chegava a doer. As ondas subiam, rolavam e tornavam a subir. Norah se manteve inteiramente imvel, ouvindo o 
movimento apressado da prpria respirao.
         - Agora, com a cmara escura, voc fica um passo mais perto desse processo - disse Howard. -  realmente incrvel o modo como ela emoldura o mundo. Eu gostaria 
que voc desse uma passada l para ver. Quer ir?
         - Amanh vou levar o Paul para pescar em alto-mar - respondeu David. - Talvez depois de amanh.
         - Acho que vou entrar - disse Norah, com a voz dbil.
         - A Norah fica entediada - comentou David.
         - Quem pode culp-la? - perguntou Howard, e sua mo deslizou para a parte inferior da barriga de Norah, gil e forte, como o bater de uma asa. Depois, deslizou 
para fora de seu bolso. - Passe l amanh de manh, se quiser. Estou fazendo uns desenhos com a cmara escura.
         Norah acenou com a cabea, sem dizer nada, imaginando o facho nico de luz a penetrar na escurido e projetar imagens maravilhosas na parede.
         Howard foi embora minutos depois, desaparecendo quase de imediato nas trevas.
         - Gostei desse sujeito - disse David depois, quando os dois j haviam entrado. Agora a cozinha estava imaculada: todos os vestgios da tarde sonhadora de 
Norah tinham-se escondido.
         Ela estava na janela, olhando para a praia escura, ouvindo as ondas, com as duas mos enfiadas nos bolsos do vestido.
         - . Eu tambm - concordou.
           ...
         Na manh seguinte, David e Paul se levantaram antes do amanhecer para ir  marina pegar o barco de pesca. Norah ficou deitada no escuro enquanto eles se 
aprontavam, sentindo na pele a maciez do lenol limpo de algodo, ouvindo-os esbarrarem nas coisas pela sala, desajeitados, tentando no fazer barulho. Depois, passos, 
o ronco do motor do carro, novamente o silncio e o som das ondas. Ela continuou deitada, lnguida, enquanto um filete de luz se formava onde o cu e o mar se encontravam. 
Depois, tomou um banho, vestiu-se e preparou uma xcara de caf. Comeu metade de uma laranja, lavou e guardou a loua, saiu porta afora. Usava short e uma blusa 
turquesa, estampada de flamingos. Os tnis brancos estavam amarrados um no outro, pendurados em sua mo. Ela havia lavado a cabea e o vento do mar secava seu cabelo, 
embaraando-o em volta do rosto.
         O chal de Howard, a pouco mais de um quilmetro e meio de areia, era quase idntico ao de Norah. Ele estava sentado na varanda, debruado sobre uma caixa 
de madeira de acabamento escuro. Usava um short branco e uma camisa laranja de madras quadriculado, aberta. Os ps, como os dela, estavam descalos. Ele se levantou 
 aproximao de Norah.
         - Quer um caf? - gritou. - Eu estava vendo voc andar pela praia.
         - No, obrigada.
         - Tem certeza?  caf irlands. Com uma dosezinha de lcool, se entende o que eu quero dizer.
         - Talvez daqui a pouco - disse Norah. Subiu a escada e passou a mo pela caixa polida de mogno. - Essa  a cmara escura?
         - . Venha at aqui. D uma olhada.
         Norah sentou-se na cadeira, que ainda guardava o calor do corpo dele, e olhou pela abertura. Ali estava o mundo, a longa faixa de praia e o aglomerado de 
pedras, e uma vela deslocando-se lentamente no horizonte. O vento soprava nas casuarinas, tudo minsculo e nitidamente detalhado, emoldurado e contido, mas vivo, 
no esttico. Depois, ela ergueu os olhos, piscando, e constatou que o mundo tambm se transformara: as flores claramente desenhadas contra a areia, a cadeira de 
listras vivas, o casal que caminhava  beira-mar. Tudo vvido, espantoso, muito mais do que ela havia se apercebido.
         - Ah! - exclamou, tornando a olhar para o interior da caixa. -  impressionante. O mundo fica to exato, to rico! D at para ver o vento se movendo nas 
rvores.
         Howard riu.
         -  uma maravilha, no ? Eu sabia que voc ia gostar.
         Norah pensou em Paul quando beb, com a boca arredondada num crculo perfeito, deitado em seu bero, olhos fixos numa maravilha banal. Tornou a inclinar 
a cabea para ver o mundo contido, depois olhou para cima, para v-lo transformado. Livre de sua moldura de escurido, at a luz tinha um brilho intermitente, vivo.
         -  muito bonito - sussurrou ela. -  to lindo que mal consigo acreditar.
          - Eu sei - disse Howard. - V para l. Entre nela. Deixe-me desenh-la.
         Norah levantou-se e saiu para a areia quente, para a luz ofuscante. Virou-se e parou diante de Howard, que inclinava a cabea para a abertura, e observou 
sua mo deslocar-se pelo bloco de desenho. O cabelo dela se aqueceu - o sol j se transformara numa palma quente e plana - e Norah lembrou-se de ter posado na vspera 
e tambm na antevspera. Quantas vezes havia ficado assim, sujeito e objeto, fazendo pose para evocar ou preservar o que a rigor no existia, guardando seus pensamentos 
verdadeiros para si? E assim se postou nesse momento, uma mulher reduzida a uma miniatura perfeita de si mesma, cada detalhe seu projetado num espelho pela luz. 
A brisa do mar, quente e mida, balanava o cabelo de Howard, e sua mo, de dedos longos e unhas bem cuidadas, movia-se depressa enquanto ele a desenhava, fixando-lhe 
a imagem no papel. Norah lembrou-se da areia movendo-se sob seus quadris ao posar para a de David e de como os dois homens haviam falado dela depois, no como uma 
mulher de carne e osso, presente na sala, mas como uma imagem, uma forma. Ao recordar isso, seu corpo de repente lhe pareceu frgil, como se ela no fosse a mulher 
preparada e independente que levara e trouxera um grupo de turistas da China, mas algum passvel de ser arrastado para longe por uma lufada de vento. Depois, Lembrou-se 
da mo de Howard, aquecendo seu bolso e sua pele. Aquela mo, a mo que se movia nesse momento, a mo que a atraa.
         Levou as mos  cintura e segurou a bainha da blusa. Lentamente, mas sem hesitar, tirou-a pela cabea e deixou-a cair na areia. Na varanda, Howard parou 
de desenhar, embora no levantasse a cabea. Os pequenos msculos de seus braos e ombros j no se mexiam. Norah abriu o zper do short. A roupa escorregou por 
suas pernas e ela deu um passo para o lado, deixando-a na areia. At ali, nada de novo, apenas o mesmo biquni com que j servira de modelo tantas vezes. S que, 
nesse momento, ela levou as mos s costas e soltou o suti. Deslizou a parte de baixo pelos quadris e pernas e a chutou para Longe. Ficou imvel, sentindo o sol 
e o vento roarem sua pele.
         Devagar, Howard levantou a cabea da cmara escura e ficou sentado, olhando fixo.
         Por um instante, aquilo teve um ar de pesadelo, da sensao de pnico e vergonha que ela sentia ao perceber, no meio de um sonho em que fazia compras ou 
andava por um jardim cheio de gente, que tinha esquecido de se vestir. E comeou a estender a mo para apanhar a roupa.
         - No, no - sussurrou Howard, e Norah parou, empertigando o corpo. - Voc  to linda!
         Em seguida, ele se levantou com cuidado, devagar, como se ela fosse um pssaro que pudesse assustar-se e voar  sua aproximao. Mas Norah continuou muito 
quieta, intensamente presente em seu corpo, como se fosse de areia, areia encontrando-se com o fogo e prestes a se transformar, alisar-se, cintilar. Howard cruzou 
os poucos metros de praia. Pareceu levar uma eternidade, afundando os ps na areia morna. Quando enfim chegou at ela, parou, sem toc-la, e a fitou. O vento balanava 
o cabelo de Norah e ele afastou uma mecha de sua boca, prendendo-a com toda a delicadeza atrs de sua orelha.
         - Eu jamais conseguiria captar isso - disse -, assim como voc est neste momento. Nunca poderia capt-lo.
         Norah sorriu e espalmou a mo no peito de Howard, sentindo a maciez do tecido leve e da carne morna, as camadas de msculos, os ossos. O esterno, lembrou-se, 
dos tempos em que havia estudado os ossos para ter uma compreenso melhor de David e seu trabalho. O manbrio e o gladolo, em formato de espada. As costelas verdadeiras 
e as falsas, as linhas de juno.
         Howard ps as mos em concha em volta do rosto dela, de leve. Norah deixou suas mos carem. Juntos, sem falar, os dois entraram no pequeno chal. Ela deixou 
as peas de roupa na areia; tambm no se importou com isso, com a possibilidade de que algum as visse. As tbuas da varanda cederam ligeiramente sob seus ps. 
O tecido que cobria a cmara escura foi tirado e ela viu com satisfao que Howard tinha esboado a praia e o horizonte, as pedras e rvores dispersas; todos eram 
reprodues perfeitas. Ele havia esboado seu cabelo, uma nuvem suave e amorfa, mas fora s. No lugar em que ela estivera, a pgina continuava em branco. Suas roupas 
tinham cado como folhas, e ele erguera os olhos para v-la parada ali.
         Para fugir  monotonia, Norah  que tinha feito o tempo parar.
         O quarto pareceu escuro, depois da luminosidade da praia, e o mundo foi emoldurado pela janela como o fora na lente da cmara escura, to brilhante e vivido 
que lhe trouxe lgrimas aos olhos. Norah sentou-se na beirada da cama.
         - Deite-se - disse ele, tirando a camisa. - S quero olhar para voc por um instante.
         Norah deitou-se e ele ficou em p a seu lado, percorrendo-lhe a pele com os olhos.
         - Fique comigo - fez ele, e a assustou, ao se ajoelhar e descansar a cabea em seu ventre, com o rosto por barbear espetando-lhe a barriga. Norah sentia-lhe 
o peso a cada vez que respirava, e a respirao de Howard percorria sua pele. Ela estendeu as mos, alisando-lhe os cabelos ralos, e o puxou para cima, para que 
a beijasse.
         Horas mais tarde, ficaria atnita, no por ter feito essas coisas ou qualquer das que vieram depois, mas por t-las feito na cama de Howard, embaixo da 
janela aberta e sem persianas, emoldurada como uma imagem numa cmera. David estava longe, em alto-mar, com Paul, pescando. Mesmo assim, qualquer um poderia ter 
passado e visto os dois.
          Mas Norah no parou, nem nessa ocasio nem depois. Howard foi uma espcie de febre para ela, uma compulso, uma porta aberta para suas prprias possibilidades, 
para o que ela supunha ser a liberdade. Estranhamente, Norah descobriu que seu segredo tambm fazia a distncia entre ela e David parecer mais suportvel. Voltou 
repetidas vezes ao chal de Howard, mesmo depois de David comentar sobre as muitas caminhadas que ela vinha fazendo e sobre como ia longe. Mesmo quando demorando-se 
na cama enquanto Howard preparava uma bebida para os dois, ela pescou o short dele no cho e encontrou uma foto de sua esposa sorridente e trs filhos pequenos dentro 
de uma carta, que dizia: Mame est melhor, todos sentimos saudade e amamos voc, e nos veremos na prxima semana.
         Isso aconteceu numa tarde em que o sol fazia as ondas cintilarem e o calor subia pela areia, tremeluzindo. O ventilador de teto estalava na penumbra do 
quarto. Norah segurou a foto e olhou para a paisagem da imaginao, l fora, para a luz brilhante. Na vida real, aquela foto teria trazido um corte rpido e certeiro, 
mas ali Norah no sentiu nada. Enfiou-a de novo no bolso do short e o deixou cair outra vez no cho. Ali aquilo no tinha importncia. S o que importava era o sonho, 
assim como a luz febril. Nos 10 dias seguintes, ela se encontrou com o amante.
           AGOSTO DE 1977   I   DAVID SUBIU A ESCADA CORRENDO E ENTROU NO SILENCIOSO SAGUO DE entrada da escola, parando por um momento para recobrar o flego e 
se orientar. Estava atrasado para o concerto de Paul, muito atrasado. Tinha planejado sair cedo do hospital, mas haviam chegado ambulncias com um casal mais idoso, 
quando ele ia cruzando a porta da sada: o marido cara de uma escada e aterrissara em cima da mulher. A perna dele e o brao dela estavam quebrados; a perna precisava 
de pinos e uma placa. David tinha telefonado para Norah e ouvira a raiva mal contida na voz da mulher, ele mesmo com tanta raiva que no havia se incomodado, ficara 
at contente por irrit-la. Afinal, ela se casara com ele sabendo como era seu trabalho. Um silncio incmodo se manteve por um longo tempo, antes que David desligasse.
         O        piso de lajotas tinha um tom vagamente rosado, e os armrios ao longo das paredes do corredor eram azul-escuros. David parou para escutar e, por 
um momento, ouviu apenas sua prpria respirao, mas os aplausos a seguir o conduziram pelo corredor at as grandes portas de madeira do auditrio. Ele abriu uma 
das duas e entrou, deixando seus olhos se acostumarem  penumbra. O local estava lotado; um mar de cabeas escuras descia at o palco feericamente iluminado. David 
as vasculhou, procurando Norah. Uma moa lhe entregou um programa e, enquanto um menino de jeans arriados nos quadris entrava no palco e se sentava com seu saxofone, 
ela lhe apontou o quinto nome da lista. David deu um grato suspiro de alvio e sentiu a tenso diminuir. Paul era o stimo; ele conseguira chegar bem a tempo.
         O saxofonista comeou, tocando com paixo e intensidade, e uma nota aguda fez David sentir calafrios na espinha. Ele tornou a examinar a platia e viu Norah 
na parte central, nas filas da frente, com um assento vazio a seu lado. Pelo menos havia pensado nele, guardando seu lugar. David no tivera certeza de que ela o 
faria; alis, j no tinha certeza de quase nada. Tinha certeza de sua raiva e da culpa que o mantivera calado sobre o que tinha visto em Aruba; essas coisas certamente 
se interpunham entre eles. Mas David no tinha o menor vislumbre do corao de Norah, de seus desejos ou motivaes.
         O        saxofonista terminou com um floreio, levantou-se e fez uma mesura. Durante os aplausos, David desceu os degraus pouco iluminados e, constrangido, 
passou pelas pessoas j sentadas para ocupar seu lugar ao lado da mulher.
         - David - disse ela, tirando o casaco do assento. - Bem, voc conseguiu, afinal.
         - Foi uma cirurgia de emergncia, Norah.
         - Ah, eu sei, j estou acostumada.  s o Paul que me preocupa.
         - O Paul tambm me preocupa.  por isso que estou aqui.
         - Sei. Com certeza - fez ela. A voz era cortante e seca. - Est mesmo.
         David sentiu a raiva que se irradiava em ondas da mulher. Seu cabelo curto estava com um penteado perfeito, e ela usava todos os matizes de creme e dourado, 
num vestido de seda natural que havia comprado em sua primeira viagem a Cingapura. Com o crescimento da empresa, Norah passara a viajar mais e mais, levando grupos 
de turistas a locais corriqueiros e exticos. David a havia acompanhado algumas vezes, no comeo, quando as viagens eram menores e menos ambiciosas: pelo Parque 
Nacional Mammoth Cave, no Kentucky, ou num passeio de barco pelo Mississipi. Em todas as ocasies, ficara deslumbrado com Norah, com a pessoa em quem ela havia se 
transformado. Os participantes das excurses a procuravam com suas inquietaes e preocupaes: a carne mal passada, a cabine pequena demais, o ar-condicionado com 
defeito, as camas muito duras. Ela os escutava atentamente e se mantinha calma em todas as crises, acenando com a cabea, dando um tapinha num ombro, pegando o telefone. 
Ainda era bonita, embora houvesse agora uma certa tenso em sua beleza. Norah era boa no que fazia. E mais de uma senhora de cabelos azulados o chamara  parte para 
se certificar de que ele sabia a sorte que tinha.
         David foi obrigado a se perguntar o que pensariam aquelas mulheres se elas tivessem encontrado as roupas de Norah largadas numa pilha na areia.
         - Voc no tem o direito de se irritar comigo, Norah - sussurrou. Ela recendia vagamente a laranjas e tinha o queixo tenso. No palco, um jovem de terno 
azul sentou-se ao piano, flexionando os dedos. Aps um momento, mergulhou, fazendo as notas ondularem. - No tem mesmo - insistiu David.
         - No estou irritada. S estou nervosa, por causa do Paul.  voc que est irritado.
         - No,  voc. Voc tem estado assim desde Aruba.
         - Olhe-se no espelho - sussurrou ela.
         Nesse momento, uma mo pousou no ombro de David. Ele virou para trs e viu uma mulher corpulenta, sentada junto ao marido, com uma longa fileira de filhos 
estendendo-se dos dois lados do casal.
         - Com licena - disse ela. - O senhor  o pai do Paul Henry, no ? Bem, aquele l, tocando piano,  o meu filho Duke. Se o senhor no se importa, ns realmente 
gostaramos de ouvi-lo.
         David e Norah se entreolharam, num breve momento de cumplicidade; ela estava ainda mais constrangida que o marido.
         Ele se acomodou na cadeira e ouviu. O rapazinho, Duke, amigo de Paul, tocava piano com intensa inibio, mas era muito bom, tecnicamente competente e tambm 
apaixonado. David observou suas mos correrem pelo teclado e ficou pensando no que Duke e Paul conversariam quando andavam de bicicleta pelas ruas silenciosas do 
bairro. Com que sonhariam aqueles meninos? O que Paul dizia aos amigos que nunca diria ao pai?
         As roupas de Norah, largadas numa pilha colorida sobre a areia branca, com o vento levantando a ponta da blusa de cores espalhafatosas: essa era uma coisa 
que eles nunca discutiriam, embora David desconfiasse que Paul tambm as tinha visto. Os dois haviam acordado muito cedo para pescar, naquela manh, e tinham seguido 
de carro pelo litoral, na escurido antes do alvorecer, passando por pequenos vilarejos. No eram de muita conversa, nem ele nem Paul, mas sempre havia um segmento 
de comunho naquelas horas matinais, nos rituais de jogar o anzol e girar o molinete, e David ansiava por essas oportunidades de estar com o filho, que crescia muito 
depressa e se tornara um mistrio para ele. Mas a viagem tinha sido cancelada; o motor do barco pifara e o dono estava  espera de novas peas. Desapontados, os 
dois haviam se demorado um pouco no cais, tomando suco de laranja engarrafado e vendo o sol nascer sobre o oceano. Depois, tinham voltado para o chal.
         A luz estava boa naquela manh, e David, embora decepcionado, tambm estava ansioso para voltar  sua cmera. Tivera uma outra idia sobre suas fotos, no 
meio da noite. Howard havia indicado um lugar em que mais uma imagem arremataria a srie inteira. Um bom sujeito, aquele Howard, e perspicaz. A conversa dos dois 
ficara na cabea de David a noite inteira, gerando uma empolgao comedida. Ele quase no tinha dormido, e estava com vontade de passar em casa e tirar mais um filme 
de fotos de Norah na areia. Mas ele e o filho haviam encontrado o chal quieto, fresco e vazio, banhado de luz e do som das ondas. Norah tinha deixado uma fruteira 
com laranjas no centro da mesa. Sua xcara de caf estava lavada, secando na pia. Norah?, ele havia chamado. E de novo: Norah? Mas no houvera resposta. Acho que 
vou dar uma corrida, dissera Paul, uma sombra no vo iluminado da porta, e David tinha concordado com um aceno. Veja se encontra sua me por a, pedira.
         Sozinho no chal, David tinha levado a fruteira para a bancada e espalhado as fotos na mesa. Elas farfalhavam na brisa, e fora preciso prend-las com copinhos 
de licor. Norah reclamava de que ele estava ficando obcecado pela fotografia - por que outra razo levaria seu portflio numa viagem de frias? -, e talvez fosse 
verdade. Mas ela estava errada quanto ao resto. s vezes, ao ver as imagens emergirem no banho do revelador, David vislumbrava um brao dela, a curva de seu quadril, 
e era tomado por um profundo sentimento de amor pela mulher. Ainda estava arrumando e rearrumando as fotos quando Paul voltou, batendo a porta com fora ao entrar.
         - Essa foi rpida - dissera David, erguendo os olhos.
         - Cansado, estou cansado - fora a resposta. Paul havia passado direto pela sala de jantar e desaparecido em seu quarto.
         - Paul? - falou David. Fora at a porta do quarto e girara a maaneta. Trancada.
         - S estou cansado - dissera seu filho. - Est tudo timo.
         David tinha esperado mais uns minutos. Paul andava com o humor muito instvel. Nada do que o pai dizia parecia estar certo, e o pior eram as conversas com 
o filho sobre seu futuro. Um futuro que poderia ser brilhante. Paul tinha talento para a msica e os esportes, com todas as possibilidades em aberto. Muitas vezes, 
David achava que sua prpria vida - as escolhas difceis que tivera que fazer - se justificaria, se ao menos Paul realizasse seu potencial, e vivia com um medo constante 
e incmodo de ter falhado com o filho de algum modo, medo de que Paul desperdiasse seu talento. Voltara a bater de leve na porta, mas Paul no tinha respondido.
         Por fim, David dera um suspiro e voltara para a cozinha. Havia admirado a fruteira com laranjas na bancada, as curvas das frutas e da madeira escura. Depois, 
por um impulso que no saberia explicar, tinha sado e comeado a andar pela praia. J andara cerca de um quilmetro ao avistar de longe o esvoaar colorido da blusa 
de Norah. Ao chegar mais perto, tinha percebido que eram as roupas dela, largadas na praia em frente ao que devia ser o chal de Howard. David havia parado sob o 
brilho ofuscante do sol, intrigado. Teriam os dois ido nadar? Vasculhara a gua sem v-los e continuara andando at ser detido pelo riso conhecido de Norah, baixo 
e musical, saindo pelas janelas do chal. Tambm tinha ouvido o riso de Howard, fazendo eco ao dela. Naquele momento havia compreendido e fora tomado por uma dor 
que arranhava e queimava tanto quanto a areia sob seus ps.
         A areia queimava seus ps e a luz era ofuscante. David fora tomado pela certeza antiga de que a noite de nevasca em que ele entregara sua filha a Caroline 
Gil no ficaria impune. A vida tinha continuado, era plena e rica; em todos os aspectos visveis, ele era um sucesso. No entanto, em momentos espordicos - no meio 
de uma cirurgia, ou dirigindo para a cidade, ou prestes a pegar no sono -, tinha sobressaltos repentinos, afligido pela culpa. Dera sua prpria filha. Esse segredo 
tinha ficado no centro de sua famlia, havia moldado sua vida em comum. David o conhecia, podia enxerg-lo, visvel como um muro de pedra erguido entre eles. E via 
Norah e Paul tentando se aproximar e batendo na pedra, sem compreender o que estava acontecendo, sabendo apenas que havia alguma coisa entre eles que no podia ser 
vista nem rompida.
         Duke Madison terminou a pea com um floreio, ficou de p e curvou-se. Norah, batendo palmas com entusiasmo, virou-se para a famlia no banco de trs e disse:
         - Ele foi maravilhoso. O Duke tem muito talento.
         O palco ficou vazio e os aplausos foram cessando. Passou-se um minuto, mais outro. As pessoas comearam a murmurar.
         - Onde est ele? - perguntou David, consultando seu programa. - Cad o Paul?
         - No se preocupe, ele est aqui - respondeu Norah. Para sua surpresa, ela lhe segurou a mo. David sentiu a temperatura fria e foi inundado por um alvio 
inexplicvel, acreditando, por um momento, que nada havia mudado, que no havia nada entre eles, afinal. - Ele j vai sair.
         No exato momento em que Norah falou houve um burburinho e Paul entrou no palco. David o observou: alto e magricela, com uma camisa branca limpa, de punhos 
arregaados, e dirigindo  platia um sorriso furtivo, com um toque de ironia. Por um instante, o pai ficou perplexo. Como  que Paul se tornara quase um adulto, 
parado ali, diante daquele salo escuro e cheio de gente, com tamanha confiana e descontrao? No era nada que o prprio David jamais sonhasse fazer, e uma onda 
de intenso nervosismo o invadiu. E se Paul fracassasse diante de todas aquelas pessoas? David se deu conta da mo de Norah na sua quando o filho se debruou sobre 
o violo, testou algumas notas e comeou a tocar.
         Era Segovia, dizia o programa, duas peas curtas: Estdio e Estudio sin luz. As notas dessas melodias, delicadas e precisas, eram intimamente familiares. 
David j ouvira o filho tocar essas peas tantas vezes... Durante todo o perodo de frias em Aruba, aquela msica havia transbordado de seu quarto, mais rpida 
ou mais lenta, repetindo trechos e compassos, vez aps outra. Os padres j lhe eram to familiares quanto os dedos longos e habilidosos de Paul, que se moviam com 
imensa segurana pelas cordas, entremeando a msica no ar. No entanto, foi como se David a ouvisse pela primeira vez, e talvez tambm estivesse vendo Paul pela primeira 
vez. Onde estava o beb que tirava os sapatos para lev-los  boca, o menino que trepava em rvores e ficava em p na bicicleta, sem se segurar? De algum modo, aquele 
garoto meigo e travesso se transformara nesse rapaz. O corao de David inchou, batendo com tanta fora que, por um momento, ele achou que estava enfartando - era 
moo para isso, apenas 46 anos, mas essas coisas aconteciam.
         Bem devagar, deixou-se relaxar na escurido, de olhos fechados, permitindo que a msica de Paul o atravessasse em ondas. As lgrimas lhe subiram aos olhos 
e a garganta ficou apertada. Pensou em sua irm, parada na varanda, cantando com voz lmpida e suave; a msica era uma linguagem prateada que ela parecia ter nascido 
para falar, assim como Paul. David sentiu-se invadir por uma profunda sensao de perda, muito intensa, tecida de um sem-nmero de lembranas: a voz de June, Paul 
batendo a porta com fora, as roupas de Norah espalhadas na praia, a filha recm-nascida entregue nas mos expectantes de Caroline Gil.
         Era demais. Demais. David sentiu-se  beira das lgrimas. Abriu os olhos e se obrigou a recitar em silncio a tabela peridica - hidrognio, hlio, ltio 
- para que o n na garganta no se desfizesse em pranto. Funcionou, como sempre funcionava na sala de cirurgia, para faz-lo concentrar-se. Ele reprimiu tudo: June, 
a msica, a onda poderosa de amor que sentia pelo filho. Os dedos de Paul descansaram no violo. David soltou a mo de Norah. E aplaudiu furiosamente.
         - Voc est bem? - perguntou ela, olhando-o de relance. - Est tudo bem, David?
         Ele fez que sim com a cabea, ainda sem muita confiana para falar.
         - Ele  muito bom - finalmente disse, cuspindo as palavras. -  muito bom.
         -  - concordou Norah. - E  por isso que quer ir para a Juilliard.
         Ela continuou a aplaudir, e, quando Paul olhou em sua direo, jogou-lhe um beijo.
         - No seria uma maravilha se isso acontecesse? Ele ainda tem alguns anos para praticar e, se der tudo o que pode... quem sabe?
         Paul fez uma mesura para a platia e se retirou do palco com seu violo. Os aplausos continuaram.
         - Tudo o que pode? - repetiu David. - E se no der certo?
         - E se der?
         - No sei - disse David, devagar. - S acho que ele  muito novo para fechar as portas.
         - Ele  muito talentoso, David. Voc o ouviu. E se isso for uma porta se abrindo?
         - Mas ele s tem 13 anos.
         - , e adora msica. Diz que a hora em que se sente mais vivo  quando toca violo.
         - Mas...  uma vida muito imprevisvel. Ser que ele conseguir se sustentar?
         O        rosto de Norah ficou muito srio. Ela abanou a cabea.
         - No sei. Mas como  mesmo aquele antigo ditado? Faa o que gosta que o dinheiro vem atrs. No feche essa porta do sonho dele.
         - No vou fechar. Mas fico preocupado. Quero que ele tenha segurana na vida. E a Juilliard  uma aposta muito alta, difcil de ganhar, por melhor que ele 
seja. No quero que Paul se magoe.
         Norah abriu a boca para falar, mas o auditrio ficou em silncio quando uma jovem de vestido vermelho-escuro entrou com seu violino, e os dois voltaram 
a ateno para o palco.
         David ouviu a moa e todos os que vieram depois, mas foi a msica de Paul que permaneceu com ele. Terminadas as apresentaes, ele e Norah dirigiram-se 
ao saguo, parando a todo momento para cumprimentar outras pessoas e ouvir elogios ao filho. Quando finalmente se aproximaram de Paul, Norah atravessou a multido 
e o abraou, e ele, sem jeito, deu-lhe um tapinha nas costas. David captou sua ateno e sorriu e, para sua surpresa, Paul retribuiu o sorriso. Um momento comum. 
Mais uma vez David deixou-se acreditar que tudo ficaria bem. Segundos depois, no entanto, Paul pareceu conter-se. Soltou-se de Norah e deu um passo atrs.
         - Voc estava timo - disse David. Abraou-o, notando a tenso nos ombros do filho e o modo como ele se portava: rgido, distante. - Voc foi fantstico, 
meu filho.
         - Obrigado. Eu estava meio nervoso.
         - No parecia.
         - Nem um pouco - concordou Norah. - Voc teve uma presena esplndida no palco.
         Paul balanou as mos junto ao corpo, soltas, como que para descarregar a tenso que restara.
         - O Mark Miller me convidou para tocar com ele no festival de arte. No  um barato?
         Mark Miller era o professor de violo de Paul e tinha uma reputao crescente.
         - Sim,  um barato - disse Norah, rindo. -  mesmo um barato total! Ergueu os olhos e surpreendeu a expresso constrangida do filho.
         - O que ? - perguntou. - O que foi?
         Paul se remexeu, enfiando as mos nos bolsos, e olhou em volta para o saguo lotado.
         -  s... no sei... voc parece meio ridcula, me. Quer dizer, voc no  propriamente uma adolescente.
         Norah enrubesceu. David a viu enrijecer-se de mgoa, e seu prprio corao doeu. Ela no entendia a origem da raiva de Paul nem da do marido. No sabia 
que suas roupas largadas tinham esvoaado a um vento que ele mesmo desencadeara muitos anos antes.
         - Isso no so modos de falar com sua me - disse ele, enfrentando a raiva do filho. - Quero que voc pea desculpas agora mesmo.
         Paul deu de ombros.
         - Est certo. Claro. Tudo bem. Desculpe.
         - A srio.
         - David - interrompeu Norah, com a mo em seu brao. - No vamos transformar isso num drama. Por favor. Todo mundo est meio nervoso, s isso. Vamos para 
casa comemorar. Pensei em convidar umas pessoas. A Bree disse que iria, e os Marshall... a Lizzie no estava tima na flauta? E os pais do Duke, quem sabe? O que 
voc acha, Paul? No os conheo muito bem, mas talvez eles tambm gostassem de ir, no?
         - No - disse Paul. Agora estava distante, olhando para o saguo repleto atrs de Norah.
         -  mesmo? Voc no quer convidar a famlia do Duke?
         - No quero convidar ningum. S quero ir para casa.
         Os trs ficaram imveis por um momento, uma ilha de silncio em meio ao burburinho do saguo.
         - Ento, est bem - disse David, enfim. - Vamos para casa.
         A casa estava escura quando chegaram, e Paul subiu direto para seu quarto. Os pais ouviram seus passos entrando e saindo do banheiro; ouviram sua porta 
fechar devagar e depois o rudo da fechadura.
         - No entendo - disse Norah. Tinha tirado os sapatos e pareceu muito pequena a David, muito vulnervel, parada, de meias, no centro da cozinha. - Ele foi 
to bem no palco! Parecia to feliz.., e, a, o que aconteceu? No entendo - e suspirou. - Adolescentes.  melhor eu ir falar com ele.
         - No. Deixe que eu vou.
         David subiu a escada sem acender a luz e, ao chegar  porta de Paul, ficou um bom tempo parado no escuro, lembrando como as mos do filho tinham se movido 
pelas cordas com delicada preciso, enchendo de msica o enorme auditrio. David agira mal, todos aqueles anos antes; cometera um erro ao entregar sua filha a Caroline 
Gil. Tinha feito uma escolha e agora estava parado ali, nessa noite, no escuro,  porta do quarto do filho. Bateu, mas no houve resposta. Tornou a bater e, quando 
novamente no houve resposta, foi at a estante, encontrou a lima fina que guardava l e a enfiou no buraco da maaneta. Houve um clique leve e, quando ele girou 
a maaneta, a porta se abriu. No ficou surpreso ao ver que o quarto estava vazio. Ao acender a luz, uma brisa bateu na alva cortina branca e a suspendeu at o teto.
         - Ele saiu - disse a Norah, que continuava na cozinha, parada, de braos cruzados,  espera de que a chaleira fervesse.
         - Saiu?
         - Pela janela. Descendo pela rvore, provavelmente.
         Norah ps as mos no rosto.
         - Alguma idia para onde ele foi? - perguntou o marido.
         Ela abanou a cabea. A chaleira comeou a apitar e Norah no reagiu de imediato. O gemido fino e persistente encheu a cozinha.
         - No sei. Talvez esteja com o Duke.
         David atravessou o cmodo e tirou a chaleira do fogo.
         - Tenho certeza de que ele est bem - comentou.
         Norah acenou que sim, depois abanou a cabea.
         - No. O problema  esse. No acho mesmo que ele esteja bem.
         Pegou o telefone. A me de Duke lhe deu o endereo de uma festa programada para depois do show, e Norah procurou a chave.
         - No - disse David. - Eu vou. Acho que ele no quer conversar com voc neste momento.
         - Nem com voc - retrucou ela.
         Mas David percebeu que ela compreendera no mesmo instante em que acabara de falar. Naquele momento, alguma coisa se desnudou. Ficou tudo ali entre eles: 
as longas horas de Norah longe do chal, as mentiras, as desculpas e as roupas na praia. As mentiras de David tambm. Norah balanou a cabea uma vez, devagar, e 
David temeu o que ela pudesse dizer ou fazer, o modo como o mundo poderia transformar-se para sempre. Mais do que tudo, queria deter esse momento, impedir que o 
mundo seguisse adiante.
         - Eu culpo a mim mesmo. Por tudo - disse.
         Pegou as chaves e saiu para a noite fresca de primavera. A lua estava cheia, cor de creme batido, linda, redonda e baixa no horizonte. David foi olhando 
para ela de relance enquanto dirigia pelo bairro silencioso, por ruas slidas e prsperas, o tipo de lugar que ele sequer havia imaginado quando criana. Isso era 
o que ele sabia, e Paul, no: que o mundo era precrio e s vezes cruel. Ele tivera que lutar muito para conseguir o que Paul simplesmente tomava por um dado corriqueiro.
         Avistou o filho um quarteiro antes do local da festa, andando pela calada com as mos nos bolsos e os ombros recurvados. Havia carros parados ao longo 
de toda a rua, sem lugar para estacionar, de modo que David reduziu e tocou a buzina. Paul levantou os olhos e, por um instante, o pai teve medo de que ele sasse 
correndo.
         - Entre a - disse-lhe. E o menino entrou.
         David reps o carro em movimento. Os dois no conversaram. A lua inundava o mundo de uma linda luz, e David teve conscincia do filho sentado a seu lado, 
conscincia de sua respirao leve e suas mos imveis no colo, conscincia de que ele estava olhando pela janela para os jardins silenciosos por onde os dois passavam.
         - Voc foi realmente timo esta noite. Fiquei impressionado.
          - Obrigado.
          Percorreram dois quarteires em silncio.
          - Bem, sua me disse que voc quer ir para a Juilliard.
          - Pode ser.
         - Voc  bom.  bom em muitas coisas, Paul. Ter uma poro de opes na vida. Uma poro de direes que poder tomar. Voc pode ser o que quiser.
         - Eu gosto de msica. Ela me faz sentir vivo. Acho que no espero que voc entenda isso.
         - Eu entendo. Mas existe o estar vivo e existe o ganhar a vida.
         - . Exatamente.
         - Voc pode falar assim porque nunca lhe faltou nada. Esse  um luxo que voc no compreende.
         J estavam perto de casa, mas David virou na direo oposta. Queria ficar com Paul no carro, dirigindo pelo mundo enluarado em que essa conversa, por mais 
tensa e canhestra que fosse, era possvel.
         - Voc e a mame - disse Paul, com as palavras se desatando como se ele as houvesse retido por muito tempo. - Qual  o problema de vocs, afinal? Vocs 
vivem como se no ligassem para nada. No tm a menor alegria. S vo atravessando os dias, haja o que houver. Voc no liga a mnima. Nem para aquele tal de Howard.
         Ento, ele sabia.
         - Eu ligo, sim - contraps David. - Mas as coisas so complicadas, Paul. No vou falar disso com voc nem agora nem nunca. H muitas coisas que voc no 
compreende.
         Paul ficou calado. David parou num sinal. No havia nenhum outro carro por perto, mas os dois ficaram sentados em silncio esperando o sinal abrir.
         - Vamos manter esta conversa por aqui - disse David, enfim. - Voc no precisa se preocupar com sua me e comigo. Isso no  tarefa sua. A sua tarefa  
encontrar seu caminho no mundo. Usar todos os seus talentos. E no pode ser tudo para voc. Voc tem que retribuir com alguma coisa.  por isso que eu fao aquele 
trabalho na clnica.
         - Eu adoro msica - disse Paul, baixinho. - Quando toco, eu me sinto fazendo isso: retribuindo.
         - E retribui. Retribui. Mas, Paul, e se voc tiver a capacidade, digamos, de descobrir um novo elemento no universo? E se puder descobrir a cura de uma 
doena rara e terrvel?
         - So os seus sonhos. Os seus, no os meus - disse Paul.
         David calou-se, percebendo que de fato, um dia, tinham sido exatamente esses os seus sonhos. Ele se dispusera a consertar o mundo, modific-lo e mold-lo, 
mas, em vez disso, dirigia pela noite enluarada com o filho quase criado e todas as facetas de sua vida pareciam estar fora do seu alcance.
         - . Esses eram os meus sonhos.
         - E se eu puder ser o prximo Segovia? Pense nisso, papai. E se eu tiver esse talento em mim, e no tentar?
         David no respondeu. Tinha chegado de novo  sua rua e, dessa vez, tomou o rumo de casa. Subiram a rampa, quicando um pouco no desnvel em que ela se encontrava 
com o asfalto, e pararam em frente  garagem separada. David desligou o motor e, por alguns segundos, os dois permaneceram em silncio.
         - No  verdade que eu no me importo - disse David. - Venha. Quero lhe mostrar uma coisa.
         Saiu com Paul pelo luar e subiu a escada externa que levava  cmara escura em cima da garagem. Paul postou-se junto  porta fechada, de braos cruzados, 
irradiando impacincia, enquanto David preparava o processo de revelao, vertendo as substncias qumicas nas bandejas e colocando um negativo no ampliador. Feito 
isso, chamou o filho.
         - Olhe para isto - disse. - O que voc acha que ?
         Depois de hesitar por um momento, Paul cruzou o cmodo e olhou.
         - Uma rvore? Parece a silhueta de uma rvore.
         -        timo. Agora olhe de novo. Tirei essa foto durante uma cirurgia, Paul. Fiquei no balco do anfiteatro da sala de operaes com uma teleobjetiva. 
Voc consegue ver mais o qu?
          -        No sei... um corao?
         - Sim, um corao. No  incrvel? Estou fazendo uma srie inteira sobre a percepo com imagens do corpo que parecem outras coisas. s vezes acho que o 
mundo inteiro est contido em cada pessoa viva. Esse mistrio, e o mistrio da percepo... eu me importo com isso. E entendo o que voc quer dizer a respeito da 
msica.
         David passou a luz concentrada pelo ampliador, depois mergulhou o papel no revelador. Tinha profunda conscincia da presena do filho a seu lado na escurido 
e no silncio.
         - A fotografia tem tudo a ver com segredos - disse, aps alguns minutos levantando a foto com uma pina e mergulhando-a no fixador. - Os segredos que todos 
temos e nunca revelamos.
         - A msica no  assim - disse Paul, e David ouviu a rejeio na voz do filho. Levantou os olhos, mas era impossvel ver a expresso dele sob a tnue luz 
vermelha. - A msica  como tocar a pulsao do mundo. A msica est sempre acontecendo. s vezes a gente consegue toc-la por um momento e, quando consegue, sabe 
que tudo est ligado a tudo.
         Depois disso, virou as costas e saiu da cmara escura.
         - Paul! - chamou David, mas o filho j descia com estardalhao a escada externa, aborrecido. David foi at a janela e o viu correr pelo luar, subir a escada 
dos fundos e desaparecer dentro de casa. Pouco depois, uma luz se acendeu em seu quarto e as notas precisas de Segovia rodopiaram no ar, claras e delicadas.
         Revendo mentalmente a conversa, David pensou em ir atrs dele. Queria estabelecer uma ligao com Paul, ter um momento em que os dois se compreendessem, 
mas suas boas intenes haviam descambado na discusso e na distncia. A luzinha vermelha era muito tranqilizante. Ele pensou no que dissera ao filho - que o mundo 
era feito de coisas ocultas, de segredos, formado por ossos que nunca viam a luz.
          Era verdade que um dia ele havia buscado a unidade, como se as correspondncias subjacentes entre tulipas e pulmes, veias e rvores, carne e terra pudessem 
revelar um padro que lhe fosse possvel entender. Mas elas no o tinham revelado. Em poucos minutos, ele entraria em casa e tomaria um copo d'gua. Subiria e j 
encontraria Norah dormindo, e ficaria parado a olh-la - aquele mistrio, uma pessoa que ele jamais conheceria de verdade, enroscada em seus segredos. Foi       
at a minigeladeira em que guardava os produtos qumicos e os filmes. O envelope estava enfiado bem no fundo, atrs de vrias garrafas. Estava cheio de notas de 
20 dlares, estalando de novas, frias. Contou 10 delas, depois 20, e guardou o envelope atrs das garrafas. As notas ficaram numa pilha arrumada sobre a bancada.
         Em geral, ele mandava o dinheiro embrulhado numa folha de papel em branco, mas, nessa noite, com a raiva de Paul ainda pairando na sala e sua msica flutuando 
no ar, David sentou-se e escreveu uma carta. Escreveu depressa, deixando as palavras jorrarem - todos os seus remorsos do passado, todas as suas esperanas para 
Phoebe. Quem era ela, essa criana que era carne de sua carne, a menina de quem ele se desfizera? David no tinha esperado que ela vivesse tanto, ou que levasse 
o tipo de vida sobre a qual Caroline lhe escrevera. Ficou pensando no filho, sentado sozinho no palco, e na solido que Paul carregava consigo por toda parte. Ser 
que com Phoebe acontecia o mesmo? O que teria significado eles crescerem juntos, como Norah e Bree, diferentes em tudo, mas tambm intimamente ligadas? Eu gostaria 
muito de me encontrar com Phoebe, escreveu. Gostaria que ela conhecesse o irmo e que ele a conhecesse. Depois, dobrou a carta em volta do dinheiro, sem rel-la, 
ps tudo num envelope e o endereou. Fechou-o e colou um selo. Poria aquilo no correio no dia seguinte.
         O luar derramava-se pelas janelas da rea da ante-sala. Paul tinha parado de tocar. David olhou para a lua, j mais alta no cu, porm ntida e bem desenhada 
na escurido. Ele fizera uma escolha na praia; deixara a roupa de Norah cada na areia, seu riso derramando-se na luz. Voltara para o chal e havia trabalhado em 
suas fotos, e,  chegada dela, cerca de uma hora depois, no dissera nada sobre Howard. Havia guardado esse silncio porque seus prprios segredos eram mais sombrios, 
mais ocultos, e por acreditar que seus segredos haviam criado os dela.
         Voltou  cmara escura e procurou seu filme mais recente. Havia tirado algumas fotos instantneas durante o jantar em Aruba: Norah carregando uma bandeja 
com copos, Paul parado junto  grelha, com o copo levantado, vrias fotos de todos relaxando na varanda. Era a ltima imagem que ele queria; depois de encontr-la, 
projetou-a no papel com a luz. No banho de revelador, observou a imagem emergir lentamente, um grnulo aps outro: o aparecimento de algo onde antes no havia nada. 
Para David, essa era sempre uma experincia de intenso mistrio. Ele observou a imagem tomar forma: Norah e Howard na varanda, erguendo os copos de vinho num brinde, 
rindo. Um momento inocente e denso, um momento em que fora feita uma escolha. David tirou a foto do revelador, mas no a mergulhou no fixador. Em vez disso, foi 
at a ante-sala e ficou parado ao luar, com a fotografia molhada na mo, olhando para sua casa agora s escuras, com Paul e Norah l dentro, sonhando seus sonhos 
particulares, movendo-se em suas prprias rbitas, com suas vidas constantemente moldadas pela gravidade da escolha que David fizera muitos anos antes.
         De volta  cmara escura, pendurou a fotografia daquele momento para secar. Inacabada, sem fixador, a imagem no duraria. Nas horas seguintes, a luz afetaria 
o papel exposto. A imagem de Norah rindo com Howard escureceria lentamente, at ficar, dali a um ou dois dias, completamente negra.
         
       II
         
         OS DOIS ANDAVAM PELOS TRILHOS, DUKE MADISON COM AS MOS enfiadas nos bolsos da jaqueta de couro que havia encontrado na Sociedade Beneficente Goodwil e 
Paul chutando pedras que zumbiam nos trilhos. Soou um apito de trem ao longe. Num acordo silencioso, os dois meninos deslocaram-se para a beira dos trilhos, com 
os ps ainda apoiados no da esquerda, equilibrando-se. O trem foi se aproximando, fazendo vibrar o trilho sob os ps deles, a locomotiva como um ponto no horizonte, 
um ponto aos poucos maior e mais escuro, o maquinista fazendo soar alto o apito. Paul olhou para Duke, cujos olhos brilhavam com o risco e o perigo, e sentiu a excitao 
crescente na prpria carne, quase insuportvel, enquanto o trem chegava cada vez mais perto e o apito enfurecido soava por todas as ruas do bairro, e muito alm 
delas. Vieram o farol, o maquinista visvel na janela alta e de novo o apito, numa advertncia. Mais perto, com o vento da locomotiva achatando o mato no cho, Paul 
esperou, olhando para Duke, que se equilibrava no trilho a seu lado, e o trem correndo, quase em cima deles, e os dois esperando, esperando, e Paul achou que talvez 
nunca pulasse. E de repente pulou, ficou no meio do mato, e o trem passou em disparada, a 30 centmetros de seu rosto. Apenas por um breve instante viu a expresso 
do maquinista, plido de susto, e em seguida o trem - escurido e luz, escurido e luz,  medida que os vages passavam, e depois ele se perdeu na distncia e at 
o vento desapareceu.
         Duke, a 30 centmetros de distncia, sentou-se, erguendo o rosto para o cu nublado.
         - Cara, que barato! - comentou.
          Os dois meninos sacudiram a roupa e comearam a andar em direo  casa de Duke, uma casinha estreita e comprida bem prxima dos trilhos. Paul tinha nascido 
nesse bairro, algumas ruas adiante; mas, embora s vezes sua me o levasse at l, para ver a pracinha com o mirante e a casa em frente a ele, que fora a primeira 
residncia do filho, Norah no gostava que ele fosse l nem  casa de Duke. Mas, que diabo, ela nunca estava em casa e, desde que Paul fizesse os deveres da escola, 
o que fazia, e cortasse a grama e estudasse piano por uma hora, o que tambm fazia, ele ficava livre.
         O que a me no visse no poderia mago-la. O que ela no soubesse.
         - Ele ficou pau da vida, aquele cara do trem - disse Duke.
         - , ficou puto - concordou Paul.
         Ele gostava de palavres, e da lembrana do vento quente no rosto, e de como isso aplacava, ao menos momentaneamente, sua raiva silenciosa. Naquela manh, 
em Aruba, fora correr na praia com o corao leve, contente com o jeito como a areia molhada na beira da gua cedia um pouquinho sob seus ps, fortalecendo a musculatura 
das pernas. Contente, tambm, por ter gorado a pescaria com o pai. Seu pai adorava pescar, sentar-se por longas horas em silncio, num barco ou num cais, jogando 
e tornando a jogar a linha e - muito de vez em quando - vivendo a emoo de uma fisgada. Paul tambm havia adorado aquilo quando pequeno, no tanto pelo ritual da 
pesca, mas pela chance de passar algum tempo com o pai.  medida que ficara mais velho, porm, as pescarias tinham passado a parecer cada vez mais obrigatrias, 
como uma coisa que seu pai planejava por no conseguir pensar em mais nada para fazer. Ou porque talvez aquilo os unisse; Paul imaginava David lendo sobre o assunto 
em algum manual para pais. O menino fora informado das verdades da vida num perodo de frias, parado num barco num lago de Minnesota, quando o pai, enrubescendo 
sob a pele bronzeada, lhe havia falado das realidades da reproduo. Nos ltimos tempos, o futuro de Paul era o assunto favorito de seu pai, cujas idias eram to 
interessantes para o menino quanto um espelho-d'gua imenso e plano.
         E era por isso que ele se sentira feliz correndo na praia, ficara aliviado, e a princpio no dera nenhuma importncia  pilha de roupas largada em frente 
a um dos chalezinhos espaados entre as casuarinas. Passara veloz por ela, concentrado nas passadas rtmicas, com os msculos produzindo uma espcie de msica que 
o sustentara at a ponta de pedras. L ele fizera uma pausa, andando em crculos por algum tempo, e depois comeara a corrida da volta, mais devagar. A roupa tinha 
se mexido: a manga da blusa balanava ao vento do mar, e os flamingos rosa-shocking danavam contra o fundo turquesa-escuro. Paul diminura o passo. A blusa podia 
ser de qualquer um. Mas sua me tinha uma igual. Eles tinham rido da pea na loja de turistas na cidade; sua me a levantara, divertida, e a havia comprado s por 
farra. Ento, tudo bem, talvez houvesse centenas, milhares de blusas iguais. Mesmo assim, Paul havia parado para peg-la. O biquni da me, num montinho cor da pele, 
inconfundvel, cara de dentro da manga. Isso o fizera paralisar-se, incapaz de se mexer, como se o houvessem flagrado roubando, como se uma mquina fotogrfica 
houvesse disparado e o tivesse prendido. Ele deixara cair a blusa, mas continuara sem poder se mexer. Por fim, tinha comeado a andar, e depois voltara correndo 
para seu chal, como quem procurasse abrigo. Havia parado na soleira, tentando recompor-se. O pai tinha passado a fruteira com as laranjas para a bancada. Estava 
arrumando fotos na grande mesa de madeira. O que foi?, havia perguntado, erguendo os olhos, mas Paul no conseguira dizer. Tinha seguido direto para o quarto, fechado 
a porta com estrondo, e no levantara os olhos nem mesmo ao ouvir as batidas do pai. Sua me voltara duas horas depois, cantarolando, com a blusa de flamingos enfiada 
direitinho no short cqui. "Acho que vou dar uma nadada antes do almoo", ela dissera. "Quer vir?" Paul havia abanado a cabea e, pronto, l estava o segredo, seu 
segredo, primeiro dela, depois dele, erguido entre os dois como um vu. Seu pai tambm tinha segredos, uma vida que se desenrolava no trabalho ou na cmera escura, 
e Paul havia concludo que aquilo tudo era normal, era o jeito de ser das famlias, at comear a andar com Duke, um pianista incrvel que ele havia conhecido na 
aula de msica, uma tarde. Os Madison no tinham muito dinheiro, e os trens passavam to perto que a casa sacudia e as janelas chacoalhavam no caixilho, e a me 
de Duke nunca havia entrado num avio em toda a sua vida. Paul sabia que deveria sentir pena dela, como seus pais sentiriam; a mulher tinha cinco filhos e um marido 
que trabalhava na fbrica da GE e que jamais ganharia muito dinheiro. Mas o pai de Duke gostava de jogar bola com os meninos, e toda noite chegava em casa s seis 
horas, quando acabava seu turno. Embora no falasse mais que o pai de Paul, estava bem ali, e, quando no estava, eles sempre sabiam onde ach-lo.
          - E a, que  que c t a fim de fazer? - perguntou Duke.
          - Sei l. E voc? - retribuiu Paul. Os trilhos metlicos continuavam a zumbir. Paul se perguntou onde o trem finalmente pararia. Ps-se a imaginar se algum 
o vira parado  beira dos trilhos, to perto que poderia estender a mo e tocar num vago em movimento, com o vento fustigando seu cabelo, fazendo os olhos arderem. 
E, se algum o tivesse visto, o que teria pensado? Imagens passando pelas janelas do trem, como uma srie de instantneos, primeiro uma, depois outra: uma rvore, 
sim; uma pedra, sim; uma nuvem, sim; e nenhuma igual s outras. E, depois, um menino, com a cabea jogada para trs, rindo. E, pronto, sumiu. Uma moita, fios eltricos, 
um vislumbre de estrada.
         - A gente podia bater uma bola.
         - No.
         Andaram ao longo dos trilhos. Depois de atravessarem Rosemont Garden e ficarem cercados pelo mato alto, Duke parou e vasculhou os bolsos da jaqueta de couro. 
Seus olhos eram verdes, salpicados de azul. Que nem o mundo, pensou Paul. Eram assim os olhos de Duke. Feito a Terra vista da Lua.
         - Olhe s - disse ele. - Peguei isso na semana passada com meu primo Danny.
         Era um saquinho de plstico cheio de lascas verdes secas.
         - O que  isso? Uma poro de ervas murchas? - perguntou Paul. No instante em que falou, compreendeu e enrubesceu, sem graa por ser o panaca quadrado que 
era.
         Duke riu, com a voz alteando no silncio, no farfalhar do mato.
         -  isso a, cara, erva. Voc nunca curtiu um barato?
         Paul abanou a cabea, chocado, a despeito de si mesmo.
         - A gente no fica viciado, se  disso que voc tem medo. J usei duas vezes.  o mximo da curtio, pode crer.
         O cu continuava cinzento, o vento se movia nas folhas e, bem longe, soou outro apito de trem.
         - No estou com medo - disse Paul.
         -  isso a. No h nada de que ter medo. Quer experimentar?
         -  claro - fez Paul, olhando em volta. - Mas aqui no.
         Duke riu.
         - Quem voc acha que vai pegar a gente aqui?
         - Escute s.
         Os dois ouviram e o trem se tornou visvel, vindo da direo oposta, um pontinho que foi ficando cada vez maior, com o apito cortando o ar. Eles saram 
da linha frrea e ficaram de frente um para o outro, nos dois lados dos trilhos.
         - Vamos l para casa! - gritou Paul, enquanto o trem se aproximava, clere. - No tem ningum l!
         Imaginou os dois fumando maconha no novo sof de chintz da me e deu uma risada alta. Depois, o trem zuniu entre eles, e vieram o rugido e o silncio, o 
rugido e o silncio dos vages passando. Paul via lampejos rpidos de Duke, como as fotografias penduradas na cmara escura de seu pai, todos aqueles momentos da 
vida do pai parecendo vislumbres de um trem. Capturados e presos. Correria e silncio. Como isso.
         E, assim, refizeram o caminho para a casa de Duke, montaram nas bicicletas, cruzaram a estrada ziguezagueando pelos bairros at a casa de Paul.
         Estava trancada, com a chave escondida sob a laje solta junto aos rododendros. Do lado de dentro, o ar estava quente, com um vago cheiro de mofo. Enquanto 
Duke telefonava para casa, para dizer que ia se atrasar, Paul abriu uma janela e a brisa levantou as cortinas feitas por sua me. Antes de comear a trabalhar fora, 
ela costumava redecorar a casa inteira todo ano. Paul se lembrava de v-la debruada sobre a mquina de costura, xingando quando a linha arrebentava ou embolava. 
As cortinas tinham fundo creme, com paisagens rurais num azul-escuro que combinava com as listras escuras do papel de parede. Paul lembrou-se de quando se sentava 
 mesa, olhando fixo para as imagens, como se, de repente, as figuras pudessem comear a se mexer, a sair de suas casas, a pendurar a roupa na corda e dar adeusinho.
         Duke desligou o telefone e deu uma olhada em volta. Soltou um assobio.
         - Cara, voc  rico - comentou. Sentou-se  mesa de jantar e abriu um retngulo fino de papel. Paul ficou observando, fascinado, enquanto Duke disps uma 
fileira de pedacinhos de erva e as enrolou num tubo branco e fino.
         - Aqui no - disse Paul, constrangido no ltimo minuto. Os dois foram sentar do lado de fora, na escada dos fundos, o baseado acendeu-se com um claro laranja 
na ponta e passou entre eles, para l e para c. No comeo, Paul no sentiu nada. Comeou a chuviscar, parou e, depois de algum tempo - ele no tinha certeza de 
quanto -, Paul percebeu que estava olhando fixo para uma gota d'gua no degrau, vendo-a espalhar-se lentamente, fundir-se com outra e depois pingar na grama pela 
borda. Duke ria alto.
         - Cara, voc devia se ver! Voc t chapado!
         - Me deixe em paz, seu babaca - disse Paul, e tambm comeou a rir.
         Em algum momento, eles entraram, mas no antes de a chuva recomear e deix-los encharcados, com um frio repentino. A me de Paul deixara uma panela de 
comida no forno, mas ele a ignorou. Em vez disso, abriu um vidro de picles e outro de pasta de amendoim. Duke encomendou uma pizza, Paul pegou o violo e os dois 
foram para a sala de estar, onde ficava o piano, para levar um som. Paul sentou-se na beirada da lareira suspensa e dedilhou alguns acordes, depois seus dedos comearam 
a se mover pelos trechos familiares das peas de Segovia que ele havia tocado na vspera, Estudio e Estudio sin luz. Os ttulos o faziam pensar no pai, alto e calado, 
debruado sobre o ampliador na cmara escura. As melodias davam a sensao de luz e sombra, uma em contraste com a outra, e nessa hora as notas se entremearam com 
sua vida, com o silncio da casa, as frias na praia e as salas de aula da escola, com suas janelas altas. Paul tocou e se sentiu sendo suspenso, flutuando sobre 
as ondas que se avolumavam, criando a msica, depois sendo a msica, e ela o carregou para o alto, mais para o alto, subindo at a crista.
         Quando ele terminou, fez-se um minuto de silncio, antes de Duke exclamar:
         - Cara, essa foi genial!
         Ele tocou uma escala ao piano e se lanou na pea que havia executado no recital, a Marcha dos anes, de Grieg, com sua vitalidade e sua alegria melanclica. 
Duke tocou, depois Paul tocou, e ningum ouviu a campainha nem a batida, e de repente o entregador de pizza estava parado diante da porta aberta. Anoitecia; um vento 
frio irrompeu pela casa. Os dois rasgaram as caixas e comeram furiosamente, depressa e sem sentir o gosto, queimando a lngua. Paul sentiu a comida pesar dentro 
dele, empurrando-o para baixo feito uma pedra. Olhou pelas janelas  francesa para o cu cinzento e lgubre ao longe, depois para o rosto de Duke, to plido que 
suas espinhas se destacavam, com o cabelo preto despencado sobre a testa e um borro vermelho de molho na boca.
         - Cacete! - disse Paul. Espalmou as mos sobre o piso de carvalho, contente por encontr-lo ali e por estar em cima dele e pelo fato de a sala a seu redor 
estar perfeitamente intacta.
         - No  mole, no - concordou Duke. - Troo incrvel. Que horas so?
         Paul levantou-se e foi at o carrilho no hall de entrada. Minutos ou horas antes, os dois tinham parado ali, sacudindo de tanto rir do tiquetaque dos segundos, 
com intervalos gigantescos entre um e outro. Agora, Paul s conseguia pensar no pai, que parava todas as manhs para acertar o relgio por aquele carrilho; olhou 
para a mesa cheia de fotografias e se sentiu tomado pela tristeza. Olhou outra vez para a tarde e viu que ela se fora, condensada numa lembrana que no era maior 
do que aquela gota de chuva, e o cu j estava quase preto.
         O telefone tocou. Duke continuava estirado no tapete da sala, e pareceu que haviam passado horas antes de Paul atender. Era sua me.
         - Querido - disse ela, por cima do burburinho e do barulho de talheres ao fundo. Ele a imaginou com seu tailleur, talvez o azul-escuro, passando os dedos 
pelo cabelo curto, com os anis faiscando. - Tive que levar uns clientes para jantar.  a conta da IBM,  importante. Seu pai j chegou? Est tudo bem com voc?
         - Fiz meu dever de casa - disse Paul, estudando o carrilho, to hilrio pouco antes. - Fiz os exerccios de piano. Papai no est.
         Houve uma pausa.
         - Ele prometeu que iria para casa mais cedo - disse Norah.
         - Eu estou legal - disse Paul, lembrando-se da noite anterior, de como se sentara na beira do parapeito e pensara em pular, e depois se vira no ar, caindo; 
e havia aterrissado com um baque suave no cho, e ningum tinha ouvido. - Hoje eu no vou a lugar nenhum.
         - No sei, Paul. Ando preocupada com voc.
         Ento, venha para casa, ele teve vontade de dizer, mas as risadas ao fundo subiam e desciam, quebrando como uma onda. - Eu estou legal - repetiu.
         - Tem certeza?
         -  claro.
         - Bem, no sei - disse ela. Deu um suspiro, tapou o bocal do fone, falou com outra pessoa e voltou para a linha. - Bem,  bom saber do seu dever de casa, 
de qualquer maneira. Escute, Paul, vou ligar para o seu pai e, haja o que houver, eu mesma no demoro mais do que duas horas. Prometo. Est bem assim? Tem certeza 
de que voc est bem? Porque eu largo tudo, se voc precisar de mim.
         - Estou legal. No precisa ligar pro papai.
         O tom dela, ao responder, foi frio, cortante.
         - Ele me disse que estaria em casa. Ele prometeu.
         - Esse pessoal da IBM - perguntou Paul -, eles gostam de flamingos?
         Houve uma pausa e o barulho de gargalhadas e copos tilintando.
         - Paul - disse ela, finalmente -, voc est passando bem?
         - Estou timo. Foi s uma brincadeira. Deixe pra l.
         Quando Norah desligou, Paul ficou sozinho por um momento, ouvindo o tom de discagem. A casa erguia-se a seu redor, silenciosa. No era como o silncio do 
auditrio, expectante e carregado, mas como um vazio. Ele pegou o violo, pensando na irm. Se ela no tivesse morrido, seria parecida com ele? Ser que gostaria 
de correr? De cantar?
         Na sala, Duke continuava deitado, com um brao em cima do rosto. Paul pegou as caixas vazias de pizza e as folhas finas de papel-manteiga e as levou para 
a lata de lixo. O ar estava frio; o mundo, novo em folha. Ele sentia uma sede de quem estivesse no deserto, depois de uma corrida de 15 quilmetros; carregou uma 
garrafa de dois litros de leite para a sala, bebeu direto no gargalo e passou-a para Duke. Sentou-se e recomeou a tocar, mais baixo. As notas do violo encheram 
o ar, lentas e graciosas, como seres alados.
         - Voc tem mais desse troo? - perguntou.
         - Tenho. Mas vai custar uma grana.
         Paul acenou com a cabea e continuou tocando, enquanto Duke se levantou para dar um telefonema.
         Ele havia desenhado a irm uma vez, quando era pequeno, talvez no jardim-de-infncia. A me lhe contara tudo sobre ela, de modo que Paul a havia includo 
no desenho que chamara de "Minha Famlia": o pai, com um contorno marrom, a me, com o cabelo amarelo-escuro, e ele mesmo, de mos dadas com uma imagem especular. 
Feito na escola e amarrado com um lao de fita, ele dera esse presente aos pais no caf da manh e sentira uma espcie de escurido abrir-se em seu peito ao ver 
o rosto do pai - ao ver emoes .que, aos cinco anos, no sabia explicar nem descrever, mas j percebia que tinham a ver com a tristeza. A me tambm, ao pegar o 
desenho das mos do pai, fora tocada pela tristeza, mas colocara uma mscara por cima, a mesma mscara animada que agora usava com os clientes. Paul lembrou-se de 
como a mo dela se demorara em seu rosto. s vezes ela ainda fazia isso, olhando-o com fixidez, como se ele pudesse desaparecer. Ah, est lindo!, dissera ela naquele 
dia.  um lindo desenho, Paul.
         Tempos depois, quando ele j era mais velho, talvez com uns nove ou dez anos, a me o levara ao cemitrio tranqilo do interior em que sua irm estava enterrada. 
Era um dia fresco de primavera, e a me havia plantado sementes de lrios-do-vale ao longo da borda de ferro fundido. Paul havia parado para ler o nome - PHOEBE 
GRACE HENRY - e sua prpria data de nascimento, e sentira um incmodo, um peso que no soubera explicar. Por que ela morreu?, havia perguntado, depois de a me finalmente 
voltar para perto dele, tirando as luvas de jardinagem. Ningum sabe, dissera ela, e depois, ao ver a expresso do filho, pusera o brao em seus ombros. No foi 
culpa sua, tinha afirmado com ardor. No teve nada a ver com voc.
         Mas ele no havia acreditado realmente, como no acreditava agora. Se seu pai se isolava na cmara escura toda noite e sua me trabalhava at muito depois 
do jantar, quase todos os dias, e, nas frias, tirava a roupa e entrava de mansinho nos chals de homens estranhos, de quem podia ser a culpa? No da irm dele, 
que tinha morrido no parto e deixado esse silncio. Aquilo tudo dava um n em seu estmago, que comeava de manh do tamanho de uma moedinha e ia crescendo durante 
o dia e o deixava nauseado. Ele estava vivo, afinal. Estava ali. Logo, com certeza era tarefa sua proteg-los.
         Duke apareceu no vo da porta e Paul parou de tocar.
         - Ele est vindo para c, o Joe disse. - Se voc tiver a grana.
         - T. Vem comigo.
         Os dois saram pela porta dos fundos, desceram os degraus de concreto e subiram a escada do grande cmodo aberto em cima da garagem. Era uma sala com janelas 
altas em todas as paredes e, durante o dia, ficava inundada de luz, vinda de todas as direes. Uma cmara escura, sem janelas, encravava-se nela feito um armrio, 
logo depois da entrada. Anos antes, quando suas fotografias tinham comeado a ser notadas, o pai a havia construdo. Agora passava a maior parte das horas de folga 
ali, fazendo revelaes e experincias com a luz. Quase ningum mais ia l - a me, nunca. s vezes o pai o convidava, e Paul ansiava por esses dias com uma expectativa 
que o deixava sem graa.
         - Ei, isso aqui  legal - disse Duke, percorrendo a parede externa e examinando as fotos emolduradas.
         - No  para a gente entrar - observou Paul. - A gente no pode ficar aqui.
         - Ei, eu j vi essa aqui! - exclamou Duke, parando diante da foto das runas queimadas do prdio do ROTC, onde as ptalas das cerejeiras contrastavam, plidas, 
com as paredes carbonizadas. Tinha sido a primeira grande foto de David. Fora escolhida pelas agncias de notcias e exibida em todo o pas, anos antes. Essa foi 
o comeo de tudo, o pai de Paul gostava de dizer. Ela me ps no mapa.
         - , foi meu pai quem tirou. No mexa em nada, t?
         Duke riu.
         - Fica frio, cara. Est tudo legal.
         Paul entrou na cmara escura, onde o ar era mais quente e mais parado. Havia fotos penduradas, secando. Ele abriu a geladeirinha onde o pai guardava os 
filmes e tirou do fundo um envelope frio de papel pardo. Dentro havia outro envelope, cheio de notas de 20 dlares. Paul tirou uma, depois outra, e guardou o resto 
do dinheiro.
         Ele costumava ir l com o pai e, outras vezes, em segredo, ia sozinho. Fora assim que tinha descoberto o dinheiro, numa tarde em que ficara tocando violo 
l em cima, zangado porque o pai tinha prometido ensinar-lhe a usar o ampliador e, no ltimo minuto, cancelara o encontro. Zangado, decepcionado e, no final, com 
fome. Paul tinha vasculhado a geladeira e encontrado o envelope com as notas geladas, novas, inexplicveis. Tirara uma nota de 20 nessa primeira vez, e outras depois. 
Seu pai nunca parecia notar. Assim, de vez em quando ele subia e pegava mais algumas.
         Aquilo deixava Paul inquieto, o dinheiro, os furtos e o fato de no ser apanhado. Era a mesma sensao que experimentava quando ficava ali com o pai, no 
escuro, vendo as imagens tomarem forma diante de seus olhos. No havia apenas uma foto num negativo, dizia seu pai, mas uma multido delas. Um instante no era apenas 
um instante, mas uma infinidade de instantes diferentes, dependendo de quem olhasse para as coisas e como. Paul escutava o pai falar, sentindo um fosso abrir-se 
dentro dele. Se aquilo tudo era verdade, seu pai era algum que ele nunca poderia realmente conhecer, e isso o assustava. Mesmo assim, gostava de ficar ali, em meio 
 luz suave e ao cheiro dos produtos qumicos. Gostava da seqncia de passos precisos, do comeo ao fim, da folha de papel exposto mergulhando no revelador e das 
imagens surgidas do nada, do cronmetro apitando e do papel mergulhando no fixador. Das imagens secando, fixadas, brilhantes e misteriosas.
         Paul parou para examin-las. Estranhas formas em espiral, feito flores petrificadas. Corais, deduziu, da viagem a Aruba, corais - crebro com o corpo recolhido, 
deixando apenas a intricada estrutura do esqueleto. As outras fotos eram parecidas, aberturas porosas desabrochando em branco, como uma paisagem de crateras complexas, 
transmitida da lua. Coral-crebro/ossos, dizia a anotao do pai, arrumada na mesa perto do ampliador.
         Naquele dia, no chal, um instante antes de perceber a presena de Paul e erguer os olhos, a expresso de seu pai tinha sido extremamente franca, banhada 
por uma chuva de emoes - um amor e uma perda antigos. Paul a havia percebido e ansiara por dizer alguma coisa, fazer alguma coisa, qualquer coisa que endireitasse 
o mundo. Ao mesmo tempo, sentira vontade de fugir, de esquecer todos os problemas deles, de se libertar. Tinha desviado os olhos e, ao volt-los novamente para o 
pai, a expresso dele tornara a ficar distante, impassvel. Talvez ele s estivesse pensando num problema tcnico com seu filme, ou em doenas dos ossos, ou no almoo.
         Um instante podia ser mil coisas diferentes.
         - Ei - disse Duke, abrindo a porta. - Voc vai sair da alguma hora ou o qu?
         Paul guardou as notas no bolso e voltou para o cmodo maior. Dois outros garotos tinham chegado, alunos da ltima srie que costumavam ficar num terreno 
desocupado em frente  escola, na hora do almoo, fumando. Um deles carregava uma embalagem de cerveja e entregou uma garrafa a Paul, e por pouco ele no disse Vamos 
descer, vamos fazer isso l fora, mas estava chovendo mais forte e os garotos eram mais velhos, e tambm mais fortes, de modo que Paul apenas sentou e ficou com 
eles. Deu o dinheiro a Duke e a brasa cor de mbar girou pelo crculo. Paul ficou fascinado com as pontas dos dedos de Duke, com a delicadeza com que elas seguravam 
o baseado, e se lembrou de como elas voavam pelo teclado com desvairada preciso. Seu pai tambm era meticuloso. Consertava os ossos das pessoas, o corpo delas.
         - Voc t passando mal? - perguntou Duke, depois de algum tempo.
         Paul o ouviu muito longe, como que atravs da gua, para l do apito distante de um trem. Dessa vez no houve acessos de riso nem tonteira, s um profundo 
poo interior em que ele se sentia cair. O poo do lado de dentro tornou-se parte da escurido do lado de fora, e Paul no conseguiu enxergar Duke e se assustou.
         - Qual  o problema dele? - algum perguntou, e Duke respondeu: Acho que ele t s ficando paranico, e as palavras eram enormes, encheram o cmodo at 
o teto e o imprensaram na parede.
         Enormes gargalhadas inundaram o aposento, e os rostos dos outros contorceram-se de tanto rir. Paul no conseguiu rir: estava cristalizado em seu lugar. 
Tinha a garganta seca e sentia que as mos estavam ficando grandes demais para o corpo. Examinou a porta como se a qualquer momento seu pai pudesse irromper por 
ela, com a raiva a se espatifar sobre eles feito ondas. Depois, a risadaria parou e os outros se levantaram. Remexeram nas gavetas,  procura de comida, mas s encontraram 
os arquivos bem cuidados de David. No, Paul tentou dizer quando o mais velho, o barbudo, comeou a tirar pastas das gavetas e abri-las. No, era o grito em sua 
cabea, mas no saiu nada da boca. Agora os outros estavam de p, tirando uma pasta atrs da outra, espalhando no cho as fotos e negativos to cuidadosamente arrumados.
         - Ei! - disse Duke, virando-se para lhe mostrar uma foto 20 x 25 em papel brilhante. - Esse  voc, Paul?
         Paul sentara-se muito quieto, abraando os joelhos, com a respirao num mpeto desvairado em seus pulmes. No se mexeu, no conseguiu. Duke deixou a foto 
cair no cho e foi se juntar aos outros, que estavam um pouco mais agitados, espalhando fotos e negativos por toda a extenso do piso colorido e brilhante.
         Ele continuou sentado, muito, muito quieto. Durante um longo tempo, ficou assustado demais para se mexer, mas depois se mexeu e foi para dentro da cmara 
escura, acocorando-se num canto quente, encostado no armrio de arquivo que o pai mantinha trancado, escutando o que se passava l fora: ondas de barulho, risadas, 
uma garrafa quebrando. Por fim, ficou mais calmo. A porta abriu e Duke disse:
         - Ei, cara, voc t a dentro, t tudo bem?
         E, quando Paul no respondeu, houve uma conversa apressada do lado de fora e eles saram, descendo a escada com estrpito. Paul se levantou devagar e atravessou 
a escurido, entrando na galeria com pilhas de fotos destrudas. Parou na janela, vendo Duke deslizar em silncio pela entrada de carros em sua bicicleta, passando 
a perna direita por cima da barra antes de desaparecer na rua.
         Paul estava muito cansado. Esgotado. Virou-se e inspecionou o cmodo: fotos por toda parte, levantando na brisa que vinha da janela, negativos pendurados 
feito serpentina nas bancadas e nas luminrias. Uma garrafa se quebrara. Havia vidro verde espalhado no cho e cerveja respingada nos armrios. Palavras nas paredes, 
desenhos toscos e pichaes. Paul encostou-se na porta e foi escorregando, at sentar no cho em meio  baguna. Logo teria que se levantar, teria que limpar tudo 
aquilo, ordenar as fotografias, arrum-las direito.
         Levantou a mo, olhou para a foto embaixo dela e pegou-a. No era um lugar que ele conhecesse: uma casa caindo aos pedaos, fincada na encosta de um morro. 
Na frente havia quatro pessoas: uma mulher com um vestido que ia at as canelas, de avental, com as mos enlaadas na frente do corpo. O vento soprava uma mecha 
solta de cabelo em seu rosto. Um homem macilento, curvado feito uma vrgula, postava-se junto dela, segurando um chapu junto ao peito. A mulher estava ligeiramente 
virada para o homem e os dois tinham no rosto um sorriso reprimido, como se um deles houvesse acabado de fazer uma piada e, dali a mais um instante, ambos fossem 
cair na gargalhada. A mo da me descansava sobre a cabea loura de uma menina e entre eles havia um menino, no muito longe da sua idade, olhando diretamente para 
a cmera, srio. A imagem parecia estranhamente familiar. Paul fechou os olhos, sentindo-se esgotado pela maconha, quase chorando de exausto.
           ...
         Acordou com a luz do amanhecer brilhando intensa pelas janelas da esquerda e a silhueta do pai falando no centro do claro:
         - Paul, que diabo  isso?
         Paul sentou-se, fazendo fora para descobrir onde estava e o que tinha acontecido. Fotografias e filmes estragados espalhavam-se pelo cho, coberto de pegadas 
enlameadas. Os negativos desdobravam-se como serpentinas. Os cacos de vidro por toda parte tinham deixado arranhes fundos no piso. Paul sentiu-se invadir pelo medo 
e teve vontade de vomitar. Ps a mo acima dos olhos, para proteg-los da claridade ofuscante da manh.
         - Pelo amor de Deus, Paul, o que aconteceu aqui? - dizia seu pai. Tinha se afastado da luz, finalmente, e dobrou o corpo at se agachar. Tirou do caos a 
fotografia da famlia desconhecida e a examinou por um momento. Depois, sentou-se, com as costas apoiadas na parede, a foto ainda nas mos, e inspecionou a galeria.
         - O que aconteceu aqui? - tornou a perguntar, mais calmo.
         - Uns amigos vieram aqui em casa. Acho que as coisas ficaram meio descontroladas.
         - Parece - disse o pai. Ps uma das mos na testa. - O Duke esteve aqui?
         Paul hesitou, depois fez que sim. Estava prendendo o choro e, toda vez que olhava para os papis destrudos, uma coisa apertava feito um n em seu peito.
         - Foi voc que fez isso, Paul? - perguntou o pai, num tom estranhamente gentil.
         Paul abanou a cabea.
         - No. Mas no os impedi.
         O pai assentiu com um gesto.
         - Levar semanas para arrumar isso - disse, por fim. -  voc quem vai arrumar. Vai me ajudar a reconstruir os arquivos. Ser muito trabalho. Muito tempo. 
Voc ter que desistir dos ensaios.
         Paul fez que sim, mas o aperto no peito ficou mais forte e ele no conseguiu se conter:
         - Voc s quer uma desculpa para me fazer parar de tocar.
         - No  verdade. Droga, Paul, voc sabe que no  verdade.
         O pai sacudiu a cabea e Paul teve medo de que ele se levantasse e fosse embora, mas, em vez disso, ele olhou para a foto em sua mo. Era uma foto preto-e-branco, 
com uma moldura branca rebuscada em volta da famlia  frente da casinha baixa.
         - Sabe quem  esse? - perguntou.
         - No - disse Paul, mas, ao falar, percebeu que sabia. - Ah! - exclamou, apontando para o menino na escada. - Esse  voc.
         - Sim. Eu tinha a sua idade. Esse  meu pai, bem atrs de mim. E, a meu lado, minha irm. Eu tive uma irm, voc sabia? Ela se chamava June. Tinha talento 
para a msica, como voc. Essa foi a ltima foto que tiramos de todos ns. June tinha uma doena cardaca e morreu no outono seguinte. Perd-la praticamente matou 
minha me.
         Paul olhou para a foto de outra maneira. Aquelas pessoas no eram estranhos, afinal, mas gente do seu prprio sangue. A av de Dulce morava num quarto no 
andar de cima, fazia tortas de ma e assistia a novelas todas as tardes. Paul examinou a mulher da foto, com seu riso mal reprimido - aquela mulher que ele nunca 
tinha visto era sua av.
         - Ela morreu? - perguntou.
         - Minha me? Sim. Anos depois. Seu av tambm. Eles no eram muito velhos, nenhum dos dois. Meus pais levaram uma vida difcil, Paul. No tinham dinheiro 
nenhum. No estou s querendo dizer que no eram ricos. Quero dizer que, s vezes, no sabiam se teramos comida para o jantar. Isso machucava meu pai, que era um 
homem trabalhador. E machucava minha me, porque eles no podiam conseguir muita ajuda para a June. Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, arranjei um emprego, 
para poder freqentar o colgio na cidade. E a a June morreu, e eu fiz uma promessa a mim mesmo: ia sair e consertar o mundo - disse, e abanou a cabea. - Bem, 
 claro que no foi o que fiz, na verdade. Mas ns estamos aqui, Paul. Temos tudo em abundncia. Nunca nos preocupamos em saber se teremos o bastante para comer. 
Voc ir para a faculdade que quiser. E, no entanto, s consegue pensar em se drogar com seus amigos e jogar tudo fora.
         O aperto no estmago tinha subido para a garganta e Paul no pde responder. O mundo continuava claro demais e no muito estvel. Ele queria fazer sumir 
a tristeza na voz do pai, apagar o silncio que enchia a casa deles. Mais do que tudo, queria que esse momento - o pai sentado a seu lado, contando-lhe histrias 
da famlia - nunca acabasse. Tinha medo de dizer a coisa errada e estragar tudo, assim como o excesso de luz no papel estragava as fotografias. Depois que isso acontecia, 
no tinha volta.
         - Desculpe - disse.
         O pai balanou a cabea em concordncia, olhando para baixo. Por um breve instante, sua mo afagou de leve o cabelo de Paul.
         - Eu sei.
         - Eu limpo tudo.
         - Sim, eu sei.
         - Mas eu adoro msica - disse Paul, sabendo que era a coisa errada, o facho de luz repentino que enegrecia o papel, mas no conseguiu parar. - Tocar  a 
minha vida. Nunca vou desistir disso.
         O pai permaneceu em silncio por um instante, de cabea baixa. Depois, deu um suspiro e se levantou.
         - No feche nenhuma porta por enquanto - disse. -  s o que eu peo.
         Paul viu o pai desaparecer na cmara escura. Depois, ajoelhou-se e comeou a catar os cacos de vidro. Ao longe, os trens corriam, e o cu alm das janelas 
se abria para a eternidade, lmpido e azul. Ele parou por um instante na luz ofuscante da manh, ouvindo o pai trabalhar na cmara escura, imaginando as mesmas mos 
movendo-se com cuidado dentro do corpo de uma pessoa, procurando consertar o que se havia partido.
           SETEMBRO DE 1977
         CAROLINE SEGUROU O CANTO DA FOTO DA POLARIDE ENTRE O POLEGAR e o indicador no momento em que saa da cmera, com a imagem j emergindo. A mesa com a toalha 
branca parecia flutuar num mar de grama verde. As margaridas-do-campo, brancas e levemente luminosas, subiam a encosta. Phoebe era uma mancha plida com seu vestido 
de crisma. Caroline sacudiu a foto no ar fragrante para sec-la. Ouviu-se um trovo muito ao longe: um temporal de fim de vero que se preparava; soprou uma brisa 
que agitou os guardanapos de papel.
         - Mais uma - disse ela.
          - Ah, me! - protestou Phoebe, mas ficou parada.
         No instante em que a cmera fez clique, ela saiu correndo pelo jardim at onde sua vizinha Avery, de oito anos, segurava um gatinho cujo plo tinha o mesmo 
tom laranja-escuro de seus cabelos. Phoebe, de 13 anos, era baixa para sua idade, rechonchuda, ainda impulsiva e passional, lenta na aprendizagem, mas passava, com 
espantosa velocidade, da alegria para a melancolia e a tristeza, e de novo para a alegria.
         - Fui confirmada! - gritou nessa hora, rodopiando uma vez no jardim, com os braos erguidos bem alto, o que fez os convidados se virarem para olh-la e 
sorrirem, com seus copos na mo. Com a saia girando, Phoebe correu para o filho de Sandra, Tim, agora tambm adolescente. Envolveu-o num abrao e lhe deu um beijo 
exuberante no rosto.
         Em seguida refreou-se e deu uma olhadela ansiosa para Caroline. No comeo do ano, os abraos tinham sido um problema na escola. "Eu gosto de voc", anunciava 
Phoebe, estreitando uma criana menor; no entendia por que no devia faz-lo. Caroline lhe dissera repetidas vezes: Os abraos so especiais. Os abraos so para 
a famlia. Aos poucos, Phoebe tinha aprendido. Mas, nesse momento, ao v-la refrear sua afeio, Caroline se perguntou se tinha feito a coisa certa.
         - Est tudo bem, querida - gritou para Phoebe. - Voc pode abraar seus amigos na festa.
         Phoebe relaxou. Ela e Tim foram afagar o gatinho. Caroline olhou para a foto da polaride em sua mo: o jardim luminoso e o sorriso de Phoebe, um momento 
fugaz capturado e j ultrapassado. Houve outros troves ao longe, mas a tarde continuou esplndida, morna e enfeitada de flores. Em todo o jardim, as pessoas circulavam, 
conversando, rindo e enchendo seus copos de plstico. Um bolo de trs camadas, com cobertura branca, ocupava a mesa, decorado com rosas vermelho-escuras, do jardim. 
Trs camadas, para trs comemoraes: o crisma de Phoebe, o aniversrio de casamento da prpria Caroline e a aposentadoria de Dorothy, um voto de boa viagem.
         - O bolo  meu - dizia Phoebe, flutuando sobre o subir e descer das conversas, as vozes dos professores de fsica, dos vizinhos, membros do coral e amigos 
da escola, das famlias da Sociedade Upside Down, de toda sorte de crianas correndo. Os novos amigos de Caroline do hospital, onde ela comeara a trabalhar meio 
expediente depois de Phoebe entrar na escola, tambm estavam presentes. Ela havia reunido todas essas pessoas, planejado essa festa linda, que desabrochava no crepsculo 
como uma flor. - O bolo  meu - repetia Phoebe. - Fui crismada.
         Caroline bebericou seu vinho, sentindo na pele o ar morno como a respirao. No viu Al chegar, mas de repente ele estava ali, passando a mo em sua cintura 
e beijando-a no rosto, inundando-a com sua presena e seu aroma. Cinco anos antes, eles haviam se casado numa festa muito parecida com essa, no jardim, com morangos 
boiando no champanhe, o ar cheio de vaga-lumes e a fragrncia das rosas. Cinco anos, e o gosto de novidade ainda no se perdera. O quarto de Caroline, no terceiro 
andar da casa de Dorothy, tornara-se um lugar to misterioso e sensual quanto o jardim. Ela adorava acordar sentindo o corpo quente e pesado de Al todo encostado 
no seu, adormecido a seu lado, a mo dele descansando de leve em sua barriga, o cheiro dele - sabonete e loo Old Spice - impregnando aos poucos o quarto, os lenis, 
as toalhas. Ele estava l, com uma presena to vvida que ela o sentia em cada nervo. Presente e, com a mesma rapidez, ausente.
         - Feliz aniversrio - disse o marido nesse momento, apertando-a de leve na cintura.
         Caroline sorriu, radiante de prazer. Havia anoitecido e as pessoas circulavam e riam em meio ao calor suave e  fragrncia ainda presentes, enquanto o orvalho 
se acumulava na relva escurecida e na espuma branca de flores por toda parte. Ela segurou a mo de Al, slida e firme, e quase riu, porque ele havia acabado de chegar 
e ainda no sabia da novidade. Dorothy ia partir num cruzeiro de um ano, dar a volta ao mundo com seu namorado, um homem chamado Trace. Disso Al j sabia; os planos 
tinham evoludo ao longo de meses. Mas no sabia que ela, no que chamava de alegre libertao do passado, dera a Caroline a escritura dessa casa antiga.
         Dorothy estava chegando nesse exato momento, descendo a escada com um vestido de seda. Trace vinha logo atrs, carregando um saco de gelo. Era um ano mais 
moo, 65 anos, tinha o cabelo curto e grisalho, o rosto estreito e comprido e lbios cheios. Era atento a seu peso, exigente com a comida e amante de pera e carros 
esporte. Fora nadador olmpico em certa poca, quase havia conquistado a medalha de bronze, e ainda achava a coisa mais fcil do mundo mergulhar no Monongahela e 
nadar at a margem oposta. Uma tarde, tinha sado da gua e subido a margem do rio, trpego, plido e pingando, bem no meio do piquenique anual do Departamento de 
Fsica. Essa era a histria de como os dois haviam se conhecido. Trace era carinhoso e gentil com Dorothy, que claramente o adorava, e, se parecia arredio a Caroline, 
meio distante e reservado, isso realmente no era problema dela.
         Uma lufada de vento derrubou uma pilha de guardanapos da mesa e Caroline abaixou-se para peg-los.
         - Vocs esto trazendo o vento - disse Al, quando eles se aproximaram.
         -  to empolgante! - exclamou ela, levantando as mos. Estava cada vez mais parecida com Leo, com os traos mais marcados e o cabelo, agora curto, inteiramente 
branco.
         - O Al  feito esses velhos marinheiros - disse Trace, pondo o gelo na mesa. Caroline usou uma pedrinha para segurar os guardanapos. - Ele tem uma sintonia 
com as mudanas atmosfricas. Ah, Dorothy, fique assim como est! - exclamou. - Meu Deus, como voc est bonita! Sinceramente. Parece uma deusa do vento.
         - Se voc  a deusa do vento - disse Al, segurando os pratos de papel que iam levantando vo -,  melhor desligar as turbinas para podermos aproveitar esta 
festa.
         - No est glorioso? - perguntou Dorothy. -  uma festa linda, uma despedida maravilhosa.
         Phoebe aproximou-se correndo, carregando no colo o gatinho minsculo, uma bolinha laranja-claro. Caroline estendeu a mo e alisou seu cabelo, sorrindo.
         - A gente pode ficar com ele? - perguntou a menina.
         - No - respondeu Caroline, como sempre -, sua tia  alrgica.
         - Me... - reclamou Phoebe, mas logo foi distrada pelo vento e pela mesa linda. Puxou a manga sedosa de Dorothy. - Tia Dorothy.  o meu bolo.
         - Meu tambm - disse Dorothy, passando o brao em volta de seus ombros. - Vou fazer uma viagem, no se esquea, de modo que tambm  meu bolo. E da sua 
me e do Al, porque faz cinco anos que eles se casaram.
         - Eu vou na viagem - disse Phoebe.
         - Ah, no, fofinha - contraps Dorothy. - Dessa vez, no. Essa  uma viagem para gente grande, meu amor. Para mim e para o Trace.
         A expresso de Phoebe ganhou um toque de decepo to intenso quanto a alegria anterior. Voltil como o mercrio - o que quer que ela sentisse a cada momento 
era o mundo inteiro.
          - Ei, fofinha - disse Al, agachando-se. - O que voc acha? Ser que esse gatinho gostaria de um pouco de leite?
         Ela lutou contra um sorriso e cedeu, fazendo que sim com a cabea, momentaneamente distrada de sua perda.
         - timo - fez Al, pegando-a pela mo e piscando para Caroline. - No leve o gato l para dentro - advertiu Caroline.
         Encheu uma bandeja de copos e circulou entre os convidados, ainda deslumbrada. Ela era Caroline Simpson, me de Phoebe, mulher de Al, organizadora de protestos 
- uma pessoa totalmente diferente da mulher tmida que ficara parada num consultrio silencioso e coberto de neve, 13 anos antes, com um beb no colo. Virou-se para 
olhar a casa, com seus tijolos claros estranhamente vividos, em contraste com o cu enevoado.  a minha casa, pensou, num eco  cantilena anterior de Phoebe. Sorriu 
de sua idia seguinte, curiosamente oportuna: Fui confirmada.
         Sandra ria com Dorothy junto  moita de madressilvas, e a Sra. Soulard vinha subindo a alameda com um vaso cheio de lrios. Trace, com o vento a lhe jogar 
no rosto o cabelo grisalho, ps a mo em concha em volta de um fsforo, tentando acender as velas. As chamas tremeram e crepitaram, mas acabaram pegando e iluminaram 
a toalha de linho branco, os copinhos votivos transparentes, o vaso de flores brancas e o bolo com cobertura de chantilly. Por um momento, Caroline ficou imvel, 
pensando nas mos de Al a procur-la no escuro da noite que viria. Isso  felicidade, disse a si mesma.  isso que significa felicidade.
         A festa durou at as 11 horas da noite. Dorothy e Trace ficaram por ali, depois da sada dos ltimos convidados, carregando bandejas com copos e sobras 
de bolo, tirando vasos de flores e guardando mesas e cadeiras na garagem. Phoebe j havia dormido; Al a levara para dentro, depois de ela se desmanchar em lgrimas, 
cansada e hiper excitada, arrasada com a partida deles, em meio a enormes soluos que a deixaram sem flego.
         - No faa mais nada - disse Caroline, detendo a amiga no alto da escadinha da entrada, roando nas folhas densas e flexveis dos lilases. Ela havia plantado 
essa cerca viva trs anos antes, e, agora, os arbustos, que no tinham passado de gravetos durante muito tempo, haviam fincado razes e crescido em disparada. Dali 
a um ano estariam carregados de flores. - Amanh eu arrumo tudo, Dorothy. Voc tem um vo de manh cedo. Deve estar ansiosa para ir embora.
         - Estou - disse ela, com a voz to baixa que Caroline teve que se esforar para ouvi-la. Acenou com a cabea para a casa, onde Al e Trace trabalhavam na 
cozinha iluminada, limpando os pratos. - Mas  uma sensao agridoce, Caroline. Andei por todos os cmodos antes, pela ltima vez. Passei a minha vida inteira aqui. 
 estranho deixar esta casa. Mas, ao mesmo tempo, estou empolgada com a partida.
         - Voc sempre pode voltar - comentou Caroline, lutando contra uma onda repentina de emoo.
         - Espero no querer voltar. Pelo menos, no para mais do que uma visita - retrucou Dorothy. Segurou o cotovelo de Caroline e disse: - Venha, vamos sentar 
na varanda.
         Elas andaram pelo lado da casa, passando sob as glicnias em arco, e se sentaram no balano, enquanto um rio de carros flua pela enorme via expressa. As 
folhas altas dos sicmoros, grandes como pratos, agitavam-se contra os postes de luz.
         - Voc no vai sentir saudade do trnsito - disse Caroline.
         - No, isso  verdade. Antigamente era muito calmo. Eles costumavam fechar a rua inteira no inverno. Descamos direto de tren pelo meio da alameda, bem 
ali.
         Caroline empurrou o balano, relembrando aquela noite, tantos anos antes, em que o luar havia inundado os jardins e entrado pelas janelas do banheiro, enquanto 
Phoebe tossia em seu colo e as garas levantavam vo nos campos da infncia de Dorothy.
         A porta de tela abriu-se e Trace saiu.
         - E a? Est mais ou menos pronta?
         - Quase - disse ela.
         - Ento, vou buscar o carro e traz-lo para a porta da frente.
         Tornou a entrar. Caroline ps-se a contar os carros, at 20. Doze anos atrs ela havia chegado a essa porta, com Phoebe nos braos, um beb. Ficara parada 
bem ali,  espera do que ia acontecer.
         - A que horas sai o seu vo? - perguntou.
         - Cedo. s oito. Ah, Caroline - suspirou Dorothy, reclinando-se e abrindo bem os braos. - Depois de todos esses anos, sinto-me completamente livre. Quem 
sabe para onde posso voar?
         - Sentirei sua falta - disse Caroline. - A Phoebe tambm.
         Dorothy balanou a cabea.
         - Eu sei. Mas ns nos veremos. Mandarei postais de todos os lugares.
         Um par de faris desceu a ladeira e, em seguida, o carro alugado reduziu a velocidade e o brao comprido de Trace levantou-se num aceno.
         - A estrada nos chama!-gritou.
         - V com Deus - disse Caroline. Abraou a amiga, sentindo seu rosto macio. - Voc salvou a minha vida, muitos anos atrs, voc sabe.
         - Querida, voc tambm salvou a minha - fez Dorothy, afastando-se. Tinha os olhos midos. - Agora a casa  sua. Aproveite-a.
         E desceu a escada, com o suter branco esvoaando. Entrou no carro, deu adeus e se foi.
         Caroline viu o carro fundir-se no trnsito da autopista e desaparecer no rio de luzes cleres. O temporal ainda contornava as montanhas, embranquecendo 
o cu com os relmpagos e trazendo o eco distante da trovoada surda. Al passou para o lado de fora trazendo bebidas e abrindo a porta com o p. Os dois sentaram-se 
no balano.
         - Pois  - comentou. - Bonita festa.
          - Foi, sim - concordou Caroline. - Foi divertida. Estou exausta.
          - Ainda tem foras para abrir isto? - perguntou ele.
         Caroline pegou o pacote e desfez o embrulho malfeito. Dele caiu um corao entalhado em cerejeira, liso como um seixo na palma de sua mo. Ela a fechou, 
lembrando-se de como o medalho havia cintilado na luz fria da cabine do caminho de Al e, meses depois, de como a mozinha de Phoebe o havia segurado.
         -  lindo - disse, encostando o corao liso no rosto. - To quentinho! Encaixa-se exatamente aqui, na palma da minha mo.
         - Eu mesmo o entalhei - disse Al, com alegria na voz. - De noite, na estrada. Achei que seria meio piegas, mas uma garonete que eu conheo em Cleveland 
disse que voc ia gostar. Espero que sim.
         - Gosto - disse Caroline, enfiando o brao no dele. - Tambm tenho uma coisa para voc - e lhe entregou uma caixinha de papelo. - No tive tempo de embrulhar.
         Ele a abriu e tirou uma chave nova de metal.
         - Que  isso: a chave do seu corao?
         Ela riu.
         - No.  a chave desta casa.
         - Por qu? Voc trocou a fechadura?
         - No - disse ela, empurrando o balano. - A Dorothy me deu a casa, Al. No  incrvel? A escritura est l dentro. Ela disse que queria recomear do zero.
         Uma batida do corao. Duas, trs, e o ranger do balano, para a frente e para trs.
         -  um bocado drstico - disse Al. - E se ela quiser voltar?
         - Perguntei-lhe a mesma coisa. Ela disse que o Leo tinha deixado muito dinheiro. Patentes, economias, sabe-se l mais o qu. E a Dorothy foi econmica a 
vida inteira, de modo que no precisa do dinheiro. Se eles voltarem, ela e o Trace vo comprar um apartamento, ou coisa assim.
         - Generosa - fez Al.
         - .
         Ele se calou. Caroline ouviu o ranger do balano da varanda, o vento, os carros.
         - A gente podia vend-la - ponderou. - Ir embora, ns mesmos. Para qualquer lugar.
         - Ela no vale grande coisa - disse Caroline, devagar. A idia de vender a casa nunca lhe passara pela cabea. - E depois, para onde iramos?
         - Ah, no sei, Caroline. Voc me conhece. Passei a vida toda para l e para c. Estou s especulando. Assimilando a notcia.
         O        bem-estar da escurido e do vaivm ritmado do balano deu lugar a uma inquietao mais profunda. Quem era esse homem a seu lado, pensou Caroline, 
esse homem que chegava todo fim de semana e se enfiava com tanta familiaridade em sua cama, que inclinava a cabea num certo ngulo, todas as manhs, para dar tapinhas 
com Old Spice no pescoo e no queixo? O que sabia ela, de verdade, sobre seus sonhos, seus segredos mais ntimos? Quase nada, pareceu-lhe de repente, nem ele sobre 
os dela.
         - Quer dizer que voc preferiria no ser dono de uma casa? - ela insistiu.
         - No  isso. Foi um bonito gesto.
         - Mas prende voc.
         - Gosto de vir para casa encontrar voc, Caroline. Gosto de voltar por aquele ltimo trecho de estrada e saber que voc e a Phoebe esto aqui, preparando 
coisas na cozinha, ou plantando flores, ou seja o que for. Mas  claro que o que eles esto fazendo  atraente. Fazer as malas. Partir. Vagar pelo mundo. Seria bom, 
eu acho. Essa liberdade.
         - No tenho mais esses anseios - disse Caroline, olhando para o jardim envolto em sombras, as luzes dispersas da cidade e as letras vermelho-escuras do 
letreiro da Foodland, como pedaos de um mosaico em meio  densa folhagem do vero.
          - Sinto-me feliz bem aqui onde estou. Voc vai enjoar de mim.
         - No. Isso s nos torna compatveis, meu bem.
         Passaram algum tempo calados, escutando o vento, o zumbir dos carros.
         - A Phoebe no gosta de mudanas - comentou Caroline. - No sabe lidar direito com elas.
         - Bem, tambm tem isso - disse Al.
         Esperou um momento e se virou para a mulher.
         - Sabe, Caroline, a Phoebe est comeando a crescer. Est comeando a no ser mais uma garotinha.
         - Ela s tem 13 anos - contraps Caroline, pensando em Phoebe com o gatinho, na facilidade com que ela resvalava para as alegrias descontradas da infncia.
         - Tem razo. Ela tem 13 anos, Caroline. Ela est... bom, sabe como ... comeando a se desenvolver. J no me sinto  vontade para carreg-la no colo, como 
fiz hoje.
         - Ento, no a carregue - retrucou Caroline, rspida, mas lembrou-se de Phoebe na piscina, no comeo daquela semana, nadando para longe e voltando, agarrando-a 
embaixo d'gua, com os botes macios e crescentes dos seios encostados em seu brao.
         - No precisa se zangar, Caroline.  s que nunca falamos nisso, nem uma vez, no ? Do que vai acontecer com ela. De como ser quando nos aposentarmos, 
como a Dorothy e o Trace.
         Al fez uma pausa e Caroline intuiu que ele escolhia com cuidado as palavras.
         - Eu gostaria de acreditar que poderamos pensar em viagens. Fico meio claustrofbico, s isso, quando me imagino permanecendo nessa casa para sempre. E 
a Phoebe? Ser que ela vai morar conosco pelo resto da vida?
         - No sei - disse Caroline, sentindo-se envolver por um cansao denso como a noite. Ela j havia travado tantas batalhas para construir uma vida para Phoebe 
neste mundo indiferente! Por ora, todos os seus problemas estavam resolvidos e, no ltimo ano, mais ou menos, ela havia conseguido relaxar. Mas onde Phoebe trabalharia 
e como viveria quando crescesse, tudo isso era uma incgnita. - Ah, Al, no posso pensar nisso tudo esta noite. Por favor.
         O balano oscilava, para a frente e para trs.
         - Teremos que pensar nisso em algum momento.
         - Ela  s uma garotinha. O que voc est sugerindo?
         - Caroline, no estou sugerindo nada. Voc sabe que eu amo a Phoebe. Mas voc ou eu podemos morrer amanh. No estaremos sempre por perto para cuidar dela, 
s isso. E talvez chegue um momento em que ela no nos queira por perto. S estou perguntando se voc j pensou nisso e para que vem economizando todo aquele dinheiro. 
S estou trazendo o assunto  baila, quer dizer, para pensarmos nisso. No seria bom se voc pudesse ir para a estrada comigo de vez em quando? S por um fim de 
semana?
         - Sim. Seria agradvel - disse ela, baixinho.
         Mas no tinha certeza. Tentou imaginar a vida de Al, um quarto diferente a cada noite, uma cidade diferente, e a estrada se desdobrando na mesma tira cinzenta. 
A primeira idia dele tinha sido inquietante: vender a casa, cair na estrada, correr mundo.
         Al acenou com a cabea, esvaziou o copo e comeou a se levantar.
         - No v ainda - pediu Caroline, pondo a mo de leve em seu brao. - Preciso falar de uma coisa com voc.
         - Parece srio - comentou ele, tornando a se reclinar no balano. Deu um risinho nervoso. - Voc no vai me abandonar, vai? Agora que recebeu essa herana.
         -  claro que no, no  nada disso - suspirou ela. - Recebi uma carta essa semana. Foi uma carta estranha, e preciso falar dela.
         - Uma carta de quem?
         - Do pai da Phoebe.
         Al balanou a cabea e cruzou os braos, mas no disse nada. Ele sabia das cartas,  claro. Fazia anos que elas chegavam, trazendo valores variveis em 
espcie e uma nica frase rabiscada. Por favor, diga-me onde vocs esto morando. Caroline no o fizera, mas, nos primeiros anos, havia contado tudo o que se passava 
a David Henry. Cartas confessionais, sadas do corao, como se ele fosse um amigo ntimo, um confidente. Com o passar do tempo, ela se tornara mais econmica, mandando 
fotografias e uma ou duas linhas, no mximo. Sua vida tornara-se muito plena, rica e complexa; no havia como pr aquilo tudo no papel, de modo que ela simplesmente 
desistira de tentar. Que choque tinha sido, portanto, encontrar uma carta longa de David Henry, trs pginas inteiras, escritas em sua letra mida - uma carta emocionada, 
que comeara por Paul, seu talento e seus sonhos, sua paixo e sua raiva.
         Sei que foi um erro. O que eu fiz, ao lhe entregar minha filha, sei que aquilo foi uma coisa terrvel e sei que no posso desfaz-la. Mas eu gostaria de 
conhec-la, Caroline, gostaria de melhorar as coisas, de algum modo. Gostaria de saber um pouco mais sobre a Phoebe e sobre a vida de vocs.
         Caroline ficara amedrontada com as imagens fornecidas por ele - Paul, adolescente, tocando seu violo e sonhando com a Juilliard, Norah com sua prpria 
empresa, e David, que estivera fixado em sua mente durante todos aqueles anos, claro como uma fotografia num lbum. debruado sobre aquele pedao de papel, cheio 
de remorsos e anseios. Ela enfiara a carta numa gaveta, como se isso pudesse cont-la, mas as palavras tinham ficado pairando em sua mente em todos os momentos dessa 
semana atarefada e emotiva.
         - Ele quer conhec-la - disse Caroline, alisando a franja de um xale que Dorothy havia deixado no brao do balano. - Quer voltar a fazer parte da vida 
dela, de algum modo.
          - Que gentileza! - ironizou Al. - Quanta coragem, depois de todo esse tempo. Caroline assentiu com a cabea.
         - Mas ele  pai dela.
         - E isso faz de mim o qu? Eu gostaria de saber.
         - Por favor. Voc  o pai que a Phoebe conhece e ama. S que eu no lhe contei tudo Al, sobre o modo como vim a ficar com ela. E acho que seria melhor contar.
         Ele segurou a mo da mulher.
         - Caroline, andei circulando por Lexington, depois que voc foi embora. Conversei com aquela sua vizinha e ouvi uma poro de histrias. Bom, no tenho 
muito estudo, mas no sou burro, e sei que o Dr. David Henry perdeu uma filha recm-nascida, mais ou menos na poca em que voc saiu da cidade. O que estou dizendo 
 que o que possa ter acontecido entre vocs dois no tem importncia. No para mim. No para ns. Por isso, no preciso dos detalhes.
         Ela ficou sentada em silncio, vendo os carros passarem velozes pela autopista.
         - Ele no a queria - disse. - Ia coloc-la num asilo, numa instituio. Pediu que eu a levasse para l, e eu a levei. Mas no consegui deix-la. Era um 
lugar pavoroso.
         Al calou-se por algum tempo.
         - J ouvi falar nessas coisas - disse, por fim. - Ouvi histrias desse tipo na estrada. Voc foi corajosa, Caroline. Fez a coisa certa.  difcil pensar 
na Phoebe crescendo num lugar desses.
         Caroline balanou a cabea, com lgrimas nos olhos.
         - Eu sinto muito, Al. Devia ter lhe contado h anos.
         - Est tudo bem, Caroline. So guas passadas.
         - O que voc acha que eu devo fazer? Quero dizer, sobre essa carta. Devo responder? Deixar que ele a conhea? No sei, isso tem me dilacerado, a semana 
inteira. E se ele a levar embora?
         - No sei o que lhe dizer - respondeu Al, devagar. - No cabe a mim decidir.
         Ela assentiu. Era justo, era a conseqncia de ter guardado segredo daquilo.
         - Mas vou apoi-la - acrescentou Al, apertando-lhe a mo. - No importa o que voc achar melhor, eu apio voc e Phoebe cem por cento.
         - Obrigada. Eu estava muito inquieta.
         - Voc se preocupa demais com as coisas erradas, Caroline.
         - Ento isso no nos afeta? O fato de eu no ter lhe contado antes... isso no afeta voc e eu?
         - Nem remotamente - fez ele.
         - Ento, est bem.
         - Certo - concordou Al. Levantou, espreguiando-se. - Um dia cansativo. Voc vai subir?
         - Daqui a um minuto, vou.
         A porta de tela se abriu com um rangido, depois fechou-se. O vento soprou pelo lugar em que Al estivera sentado.
         Comeou a chover, primeiro baixinho sobre o telhado, depois num martelar insistente. Caroline trancou a casa - sua casa, agora. No andar de cima, parou 
para dar uma olhada em Phoebe. Sua pele estava quente e mida; ela se mexeu e sua boca formou palavras no ditas, depois ela se reacomodou em seus sonhos. Doura 
de menina, sussurrou Caroline e a cobriu. Ficou parada um minuto no quarto onde a chuva ecoava, comovida com a pequenez de Phoebe, com todos os aspectos em que no 
conseguiria proteger sua filha do mundo. Depois, foi para seu quarto e deitou sob os lenis frios ao lado de Al. Lembrou-se das mos dele em sua pele, da presso 
da barba em seu pescoo e de seus prprios gemidos no escuro. Um bom marido para ela, um bom pai para Phoebe, um homem que se levantaria na segunda-feira de manh, 
tomaria banho, se vestiria e desapareceria com seu caminho durante a semana, confiando em que ela fizesse o que achasse melhor a respeito de David Henry e sua carta. 
Caroline ficou muito tempo acordada, ouvindo a chuva, com a mo descansando no peito do marido.
           ...
         Acordou ao alvorecer, com a barulheira de Al descendo a escada, saindo cedo para trocar o leo do caminho. A chuva descia em cascatas pelas calhas e canos 
de escoamento, fervilhava nas poas e corria torrencialmente ladeira abaixo. Caroline desceu e fez caf, to absorta em seus pensamentos, na estranheza da casa silenciosa, 
que s ouviu Phoebe quando ela parou na porta s suas costas.
         - Chuva - disse Phoebe, com o roupo de banho solto sobre o corpo. - Chove a cntaros. Ces e gatos.
         -  - concordou Caroline. Uma vez, elas haviam passado horas estudando essa expresso idiomtica, trabalhando num cartaz desenhado por Caroline, com nuvens 
zangadas e ces e gatos pululando no cu. Era uma das expresses favoritas de Phoebe. - Hoje est mais para girafas e elefantes.
         - Vacas e porcos - disse Phoebe. - Porcos e cabras.
         - Voc quer torradas?
         - Quero gato - respondeu Phoebe.
         - O que voc quer? - perguntou Caroline. - Use as frases completas.
         - Eu quero um gato, por favor.
         - No podemos ter um gato.
         - A tia Dorothy foi embora. Eu posso ter um gato.
         A cabea de Caroline doa. O que acontecer com ela?
         - Tome, Phoebe, aqui esto suas torradas. Depois falaremos do gato, est bem?
         - Eu quero um gato - insistiu a menina.
         - Depois.
         - Um gato - disse Phoebe.
         - Droga! - e a palma da mo de Caroline bateu com fora na bancada, assustando as duas. - No me fale mais em gato! Est ouvindo?
         - Sentar na varanda - disse Phoebe, emburrada. - Ver a chuva.
         - O que voc quer? Fale as frases inteiras.
         - Quero sentar na varanda e olhar a chuva.
         - Voc vai se resfriar.
         - Quero...
         - Ah, est certo - interrompeu Caroline, balanando uma das mos. - timo. Saia, v sentar na varanda. Olhe a chuva. Como quiser.
         A porta abriu e fechou. Caroline olhou para fora e viu Phoebe sentar no balano da varanda, com o guarda-chuva aberto e as torradas no colo. Sentiu-se irritada 
consigo mesma por ter perdido a pacincia. O problema no era Phoebe.  que Caroline no sabia o que responder a David Henry, e estava com medo.
         Buscou os lbuns de fotografias e as fotos soltas que vinha pretendendo arrumar e foi sentar-se no sof, onde poderia ficar de olho em Phoebe, escondida 
pelo guarda-chuva, balanando na varanda. Espalhou as fotos recentes na mesinha de centro, depois pegou um pedao de papel e escreveu a David:
          Phoebe foi crismada ontem. Estava uma gracinha com seu vestido branco, de um tecido com ilhs perpassados por fitas cor-de-rosa. Ela cantou um solo na 
igreja. Estou mandando uma foto da festa que fizemos depois, no jardim.  quase inacreditvel o tanto que ela cresceu, e comeo a me preocupar com o que o futuro 
lhe reserva. Imagino que tenha sido nisso que voc pensou na noite em que a entregou a mim. Lutei muito durante todos esses anos, e s vezes fico apavorada com o 
que acontecer depois, mas...
         Fez uma pausa nesse ponto, intrigada com seu impulso de responder. No era pelo dinheiro. Cada centavo recebido ia para o banco; no correr dos anos, Caroline 
havia economizado quase 15 mil dlares, tudo num fundo de poupana para Phoebe. Talvez estivesse escrevendo simplesmente por hbito ou para manter viva a ligao 
entre os dois. Talvez quisesse apenas que ele compreendesse o que estava perdendo. Olhe aqui, tinha vontade de dizer, segurando David Henry pelo colarinho, esta 
 a sua filha: Phoebe, de 13 anos, com um sorriso no rosto que parece o sol.
         Largou a caneta, pensando em Phoebe com seu vestido branco, cantando no coral, segurando o gatinho. Como poderia contar tudo isso a David e no atender 
a seu pedido de se encontrar com a filha? No entanto, se ele fosse l, depois de todos esses anos, o que aconteceria? Caroline achava que no o amava mais, porm 
talvez amasse. Talvez tambm ainda estivesse com raiva dele, pelas escolhas que ele fizera, por nunca ter visto realmente quem ela era. Foi inquietante descobrir 
essa dureza em seu prprio corao. E se ele tivesse mudado, afinal? E se no tivesse? Ele poderia magoar Phoebe do mesmo jeito que magoara a ela, Caroline, sem 
nem saber que isso tinha acontecido.
         Ps a carta de lado. Em vez dela, fez os cheques de pagamento de algumas contas e foi l fora colocar na caixa de correio. Phoebe estava sentada na escada 
da frente, segurando bem alto o guarda-chuva. Caroline a observou por um minuto antes de deixar a porta fechar-se e ir  cozinha buscar outra xcara de caf. Passou 
um bom tempo parada na porta dos fundos, vendo as folhas gotejantes, a grama molhada, o riachinho que descia pela calada. Havia um copo de papel embaixo de uma 
sebe, um guardanapo empapado perto da garagem. Dali a poucas horas, Al partiria de novo. Por um momento, ela teve um vislumbre do que seria a liberdade.
         A chuva apertou de repente, batendo no telhado. Alguma coisa se abriu no corao de Caroline, um instinto poderoso que a fez virar-se e entrar na sala. 
Antes mesmo de pisar na varanda, ela soube que a encontraria vazia, com o prato colocado no piso de concreto, o balano imvel.
         Phoebe se fora.
         Para onde? Caroline foi at a beira da varanda e examinou a rua, acima e abaixo, em meio  chuva torrencial. Um trem apitou ao longe;  esquerda, a rua 
subia o morro at a linha frrea.  direita, terminava na rampa de acesso da autopista. Muito bem, pense. Pense! Para onde ela iria?
         Na descida da rua, as crianas dos Swan brincavam descalas nas poas. Caroline lembrou-se de Phoebe dizendo, mais cedo, Eu quero um gato e tambm de Avery 
na festa, com a bolinha felpuda no colo. Lembrou-se de Phoebe, fascinada com o tamanho diminuto do gatinho, com os pequenos sons que ele emitia. E, com efeito, quando 
perguntou por Phoebe aos filhos dos Swan, eles apontaram para o arvoredo do outro lado da rua. O gatinho havia fugido. Phoebe e Avery tinham ido procur-lo.
          primeira pausa no trnsito, Caroline atravessou a rua correndo. A terra estava encharcada e a gua empoava em suas pegadas. Ela seguiu pelo arvoredo 
denso e finalmente saiu na clareira. Avery estava l, ajoelhada junto  tubulao que escoava a gua que descia dos morros na vala de concreto. O guarda-chuva amarelo 
de Phoebe estava jogado feito uma bandeira ao lado dela.
         - Avery! - chamou Caroline, agachando-se ao lado da menina e pondo a mo em seu ombro molhado. - Cad a Phoebe?
         - Ela entrou para buscar o gato - respondeu a menina, apontando para a tubulao. - Ele entrou ali.
         Caroline praguejou baixinho e se ajoelhou junto  sada da tubulao. A gua fria correu por seus joelhos e suas mos.
         - Phoebe! - chamou, e sua voz ecoou na escurido. - a mame, meu amor, voc est a?
         Silncio. Caroline entrou na tubulao devagar. A gua estava muito fria. Suas mos logo ficaram dormentes.
         - Phoebe! - gritou, e sua voz ampliou-se. - Phoebe!
         Parou e ouviu com ateno. Houve um som dbil. Ela engatinhou para dentro mais um pouco, tateando pela gua que corria, invisvel. Pouco depois, sua mo 
roou num tecido e na pele fria, e Phoebe, trmula, estava em seus braos. Caroline abraou-a com fora, lembrando da noite em que a segurara no frio banheiro roxo, 
incitando-a a respirar.
         - Temos que sair daqui, meu bem. Temos que sair.
         Mas Phoebe no queria se mexer.
         - Meu gato - disse, com a voz alta, decidida, e Caroline sentiu algo se contorcer sob a blusa da filha, ouviu o pequeno miado. - meu gato.
         - Esquea o gato - gritou Caroline, puxando Phoebe com delicadeza na direo da qual tinha vindo. - Venha, Phoebe. J.
         - Meu gato - ela repetiu.
         - Est bem - concordou Caroline, com a gua correndo mais alta, j batendo em seus joelhos. - Est bem, est bem,  seu gato! Agora, vamos!
         Phoebe comeou a se mover, avanando devagar em direo ao crculo de luz. Por fim, emergiram da tubulao, com a gua fria correndo a seu redor na vala 
de concreto. Phoebe estava encharcada, com o cabelo grudado no rosto, e o gato tambm se molhara. Por entre as rvores, Caroline vislumbrou sua casa, slida e quente, 
como uma fortaleza num mundo perigoso. Imaginou Al, rodando por alguma estrada distante, e o conforto familiar daqueles cmodos que agora lhe pertenciam.
         - Est tudo bem - disse, e ps o brao em volta de Phoebe. O gatinho se contorceu, arranhando com as garras finas o dorso de suas mos. A chuva caa, pingando 
das folhas escuras e vvidas.
         - Olha o carteiro - disse Phoebe.
         - Sim - disse a me, vendo-o subir at a varanda e enfiar na sacola de couro as contas que ela pusera na caixa.
          Sua carta para David ficou na mesa, inacabada. Caroline se postara na porta dos fundos, olhando a chuva e pensando apenas no pai de Phoebe, enquanto a 
menina se expunha ao perigo. Sbito, aquilo pareceu um mau agouro, e Caroline deixou transformar-se em raiva o medo que sentira pelo desaparecimento da filha. No 
voltaria a escrever para David; ele esperava demais dela, e o fazia tarde demais. O carteiro desceu a escada, a luz refletida no guarda-chuva colorido.
         - Sim, meu bem - repetiu Caroline, afagando a cabea ossuda do gatinho. - Sim, l est ele.
          
      
1982
         
         ABRIL DE 1982   
         
         I
         
         CAROLINE PAROU NO PONTO DE NIBUS PRXIMO DA ESQUINA DA RUA Forbes com a Braddock, observando no parquinho a energia cintica das crianas, cujos gritos 
alegres elevavam-se acima do ronco contnuo do trfego. Mais adiante, no campo de beisebol, figuras de azul e vermelho dos bares locais que organizavam competies 
entre si movimentavam-se com graa silenciosa pela relva nova. Era primavera. A noite se aproximava. Dali a minutos, os pais sentados nos bancos, ou de p com as 
mos nos bolsos, comeariam a chamar seus filhos para lev-los para casa. O jogo dos adultos continuaria at escurecer por completo, e, quando terminasse, os jogadores 
trocariam tapinhas nas costas e tambm iriam embora, acomodando-se para tomar umas cervejas nos bares, em meio a risadas altas e contentes. Ela e Al os viam l quando 
saam  noite. Um filme na matin do Regent, depois jantar e, quando Al no estava de planto, um ou dois drinques.
         Nessa noite, porm, ele estava fora, acelerando ao longe pela noite que se aproximava, ao sul de Cleveland, em direo a Toledo, depois Columbus. Caroline 
tinha as rotas do marido penduradas na geladeira. Anos antes, naqueles dias estranhos que se haviam seguido  partida de Dorothy, Caroline tinha contratado algum 
para cuidar de Phoebe enquanto ela viajava com Al, na esperana de encurtar a distncia entre os dois. As horas se escoavam; ela dormia, acordava e perdia a noo 
do tempo, a estrada a se estirar para o infinito  frente deles, como uma fita negra dividida ao meio pelos lampejos regulares de branco, sedutora e hipntica. No 
fim, tambm ele com os olhos embotados, Al estacionava numa parada de caminhes e a levava a um restaurante que no diferia expressivamente do que eles tinham deixado 
para trs numa cidade qualquer em que houvessem pernoitado na vspera. A vida na estrada era como cair em estranhos buracos no universo, como quem entrasse num toalete 
numa cidade dos Estados Unidos, sasse pela mesma porta e se descobrisse em outro lugar: os mesmos shoppings de beira de estrada, lanchonetes e postos de gasolina, 
o mesmo zumbir dos pneus no asfalto. S os nomes eram diferentes, a luz, os rostos. Ela viajara com Al duas vezes, depois nunca mais.
         O nibus dobrou a esquina e parou com um ronco. As portas se abriram, Caroline entrou e ocupou um assento  janela, e as rvores passaram chispando enquanto 
cruzavam a ponte e o vo l embaixo. O nibus passou pelo cemitrio, arrastou-se pelo monte Squirrel e chacoalhou pelos bairros antigos at Oakland, onde Caroline 
desceu. Ela parou um instante em frente ao Museu Carnegie, recompondo-se, e olhou para o majestoso edifcio de pedra, com sua escadaria em cascata e suas colunas 
jnicas. Uma faixa pendurada no alto do prtico balanava ao vento: IMAGENS ESPECULARES: FOTOGRAFIAS DE DAVID HENRY.
         Era a noite de estria: ele estaria presente para discursar. Com as mos trmulas, Caroline tirou do bolso o recorte de jornal. Fazia duas semanas que o 
carregava, com o corao palpitando toda vez que o tocava. Umas 10 vezes, talvez mais, ela havia mudado de idia. Que proveito haveria naquilo? E, no instante seguinte, 
que mal haveria?
         Se Al estivesse em casa, ela teria ficado com ele. Teria deixado a oportunidade passar despercebida, dando olhadelas para o relgio at acabar a inaugurao 
e David Henry desaparecer de novo em fosse qual fosse a vida que estava levando.
         Mas Al tinha telefonado para dizer que no voltaria essa noite, e a Sra. O'Neill estava em casa para ficar de olho em Phoebe, e o nibus havia chegado na 
hora.
         O corao de Caroline parecia prestes a explodir. Ela ficou imvel, respirando fundo, enquanto o mundo girava a seu redor - o guincho das freadas e o cheiro 
de leo queimado, o leve esvoaar das folhas novas e tenras da primavera. As vozes se avolumavam com a aproximao das pessoas, depois decresciam, retalhos de conversa 
 vagar como pedacinhos de papel carregados pelo vento. Rios de gente - vestidos de seda, sapatos altos, ternos caros de tonalidade escura - subiam a escadaria do 
museu. vagar como pedacinhos de papel carregados pelo vento. Rios de gente - vestidos de seda, sapatos altos, ternos caros de tonalidade escura - subiam a escadaria 
do museu. O cu fez-se azul-marinho e os postes de luz se acenderam; o ar recendia a limo e hortel, aromas da festa da Igreja Ortodoxa Grega, um quarteiro adiante. 
Caroline fechou os olhos e pensou nas azeitonas pretas, que nunca tinha provado antes de chegar a essa cidade. Pensou no colorido mosaico da feira das manhs de 
sbado na Strip: po fresco, flores, frutas e legumes, uma confuso de alimentos e cores que enchia quarteires inteiros  margem do rio, algo que ela nunca teria 
visto, no fosse por David Henry e uma nevasca inesperada. Deu o primeiro passo, mais outro, e se misturou  multido.
         O museu tinha um p-direito alto e pisos de carvalho encerados, de um ouro velho reluzente. Caroline recebeu um programa em papel grosso de cor creme, com 
o nome de David Henry no alto. Seguia-se uma lista de fotos. "Dunas no crepsculo" leu. "Uma rvore no corao". Entrou na galeria e deparou com a foto mais famosa 
de David, a praia ondulada que era mais do que uma praia, a curva de um quadril de mulher, depois a extenso lisa de sua perna, ambas escondidas entre as dunas. 
A imagem tremia, prestes a se tornar outra coisa, e de repente era outra coisa. Caroline a havia fitado por uns bons 15 minutos na primeira vez que a vira, sabendo 
que aquela ondulao de carne era de Norah Henry, lembrando-se da montanha branca de sua barriga a se ondular com as contraes, recordando a fora potente do aperto 
de sua mo. Durante anos ela se consolara com a opinio desdenhosa que fazia de Norah Henry, meio imperiosa, acostumada ao comodismo e  ordem, uma mulher que talvez 
deixasse Phoebe numa instituio. Mas essa imagem havia destrudo aquela idia. As fotos exibiam uma mulher que ela nunca tinha conhecido.
         As pessoas circularam aos poucos pelo salo; os assentos foram ocupados. Caroline sentou-se, observando tudo atentamente. As luzes escureceram uma vez, 
tornaram a clarear e, de repente, vieram os aplausos e David Henry entrou, alto e familiar, agora um pouco mais pesado, sorrindo para a platia. Chocou-a perceber 
que ele j no era um homem moo. O cabelo estava ficando grisalho e os ombros eram meio recurvados. Ele se dirigiu ao tablado, fitou a platia e Caroline prendeu 
a respirao, certa de que ele a devia ter visto e reconhecido de imediato, como ela o reconhecera. David pigarreou e fez uma piada sobre o tempo. Enquanto as risadas 
cascateavam e morriam a seu redor, enquanto ele examinava suas anotaes e comeava a falar, Caroline compreendeu que era apenas mais um rosto na multido.
         David falou com segurana melodiosa, embora ela quase no prestasse ateno ao que dizia. Em vez disso, Caroline estudou os gestos conhecidos de suas mos, 
as novas rugas nos cantos dos olhos. O cabelo dele estava mais comprido, denso e exuberante, apesar do grisalho, e ele parecia satisfeito, estabelecido. Caroline 
pensou naquela noite, j se iam quase 20 anos, em que ele havia acordado, levantado a cabea da escrivaninha e surpreendido a enfermeira no vo da porta, despida 
em seu amor por ele, os dois to vulnerveis um ao outro, naquele momento, quanto se poderia estar. Ela havia reconhecido algo naquele instante, algo que mantivera 
escondido, uma experincia, expectativa ou sonho privado demais para ser compartilhado. E fora verdade, como ainda lhe era possvel perceber: David Henry tinha uma 
vida secreta. O erro de Caroline, 20 anos antes, tinha sido acreditar que o segredo de David tinha alguma coisa a ver com qualquer espcie de amor por ela.
         Terminada a palestra, veio a salva de palmas, forte, e ele saiu de trs da tribuna, bebeu um grande gole d'gua de seu copo e comeou a responder s perguntas. 
Houve diversas - de um homem com um caderno de notas, uma senhora de cabelo grisalho, uma mulher moa, vestida de preto, com cascatas de cabelo castanho, que fez 
uma pergunta muito irritada sobre a forma. A tenso cresceu no corpo de Caroline e seu corao bateu forte, at ela mal conseguir respirar. Terminaram as perguntas, 
o silncio aumentou, e David Henry limpou a garganta, abriu um sorriso ao agradecer  platia e se virou para sair. Nesse momento, Caroline sentiu-se levantar, quase 
a contragosto, com a bolsa na frente do corpo, como um escudo.
         Atravessou o salo e se juntou ao grupinho que o rodeava aos poucos. David olhou-a de relance e deu um sorriso polido, sem reconhec-la. Ela esperou as 
outras perguntas, acalmando-se um pouco com o passar dos minutos. O curador da exposio rondava o grupo, ansioso para que David se misturasse aos presentes, mas, 
no momento em que houve uma pausa nas perguntas, Caroline deu um passo  frente e ps a mo no brao dele.
         - David. No est me reconhecendo?
         Ele perscrutou seu rosto.
         - Ser que mudei tanto assim? - sussurrou ela.
         E ento o viu compreender. O rosto se alterou, at mesmo na forma, como se a gravidade de repente houvesse aumentado. Um rubor insinuou-se em seu pescoo 
e um msculo pulsou em sua face. Caroline teve a sensao de algo estranho acontecendo com o tempo, como se eles tivessem voltado  clinica, muitos anos antes, e 
a neve casse l fora. Os dois se fitaram sem falar, como se o salo e todas as pessoas dentro dele houvessem ficado extremamente distantes.
         - Caroline - disse ele, enfim, recuperando-se. - Caroline Gil. Uma velha amiga - acrescentou, dirigindo-se s pessoas ainda agrupadas a seu redor. David 
levantou uma das mos e ajeitou a gravata, depois um sorriso estampou-se em seu rosto, embora no lhe chegasse aos olhos. - Obrigado - disse, acenando com a cabea 
para os outros. - Obrigado a todos por terem vindo. Agora, se nos do licena...
         E os dois cruzaram o salo. David foi andando ao lado de Caroline, com uma das mos plantada em suas costas, leve mas firme, como se ela pudesse desaparecer, 
a menos que ele a segurasse.
         - Entre aqui - disse ele, passando para trs de um painel da exposio, onde uma porta sem moldura mal se deixava discernir na parede branca. Conduziu-a 
para dentro, rpido, e fechou a porta. Era um depsito pequeno, com uma nica lmpada despejando luz sobre prateleiras cheias de latas de tinta e ferramentas. Eles 
ficaram cara a cara, a poucos centmetros um do outro. O perfume de David encheu o cmodo, aquela colnia adocicada sob a qual havia um cheiro de que Caroline se 
lembrava, algo de medicinal, com um toque de adrenalina. O quartinho era quente e, sbito, ela se sentiu zonza, com fagulhas a lhe cegar a viso.
         - Santo Deus, Caroline, voc mora aqui? Em Pittsburgh? Por que no quis me dizer onde estava?
         - Eu no era difcil de achar. Outras pessoas me encontraram - disse ela, lentamente, lembrando-se de Al subindo a alameda e, pela primeira vez, compreendendo 
a intensidade de sua persistncia. Pois, se era verdade que David Henry no tinha procurado -com muito afinco, tambm era verdade que ela desejara no ser encontrada.
         Do lado de fora, passos se aproximaram e pararam. Um alvoroo e um murmrio de vozes. Caroline estudou o rosto de David. Durante todos aqueles anos, havia 
pensado nele todo santo dia, mas, agora, no conseguia imaginar o que dizer.
         - Voc no deveria estar l fora? - perguntou-lhe, olhando para a porta.
         - Eles esperam.
         Tornaram a se olhar, calados. Caroline o guardara na lembrana por todo aquele tempo como uma fotografia, cem, mil fotografias. Em todas elas, David Henry 
era um homem jovem, cheio de energia irrequieta e resoluta. Agora, ao fitar seus olhos escuros e o rosto mais cheio, o cabelo cuidadosamente penteado, ela se deu 
conta de que, se passasse por ele na rua, talvez no o reconhecesse.
         Quando ele voltou a falar, o tom foi mais suave, embora um msculo continuasse a se contrair em seu rosto.
         - Fui ao seu apartamento, Caroline. Naquele dia, depois do oficio fnebre. Fui at l, mas voc j tinha ido embora. Esse tempo todo... - comeou, mas calou-se.
         Houve uma batida leve na porta, uma voz abafada perguntando alguma coisa.
         - Um minuto, por favor - respondeu David.
         - Eu estava apaixonada por voc - disse Caroline, apressada, perplexa com sua confisso, pois era a primeira vez que a verbalizava at para si mesma, embora 
tivesse vivido com esse sentimento durante anos. Admiti-lo a fez sentir-se frvola, imprudente, mas ela prosseguiu: - Sabe, eu passava horas imaginando a vida com 
voc. E foi naquele momento, diante da igreja, que percebi que isso nunca havia passado pela sua cabea.
         David abaixara a cabea enquanto ela falava e, nesse momento, levantou os olhos.
         - Eu sabia. Sabia que voc estava apaixonada por mim. De que outra forma poderia ter lhe pedido para me ajudar? Sinto muito, Caroline. J faz anos que... 
lamento muito.
         Ela assentiu com a cabea, de olhos marejados, sentindo ainda viva aquela verso mais jovem de si mesma, ainda parada a meia distncia do oficio fnebre, 
no reconhecida, invisvel. Mesmo nesse momento, sentiu raiva por ele no a ter realmente enxergado naquela poca. E de, sem conhec-la minimamente, no ter hesitado 
em lhe pedir que levasse sua filha embora.
         - Voc  feliz? - perguntou David. - Tem sido feliz, Caroline? E a Phoebe?
          A pergunta, assim como a gentileza na voz dele, desarmaram-na. Caroline pensou em Phoebe lutando para aprender a desenhar as letras, a amarrar os sapatos. 
Phoebe brincando feliz no quintal, enquanto Caroline dava um telefonema aps outro, lutando pela instruo da filha. Phoebe envolvendo-a em seus braos macios sem 
nenhuma razo e dizendo: Amo voc, mame. Pensou em Al, ausente por tempo demais, porm sempre cruzando a porta ao final da longa semana, trazendo flores ou um saquinho 
de po fresco, ou um presentinho, alguma coisa para ela, sempre, e alguma coisa para Phoebe. Na poca em que trabalhava no consultrio de David ela era to jovem, 
to solitria e ingnua, que se imaginava uma espcie de recipiente a ser enchido de amor. Mas no era nada disso. O amor estivera dentro dela o tempo todo e s 
se renovava ao ser doado.
         - Voc quer mesmo saber? - perguntou, finalmente, olhando-o nos olhos. -  que voc nunca escreveu, David, a no ser naquela nica vez. Nunca perguntou 
nada sobre a nossa vida.
         Enquanto falava, Caroline percebeu que era por isso que estava ali. No por amor, nem por qualquer fidelidade ao passado, nem mesmo por culpa. Ela fora 
encontr-lo por raiva e pelo desejo de pr os pingos nos is.
         - Durante anos, voc jamais quis saber como eu estava. Como estava a Phoebe. No ligava a mnima, no ? E a veio aquela ltima carta,  qual nunca respondi. 
De repente, voc a queria de volta.
         David deu uma risada curta e assustada.
         - Foi assim que voc a entendeu? Foi por isso que parou de escrever?
         - De que outro modo eu poderia entend-la?
         Ele abanou a cabea devagar.
         - Caroline, eu perguntei seu endereo. Repetidamente, toda vez que mandava dinheiro. E, naquela ltima carta, simplesmente pedi que voc me convidasse a 
participar outra vez da sua vida. O que mais eu podia fazer? Olhe, sei que voc no se d conta, mas guardei todas as cartas que voc me mandou. E, quando voc parou 
de escrever, foi como se me batesse com a porta na cara.
         Caroline pensou em suas cartas, em todas as suas confisses sinceras, derramadas pela tinta no papel. J no conseguia lembrar-se do que tinha escrito: 
detalhes sobre a vida de Phoebe, e suas esperanas, seus sonhos e temores.
         David esfregou o rosto com uma das mos, num gesto que ela se lembrou de v-lo fazer quando estava cansado ou desanimado.
         - Eu as lia. No comeo, tinha que me forar, para ser sincero. Depois, eu queria saber o que estava acontecendo, apesar de ser doloroso. Voc me dava pequenos 
vislumbres da Phoebe. Retalhos da trama da vida de vocs. Eu ansiava por aquilo.
         Caroline no respondeu, relembrando a satisfao que sentira naquele dia chuvoso em que mandara Phoebe subir com seu gatinho, Chuvisco, para tirar a roupa 
molhada, enquanto ela ficava na sala, rasgando a carta para David em quatro pedaos, depois oito, depois dezesseis, e jogando tudo no lixo feito confete. Satisfao 
e sensao de prazer por haver encerrado o assunto. Ela havia sentido essas coisas, desconhecedora - desinteressada at - do que David sentia.
         - Eu no podia perd-la - disse, enfim. - Fiquei com raiva de voc por muito, muito tempo, mas, naquele momento, o que eu mais temia era que, se vocs se 
encontrassem, voc a levasse embora. Foi por isso que parei de escrever.
         - Nunca tive essa inteno.
         - Voc no pretendeu nada disso, mas aconteceu assim mesmo.
         David Henry deu um suspiro, e Caroline o imaginou em seu apartamento deserto, andando de um cmodo para outro e percebendo que ela se fora para sempre. 
Fale-me dos seus planos, ele tinha escrito.  tudo que eu peo.
         - Se eu no a tivesse levado - acrescentou Caroline, baixinho -, talvez a sua escolha fosse outra.
         - No detive voc - respondeu David, novamente enfrentando seu olhar. Tinha a voz spera. - Poderia t-la detido. Voc estava de casaco vermelho naquele 
dia, na cerimnia fnebre. Eu a vi, e vi seu carro se afastar.
         De repente, Caroline sentiu-se esgotada, quase desfalecida. No saberia dizer o que havia esperado dessa noite, mas, ao imaginar essa conversa, no tinha 
imaginado tamanha disputa entre a tristeza e a raiva dele e as suas.
         - Voc me viu?
          - Fui direto ao seu apartamento, logo depois. Esperava que voc estivesse l.
         Caroline fechou os olhos. Naquele momento, ela j estaria seguindo em direo  auto-estrada, a caminho desta cidade, desta vida. Provavelmente, perdera 
a visita de David Henry por minutos, talvez uma hora. Quanta coisa havia girado em torno daquele momento! Quo diferente poderia ter sido o desenrolar de sua vida!
         - Voc no me respondeu, Caroline - disse David, pigarreando. - Voc tem sido feliz? E a Phoebe? A sade dela vai bem? O corao dela?
         - O corao dela est timo - respondeu Caroline, pensando nos primeiros anos de preocupao constante com a sade da filha, em todas as idas a mdicos 
e dentistas e cardiologistas e oftalmologistas. Mas ela crescera saudvel; estava bem; jogava basquete na entrada da garagem e adorava danar. - Os livros que li 
quando ela ainda era pequena previam que ela j estaria morta, mas Phoebe est tima. Teve sorte, eu acho; nunca teve problemas de corao. Adora cantar. Tem um 
gato chamado Chuvisco. Est estudando tecelagem.  o que est fazendo neste momento. Em casa. Tecendo.
         Caroline abanou a cabea e prosseguiu:
         - Ela freqenta a escola. Uma escola pblica, com todas as outras crianas. Tive uma luta infernal para que eles a aceitassem. E, agora, ela est quase 
criada e no sei o que acontecer. Tenho um bom emprego. Trabalho meio expediente no setor de clnica geral de um hospital. Meu marido... ele viaja muito. A Phoebe 
freqenta todos os dias uma instituio que trabalha com grupos de deficientes. Tem uma poro de amigos l. Est aprendendo a fazer trabalhos de escritrio. O que 
mais posso lhe dizer? Voc se poupou muitas dores de cabea, com certeza. Mas, David, tambm perdeu muitas alegrias.
         - Sei disso. Melhor do que voc imagina.
         - E voc? - indagou Caroline, novamente impressionada com o tanto que ele envelhecera, ainda tentando assimilar a realidade da sua presena, ali, na companhia 
dela, naquele cmodo minsculo, depois de tantos anos. - Voc tem sido feliz? E a Norah? E o Paul?
         - No sei - respondeu ele, devagar. - To feliz quanto qualquer um, suponho. O Paul  muito inteligente. Poderia fazer qualquer coisa. O que ele quer  
freqentar a Juilliard e tocar violo. Acho que est cometendo um erro, mas a Norah discorda. Isso tem causado muita tenso.
         Caroline pensou em Phoebe, em como a filha adorava limpar e organizar coisas, em como cantarolava sozinha ao lavar a loua ou limpar o cho, no quanto adorava 
msica, sinceramente, mas jamais teria a possibilidade de tocar violo.
         - E a Norah?
         - Ela tem uma agncia de viagens. Tambm viaja muito. Como o seu marido.
         - Agncia de viagens? - repetiu Caroline. - A Norah?
         - Eu sei. Tambm fiquei surpreso. Mas faz tempo que ela  dona da agncia.  muito eficiente no trabalho.
         A maaneta girou e a porta se entreabriu, O curador da exposio enfiou a cabea do lado de dentro, seus vivos olhos azuis cheios de curiosidade e apreenso. 
Passou a mo nervosamente pelo cabelo escuro, ao dizer:
         - Dr. Henry? Sabe, h uma poro de gente aqui fora. H uma certa expectativa de que o senhor... hum... participe com os outros. Est tudo bem?
         David olhou para Caroline. Parecia hesitante, mas tambm estava impaciente, e Caroline percebeu que, num instante, daria meia-volta, ajeitaria a gravata 
e iria embora. Uma coisa que havia durado anos estava chegando ao fim naquele momento. No, pensou ela, mas o curador pigarreou e deu uma risada constrangida, e 
David disse:
         - No h problema, j estou indo. Voc vai esperar, no ? - perguntou a Caroline, segurando seu cotovelo.
         - Preciso ir para casa. A Phoebe est esperando.
         - Por favor - fez ele. Parou do lado de fora da porta. Seus olhos se encontraram e Caroline viu a mesma tristeza e compaixo que recordava de tantos anos 
antes, quando ambos eram muito mais jovens. - H muitas coisas para dizer e muitos anos se passaram. Por favor, diga que voc vai ficar. No deve demorar muito.
         Ela sentiu um bolo no estmago, um mal-estar que no conseguiu situar, mas acenou de leve com a cabea e David Henry sorriu.
         - timo. Vamos jantar, est bem? Eu tenho que atender os convidados... Mas prometo no demorar. Eu estava errado, anos atrs. E quero mais do que apenas 
retalhos.
         A mo dele estava no brao de Caroline e os dois voltaram a se aproximar da aglomerao. Ela parecia incapaz de falar. Havia pessoas  espera, olhando francamente 
na direo dos dois, curiosas e murmurando. Caroline tirou da bolsa e entregou a David o envelope que havia preparado, com as fotografias mais recentes de Phoebe. 
David pegou-o, olhou-a nos olhos e inclinou a cabea, srio, e ento uma mulher mida, de vestido de linho preto, segurou-o pelo brao. Era a mesma mulher da platia, 
bonita e levemente agressiva, fazendo mais uma pergunta sobre a forma.
         Caroline ficou alguns minutos onde estava, vendo-o apontar para uma foto que lembrava os galhos escuros de uma rvore, falando com a mulher de vestido preto. 
Ele fora um homem bonito, e ainda era. Por duas vezes, deu uma olhada na direo de Caroline e, ao v-la, voltou inteiramente sua ateno para o assunto do momento. 
Espere, ele tinha dito. Por favor, espere. E Caroline havia imaginado que esperaria. A sensao de bolo ressurgiu em seu estmago. Ela no queria esperar, e pronto. 
Passara tempo demais esperando na juventude - por reconhecimento, aventura, amor. S ao fazer meia-volta, com Phoebe no colo, e largar seu apartamento em Louisville, 
s ao fazer as malas e se mudar  que sua vida tinha realmente comeado. Esperar nunca lhe trouxera nada de bom.
         David estava com a cabea inclinada, assentindo, escutando a mulher de cabelo preto, com o envelope nas mos, atrs das costas. Enquanto Caroline observava, 
ele ergueu a mo e guardou o envelope no bolso, displicentemente, como se contivesse alguma coisa banal e levemente incmoda - uma conta de luz, uma multa de trnsito. 
Minutos depois, ela estava do lado de fora, descendo s pressas a escadaria de pedra em direo  noite.
         Era primavera, o ar fresco e mido, e Caroline sentia-se agitada demais para esperar o nibus. Comeou a andar depressa, um quarteiro aps outro, indiferente 
ao trnsito, s pessoas que passavam ou ao ligeiro perigo de estar sozinha na rua aquela hora. Alguns momentos lhe voltaram  lembrana em rodopios e vislumbres, 
estranhos detalhes desconexos. Havia uma faixa de cabelo escuro acima da orelha direita de David, e suas unhas estavam cortadas at o sabugo. Unhas de pontas quadradas, 
ela se lembrava disso, mas a voz dele tinha mudado, tornara-se mais grave.
         Desconcertante: as imagens que ela havia guardado na lembrana por tanto tempo tinham se alterado no instante em que o vira.
         E ela? Que impresso teria dado a David nessa noite? O que vira ele, o que teria jamais visto de Caroline Lorraine Gill, de seus segredos mais ntimos? 
Nada. Absolutamente nada. E ela sabia disso tambm, soubera-o durante anos, desde aquele momento, do lado de fora da igreja, em que o crculo da vida de David se 
fechara para ela, em que ela dera meia-volta e partira. Em algum canto escondido do corao, Caroline mantivera viva a idia romntica e tola de que, de algum modo, 
David Henry a havia conhecido como ningum mais a conheceria. Mas no era verdade. Ele nem sequer a tinha vislumbrado, nunca.
         Ela havia percorrido cinco quarteires. Estava com o rosto molhado, o casaco, os sapatos. A noite fria parecia haver penetrado em seu corpo, infiltrando-se 
em sua pele. Caroline se aproximava de uma esquina quando um nibus parou com uma freada ruidosa. Correu para alcan-lo, afastando o cabelo do rosto, e se acomodou 
no plstico rachado do assento. Postes de iluminao, letreiros luminosos e o vermelho dos sinais, borrado pela chuva, passavam pelas janelas. A brisa do comeo 
de primavera deixava em seu rosto uma sensao mida e fria, O nibus sacolejou pelas ruas, ganhando velocidade ao chegar aos trechos escuros do parque e ao longo 
aclive do morro.
         Caroline saltou no centro da Regent Square. Um vozerio entremeado de gritos elevou-se de um bar quando ela passou, vislumbrando pelo vidro as silhuetas 
ensombrecidas dos jogadores que vira mais cedo, agora de copo na mo e erguendo os punhos no ar, reunidos em volta da televiso. A luz da vitrola automtica desenhou 
listas de non azul no brao da garonete quando ela se afastou da mesa mais prxima da janela. Caroline parou, subitamente desaparecida a impetuosa descarga de 
adrenalina de seu encontro com David Henry, desfeita como nvoa na noite primaveril. Teve uma sensao aguda de seu prprio isolamento, enquanto os vultos no bar 
se uniam em torno de um propsito comum, e as pessoas que passavam na calada eram puxadas pelas linhas de suas vidas para lugares que ela nem sequer podia imaginar.
         As lgrimas lhe subiram aos olhos. A tela da televiso piscou e outro coro de gritos se avolumou, atravessando a vidraa. Caroline seguiu adiante, esbarrando 
numa mulher que carregava uma sacola de compras, pisando numa pilha de lixo da lanchonete que algum largara na calada. Primeiro a descida, depois a subida da pequena 
alameda at sua casa, onde as luzes da cidade davam lugar a outras, muito conhecidas e familiares: a casa dos O'Neill, onde um brilho dourado se derramava sobre 
as cerejeiras; a dos Soulard, com seu trecho escuro de jardim, e, por ltimo, o gramado dos Margolis, as margaridas-do-campo que cresciam agrestes no morro, durante 
o vero, lindas e caticas. Casas enfileiradas, como uma poro de degraus numa ladeira, e, por fim, a dela.
         Caroline parou na alameda, olhando para sua casa alta e estreita. Havia fechado as persianas, tinha certeza, mas agora elas estavam abertas e era possvel 
enxergar com clareza pelas janelas da sala de jantar. O lustre iluminava a mesa em que Phoebe havia espalhado suas ls. Ela estava debruada sobre o tear, movendo 
a lanadeira de um lado para outro, calma e atenta. Chuvisco estava enroscado em seu colo, uma bolinha laranja felpuda. Caroline ficou observando, inquieta ao ver 
como a filha parecia vulnervel, exposta ao mundo que girava misteriosamente na escurido s suas costas. Franziu o cenho, tentando recordar aquele momento - sua 
mo girando o pino estreito de plstico e a persiana descendo. Depois, vislumbrou um movimento mais ao fundo da casa, uma sombra que se movia atrs da porta dupla 
de vidro que dava para a sala de estar.
         Prendeu a respirao, sobressaltada, mas ainda no alarmada, e ento a sombra ganhou forma e ela relaxou. No era nenhum estranho, apenas Al, que voltara 
cedo de suas viagens e circulava pela casa. Ela ficou surpresa e estranhamente alegre; Al vinha aceitando mais trabalhos e, muitas vezes, ausentava-se por duas semanas 
seguidas. Mas ali estava ele; tinha vindo para casa. Abrira as persianas, oferecendo-lhe esse momento para saborear, esse vislumbre de sua vida, encerrado naquelas 
paredes de tijolos, emoldurado pelo aparador que ela havia restaurado, pelo ficus que ainda no conseguira arrancar, pelas camadas de vidraas e paredes que lavara 
com tanto amor durante todos aqueles anos. Phoebe levantou os olhos do trabalho, olhando sem ver pela janela para a escurido da grama molhada e sombria, alisando 
as costas macias do gato. Al atravessou a sala, com uma xcara de caf na mo. Parou ao lado dela e apontou com a xcara para o tapete que Phoebe estava tecendo.
         Chovia mais forte e o cabelo de Caroline estava empapado. mas ela no se mexeu. O que tinha sido um vazio, do lado de fora da janela do bar, um vazio soturno, 
muito real e assustador, foi banido pela viso de sua famlia. A chuva lhe batia no rosto e escorria pelas janelas, enfeitando de gotas seu casaco de boa l. Ela 
tirou as luvas e procurou as chaves na bolsa, mas se deu conta de que a porta estaria destrancada. No escuro do jardim, enquanto os eternos carros sibilavam pela 
pista, iluminando com os faris as moitas de lilases que ela plantara muitos anos antes como um anteparo, deteve-se por mais um instante. Essa era sua vida. No 
a vida com que um dia havia sonhado, no a vida que sua verso mais jovem jamais teria imaginado ou desejado, mas a vida que ela levava, com todas as suas complexidades. 
Essa era sua vida, construda com zelo e ateno, e era boa.
         Fechou a bolsa. Subiu os degraus. Abriu a porta dos fundos e entrou em casa.
         
        II
         
         ELA ERA PROFESSORA DE HISTRIA DA ARTE NA UNIVERSIDADE CARNEGIE Mellon e lhe fazia perguntas sobre a forma. O que  a beleza?, queria saber, com a mo no 
brao de David, guiando-o pelos pisos reluzentes de carvalho, por entre as paredes brancas em que pendiam suas fotos. A beleza deve ser encontrada na forma? Ela 
est no sentido? A mulher virou o rosto e seu cabelo balanou para a frente; ela o prendeu atrs da orelha com uma das mos.
         David olhou-a, observou a parte branca de seu cabelo, o rosto plido e liso.
         - Intersees - respondeu com brandura, tornando a olhar para onde estava Caroline, junto a uma foto de Norah na praia, aliviado por ver que ela ainda estava 
l. Com esforo, tornou a olhar para a professora. - Convergncia.  isso que eu procuro. No adoto uma abordagem terica. Fotografo aquilo que me comove.
         - Ningum vive fora da teoria! - exclamou a mulher. Mas fez uma pausa em suas perguntas, espremendo os olhos e mordendo de leve a ponta do lbio. David 
no podia ver seus dentes, mas imaginou-os nivelados, brancos e regulares. A sala girava a seu redor, as vozes subiam e desciam; num instante de silncio, ele percebeu 
que seu corao batia forte e que continuava a segurar o envelope que Caroline lhe dera. Tornou a dar uma olhadela para o outro lado da sala - sim, que bom, ela 
ainda estava l - e enfiou cuidadosamente o envelope no bolso da camisa; havia um leve tremor em suas mos.
         Ela se chamava Lee, dizia a mulher de cabelo preto nesse momento. Era crtica visitante da universidade. David assentiu com a cabea, ouvindo apenas em 
parte. Ser que Caroline morava em Pittsburgh, ou teria visto o anncio da exposio e vindo de outro lugar, de Morgantown, Columbus ou Filadlfia? Ela lhe enviara 
cartas de todos esses lugares, e depois surgira dessa platia annima, parecendo exatamente a mesma, s que mais velha, mais tensa e mais dura, talvez, sua brandura 
juvenil desaparecida h muito tempo. David, no est me reconhecendo? E ele a havia reconhecido, mesmo quando no quisera se dar conta disso.
         Tornou a olhar em volta,  procura dela, e no a viu, e comearam as primeiras fisgadas de pnico, minsculas, penetrantes, como filamentos de cogumelos 
escondidos num tronco. Ela fizera todo aquele trajeto, dissera que ia ficar, com certeza no iria embora. O curador reapareceu, para apresent-lo aos patrocinadores 
da exposio. David recomps-se o suficiente para falar com inteligncia, mas continuava a pensar em Caroline, na esperana de entrev-la na extremidade do salo. 
Tinha se afastado acreditando que ela esperaria, mas agora, inquieto, lembrou-se daquela manh de outrora, no ofcio fnebre, em que ela ficara parada a meia distncia, 
com seu casaco vermelho. Lembrou-se da frieza do ar recente de primavera, do cu ensolarado e de Paul agitando as pernas sob os cobertores, em seu carrinho. Lembrou-se 
de t-la deixado ir embora.
         - Com licena - murmurou, interrompendo seu interlocutor. Andou resoluto pelo piso de madeira at o saguo da entrada principal, onde parou e virou para 
trs, para inspecionar a galeria, perscrutando a multido. Com certeza, encontrando-a depois de tanto tempo, ele no podia perd-la de novo.
         Mas ela se fora. As luzes da cidade cintilavam, sedutoras, dispersas como lantejoulas por todos os morros ondulantes, dramticos. Em algum lugar, na cidade 
ou nas imediaes, Caroline Gill lavava loua, varria o cho, parava para olhar por uma janela apagada. Luto e remorso: eles o invadiram como uma onda, to intensos 
que David se encostou na parede e baixou a cabea, lutando contra uma nusea profunda. Suas emoes eram exageradas, desproporcionais. Afinal, ele vivera muitos 
anos sem ver Caroline Gill. Respirou fundo, repetindo mentalmente a tabela peridica - prata, cdmio, ndio, estanho -, mas pareceu incapaz de se acalmar.
         Enfiou a mo no bolso e pegou o envelope que ela lhe dera; talvez ela houvesse deixado um endereo ou um nmero de telefone. Dentro havia duas fotos polaride, 
duras, com cores ruins, desfocadas e meio cinzentas. A primeira mostrava Caroline risonha, envolvendo com o brao uma menina de vestido azul engomado, de cintura 
baixa e cs. Estavam ao ar livre, fazendo pose junto  parede de tijolos de uma casa, e o ar ensolarado desbotava as cores da cena. A menina era robusta; o vestido 
lhe caa bem, mas no a tornava graciosa. O cabelo descia em ondas suaves, emoldurando seu rosto, e ela exibia um sorriso animado, os olhos semicerrados de prazer 
fitando a cmera, ou quem quer que estivesse atrs dela. Tinha o rosto largo, de ar meigo, e talvez fosse apenas o ngulo da cmera que lhe inclinava os olhos ligeiramente 
para cima. Phoebe em seu aniversrio, escrevera Caroline no verso da foto. Festa de debutante.
         David passou a primeira foto para trs da segunda, mais recente. Ali estava Phoebe de novo, jogando basquete. Estava pronta para o arremesso, com os calcanhares 
levantados do asfalto. Basquete, o esporte que Paul se recusava a praticar. David olhou para o verso e tornou a verificar o envelope, mas no havia endereo. A galeria 
continuava repleta, tomada pelo burburinho das conversas. David parou no vo da porta e observou por um momento, com um curioso desapego, como se aquela fosse uma 
cena em que houvesse esbarrado por acaso, que nada tivesse a ver com ele. Depois, virou-se e saiu para a noite suave, fresca, mida de chuva. Guardou no bolso do 
palet o envelope de Caroline com as fotos e, sem saber para onde ia, comeou a andar.
         Oakland, o antigo bairro de sua faculdade, havia mudado, mas, ao mesmo tempo, no mudara. O Estdio Forbes, onde ele passara tantas tardes acocorado no 
alto da arquibancada, banhado de sol, torcendo quando o basto batia e a bola se elevava acima do gramado verde-vivo, tinha desaparecido. Um novo prdio da universidade, 
quadrado e sem graa, erguia-se onde antes haviam ressoado os gritos de milhares de pessoas. David parou, virando-se para a Catedral do Saber, aquele monlito cinzento 
e esguio, uma sombra contra o cu noturno, para se situar.
         Continuou andando pelas ruas escuras da cidade, passando por pessoas que saam dos restaurantes e teatros. No pensou propriamente para onde estava indo, 
embora soubesse. Percebeu que fora capturado, paralisado por todos aqueles anos, no momento em que entregara sua filha a Caroline. Sua vida tinha girado em torno 
daquele ato singular: uma criana recm-nascida em seus braos - e ele os estendera para d-la a outra pessoa. Era como se viesse tirando fotografias, em todos os 
anos decorridos desde ento, para tentar dar a um outro momento uma substncia similar, um peso igual. Ele quisera tentar deter o mundo em desabalada, o fluxo dos 
acontecimentos, mas  claro que tinha sido impossvel.
         Continuou a andar, agitado, resmungando consigo mesmo de quando em quando. O que se imobilizara em seu corao durante todo aquele tempo voltara a ser acionado 
por seu encontro com Caroline. Ele pensou em Norah, transformada numa mulher independente e poderosa, que buscava as contas das empresas com esplendorosa segurana 
e voltava dos jantares recendendo a vinho e chuva, com vestgios de riso, triunfo e sucesso ainda estampados no rosto. Ela tivera mais de uma aventura amorosa no 
correr dos anos, David sabia, e seus segredos, como os dele, haviam erguido uma muralha entre os dois. s vezes,  noite, ele vislumbrava por um brevssimo instante 
a mulher com quem havia se casado: Norah parada com Paul no colo, quando beb; Norah com a boca suja de morangos, amarrando um avental; Norah como agente de viagens 
novata, acordada at tarde para fazer o balano de suas contas. Mas ela se desfizera desses eus como quem trocasse de pele, e agora os dois viviam como estranhos 
em sua vasta casa.
         Paul sofria com isso, ele sabia. David fizera um esforo enorme para lhe dar tudo. Tentara ser um bom pai. Eles haviam colecionado fsseis juntos, organizando-os, 
rotulando-os e expondo-os na sala de estar. Ele tinha levado Paul para pescar em todas as oportunidades que surgiam. No entanto, por mais que se esforasse por tornar 
a vida do filho tranqila e fcil, persistia o fato de que construra essa vida sobre uma mentira. David tinha tentado proteger o filho das coisas que sofrera quando 
criana: pobreza, preocupaes, tristezas. Mas seus prprios esforos haviam criado perdas que ele nunca tinha previsto. A mentira crescera entre eles como uma rocha, 
obrigando-os a tambm crescerem de forma estranha, como rvores retorcidas em volta de um pedregulho.
         As ruas foram convergindo, juntando-se em ngulos curiosos,  medida que a cidade se estreitava na ponta em que se uniam os grandes rios, o Monongahela 
e o Allegheny, formando em sua confluncia o Ohio, que atravessava o estado de Kentucky e seguia adiante, at desaguar no Mississipi e desaparecer. Ele andou at 
a extremidade da ponta de terra. Quando rapaz, estudante, David Henry visitava esse lugar com freqncia, parando na ponta para ver os dois rios convergirem. Inmeras 
vezes, ficara ali com os ps suspensos sobre a pele escura do rio, perguntando a si mesmo com indiferena se aquelas guas negras seriam muito frias, se ele teria 
fora suficiente para nadar at a margem, caso casse. Agora, como naquela poca, o vento atravessou o tecido de seu terno e ele olhou para baixo, vendo o rio mover-se 
por entre os bicos de seus sapatos. Avanou mais alguns centmetros, alterando a composio. Um lampejo de remorso perpassou seu cansao: seria uma bela foto, mas 
havia deixado a cmera no cofre do hotel.
         L embaixo, a gua rodopiava, formava uma espuma branca ao se chocar com as pilastras e avanava mpetuosamente. O arco do p: foi nele que David sentiu 
a presso da borda de concreto. Se ele casse ou pulasse, e no conseguisse nadar at a segurana da margem, eis o que encontrariam: um relgio com o nome de seu 
pai gravado no verso, a carteira com 200 dlares em espcie, a carteira de motorista e uma pedrinha do riacho prximo  sua casa da infncia que ele havia carregado 
consigo durante 30 anos. E as fotografias, num envelope enfiado no bolso, em cima de seu corao.
         Seu enterro seria concorrido. O cortejo se estenderia por quarteires.
         Mas a notcia acabaria a. Talvez Caroline nunca ficasse sabendo. E tambm no chegaria mais longe, at o lugar onde ele havia nascido.
         Mesmo que chegasse, ningum reconheceria seu nome.
         Um dia, na volta da escola, havia encontrado a carta  sua espera. Ningum tinha dito nada, mas todos o observaram, sabendo do que se tratava: o logotipo 
da Universidade de Pittsburgh era claro. David subira com o envelope e o pusera na mesa-de-cabeceira, nervoso demais para abri-lo. Ainda se lembrava do cu cinzento 
daquela tarde, fosco e plido do outro lado da janela, sua uniformidade rompida pelo galho-desfolhado de um olmo.
         Durante duas horas, ele no se permitira olhar. Depois tinha tomado coragem e era uma boa notcia: fora aceito com uma bolsa de estudos integral. Sentara-se 
na beirada da cama, perplexo demais, desconfiado demais das boas notcias - como sempre estaria, pelo resto da vida - para se permitir uma verdadeira alegria.  
com prazer que vimos informar...
         E ento havia notado o erro: o nome na carta no era o seu. O endereo estava certo, assim como todos os outros detalhes, desde sua data de nascimento at 
seu nmero da previdncia social, tudo correto. Corretos tambm os dois prenomes - David, em homenagem ao pai, e Henry, em homenagem ao av -, datilografados com 
preciso por uma secretria que talvez tivesse sido interrompida por um telefonema ou por uma visita. Ou talvez o simples ar encantador da primavera  que a tivesse 
feito levantar os olhos do trabalho, sonhando com a noite, com o noivo trazendo flores e com seu prprio corao tremendo como uma folha. E ento a batida de uma 
porta, o som de passos, seu chefe. Assustada, ela se recompusera e voltara ao presente. Piscando os olhos, pressionara a barra de retorno da mquina e voltara ao 
trabalho.
         David Henry, ela j havia datilografado corretamente.
         Mas o sobrenome, McCallister, fora perdido.
         Ele nunca tinha contado a ningum. Fora para a faculdade e se matriculara, e ningum jamais ficara sabendo. Afinal, era seu nome verdadeiro. Mas David Henry 
era uma pessoa diferente de David Henry McCallister, disso ele sabia, e parecia claro que quem deveria freqentar a universidade era David Henry, uma pessoa sem 
histria, sem o fardo do passado. Um homem com a possibilidade de recomear do zero.
         E era exatamente isso que David tinha feito. O sobrenome o permitira; at certo ponto, o sobrenome o havia exigido: forte e meio nobre. Afinal, tinha havido 
um Patrick Henry, estadista e orador. Nos primeiros tempos, durante as conversas em que se sentia um peixe fora d'gua, cercado por pessoas mais ricas e bem relacionadas 
do que ele jamais seria, por pessoas sumamente  vontade no mundo em que ele tentava desesperadamente ingressar, s vezes David aludia, mesmo que nunca diretamente, 
a uma linhagem distante, porm de peso, invocando falsos ancestrais que lhe servissem de esteio e apoio.
         Essa tinha sido a ddiva que tentara dar a Paul: um lugar no mundo que ningum pudesse questionar.
         A gua entre seus ps era marrom, margeada por uma nauseante espuma branca. O vento comeou a soprar e sua pele ficou to porosa quanto seu terno. Ele tinha 
o vento no sangue, e a gua passava clere, aos rodopios, chegando mais perto. Ento veio a sensao cida na garganta e David ficou de quatro, com as pedras frias 
sob as mos, e vomitou no rio escuro e revolto, arquejando at no haver mais nada para expelir. Passou muito tempo ali, na escurido. Por fim, lentamente, levantou-se, 
limpou a boca com as costas da mo e voltou caminhando para a cidade.
          ...
         Passou a noite toda sentado no terminal da Greyhound, cochilando e acordando aos sobressaltos, e, de manh, pegou o primeiro nibus para a casa de sua infncia, 
na Virgnia Ocidental, enfurnando-se nas montanhas que o cercavam como um abrao. Depois de sete horas, o nibus parou onde sempre parava, na esquina da Main com 
a Vine, e partiu roncando, deixando David Henry em frente  mercearia. A rua era tranqila, com um jornal grudado num poste telefnico e mato brotando pelas rachaduras 
da calada. Ele havia trabalhado naquela loja em troca das refeies e do quarto no andar de cima: o garoto inteligente que descera da montanha para estudar, assombrado 
com o som dos sinos e do trnsito, com as donas-de-casa que chegavam para fazer compras, as crianas que se aglomeravam para comprar refrigerantes no balco, os 
homens que se reuniam  noite, mascando fumo, jogando cartas e matando o tempo com histrias. Mas agora aquilo havia desaparecido, tudo aquilo. Rabiscos vermelhos 
e pretos tinham sido pichados nas janelas cobertas por tbuas, ilegveis, sangrando na madeira.
          A sede queimava como fogo na garganta de David. Do outro lado da rua, dois homens de meia-idade, um careca, o outro com uma cabeleira rala e grisalha que 
lhe descia at os ombros, jogavam damas numa varanda. Ergueram os olhos, curiosos, desconfiados, e, por um instante, David se viu como eles o estariam vendo, com 
as calas manchadas e amarrotadas, a camisa com um dia e meio de uso, a gravata sumida, o cabelo amassado pelo sono intermitente no nibus. Ele no fazia parte daquele 
lugar, nunca fizera. No quartinho acima do armazm, com os livros espalhados na cama, costumava sentir tanta saudade de casa que no conseguia concentrar-se; no 
entanto, quando voltava  montanha, sua nsia no diminua. Na pequena cabana de madeira de seus pais, solidamente fincada na montanha, as horas se esticavam e cresciam, 
medidas apenas pelas batidas do cachimbo do pai na cadeira, pelos suspiros da me e pelos momentos de agitao de sua irm. Existiam a vida abaixo do riacho e a 
vida acima dele, e a solido desabrochada em toda parte, como uma flor soturna.
         David acenou com a cabea para os homens, deu meia-volta e comeou a andar, sentindo o olhar fixo dos dois.
         Uma chuva fina, delicada como a neblina, comeou a cair. David foi andando, embora suas pernas doessem. Pensou em seu consultrio iluminado, a um sonho 
ou uma vida inteira de distncia dali. Era fim de tarde. Norah ainda estaria no trabalho e Paul estaria em seu quarto, vertendo na msica sua solido e sua raiva. 
Eles o esperavam de volta nessa noite, mas David no chegaria. Teria que telefonar, mais tarde, quando soubesse o que estava fazendo. Poderia pegar outro nibus 
e voltar para eles nesse exato momento. Sabia disso, mas tambm lhe parecia impossvel que aquela vida existisse no mesmo mundo que esta.
         A calada desnivelada no tardou a ser interrompida por gramados, nos confins da cidade, num padro intermitente que lembrava uma espcie de cdigo Morse, 
e foi abandonada a intervalos at sumir por completo. Valas rasas margeavam a estrada estreita; David lembrou-se delas cheias de lrios, massas crescentes cor de 
laranja que pareciam labaredas. Cruzou as mos embaixo dos braos para aquec-las. Nessa regio vivia-se sempre a estao anterior. Os lilases de Pittsburgh e a 
chuva morna no estavam em parte alguma. Crostas de neve estalavam sob seus ps. David chutou as bordas enegrecidas das valas, onde havia mais neve, entremeada de 
ervas daninhas e detritos.
         Havia chegado  auto-estrada local. Os carros velozes obrigaram-no a andar pelo acostamento cheio de mato, respingando-o com uma nvoa fina de neve enlameada. 
No passado, aquela fora uma estrada tranqila, de onde podiam se ouvir os carros a quilmetros de distncia antes de serem avistados e, em geral, havia um rosto 
conhecido ao volante, o automvel reduzia, parava e a porta se abria para deix-lo entrar. Ele era conhecido, assim como sua famlia, e, depois da conversa rotineira 
- Como vo sua me, seu pai, como est o pomar este ano? -, caa um silncio em que o motorista e os outros passageiros pensavam com cuidado no que poderia e no 
poderia ser dito quele menino, to inteligente que obtivera uma bolsa de estudos, e com uma irm doente demais para ir  escola. Nas montanhas, e talvez no mundo 
em geral, havia uma teoria da compensao que dizia que, para tudo que era dado, outra coisa se perdia, de maneira imediata e visvel. Bom, voc herdou a cabea, 
mesmo que sua prima tenha herdado a beleza. Elogios sedutores como flores, mas espinhosos com seus opostos: , voc pode ser esperto, mas  feio como o diabo; voc 
pode ser bonito, mas no tem crebro. Compensao, equilbrio do universo. David ouvia acusaes em cada comentrio sobre seus estudos - ele havia recebido demais, 
havia tirado tudo - e, nos carros e caminhes, o silncio se avolumava at parecer impossvel que algum dia uma voz humana pudesse romp-lo.
         A estrada descreveu uma curva, depois outra: a estrada danante de June. As encostas foram ficando mais ngremes, os riachos desciam em cascata e as casas 
comearam a escassear, cada vez mais pobres. Apareceram os trailers que serviam de moradia, encravados nas encostas como bijuterias manchadas, nas cores turquesa, 
prata e amarela, tudo a se desbotar num tom creme. Ali estavam o sicmoro, a pedra em forma de corao, a curva em que trs cruzes brancas, decoradas com flores 
e fitas desbotadas, tinham sido cravadas no cho. David fez uma curva e subiu pela margem do riacho seguinte, o seu riacho. A trilha estava coberta de mato, quase, 
mas no totalmente desaparecida.
         Levou quase uma hora para chegar  velha casa, agora de um cinza-claro castigado pelo tempo, com o telhado afundado no centro da viga mestra e algumas ripas 
de madeira faltando. Parou, to intensamente envolto no passado que esperou rev-los: a me descendo a escada com uma bacia de zinco, para buscar gua para lavar 
a roupa, a irm sentada na varanda, o som do machado batendo nos troncos l onde o pai cortava lenha, fora do campo de viso. David fora para a escola e June tinha 
morrido, e os pais haviam permanecido ali enquanto fora possvel, relutando em abandonar a terra. Mas no haviam prosperado e, pouco depois, seu pai morrera, moo 
demais, e sua me finalmente se mudara para o Norte, rumo  casa da irm e  promessa de emprego nas fbricas de automveis. David raras vezes voltara de Pittsburgh 
para casa, e nunca mais havia aparecido desde a morte da me. O lugar era familiar como sua prpria respirao, mas agora estava to longe de sua vida quanto a Lua.
         O vento soprou mais forte. David subiu os degraus. A porta empenada pendia das dobradias e no fechava. Do lado de dentro, o ar era gelado, com cheiro 
de mofo. Havia um nico cmodo, e o jirau onde antes se dormia estava comprometido pela viga mestra afundada. As paredes tinham manchas de infiltrao, e pelas frestas 
ele entreviu o cu plido. David tinha ajudado o pai a construir o telhado, com o suor a escorrer pelo rosto, as mos sujas de seiva, os martelos elevando-se sob 
o sol e batendo no cedro recm-cortado, de aroma marcante.
         Ao que David soubesse, fazia anos que ningum ia l. Mas havia uma frigideira em cima do velho fogo, fria e com a gordura congelada, mas no ranosa, como 
ele notou ao se inclinar para cheir-la. No canto havia uma velha cama de ferro, coberta por uma colcha de retalhos surrada, igual  que sua me e sua av tinham 
feito. O tecido pareceu frio em suas mos, levemente mido. No havia colcho, apenas uma camada espessa de cobertores sobre as tbuas encaixadas na armao. O piso 
de tbuas fora varrido e havia trs ps de aafro-da-terra num pote na janela.
         Algum estava morando l. Uma brisa atravessou o cmodo, balanando os recortes de papel pendurados por toda parte - no teto, nas janelas, acima da cama. 
David deu uma volta, examinando-os com um sentimento crescente de admirao. Eram meio parecidos com os flocos de neve que ele havia recortado na escola, porm infinitamente 
mais complexos e detalhados, exibindo cenas inteiras, at o ltimo detalhe: a feira estadual, uma sala bem arrumada diante de uma lareira, um piquenique com exploses 
de fogos de artifcio. Delicados e precisos, eles conferiam  velha casa um ar de mistrio. David tocou na moldura rebuscada de uma cena que espoliava uma carroa 
de feno onde as meninas usavam toucas debruadas de renda e os meninos tinham as calas arregaadas at o joelho. Rodas-gigantes, carrossis em rodopio, carros percorrendo 
auto-estradas estavam pendurados acima da cama, balanando de leve nas correntes de ar, frgeis como asas.
         Quem teria feito aquilo, com tamanha habilidade e pacincia? David pensou em suas fotografias: ele se empenhava muito em captar cada momento, prend-lo, 
faz-lo durar, mas, quando as imagens emergiam na cmara escura, j estavam alteradas. Aquela altura j se haviam passado horas, dias, e ele se tornara uma pessoa 
um pouquinho diferente. No entanto, tivera tanta vontade de captar o vu esvoaante, de capturar o mundo no momento mesmo em que ele desaparecia, uma vez, outra 
e mais outra.
         Sentou-se na cama dura. Sua cabea continuava a latejar. Deitou-se e se cobriu com a colcha mida. Havia uma luz cinza e tnue em todas as janelas. A mesa 
nua, o fogo, tudo tinha um vago cheiro de orvalho. As paredes estavam cobertas por camadas de jornal que haviam comeado a descascar. A famlia de David tinha sido 
muito pobre; todos os seus conhecidos eram pobres. No era crime, mas bem que poderia ser. Era por isso que se guardavam coisas, motores velhos, latas de conserva 
e garrafas de leite, espalhados pelos gramados e pelas encostas: uma defesa contra a necessidade, uma precauo contra a carncia. Quando David era pequeno, um menino 
chamado Daniel Brinkerhoff tinha se enfiado numa geladeira velha e morrera sufocado. David lembrava-se das vozes abafadas e do corpo de um garoto da sua idade, deitado 
numa cabana muito parecida com essa, com velas acesas. A me havia chorado, o que no fizera o menor sentido para ele; David era pequeno demais para compreender 
o luto, a magnitude da morte. Mas se lembrava do que fora dito do lado de fora, porm ao alcance dos ouvidos de sua me, pelo pai angustiado que perdera o filho: 
Por que o meu menino? Ele era saudvel, era forte. Por que no aquela garota doentia? Se tinha que ser algum, por que no ela?
         David fechou os olhos. Era grande o silncio. Pensou em todos os sons que enchiam sua vida em Lexington: passos e vozes nos corredores e o telefone tocando; 
a campainha do seu bipe invadindo os sons do rdio do carro; e, em casa, havia sempre Paul ao violo e Norah com o fio do telefone enrolado no pulso, falando com 
os clientes; e, no meio da noite, mais telefonemas: precisavam dele no hospital, tinha que ir. E, levantando no escuro e no frio, ele ia. Ali no. Ali s havia o 
som do vento balanando a velha folhagem e, ao longe, o murmrio suave da gua no riacho, embaixo do gelo. Um galho bateu na parede externa. Com frio, David soergueu 
o corpo, apoiado nos calcanhares e na parte superior das costas, para soltar a colcha e cobrir-se melhor com ela. As fotos em seu bolso cutucaram-lhe o peito quando 
ele se virou, puxando mais a coberta. Mesmo assim, seu corpo tremeu por mais alguns minutos, pelo frio e pelo resduo do cansao. Fechou os olhos. S por alguns 
minutos, para descansar. Sob o bolor e o orvalho havia o aroma de alguma coisa doce, aucarada. Sua me tinha comprado acar na cidade, e ele quase pde sentir 
o gosto do bolo de aniversrio, amarelo e fofo, to doce e saboroso que parecia explodir em sua boca. Vizinhos vindos de casas mais abaixo, suas vozes subindo pelo 
vale, os vestidos alegres e multicores das mulheres roando na grama alta. Os homens de calas pretas e botas, as crianas espalhadas pelo ptio, desenfreadas, gritando; 
e, depois, todos se haviam juntado para fazer sorvete, acondicionado na salmoura sob a varanda, at congelar e eles levantarem a tampa de metal e empilharem bolas 
do creme frio e doce em suas tigelas.
         Talvez tivesse sido depois do nascimento de June, ou quem sabe depois de seu batismo, esse dia do sorvete. June era como os outros bebs, com as mozinhas 
balanando no ar, roando em seu rosto quando ele se curvava para beij-la. No calor daquele dia de vero, com o sorvete gelando embaixo da varanda, eles haviam 
comemorado. Mas veio o outono, depois o inverno, e June no se sentava de jeito nenhum. E veio seu primeiro aniversrio e ela era fraca demais para andar muito. 
Mais um outono, e uma prima veio fazer uma visita com o filho, quase da mesma idade, e o filho no s andava como corria pelos quartos e j comeava a falar, e June 
continuava sentada, observando o mundo, muito quieta. Foi quando souberam que havia alguma coisa errada. David se lembrava da me observando o priminho, com lgrimas 
silenciosas a lhe correr pelo rosto durante muito tempo, at respirar fundo, tornar a entrar no cmodo e seguir em frente. Essa era a tristeza que ele havia carregado 
consigo, pesada como uma pedra no corao. Essa era a tristeza de que tentara poupar Norah e Paul, e s fizera criar muitas outras.
         - David - dissera sua me naquele dia, secando depressa os olhos, para que ele no a visse chorar -, v tirar aqueles papis de cima da mesa e buscar lenha 
e gua l fora. Agora mesmo. Trate de ser til.
         E ele fora. E todos tinham continuado a levar sua vida naquele dia e em cada um dos outros. Haviam se retrado, sem nunca visitar ningum, a no ser num 
raro batismo ou funeral, at o dia em que Daniel Brinkerhoff se trancara na geladeira. Voltaram do velrio no escuro, subindo a trilha junto ao riacho pelo tato, 
de memria, June no colo do pai, e sua me nunca mais tornou a sair da montanha, a no ser no dia da mudana para Detroit...
           . . .
         - Voc no parece prestar mesmo para nada - dizia a voz, e David, ainda meio adormecido, sem saber ao certo se estava sonhando ou ouvindo vozes no vento, 
mexeu-se ao sentir o puxo nos pulsos, ao ouvir a voz que resmungava, e passou a lngua ressecada pelo cu da boca. A vida deles era difcil, os dias eram longos 
e cheios de trabalho, e no havia tempo nem pacincia para tristezas. Era preciso ir em frente, essa era a nica coisa que se podia fazer, e, j que falar em June 
no a traria de volta, eles nunca mais a mencionaram. David virou-se e seus pulsos doeram. Assustado, meio que acordou, abrindo os olhos e deixando-os vagar pelo 
cmodo.
         Ela estava em p junto ao fogo, a poucos metros de distncia, com uma farda de faxina verde-oliva, apertada nos quadris magros mas frouxa nas coxas. Usava 
um suter ferrugem, perpassado por fios luminosos laranja, e por cima uma camisa quadriculada masculina, verde e preta. Tinha cortado as pontas dos dedos das luvas 
e se deslocava ao redor do fogo com hbil eficincia, mexendo ovos na frigideira. Escurecera l fora - David tinha dormido por muito tempo - e havia velas espalhadas 
pela casa. A luz amarelada suavizava tudo. As cenas delicadas de papel balanavam de leve.
         A gordura espirrou e a menina levantou depressa a mo. David passou vrios minutos imvel, observando-a em cada vvido detalhe: os botes pretos do fogo 
que sua me havia esfregado, as unhas rodas da garota, as sombras das velas na -janela. Ela pegou sal e pimenta na prateleira acima do fogo e David se impressionou 
com o modo como a luz percorria sua pele, seu cabelo,  medida que ela entrava e saa da sombra, e com a natureza fluida de tudo que ela fazia.
         Ele deixara a cmera no cofre do hotel.
         Tentou sentar-se, mas novamente foi impedido pelos pulsos. Intrigado, virou a cabea: uma echarpe fina de chiffon vermelho o amarrava a um dos suportes 
da cama, as cordas de um esfrego de assoalho ao outro. A menina notou seus movimentos e se virou, batendo de leve na palma da mo com uma colher de pau.
         - Meu namorado vai chegar a qualquer momento - anunciou.
         David deixou a cabea cair pesadamente no travesseiro. Ela era magra, no mais velha do que Paul, talvez at mais nova, ali naquela casa abandonada. Juntando 
os trapos, pensou David, intrigado com o namorado e se apercebendo, pela primeira vez, de que talvez devesse sentir medo.
         - Como  seu nome? - perguntou.
         - Rosemary - disse ela, e assumiu um ar preocupado. - Pode acreditar ou no - acrescentou.
         - Rosemary - repetiu David -, ser que voc pode ter a gentileza de me desamarrar?
         - No - fez ela, em tom rpido e vivo. - De jeito nenhum.
         - Estou com sede.
         Ela o fitou por um momento; tinha olhos calorosos e arredios, castanhos, com um toque avermelhado. Foi l fora, deixando entrar na casa uma lufada de ar 
frio que alvoroou todos os recortes de papel. Voltou com uma caneca de metal cheia de gua do riacho.
         - Obrigado - disse David -, mas no posso beber deitado.
         Rosemary cuidou do fogo um instante, virando os ovos que espirravam, depois vasculhou uma gaveta, tirou um canudo de plstico de uma lanchonete qualquer, 
sujo numa das pontas, e o jogou na caneca de metal.
         - Acho que voc pode us-lo, se estiver mesmo com sede.
         David virou a cabea e sugou, sedento demais para fazer outra coisa alm de notar o gosto de poeira na gua. Rosemary virou os ovos num prato de metal azul 
salpicado de branco e se sentou  mesa. Comeu depressa, empurrando os ovos num garfo de plstico com o indicador da mo esquerda, delicadamente, sem pensar, como 
se David no estivesse presente. Por algum motivo, naquele momento, ele compreendeu que o namorado era uma inveno. Rosemary estava morando ali sozinha.
          Ele bebeu at o canudo secar, a gua parecendo um rio sujo em sua garganta.
         - Meus pais eram donos desta casa - disse, ao terminar. - Na verdade, ela ainda me pertence. Guardo a escritura num cofre. Tecnicamente, voc est invadindo 
uma propriedade.
          Ela sorriu e deps cuidadosamente o garfo no centro do prato. 
         - Ento voc veio aqui para reclam-la? Tecnicamente?
         O  cabelo e as faces da moa refletiam a luz das velas. Era muito jovem, mas tinha tambm algo de ardente e forte, uma coisa solitria, mas decidida.
         - No - respondeu David. Pensou em sua estranha viagem, iniciada numa manh corriqueira em Lexington, com Paul demorando uma eternidade no banheiro, Norah 
franzindo o cenho, calculando o saldo no talo de cheques sobre a bancada, e o caf fumegando, at a exposio de fotos, o rio e, agora, ali.
         - Ento, por que veio? - perguntou Rosemary, empurrando o prato para o centro da mesa. Tinha mos maltratadas, as unhas quebradas. David surpreendeu-se 
com o fato de elas terem conseguido criar o delicado e complexo trabalho artstico em papel que enchia o cmodo.
         - Meu nome  David Henry McCallister.
         Seu nome verdadeiro, no pronunciado durante muito tempo.
         - No conheo nenhum McCallister. Mas no sou daqui.
         - Quantos anos voc tem? Quinze?
         - Dezesseis - ela corrigiu. E depois, com ar afetado: - Dezesseis, vinte ou quarenta,  s escolher.
         - Dezesseis - repetiu David. - Tenho um filho mais velho que voc. Paul. Um filho, pensou - e uma filha.
         -  mesmo? - fez Rosemary, indiferente.
         Tornou a pegar o garfo, e ele a observou comer os ovos com garfadas muito delicadas, mastigando cuidadosamente; com uma emoo sbita e intensa, David reviveu 
um outro momento naquela mesma casa, observando sua irm June comer ovos do mesmo jeito. Tinha sido no ano da morte dela, quando lhe era difcil sentar-se  mesa, 
mas ela sentava; jantava com eles todas as noites, com a luz da lamparina nos cabelos louros e as mos fazendo gestos lentos, com uma graa deliberada.
         - Por que voc no me desamarra? - sugeriu ele, baixinho, com a voz rouca de emoo. - Eu sou mdico. Inofensivo.
         - Sei - disse a garota, e levou o prato de metal azul para a pia.
         Estava grvida, percebeu David, assustado, ao ver seu perfil quando ela se virou para pegar o sabo na prateleira. No de muito tempo, s uns quatro ou 
cinco meses, calculou.
         - Escute, eu sou mdico mesmo. H um carto na minha carteira. D uma olhada.
         Rosemary no respondeu, apenas lavou o prato e o garfo e secou cuidadosamente as mos numa toalha. David pensou em como era estranho estar ali, novamente 
deitado naquele lugar em que fora concebido, nascera e fora criado at a adolescncia, em como era estranho que sua famlia houvesse desaparecido to completamente 
e aquela menina, to jovem e durona, e to claramente perdida, o tivesse amarrado na cama.
         A moa atravessou o cmodo e tirou a carteira do bolso de David. Uma a uma, ps suas coisas sobre a mesa: dinheiro, cartes de crdito, a miscelnea de 
anotaes e pedacinhos de papel.
         - Aqui diz fotgrafo - comentou, lendo o carto dele sob a luz oscilante.
         -  isso mesmo. Tambm sou fotgrafo. Continue olhando.
         - Est bem - disse ela, segurando a carteira de identidade. - Quer dizer que voc  mdico. E da? Que diferena isso faz?
         Seu cabelo estava preso num rabo-de-cavalo e algumas mechas soltas caam-lhe em volta do rosto; ela as prendeu atrs das orelhas.
         - Isso significa que no vou machuc-la, Rosemary. Primeiro, jamais causar dano ou mal a algum.
         Ela lhe deu uma espiada rpida de avaliao.
         - Voc diria isso de qualquer maneira. Mesmo que pretendesse me fazer mal.
         David a estudou, o cabelo despenteado, os olhos lmpidos e escuros.
         - H umas fotografias aqui, em algum lugar... - disse, mexendo-se e sentindo a ponta aguada do envelope atravs do tecido do bolso da camisa. - Por favor, 
d uma olhada. So fotografias da minha filha. Ela tem mais ou menos a sua idade.
         Quando Rosemary ps a mo em seu bolso, ele tornou a sentir seu calor e seu perfume, natural, mas limpo. O que  que seria aucarado?, perguntou-se, relembrando 
o sonho e a bandeja de bombas de creme por que havia passado no vernissage de sua exposio.  - Como  o nome dela? - perguntou Rosemary, examinando primeiro uma 
foto, depois a outra.
         - Phoebe.
         - Phoebe.  bonito. Ela  bonita. Ela tem o mesmo nome da me?
         - No - disse David, recordando a noite do parto e Norah a lhe dizer, pouco antes do efeito da anestesia, os nomes que queria para seu filho. Caroline havia 
escutado e respeitado esse desejo. - Ela recebeu esse nome em homenagem a uma tia-av. Do lado materno. Uma pessoa que no conheci.
         - Eu recebi meu nome em homenagem a minhas duas avs - disse Rosemary, baixinho. O cabelo preto tornou a cair no rosto plido e ela o empurrou para trs, 
mantendo o dedo enluvado perto da orelha, e David a imaginou sentada com a famlia ao redor de outra mesa iluminada. Sentiu vontade de abra-la, lev-la para casa, 
proteg-la. - Rose do lado do meu pai, Mary do lado materno.
         - Sua famlia sabe que voc est aqui?
         Ela abanou a cabea.
         - No posso voltar - disse, com a voz tomada de angstia e raiva. - Nunca mais vou poder voltar. Nem voltarei.
         Parecia muito nova, sentada  mesa, com as mos fechadas sem cerrar os punhos e uma expresso sombria, apreensiva.
         - Por que no?
          Rosemary tornou a balanar a cabea e tocou a foto de Phoebe.
         - Voc disse que ela  da minha idade?
         - Perto, eu acho. Ela nasceu em 6 de maro de 1964.
         - Eu nasci em fevereiro de 1966 - disse a menina. Suas mos tremeram de leve ao pr as fotos na mesa. - Mame estava planejando uma festa de debutante para 
mim. Ela adora toda essa coisa de babadinhos cor-de-rosa.
         David a viu engolir em seco, tornar a empurrar o cabelo para trs da orelha, olhar pela janela escura. Sentiu vontade de consol-la, como tantas vezes quisera 
consolar outras pessoas - June, sua me, Norah -, mas agora, tal como ento, isso no era possvel. Imobilidade e movimento: havia alguma coisa ali, alguma coisa 
que ele precisava saber, mas seus pensamentos continuavam dispersos. Sentia-se aprisionado, fixado no tempo, como qualquer de suas fotografias, s que o momento 
que o retinha era profundo e doloroso. Ele s havia chorado por June uma vez, de p com a me na encosta da montanha, sob o vento cortante do entardecer, segurando 
a Bblia numa das mos enquanto recitava o Pai- Nosso diante da terra recm-revolvida. Havia chorado com a me, que passara a detestar o vento desde aquele dia, 
e depois ela havia escondido sua tristeza e seguido em frente. A vida era assim, e eles no questionavam isso.
         - A Phoebe  minha filha - disse, assombrado ao se ouvir falar, mas irracionalmente compelido a contar sua histria, aquele segredo que havia guardado por 
tantos anos. - Mas no a vejo desde o dia em que ela nasceu.
         Hesitou, depois se obrigou a falar:
         - Eu a dei. Ela tem sndrome de Down, o que significa que  retardada. Por isso eu a dei. Nunca contei a ningum.
         O  olhar de Rosemary foi fulminante.
         - Para mim isso  fazer mal a uma pessoa.
         - . Para mim tambm - disse David.
         Os dois passaram muito tempo em silncio. Para onde quer que olhasse, ele se recordava da famlia: o calor do hlito de June em seu rosto, sua me cantando 
ao dobrar a roupa lavada na mesa, as histrias do pai ecoando naquelas paredes. Desaparecidos, todos desaparecidos. E sua filha tambm. David lutou contra a tristeza 
pela fora do hbito, mas as lgrimas lhe rolaram pelas faces e ele no pde cont-las. Chorou por June, e chorou pelo momento na clnica em que entregara Phoebe 
a Caroline Gill e a vira partir. Rosemary ficou sentada  mesa, sria e quieta. Num dado instante, seus olhos se cruzaram e David sustentou o olhar da menina, num 
momento de estranha intimidade. Lembrou-se de Caroline a observ-lo da porta enquanto ele dormia, mostrando no rosto uma meiguice nascida do amor. David poderia 
ter descido a escada do museu com ela e tornado a entrar em sua vida, mas tambm perdera esse momento.
          - Desculpe - disse, tentando controlar-se. - Faz muito tempo que no venho aqui.
         Rosemary no respondeu e ele se perguntou se aquilo lhe pareceria loucura.
         Respirou fundo.
         - Para quando  o beb? perguntou.
         Os olhos escuros se arregalaram de surpresa.
         - Daqui a cinco meses, eu acho.
         - Voc o deixou, no foi? - perguntou David, baixinho. - Seu namorado. Talvez ele no quisesse o beb.
         Rosemary desviou o rosto, mas no antes de ele ver seus olhos encherem-se de lgrimas.
         - Desculpe. No tive a inteno de me intrometer - disse ele, na mesma hora.
         Ela abanou de leve a cabea.
         - Tudo bem. No  nada demais.
         - Onde est ele? - indagou David, mantendo a voz baixa. - Onde  sua casa?
         - Na Pensilvnia - respondeu Rosemary, aps uma longa pausa. Respirou fundo, e David compreendeu que sua histria, sua tristeza, tornara possvel que a 
menina revelasse a dela. - Perto de Harrisburg. Eu tinha uma tia aqui na cidade. A irm de mame, Sue Wallis. Agora ela est morta. Mas, quando eu era pequena, ns 
vnhamos aqui a esta casa. Costumvamos perambular por todas essas montanhas. A casa estava sempre vazia. Costumvamos vir brincar aqui quando ramos pequenas. Foi 
uma poca boa. Este foi o melhor lugar em que eu pude pensar.
         David balanou a cabea, recordando o silncio farfalhante do arvoredo. Sue Wallis. Uma imagem veio  tona: uma mulher subindo o morro, carregando uma torta 
de pssego coberta por um pano de prato.
         - Desamarre-me - disse, ainda em voz baixa.
         Rosemary deu uma risada amarga, enxugando os olhos.
         - Por qu? Por que eu faria isso, sozinha aqui com voc e sem ningum por perto? No sou uma completa idiota.
         Levantou-se e pegou a tesoura e uma pequena pilha de papis na prateleira acima do fogo. Fiapos brancos voavam  medida que ela ia cortando. O vento soprou 
e as chamas das velas oscilaram nas correntes de ar. O rosto de Rosemary era firme, resoluto, concentra do e determinado como o de Paul, quando ele tocava sua msica, 
separando-se do mundo de David e buscando um outro lugar. A tesoura movia-se clere na mo dela e um msculo se contraa em sua mandbula. At ento no havia ocorrido 
a David que ela pudesse feri-lo.
         - Essas coisas de papel que voc faz so lindas - disse ele.
         - Foi minha av Rose quem me ensinou. O nome  Scherenschnitte. Ela cresceu na Sua, onde eu acho que fazem isso o tempo todo.
         - Ela deve estar preocupada com voc.
         - Ela morreu. Morreu no ano passado.
         Fez uma pausa, concentrada nos recortes, e acrescentou:
         - Gosto de fazer isso. Me ajuda a lembrar dela.
         David balanou a cabea.
         - Voc comea com uma idia? - perguntou.
         - Est no papel. Eu no a invento, eu a encontro.
         - Voc a encontra. Certo. Entendo isso. Quando tiro fotografias,  assim. Elas j esto l, eu s as descubro.
         - Isso mesmo - disse Rosemary, virando o papel. -  exatamente assim.
         - O que voc vai fazer comigo?
         Ela no respondeu, continuou recortando.
         - Escute, Rosemary. Por favor, desamarre-me.
         Ela ps o pote no cho e tornou a pegar a tesoura.
         - Como  que voc pde d-la? - perguntou.
         A luz refletiu nas lminas da tesoura. David lembrou-se do brilho do bisturi ao fazer a episiotomia, lembrou-se de como havia flutuado para fora de si, 
para assistir  cena do alto, de como os acontecimentos daquela noite haviam desencadeado o rumo de sua vida, uma coisa levando a outra, portas se abrindo onde no 
havia nenhuma, enquanto outras se fechavam, at ele chegar a esse momento especfico, com uma estranha procurando o desenho intricado que se escondia no papel e 
esperando a resposta dele, e no havia nada que ele pudesse fazer nem qualquer lugar para onde pudesse ir.
         -  isso que a preocupa? Que voc d o seu beb?
         - Nunca. Eu nunca farei isso - respondeu ela ferozmente, com o rosto decidido. Portanto, algum tinha feito aquilo com ela, de um modo ou de outro, e a 
jogara fora como uma carga alijada, para afundar ou nadar. Aos 16 anos, grvida e sozinha, sentada quela mesa.
         - Eu percebi que tinha sido um erro - disse David. - Mas j era tarde demais.
         - Nunca  tarde demais.
         - Voc tem 16 anos. s vezes, acredite,  tarde demais.
         A expresso de Rosemary contraiu-se por um momento e ela no respondeu, apenas continuou a recortar; e, no silncio, David recomeou a falar, primeiro tentando 
explicar a neve e o choque, e o bisturi brilhando na luz ofuscante. Como ele se postara fora de si mesmo e se observara movendo-se no mundo. Como havia acordado 
todas as manhs, durante 18 anos de sua vida, achando que talvez esse fosse o dia em que conseguiria consertar as coisas. Mas Phoebe se fora e ele no conseguia 
encontr-la, portanto, como contar a Norah? O segredo se havia infiltrado no casamento deles como uma videira insidiosa e retorcida; ela bebia demais, e depois comeara 
a ter aventuras romnticas, primeiro com aquele corretor srdido na praia, depois com outros; ele havia tentado no notar, perdo-la, por saber que, num sentido 
muito real, a culpa era sua. Uma fotografia aps outra, como se ele pudesse deter o tempo, ou fazer uma imagem to perfeita que obscurecesse o momento em que se 
virara para Caroline Gill e lhe entregara sua filha.
         Sua voz subindo e descendo. Depois que comeou, David no conseguiu parar, assim como no conseguiria deter a chuva, o riacho que descia a encosta da montanha 
ou os peixes, persistentes e esquivos, que deslizavam cleres na correnteza sob o gelo. Corpos em movimento, pensou, aquele velho retalho de fsica do cientfico. 
Ele havia entregado sua filha a Caroline Gil e fora isso que o trouxera para esse lugar, anos depois, para essa menina com seu moto prprio, essa menina que resolvera 
que sim, por um breve instante de descarga no banco traseiro de um carro, ou no quarto de uma casa silenciosa, essa menina que depois se levantara, ajeitando a roupa, 
sem saber que aquele momento j estava moldando sua vida.
         Rosemary recortava e ouvia, O silncio dela o libertou. David falou como um rio, como uma enxurrada, com as palavras se precipitando pela velha casa com 
uma fora e uma vitalidade que ele no conseguia deter. Em algum momento, recomeou a chorar, e tambm no pde impedir isso. Rosemary no teceu nenhum comentrio. 
Ele falou at as palavras ficarem mais lentas, minguarem, finalmente cessarem.
         O silncio avolumou-se.
         Rosemary no falou. A tesoura reluziu. O papel parcialmente recortado caiu da mesa no cho quando ela se levantou. David fechou os olhos, com o medo aumentando, 
porque vira a raiva nos olhos da menina e porque tudo que havia acontecido fora culpa sua.
         Os passos de Rosemary, depois o metal, frio e brilhante como gelo, deslizando em sua pele.
         A tenso nos pulsos relaxou. David abriu os olhos e a viu recuando, os olhos brilhantes e desconfiados fixados nos dele.
         - Est bem. Voc est livre - disse ela.
         
         
III
         
         - PAUL - CHAMOU NORAH. SEUS SALTOS SOARAM NUM CLARO STACCATO nos degraus encerados e ela parou  porta, esguia e elegante em seu costume azul-marinho de 
saia justa e ombreiras volumosas. Pelos olhos entreabertos, Paul viu o que ela estava vendo: roupas espalhadas no cho, uma cascata de discos e partituras, seu velho 
violo encostado num canto. Norah abanou a cabea e deu um suspiro. - Levante, Paul. Agora mesmo.
         - Estou doente - resmungou ele, puxando a coberta sobre a cabea e fingindo estar rouco. Pela trama frouxa do cobertor fino ainda podia v-la, com as mos 
nos quadris. A luz matinal incidia sobre seu cabelo, no qual ela fizera reflexos na vspera e que brilhava com toques de vermelho e dourado. Paul a ouvira ao telefone 
com Bree, descrevendo as pequenas mechas embrulhadas em papel laminado e aquecidas.
         Ela estivera refogando carne moda enquanto falava, com a voz serena e os olhos vermelhos de tanto chorar. O pai passara trs dias sumido, sem que ningum 
soubesse se estava vivo ou morto. E ento, na noite anterior, chegara em casa e entrara pela porta como se nunca houvesse desaparecido, e as vozes tensas dos dois 
haviam passado horas enchendo a casa.
         - Escute - disse-lhe a me nesse momento, olhando para o relgio. - Sei que voc est to pouco doente quanto eu. Eu gostaria de dormir o dia inteiro. Deus 
sabe como eu gostaria! Mas no posso, nem voc. Portanto, trate de sair dessa cama e se vestir. Eu o deixo na escola.
         - Minha garganta est queimando - ele insistiu, com a voz mais rouca que conseguiu fabricar.
         Norah hesitou, fechou os olhos e deu outro suspiro, e Paul soube que tinha vencido.
         - Se voc vai ficar em casa, trate de ficar em casa - advertiu-o. - Nada de zanzar por a com aquele seu quarteto. E, escute bem, voc tem que limpar este 
chiqueiro. Estou falando srio, Paul. J estou encarando tudo que eu agento encarar neste momento.
         - Certo - resmungou ele. - T. Eu limpo.
          Norah ficou mais um instante parada, sem falar.
         -  difcil - disse, finalmente. - Tambm  difcil para mim. Eu ficaria com voc, Paul, mas prometi levar Bree ao mdico.
         Nessa hora ele se apoiou nos cotovelos, alertado pelo tom sombrio da me.
          -  Ela est legal?
          Norah fez que sim, mas tinha o rosto voltado para a janela e no o fitou nos olhos.
         - Acho que est. Mas ela tem feito uns exames e anda meio preocupada.  natural. Na semana passada prometi que iria com ela. Antes de toda essa histria 
com o seu pai.
         - Tudo bem - disse Paul, lembrando-se de fazer a voz ficar rouca. - Voc deve ir com ela. Vou ficar legal.
         Falou em tom seguro, mas parte dele esperava que a me no prestasse ateno, que quisesse ficar em casa.
         - No deve demorar muito. Eu volto direto para casa.
          - Cad o papai?
          Ela abanou a cabea.
          - No fao a menor idia. No est aqui. Mas o que  que isso tem de incomum?
          Paul no respondeu, apenas tornou a deitar e fechou os olhos. No muita coisa, pensou com seus botes. No tem nada de incomum.
         A me tocou-o de leve no rosto, mas Paul no se mexeu, e ento ela se foi, deixando uma sensao fria no lugar em que pousara a mo em sua face. La embaixo 
houve um bater de portas; a voz de Bree elevou-se no vestbulo. Nos ltimos anos, as duas tinham ficado muito unidas, sua me e Bree, to unidas que at comearam 
a se parecer, Bree com reflexos no cabelo tambm e uma pasta balanando na mo. Ela ainda era uma pessoa muito maneira e equilibrada, ainda era a que se dispunha 
a correr riscos, a que lhe dissera para seguir seu corao e se candidatar  Juilliard, como ele queria fazer. Todo mundo gostava de Bree, de seu esprito de aventura, 
sua exuberncia. Ela arranjava muitos negcios. Bree e sua me eram foras complementares, Paul a ouvira dizer. E percebia isso. As duas seguiam pela vida como ponto 
e contraponto, uma impossvel sem a outra, uma sempre puxando pela outra. O mesmo com as vozes delas, misturando-se para l e para c, e depois o riso tristonho 
de Norah, a porta batendo. Paul sentou-se e se espreguiou. Livre.
         A casa estava silenciosa, o boiler fazendo cliques. Paul desceu e parou diante da luz fria da geladeira, comendo com as mos macarro com queijo guardado 
num pirex e examinando as prateleiras. No havia grande coisa. No congelador, encontrou seis pacotes de biscoitos de chocolate com menta. Comeu um punhado, enxaguando-os 
com leite bebido diretamente na garrafa de plstico. Depois, outro punhado, balanando a garrafa de leite na mo, e voltou a passar pela sala, onde as cobertas do 
pai estavam arrumadas numa pilha sobre o sof, a caminho da sala ntima.
         A garota continuava l, dormindo. Paul enfiou outro biscoito na boca, deixando o chocolate e a menta derreterem devagar, enquanto a examinava. Na noite 
anterior, as vozes conhecidas e irritadas dos pais haviam chegado at seu quarto e, embora estivessem discutindo, o bolo que ele sentira na garganta ao pensar no 
pai morto em algum lugar, no pai desaparecido para sempre, esse bolo se desfizera no mesmo instante. Paul tinha levantado da cama e comeado a descer a escada, mas 
havia parado no patamar para observar a cena: o pai com uma camisa branca que passara dias sem ser lavada, a cala social manchada de lama por toda parte, amarrotada 
e suja, a barba por fazer e o cabelo mal penteado; a me de chinelos e robe de cetim cor de pssego, que fazia dobras suaves em seus braos cruzados, os olhos espremidos, 
e aquela garota, aquela estranha parada no vo da porta, com um casaco preto grande demais, segurando a extremidade das mangas com as pontas dos dedos. As vozes 
de seus pais misturadas, elevando-se. A garota havia olhado para cima, para alm dos turbilhes de raiva. Os olhos dos dois tinham se encontrado. Paul a fitara, 
examinando-a: a palidez e o olhar inseguro, as orelhas delicadamente esculpidas. Os olhos eram de um castanho muito claro, muito cansados. Ele sentira vontade de 
descer a escada e segurar o rosto da menina entre as mos.
         - Trs dias - dizia Norah -, e depois voc volta para casa como... meu Deus do cu, David, olhe para voc.., desse jeito, e com essa moa. Grvida, voc 
disse? E eu devo receb-la sem fazer nenhuma pergunta?
         A garota se encolhera nessa hora e desviara o rosto, e os olhos de Paul tinham descido at sua barriga, bastante chata embaixo do casaco, s que a moa 
havia descansado protetoramente uma das mos no estmago e ele tinha percebido a ligeira protuberncia por baixo do suter. Paul ficara muito quieto. A discusso 
havia continuado; parecera durar muito tempo. Por fim, calada e espremendo os lbios, sua me tinha tirado lenis, cobertores e travesseiros do armrio da roupa 
de cama e os jogara pela escada para seu pai, que havia segurado a menina muito formalmente pelo cotovelo e a conduzira at a sala ntima. Agora ela dormia no sof-cama, 
com a cabea virada de lado e uma das mos descansando perto do rosto. Paul a estudou, observou como suas plpebras se moviam, o lento subir e descer do peito. Ela 
estava deitada de costas e sua barriga se elevava como uma pequena onda. Paul sentiu-se excitado e ficou com medo. Tivera relaes com Lauren Lobeglio seis vezes, 
desde maro. Ela passara semanas rondando os ensaios do quarteto, a observ-lo sem dizer nada, uma garota bonita, largada, esquisita. Uma tarde, ela havia ficado 
depois de o resto da banda ir embora, e eram s os dois no silncio da garagem, com a luz a se mover pelas folhas do lado de fora e a criar desenhos com sombras 
no piso de concreto. Lauren era estranha, mas sensual, com sua cabeleira cheia e longa e os olhos negros. Paul tinha se sentado na cadeira velha do jardim, afinando 
as cordas do violo e pensando se deveria ir at onde ela estava, parada junto  parede das ferramentas, e beij-la.
         Mas Lauren  que tinha atravessado a garagem. Parara um instante diante dele, depois sentara em seu colo, levantando a saia, revelando as pernas esguias 
e brancas. Era como as pessoas diziam: Lauren Lobeglio transava, se gostasse de voc. Paul nunca havia acreditado que fosse mesmo verdade, mas ali estava ele, apalpando-a 
por baixo da camiseta, tocando a pele morna, os seios macios sob suas mos.
         Aquilo no estava certo. Ele sabia, mas era como levar um tombo: depois de comear, a gente no conseguia parar, at alguma coisa nos deter. Lauren tinha 
continuado a rondar como antes, s que agora o ar ficava carregado e, quando os dois se viam sozinhos, Paul atravessava a garagem e a beijava, deslizando as mos 
pela pele lisa e acetinada das costas dela.
         A garota na cama suspirou, mexendo os lbios. Chave de cadeia, seus amigos o haviam alertado a respeito de Lauren. Especialmente Duke Madison, que tinha 
abandonado a escola para se casar com a namorada no ano anterior, que j quase no tocava piano e que, quando o fazia, ficava com uma cara abatida, olhando para 
o relgio. Se voc a engravidar, est mais do que ferrado.
         Paul examinou a garota, sua palidez e seu cabelo comprido e escuro, as sardas dispersas. Quem era ela? Seu pai, metdico e previsvel como o tiquetaque 
de um relgio, simplesmente desaparecera. No segundo dia, sua me havia chamado a polcia, que fora evasiva e irnica, at a maleta de David ser encontrada na chapelaria 
do museu em Pittsburgh e a mala e a mquina fotogrfica no hotel. Depois disso 1 haviam levado a queixa a srio. Seu pai tinha sido visto na recepo, discutindo 
com uma mulher de cabelo preto. Descobrira-se que ela era crtica de arte; sua crtica sobre a exposio havia sado nos jornais de Pittsburgh, e no fora nada boa.
         Nada pessoal, ela dissera  polcia.
         E ento, na noite da vspera, a chave tinha girado na fechadura e seu pai havia entrado em casa com essa garota grvida, que ele dizia ter acabado de conhecer, 
uma garota cuja presena no conseguia explicar. Ela precisa de ajuda, dissera ele, tenso.
         Existem muitas maneiras de ajudar, sua me havia assinalado, falando da garota como se ela no estivesse parada no vestbulo, com seu casaco grande demais. 
Voc pode dar dinheiro. Pode lev-la a um lugar para mes solteiras. Uma pessoa no desaparece por dias seguidos, sem dizer uma palavra, e depois aparece com uma 
estranha grvida. Pelo amor de Deus, David, ser que voc no faz a menor idia? Ns chamamos a policia! Achamos que voc estava morto!
         Talvez eu estivesse, disse ele, e a estranheza dessa resposta sufocara os protestos de Norah, deixando Paul paralisado na escada.
         E agora ali estava ela, dormindo, alheia, e dentro dela um beb crescia em seu mar escuro. Paul estendeu a mo, tocou de leve o cabelo da garota e deixou 
a mo pender. Sentiu uma nsia repentina de se deitar ao lado dela, de abra-la. De algum modo, no era como com a Lauren, no tinha a ver com sexo; era s uma 
vontade de senti-la perto, de sentir sua pele e seu calor. Teve vontade de acordar ao lado da garota, de passar a mo sobre a curva ascendente de sua barriga, de 
afagar seu rosto e segurar sua mo.
         De descobrir o que ela sabia sobre seu pai.
         Os olhos da garota se abriram com uma piscadela e, por um momento, ela o fitou sem v-lo. Depois, sentou-se depressa, passando as mos no cabelo. Usava 
uma das camisetas velhas e surradas de Paul, azul e com a logomarca dos Kentucky Wildcats na frente, uma camiseta que ele costumava usar uns dois anos antes, quando 
corria na pista. Os braos dela eram compridos e magros. Paul vislumbrou-lhe a axila, macia e coberta de plos curtos, e a suave curva ascendente de seu seio.
         - O que  que est olhando? - fez ela, e ps os ps no cho.
         Ele abanou a cabea, sem conseguir falar.
         - Voc  o Paul. Seu pai me falou de voc.
         - Falou? - perguntou ele, odiando a carncia em sua voz. - E disse o qu?
         A garota deu de ombros, empurrando o cabelo para trs das orelhas, e se ps de p.
         - Vamos ver. Voc  voluntarioso. Voc o detesta. Voc  um gnio no violo.
         Paul sentiu o rubor subir-lhe pelo rosto. Em geral, achava que o pai nem sequer o via, ou s via os pontos em que ele no atendia s suas expectativas.
         - No o detesto. Ele  que me detesta.
         A garota se inclinou para recolher a roupa de cama, depois sentou-se com ela no colo, olhando em volta.
         -  bonito aqui - disse. - Um dia eu vou ter um lugar assim.
         Paul deu uma risada assustada.
         - Voc est grvida - disse. Era seu prprio medo aparecendo no cmodo, o medo que aumentava toda vez que ele atravessava a garagem at chegar a Lauren 
Lobeglio, trmulo, atrado pela fora irresistvel de seu prprio desejo.
         - Certo. E da? Estou grvida, no morta.
         Ela falou num tom de desafio, mas soou assustada, to assustada quanto Paul s vezes se sentia, ao acordar no meio da noite sonhando com Lauren, toda quente 
e sedosa, sussurrando em seu ouvido, e saber que jamais conseguiria parar, embora os dois estivessem a caminho da desgraa.
         - Mas bem que poderia estar - disse ele.
         A garota o fitou bruscamente, com lgrimas de verdade nos olhos, como se ele a houvesse esbofeteado.
         - Desculpe, eu no tive inteno de dizer isso - fez Paul.
         Ela continuou a chorar.
         - O que voc est fazendo aqui, afinal? - perguntou ele, com raiva das lgrimas da garota, de sua prpria presena. - Quer dizer, quem voc pensa que , 
pra se grudar no meu pai e aparecer aqui?
         - Acho que no sou ningum - disse a moa, mas o tom de Paul a havia assustado, de modo que ela enxugou as lgrimas e ficou mais dura, mais distante. - 
E no pedi para vir para c. Foi idia do seu pai.
         - No faz sentido - objetou Paul. - Por que ele faria isso?
         Ela deu de ombros.
         - Como  que eu vou saber? Eu estava morando naquela casa velha onde ele cresceu e ele disse que eu no podia mais ficar l. E a casa  dele, certo? O que 
 que eu poderia dizer? De manh, andamos at a cidade e ele comprou passagens de nibus, e aqui estamos. O nibus foi um porre. Levou a vida inteira para fazer 
todas aquelas conexes malucas.
         Ela puxou o cabelo comprido para trs e o prendeu num rabo-de-cavalo, e Paul ficou observando, pensando em como as orelhas dela eram bonitas, perguntando 
a si mesmo se seu pai tambm a achava bonita.
         - Que casa velha? - indagou, sentindo alguma coisa afiada e quente no peito.
         - Eu j disse. Aquela onde ele cresceu. Eu estava morando l. No tinha outro lugar para ir - acrescentou, olhando para o cho.
         Foi quando Paul sentiu-se invadir por alguma coisa, uma emoo que no sabia denominar. Inveja, talvez, pelo fato de aquela garota, aquela estranha magra 
e plida de orelhas bonitas, ter estado num lugar que era importante para o pai dele, um lugar que ele prprio nunca tinha visto. Um dia eu o levo l, prometera 
seu pai, mas os anos tinham passado e ele nunca mais voltara a mencion-lo. S que Paul nunca havia esquecido o modo como o pai se sentara em meio  desordem da 
cmara escura, recolhendo as fotos uma a uma, com todo o cuidado. Minha me, Paul, sua av. Ela levava uma vida dura. Eu tinha uma irm, sabia? O nome dela era June. 
June tinha talento para cantar, para a msica, assim como voc. At hoje ele se lembrava do cheiro do pai naquela manh, limpo, j vestido para ir para o hospital, 
mas sentado no cho da cmara escura, conversando, como se dispusesse de todo o tempo do mundo. Contando uma histria que Paul nunca tinha ouvido.
         - Meu pai  mdico - fez Paul. - Ele gosta de ajudar as pessoas, s isso.
         A garota acenou com a cabea e o olhou de frente, com a expresso carregada de alguma coisa... pena dele, foi o que Paul pensou entender, e uma pontada 
fina e quente o percorreu at a ponta dos dedos.
         - O que foi? - perguntou.
         Ela abanou a cabea.
         - Nada. Voc tem razo. Eu precisava de ajuda. S isso.
         Uma mecha de cabelo soltou-se do rabo-de-cavalo e caiu sobre o rosto dela, muito escura, com toques avermelhados, e Paul se lembrou de como o achara macio 
ao toc-lo enquanto a garota dormia, macio e quente, e resistiu  nsia de estender a mo e lhe ajeitar a mecha atrs da orelha.
         - Meu pai teve uma irm - disse Paul, relembrando a histria e a voz suave e firme do pai, jogando verde para ver se era verdade, se ela estivera mesmo 
na casa.
          - Eu sei. June. Ela est enterrada numa encosta do morro, mais acima da casa. Tambm fomos l.
         A fisgada fina alargou-se, deixando a respirao de Paul fraca e arfante. Que importncia tinha ela saber disso? Que diferena fazia? No entanto, no conseguia 
parar de imagin-la l, subindo uma encosta, seguindo seu pai at aquele lugar onde ele nunca estivera. -        E da? E da se voc esteve l, o que  que tem 
isso?
         Por um instante, a menina pareceu prestes a responder, depois virou-se e comeou a cruzar a sala em direo  cozinha, O cabelo escuro, feito uma corda 
comprida, balanava em suas costas. Os ombros eram magros e delicados, e ela andava devagar, com uma graa cuidadosa, feito uma bailarina.
          -  Espere - chamou Paul, mas, quando ela parou, no soube o que lhe dizer.
          - Eu precisava de um lugar para ficar - disse a garota, baixinho, olhando para trs por cima do ombro. -  s isso que deve saber sobre mim, Paul.
         Ele a viu entrar na cozinha, ouviu a porta da geladeira abrir e fechar. Depois, subiu e pegou a pasta de arquivo que havia escondido na gaveta de baixo, 
cheia de fotos que havia guardado da noite em que tinha conversado com o pai.
         Pegou as fotografias e o violo e foi para a varanda, sem camisa e descalo. Sentou-se no balano e tocou, de olho na garota que andava pelos cmodos l 
dentro: a cozinha, a sala de estar, a sala de jantar. Mas ela no fez quase nada, s tomou um pouco de iogurte e passou muito tempo parada em frente  estante de 
livros de Norah, at pegar um romance e se sentar no sof.
         Paul continuou a tocar. A msica o acalmava. Ele entrava num outro plano, no qual suas mos pareciam mover-se automaticamente. A nota seguinte estava bem 
ali, e depois a seguinte, e mais outra. Ele chegou ao fim da msica e parou, de olhos fechados, deixando as notas morrerem lentamente no ar.
         Nunca mais. Aquela melodia, aquele momento, nunca mais.
         - Uau!
         Paul abriu os olhos e a viu encostada no batente da porta. Ela abriu a porta de tela e entrou na varanda, segurando um copo d'gua, e se sentou.
         - Puxa, o seu pai tinha razo - comentou. - Isso foi incrvel.
         - Obrigado - disse Paul, baixando a cabea para esconder seu prazer e tocando um acorde. A msica o havia libertado; ele j no estava com tanta raiva. 
- E voc? Voc sabe tocar?
         - No. Antigamente eu estudava piano.
         - Ns temos um piano - disse ele, fazendo um sinal com a cabea em direo  porta. - V em frente.
         Ela sorriu, embora os olhos continuassem srios.
         - Tudo bem. Obrigada. No estou com vontade. Depois, voc toca mesmo muito, muito bem. Que nem um profissional. Eu ficaria sem jeito de martelar Pour Elise, 
ou coisa parecida.
         Paul tambm sorriu.
         - Pour Elise. Eu conheo essa. Podamos fazer um dueto.
         - Um dueto - repetiu ela, balanando a cabea, franzindo o cenho de leve. Depois, levantou os olhos. - Voc  filho nico? - perguntou.
         Paul levou um susto.
         - Sim e no. Quero dizer, eu tive uma irm. Gmea. Ela morreu.
         Rosemary balanou a cabea.
         - Voc pensa nela?
         -  claro - disse Paul, que se sentiu constrangido e desviou o olhar. - No nela, propriamente. Quero dizer, nunca a conheci. Mas penso em como ela poderia 
ter sido. Enrubesceu, chocado por ter revelado tanto quela menina, quela estranha que havia transtornado a vida deles todos, quela garota de quem nem ao menos 
gostava.
         - Ento, t. Agora  sua vez - recomps-se Paul. - Diga-me alguma coisa pessoal. Diga-me uma coisa que o meu pai no saiba.
         Rosemary lanou-lhe um olhar curioso.
         - No gosto de banana - respondeu enfim, e Paul riu, e ela tambm. - No,  verdade, no gosto. O que mais? Quando eu tinha cinco anos, ca da bicicleta 
e quebrei o brao.
         - Eu tambm. Tambm quebrei o brao quando tinha seis anos. Ca de uma rvore - disse Paul. Lembrou-se ento de como o pai o havia carregado, de como o 
cu tinha se iluminado, cheio de sol e de folhas, enquanto ele era levado para o carro. Lembrou-se das mos do pai, muito concentradas e delicadas enquanto reduzia 
a fratura, e de voltar outra vez para casa, na luz luminosa e dourada da tarde.
         - Ei, quero lhe mostrar uma coisa - disse a Rosemary.
         Deitou o violo no balano e pegou as fotos granulosas em preto-e-branco.
         - Era esse o lugar? - perguntou, entregando-lhe uma foto. - Onde voc encontrou o meu pai?
         Ela pegou a fotografia e a examinou, depois assentiu com a cabea.
         - . Agora est diferente. Por essa foto, com essas cortinas bonitas nas janelas e as flores crescendo, estou vendo que um dia foi uma boa casa. Mas agora 
ningum mora l. Est vazia, O vento passa por dentro, porque as janelas esto quebradas. Quando eu era pequena, a gente costumava brincar l. Corramos soltos por 
esses morros e eu brincava de casinha com minhas primas. Diziam que a casa era mal-assombrada, mas sempre gostei dela. No sei muito bem por qu. Era o meu lugar 
secreto. s vezes, eu ficava sentada l dentro sonhando com o que eu seria.
         Paul fez que sim com a cabea, pegando a fotografia de volta e examinando as imagens, como fizera tantas vezes antes, como se elas pudessem responder a 
todas as suas perguntas sobre o pai.
         - Voc no sonhou com isso - disse ele por fim, erguendo os olhos.
         - No, nunca - ela repetiu baixinho.
         Nenhum dos dois falou por alguns minutos. A luz do sol enviesava-se pelas rvores e derramava sombras no piso pintado da varanda.
         - Certo.  sua vez de novo - disse Rosemary, tornando a se virar para ele.
         - Minha vez?
         - Diga-me alguma coisa que o seu pai no saiba.
         - Vou para a Juilliard - respondeu Paul, com as palavras saindo apressadas, animadas como msica na sala. Ele ainda no havia contado a ningum, exceto 
 me.
         - Eu era o primeiro da lista de espera e fui aceito na semana passada. Quando ele estava sumido.
         - Uau! - exclamou Rosemary, com um sorriso meio triste. - Eu estava pensando mais em termos do seu legume favorito. Mas isso  timo, Paul. Sempre achei 
que ir  faculdade seria genial.
         - Voc pretendia ir - falou, compreendendo de repente o que ela havia perdido.
         - Eu vou. Definitivamente, eu vou.
         -  provvel que eu mesmo tenha que pagar a anuidade - disse Paul, reconhecendo a determinao feroz da garota tentando encobrir o medo. - Meu pai est 
decidido a fazer com que eu tenha um projeto de uma carreira segura. Detesta a idia da musica.
         - Disso voc no sabe - contraps ela, lanando-lhe um olhar rpido. - Na verdade, voc no sabe mesmo de toda a histria do seu pai.
         Paul no soube o que responder e os dois passaram vrios minutos calados. Estavam protegidos da rua por uma trelia toda coberta de trepadeiras, com as 
flores roxas e brancas desabrochando, de modo que quando dois carros entraram na garagem, um atrs do outro - seu pai e sua me em casa, to estranhamente, no meio 
do dia -, Paul os vislumbrou em lampejos de cor e de cromados brilhantes. Ele e Rosemary se entreolharam. As portas dos carros bateram, ecoando na casa vizinha. 
Depois houve passos e as vozes baixas e decididas dos pais, para l e para c, logo adiante da beira da varanda. Rosemary abriu a boca como se fosse cham-los, mas 
Paul levantou uma das mos e abanou a cabea, e os dois se sentaram juntos em silncio, escutando.
         - Hoje mesmo - disse a me. - Esta semana. Ah, se voc soubesse o sofrimento que nos causou, David!
         - Desculpe. Voc tem razo. Eu devia ter telefonado. Pretendia ligar.
         - E isso deve bastar? Quem sabe eu mesma v embora. Assim, de repente. Talvez eu suma e depois volte com um rapaz bonito, sem nenhuma explicao, O que 
voc acharia disso?
         Houve um silncio e Paul se lembrou da pilha de roupas coloridas largada na praia. Pensou nas muitas noites em que sua me no conseguira chegar em casa 
antes de meia-noite. Negcios, ela sempre suspirava, tirando os sapatos no vestbulo e indo direto para a cama. Olhou para Rosemary, que examinava as prprias mos 
e ficou imvel, observando-a, ouvindo, aguardando para ver o que aconteceria.
         - Ela  s uma menina - disse David, finalmente. - Tem 16 anos, est grvida e morava numa casa abandonada, sozinha. Eu no podia deix-la l.
         Norah suspirou. Paul imaginou-a passando a mo pelo cabelo.
         - Isso  uma crise da meia-idade? - perguntou ela, baixinho. -  isso que est acontecendo?
         - Crise da meia-idade? - repetiu o pai. Sua voz era firme, pensativa, como se ele considerasse cuidadosamente os indcios. - Acho que talvez seja. Sei que 
eu bati numa espcie de muro, Norah. Em Pittsburgh. Eu era muito obcecado quando rapaz. No podia me dar ao luxo de ser outra coisa. Voltei l para tentar compreender 
umas coisas. E l estava a Rosemary, na minha casa antiga. Aquilo no me pareceu uma coincidncia. No sei, no consigo explicar sem que a coisa parea meio maluca. 
Mas, por favor, confie em mim. No estou apaixonado por ela. No  nada disso. Nunca ser.
         Paul olhou para Rosemary. Ela estava de cabea baixa, de modo que no lhe foi possvel ver sua expresso, mas suas bochechas enrubesceram vivamente. A garota 
ficou mexendo numa unha quebrada e no enfrentou seu olhar.
         - No sei em que acreditar - disse Norah, lentamente. - Esta semana, David, logo esta semana. Sabe de onde eu acabei de voltar? Eu estava com a Bree, no 
consultrio do oncologista. Ela fez uma bipsia na semana passada no seio esquerdo.  um caroo muito mido, o prognstico  bom, mas  maligno.
         - Eu no sabia, Norah. Sinto muito.
         - No, no me toque, David.
         - Quem  o cirurgio?
         - Ed Jones.
         - O Ed  muito bom.
         -  melhor que seja. David, essa sua crise da meia-idade  a ltima coisa de que eu preciso.
         Escutando, Paul sentiu o mundo ficar um pouco mais lento. Pensou em Bree, com seu riso fcil, capaz de passar uma hora ouvindo-o tocar, a msica deslocando-se 
entre eles, sem que houvesse necessidade de palavras. Ela fechava os olhos e se espreguiava no balano, escutando. Paul no conseguia imaginar o mundo sem Bree.
         - O que  que voc quer? - perguntou seu pai. - O que voc quer de mim, Norah? Eu fico, se voc quiser, ou ento me mudo. Mas no posso mandar a Rosemary 
embora. Ela no tem para onde ir.
         Fez-se silncio, e Paul aguardou, mal se atrevendo a respirar, esperando para saber o que a me diria e querendo que ela nunca respondesse.
         - E quanto a mim? - perguntou, assustando-se com a prpria voz. - E quanto ao que eu quero?
         - Paul? - fez a voz de sua me.
         - Aqui - disse ele, pegando o violo. - Na varanda. Eu e Rosemary.
         - Ai, meu Deus - disse o pai. Passados alguns segundos aproximou-se da escada. Depois da noite anterior, tinha tomado banho, feito a barba, vestido um terno 
limpo. Estava magro e parecia cansado. Norah tambm, parando ao lado dele.
         Paul levantou-se e o encarou.
         - Eu vou para a Juilliard, papai. Eles telefonaram na semana passada: eu entrei. E vou para l.
         Esperou que o pai recomeasse sua arenga de praxe: a carreira musical no era confivel, nem mesmo na msica clssica. Paul tinha inmeras opes a seu 
dispor; poderia continuar tocando e sempre se comprazendo em tocar, mesmo que ganhasse a vida de outra maneira. Paul esperou que o pai fosse firme, sensato e resistente, 
para que ele pudesse dar vazo a sua raiva. Estava tenso, pronto, mas, para sua surpresa, o pai apenas balanou a cabea.
         - Que bom para voc - disse, e seu rosto se abrandou de prazer por um momento, com a ruga de preocupao desaparecendo da testa. Quando ele falou, tinha 
a voz calma e segura: - Paul, se  isso que voc quer, v. V e trabalhe com afinco, seja feliz.
         Paul continuou na varanda, sem graa. Durante todos aqueles anos, toda vez que ele e o pai haviam conversado sentira-se batendo num muro. E, agora, o muro 
havia desaparecido misteriosamente, mas Paul continuava a correr, aturdido e inseguro, no meio de um descampado.
         - Paul, eu me orgulho de voc, filho - disse David.
         Agora todos o fitavam e ele tinha lgrimas nos olhos. No sabia o que dizer, por isso comeou a andar, primeiro s para sair dali, para no dar um vexame, 
e depois comeou a correr de verdade, ainda com o violo na mo.
         - Paul! - Norah o chamou, e, ao se virar, recuando alguns passos, ele percebeu como a me estava plida, com os braos cruzados no peito, tensos, e o cabelo 
de reflexos recm-criados balanando na brisa. Ele pensou em Bree, no que a me tinha dito e em como as duas tinham se tornado parecidas, a me e a tia, e sentiu 
medo. Lembrou-se do pai no vestbulo, com a roupa imunda, o desenho escuro da barba por fazer, o cabelo desgrenhado. E depois, agora de manh, limpo e calmo, mas 
bastante mudado. Seu pai, impecvel, preciso, seguro de tudo, transformara-se em outra pessoa. L atrs, meio encoberta pelas trepadeiras, Rosemary escutava, de 
braos cruzados, com o cabelo agora solto caindo nos ombros, e Paul a imaginou naquela casa da montanha conversando com seu pai, andando de nibus com ele durante 
tantas horas, fazendo parte, de algum modo, daquela mudana em seu pai, e tornou a sentir medo do que estava acontecendo com todos.
         E, por isso, correu.
         Era um dia ensolarado, j quente. O Sr. Ferry e a Sra. Pool deram adeusinho de suas varandas. Paul ergueu o violo num cumprimento e continuou a correr. 
Estava a trs quarteires de casa, Cinco, dez. Do outro lado da rua, em frente a um bangal baixo, havia um carro vazio com o motor ligado. O dono provavelmente 
esquecera alguma coisa, dera uma corrida l dentro para buscar uma maleta ou um palet. Paul parou. Era um Gremiin ocre, o carro mais feio do universo, pontilhado 
de ferrugem. Ele atravessou a rua, abriu a porta do motorista e entrou. Ningum gritou, ningum saiu correndo da casa. Paul bateu a porta e ajeitou o banco, aumentando 
o espao para as pernas. O carro era automtico, cheio de papis de bala e maos de cigarro vazios espalhados. O dono daquele carro era um completo fiasco, pensou 
ele, uma daquelas mulheres que se maquiavam demais e trabalhavam como secretrias em algum lugar morto e paralisado, feito plstico, como a lavanderia, talvez, ou 
o banco. Moveu a alavanca e deu marcha a r.
         Nada ainda: nenhum grito, nenhuma sirene. Ele ps a alavanca em DRIVE e se afastou.
         No tinha dirigido muitas vezes, mas aquilo era muito parecido com o sexo: se a gente fingisse saber o que estava acontecendo, logo, logo a gente sabia, 
e a vinha tudo naturalmente. Perto da escola, Ned Stone e Randy Delaney estavam parados na esquina, jogando pontas de cigarro na grama antes de entrar, e Paul procurou 
Lauren Lobeglio - que s vezes ficava por ali com eles -, cujo hlito muitas vezes era carregado e fumacento quando ele a beijava.
         O violo escorregou. Paul encostou o carro e o prendeu com o cinto de segurana. Um Gremlin, droga. Agora, cruzar o centro da cidade, parando cuidadosamente 
em todos os sinais, no dia vibrante e azul. Pensou nos olhos de Rosemary enchendo-se de lgrimas. No tivera inteno de mago-la, mas o fizera. E alguma coisa tinha 
acontecido, alguma coisa havia mudado. Rosemary fazia parte daquilo e ele no, embora o rosto de seu pai, por um breve instante, houvesse se enchido de felicidade 
ao ouvir a notcia.
         Paul foi dirigindo. No queria estar naquela casa quando acontecesse o que viria depois. Chegou  rodovia interestadual, onde a estrada se bifurcava, e 
virou  esquerda, em direo a Louisville. Ele vislumbrava a Califrnia em sua mente: l havia msica e uma praia interminvel. Lauren Lobeglio arranjaria algum 
novo. No o amava e ele no a amava; ela era uma espcie de vcio, e o que os dois faziam tinha qualquer coisa de obscuro, pesado. Califrnia. Logo ele estaria na 
praia, tocando numa banda e vivendo com pouco dinheiro e sem preocupaes o vero inteiro. No outono daria um jeito de ir para a Juilliard. Cruzaria o pas pegando 
carona, talvez. Desceu o vidro todo da janela e deixou entrar o ar primaveril. O Gremlin mal atingia 90 quilmetros, mesmo quando ele apertava o pedal at o fundo. 
Ainda assim, era como se estivesse voando.
         Paul j andara por ali, em ordeiras visitas escolares ao zoolgico de Louisvile, e antes at, naquelas corridas loucas que sua me dava quando ele era pequeno, 
quando ele sentava no banco de trs e via as folhas, os galhos e os cabos telefnicos passarem zunindo pela janela. Ela costumava cantar alto junto com o rdio, 
com a voz oscilante, e prometia parar para lhe dar um sorvete, uma coisa gostosa, se ele fosse bonzinho, se ficasse quieto. Durante todos esses anos, Paul fora bonzinho, 
mas isso no tinha feito a menor diferena. Havia descoberto a msica e tocado do fundo da alma no silncio daquela casa, no vazio deixado pela morte de sua irm 
na vida de todos, mas isso tambm no tivera importncia. Ele havia tentado, com toda a fora possvel, fazer os pais levantarem os olhos de sua prpria vida e ouvirem 
a beleza, a alegria que ele havia descoberto. Tocara muito e se tornara muito bom. Mesmo assim, em todo aquele tempo, seus pais nunca tinham levantado os olhos, 
nem uma nica vez, at Rosemary cruzar aquela porta e alterar tudo. Ou talvez ela no tivesse modificado coisa alguma. Talvez fosse apenas o fato de que sua presena 
lanava uma luz nova e reveladora sobre a vida deles, mudando a composio. Afinal, uma imagem podia ser mil coisas diferentes.
         Ps a mo no violo e alisou a madeira clida, sentindo-se reconfortado. Apertou o pedal at o fundo, subindo por entre os muros de pedra onde a estrada 
cortava o morro, e depois desceu em direo  curva do rio Kentucky, voando. A ponte cantou sob os pneus. Paul continuou dirigindo sem parar, procurando fazer qualquer 
coisa, menos pensar.
         
        IV
         
         POR TRAS DA PORTA ENVIDRAADA DE NORAH, O ESCRITRIO FERVILHAVA de atividade. Neil Simms, o gerente de pessoal da IBM, cruzou a porta externa, um vislumbre 
de terno escuro e sapatos engraxados. Bree, que dera uma parada na recepo para buscar os faxes, voltou-se para cumpriment-lo. Usava um tailleur de linho amarelo 
e sapatos amarelo-escuros; uma bela pulseira de ouro deslizou por seu pulso quando ela estendeu a mo para apertar a de Simms. Por baixo da elegncia, Bree havia 
emagrecido e ficara com os ossos pontudos. Mesmo assim, seu riso era leve e atravessou o vidro, chegando at Norah, que se sentava com o telefone numa das mos, 
diante da escrivaninha onde descansava a pasta reluzente que ela passara semanas preparando, com as letras IBM gravadas em negrito na capa.
         - Escute, Sam, eu lhe disse para no me telefonar, e falei srio - disse Norah.
         Um silncio frio e denso inundou-lhe o ouvido. Ela imaginou Sam em casa, trabalhando junto  parede das janelas que davam para o lago. Era analista de investimentos 
e Norah o conhecera seis meses antes, no edifcio-garagem, sob a iluminao fosca do concreto junto ao elevador. As chaves dela haviam escorregado e o homem as apanhara 
no ar, rpido e desenvolto, com as mos zunindo feito peixes. So suas?, tinha perguntado, com um sorriso pronto e fcil - uma brincadeira, j que os dois eram os 
nicos presentes. Norah, tomada por uma excitao conhecida, uma espcie de mergulho sombrio e delicioso, acenara que sim. Os dedos dele lhe haviam roado a pele; 
as chaves tinham produzido uma sensao fria na palma de sua mo.
         Naquela noite, ele havia deixado um recado em sua secretria eletrnica, O corao de Norah se acelerara, alvoroado com a voz de Sam. Apesar disso, terminada 
a gravao, ela havia se obrigado a sentar e contar suas aventuras amorosas - curtas e longas, passionais e neutras, ressentidas e amistosas - no correr dos anos.
         Quatro. Ela escrevera o nmero em riscos toscos e escuros de grafite na borda do jornal matutino. No andar de cima, a gua pingava na banheira. Paul estava 
em seu quarto, repetindo no violo o mesmo acorde, vez aps outra. David estava l fora, trabalhando em sua cmara escura - sempre um imenso espao entre eles. Norah 
havia iniciado cada um de seus romances com uma sensao de esperana e de um novo comeo, arrebatada pela excitao dos encontros secretos, da novidade e da surpresa. 
Depois de Howard, mais dois, transitrios e doces, seguidos por outro mais longo. Todos haviam comeado em momentos em que ela achara que o rugir do silncio em 
sua casa a deixaria louca, em que o universo misterioso de uma outra presena, qualquer presena, tinha lhe parecido um alvio.
         - Norah, por favor, escute - dizia Sam nesse momento: um homem poderoso, uma espcie de tirano nos negcios, uma pessoa de quem ela nem chegava a gostar 
particularmente. Na recepo, Bree virou-se para olh-la, com ar questionador, impaciente. Sim, Norah gesticulou pelo vidro, ela andaria depressa. As duas tinham 
passado quase um ano namorando aquela conta da IBM;  claro que ela se apressaria. - S estou querendo saber do Paul - insistia Sam. - Se voc j teve alguma notcia. 
Porque eu estou aqui  sua disposio, certo? Ouviu o que eu disse, Norah? Estou completamente, inteiramente  sua disposio.
         - Eu ouvi - respondeu ela, irritada consigo mesma; no queria Sam falando de seu filho. Fazia 24 horas que Paul tinha sumido; um carro, a poucos quarteires 
de sua casa, tambm havia desaparecido. Ela o vira sair depois daquela cena tensa na varanda, tentando lembrar o que tinha dito, o que Paul teria entreouvido, sofrendo 
ao ver a confuso no rosto do filho. David fizera bem em dar sua bno a Paul, mas, de algum modo, at aquilo, a prpria estranheza da coisa, havia piorado o momento. 
Norah vira Paul sair correndo, carregando o violo, e por pouco no correra atrs dele. Mas sua cabea doa e ela se permitira pensar que talvez o filho precisasse 
de um tempo para pensar naquilo sozinho. E, depois, ele no iria longe, com certeza: para onde poderia ir, afinal?
         - Norah? Norah, voc est bem? - perguntou Sam.
         Ela fechou os olhos por um instante. A luz comum do sol lhe aquecia o rosto. As janelas do quarto de Sam eram cheias de prismas e, naquela manh luminosa, 
as luzes e cores estariam mudando, vivas, em todas as superfcies.  como fazer amor numa discoteca, ela lhe dissera uma vez, meio reclamando, meio encantada, com 
os longos fachos de cores deslizando pelos braos dele, por sua prpria pele alva. Naquele dia, como em todos os outros desde que se haviam conhecido, Norah tivera 
a inteno de terminar tudo. E, ento, Sam tinha desenhado o facho de luzes coloridas em sua coxa, com o dedo, e aos poucos ela sentira suas arestas comearem a 
se suavizar, a se embotar, as emoes fundindo-se umas nas outras numa seqncia misteriosa, do azul mais escuro para o dourado e a relutncia se transformara misteriosamente 
em desejo.
         Mas o prazer nunca durava mais do que seu trajeto para casa.
         - Neste momento eu estou concentrada no Paul disse ela, e acrescentou com rispidez: - Escute, Sam, para mim chega, realmente. Falei srio no outro dia. 
No me telefone de novo.
         - Voc est nervosa.
         - Estou. Mas falo srio. No me telefone. Nunca mais.
         E desligou. Sua mo estava trmula; ela a espalmou com fora sobre a mesa. Sentia o desaparecimento de Paul como um castigo: pela raiva prolongada de David, 
pela dela prpria. O carro furtado por ele fora encontrado abandonado numa ruazinha de Louisville, na noite anterior, mas nem sinal de Paul. E, assim, ela e David 
continuavam esperando, movendo-se desamparados pelas camadas de silncio de sua casa. A garota da Virgnia Ocidental continuava a dormir no sof-cama da sala ntima. 
David nunca a tocava, raras vezes sequer lhe dirigia a palavra, a no ser para lhe perguntar se precisava de alguma coisa. Mesmo assim, Norah intua alguma coisa 
entre os dois, uma ligao emocional viva e carregada de afetos positivos que a feria tanto ou talvez mais do que qualquer romance fsico.
          Bree bateu no vidro e entreabriu a porta alguns centmetros.
         - Tudo bem?  que o Neil est aqui, da IBM.
         - Tudo timo - disse Norah. - Como vai voc? Est se sentindo bem?
         -  bom para mim estar aqui - respondeu Bree, animada, firme. - Especialmente com todas as outras coisas que andam acontecendo.
         Norah assentiu com a cabea. Tinha ligado para os amigos de Paul, e David havia chamado a polcia. A noite inteira e durante a manh, ela andara pela casa 
de robe, tomando caf e imaginando todas as desgraas possveis. A possibilidade de ir para o trabalho, de desviar ao menos parte da cabea para outra coisa, tinha 
sido uma bno.
         O telefone recomeou a tocar quando ela se levantou, mas Norah deixou que uma onda de raiva cansada a empurrasse porta afora. No deixaria Sam confundi-la, 
no o deixaria estragar aquela reunio, no mesmo. Suas outras aventuras haviam terminado de formas diferentes, depressa ou devagar, amigavelmente ou no, mas nenhuma 
com esse toque de mal-estar. Nunca mais, pensou com seus botes.
         Ia cruzando o saguo, apressada, mas Sally a deteve na recepo, estendendo-lhe o telefone:
         -  melhor voc atender, Norah.
         Ela compreendeu no mesmo instante; pegou o fone, trmula.
         - Eles o acharam - disse David, com voz calma. - A polcia acabou de ligar. Encontraram-no em Louisville, furtando uma loja. Nosso filho foi apanhado roubando 
queijo.
         - Ento ele est bem - fez Norah, soltando um suspiro que no se dera conta de estar prendendo o tempo todo e sentindo o sangue voltar a fluir para a ponta 
dos dedos. Ah, ela estivera semimorta e nem havia notado.
         - Est, ele est bem. Com fome, ao que parece. Estou saindo para busc-lo. Voc quer ir?
         - Talvez seja melhor eu ir. No sei, David. Pode ser que voc diga a coisa errada. Fique a com a sua namorada, quase acrescentou.
         David deu um suspiro.
         - E o que  que seria a coisa certa a dizer, Norah? Eu gostaria muito de saber. Eu me orgulho dele e lhe disse isso. Ele fugiu e roubou um carro. Ento, 
eu me pergunto: qual seria a coisa certa a dizer?
           muito pouco,  tarde demais, Norah sentiu vontade de responder. E quanto  sua namorada? Mas no falou nada.
         - Norah, ele tem 18 anos. Roubou um carro. Tem que assumir a responsabilidade.
         - Voc tem 51 - retrucou ela. - Tambm tem que assumi-la.
         Fez-se silncio; ela o imaginou parado no consultrio, to tranqilizador em seu jaleco branco, com os fios prateados a lhe avivar o cabelo. Ningum que 
o visse imaginaria como ele tinha voltado para casa: a barba por fazer, a roupa rasgada e imunda, uma garota grvida a seu lado, metida num capote preto surrado.
         - Escute, s me d o endereo - disse Norah. - Encontro voc l.
         - Ele est na delegacia, Norah. Na central de autuaes. Onde voc acha que estaria, no zoolgico? Mas, claro, espere um instante. Vou lhe dar o endereo. 
Enquanto o anotava, Norah levantou os olhos e viu a irm fechando a porta da entrada depois de Neil Simms sair.
         - O Paul est bem? - perguntou Bree.
         Norah balanou a cabea, emocionada demais, aliviada demais para falar. Ouvir o nome do filho tornava a notcia real. Paul estava em segurana, talvez algemado, 
mas a salvo. Vivo. O pessoal do escritrio, parado na recepo, comeou a aplaudir, e Bree cruzou o cmodo para abra-la. To magrinha, pensou Norah, com Lgrimas 
nos olhos; as escpulas da irm eram delicadas e finas como asas.
         - Eu dirijo - disse Bree, segurando-a pelo brao. - Vamos. No caminho voc me conta.
         Norah deixou-se conduzir pelo corredor e pelo elevador at o carro na garagem. Bree seguiu pelas ruas movimentadas do centro, enquanto Norah falava, com 
o alvio atravessando-a como um vento.
         - Mal consigo acreditar - disse. - Passei a noite inteira em claro. Sei que o Paul j  adulto. Sei que ir para a faculdade em poucos meses e no terei 
a menor idia de onde ele est, nessa ou naquela hora. Mas no consegui parar de me preocupar.
         - Ele ainda  o seu nenm.
         - Sempre.  difcil solt-lo. Mais difcil do que eu tinha imaginado.
         Estavam passando pelos prdios baixos e sem graa da IBM. Bree deu um adeusinho para eles. - Ol, Neil. Logo nos veremos.
         - Toda aquela trabalheira - suspirou Norah.
         - Ah, no se preocupe. No vamos perder a conta. Eu fui muito, muito sedutora. E o Neil  um homem de famlia. Desconfio que tambm  do tipo que gosta 
de donzelas em perigo.
         - Voc est prejudicando a causa - retrucou Norah, lembrando-se de Bree sob a luz filtrada da sala de jantar, muitos anos antes, agitando panfletos sobre 
o aleitamento.
         Bree riu:
         - Nem um pouco. Apenas aprendi a trabalhar com o que tenho. Vamos conseguir a conta, no se preocupe.
         Norah no respondeu. As cercas brancas passavam em borres, tendo por fundo os gramados viosos. Havia cavalos calmamente parados nos campos; celeiros de 
tabaco, acinzentados pelo tempo, contrastavam com uma encosta, depois outra. Comeo de primavera, aproximando-se o dia do Derby, rvores-de-judas explodindo em flor. 
Elas atravessaram o rio Kentucky, lodoso e cintilante. Numa campina logo depois da ponte, um narciso solitrio apareceu, como um claro luminoso de beleza, e se 
foi. Quantas vezes Norah percorrera essa estrada, com o vento no cabelo e o rio Ohio a seduzi-la com suas promessas, sua beleza gil e ondulante? Ela havia abandonado 
o gim e as corridas com o vento no rosto; comprara a agncia de viagens e a fizera crescer; modificara sua vida. Mas de repente se deu conta de uma realidade, com 
a clareza de uma luz nova e ofuscante que inunda uma sala: nunca tinha parado de correr. Para San Juan e Bangkok, Londres e Masca. Para os braos de Howard e dos 
outros, at chegar a Sam e a este momento.
         - No posso perder voc, Bree - disse  irm. - No sei como voc consegue estar to calma com tudo isso, porque eu me sinto como se houvesse batido num 
muro.
         Lembrou-se de David dizendo a mesma coisa na vspera, parado na entrada da garagem, tentando explicar por que tinha levado a jovem Rosemary para casa. O 
que teria acontecido com ele em Pittsburgh, para deix-lo to mudado?
         - Eu estou calma porque voc no vai me perder - disse Bree.
         - timo. Fico feliz por voc ter tanta certeza. Porque eu no suportaria.
         As duas prosseguiram em silncio por alguns quilmetros.
         - Lembra daquele sof azul surrado que eu tinha? - perguntou Bree, enfim.
         - Vagamente - disse Norah, enxugando os olhos. - O que  que tem ele?
         - Sempre achei que aquele sof era muito bonito. E a, um dia, numa poca muito deprimente da minha vida, a luz entrou na sala de um jeito diferente, talvez 
por haver neve do lado de fora, ou sei l o qu, e percebi que o velho sof estava completamente decrpito e que s a poeira o mantinha de p. Compreendi que eu 
tinha que fazer umas mudanas - explicou, e deu uma olhada para o lado, sorrindo. - E, a, fui trabalhar com voc.
         - Uma poca deprimente? - repetiu Norah. - Sempre imaginei que a sua vida era muito glamorosa. Perto da minha, pelo menos. No sabia que voc tinha passado 
por um perodo de depresso, Bree. O que aconteceu?
         - No tem importncia. So guas passadas h muito tempo. Mas ontem  noite tambm fiquei acordada. Tive o mesmo tipo de sensao: h alguma coisa mudando. 
 engraado como as coisas parecem diferentes de uma hora para outra. Hoje de manh eu estava olhando para a luz que entrava pela janela da cozinha. Ela formava 
um retngulo comprido no piso, e nele as folhas novas se mexiam, criando desenhos de todas as formas. Uma coisa muito simples, mas bonita.
         Norah estudou o perfil da irm, lembrando-se de como fora Bree, um dia, despreocupada, atrevida e segura em sua intrepidez, parada na escadaria do prdio 
da universidade. Para onde tinha ido aquela mocinha? Como se transformara nessa mulher to magra e decidida, to forte e to solitria?
         - Ah, Bree - conseguiu dizer, finalmente.
         - No  uma sentena de morte, Norah - declarou Bree, agora falando com firmeza, concentrada e decidida, como quem fizesse uma exposio geral das contas 
a receber. -  mais como uma espcie de alerta. Andei lendo umas coisas, e minhas chances so realmente muito boas. E hoje de manh me ocorreu que, se no existir 
um grupo de apoio para mulheres como eu, eu mesma vou criar um.
         Norah sorriu.
         - Isso  bem tpico de voc.  a coisa mais animadora que voc j disse at agora.
         Passaram mais alguns minutos caladas, depois Norah acrescentou:
         - Mas voc no me contou. Todos esses anos, quando voc estava infeliz. Voc nunca me disse nada.
         - Pois . Estou dizendo agora.
         Norah ps a mo no joelho da irm, sentindo seu calor e sua magreza.
         - O que  que eu posso fazer?
         -  s ir levando, um dia atrs do outro. Estou na lista de oraes da igreja, e isso ajuda.
         Norah olhou para a irm, para seu cabelo curto e elegante, o perfil bem desenhado, pensando no que responder. Fazia cerca de um ano que Bree comeara a 
freqentar uma pequena igreja episcopal perto de casa. Norah a havia acompanhado uma vez, mas o oficio religioso, com seu ritual complexo de ajoelhar e ficar de 
p, rezar e guardar silncio, deixara nela uma sensao de inpcia, como se fosse uma forasteira. Ela havia olhado de relance para as outras pessoas nos bancos, 
perguntando-se o que estariam sentindo, o que as teria feito levantar da cama e ir para a igreja naquela bela manh de domingo. Era difcil discernir algum mistrio, 
difcil ver qualquer coisa alm da luz clara e de um grupo de pessoas cansadas, esperanosas e obedientes. Norah nunca mais voltara l, mas nesse momento sentiu-se 
intensamente grata por qualquer consolo que a irm tivesse recebido, pelo que quer que houvesse encontrado, e que ela prpria no tinha visto naquela igrejinha sossegada.
         O mundo continuou a passar com rapidez pela janela: grama, rvores, cu. Depois, aos poucos, construes. Elas haviam entrado em Louisville e Bree confluiu 
com o trnsito pesado da Interestadual 71, cujas pistas velozes fervilhavam de carros. O estacionamento da delegacia policial estava quase lotado, tremeluzindo de 
leve sob o sol do meio-dia. As duas desceram do carro, batendo as portas em eco, percorreram uma calada de concreto ladeada por uma srie de arbustos pequenos, 
passaram pela porta giratria e entraram na tnue luz do lado de dentro.
         Paul estava sentado num banco do outro lado da sala, recurvado, com os cotovelos nos joelhos e as mos pendendo soltas entre eles. O corao de Norah parou. 
Ela passou pelo balco e pelos policiais, avanando pelo denso ar verde-gua em direo ao filho. Fazia calor na sala. Um ventilador dava giros quase imperceptveis 
junto s placas do isolamento acstico do teto, todas manchadas. Norah sentou-se no banco ao lado do filho. Paul no tinha tomado banho, estava com o cabelo grosso 
e engordurado, e o forte cheiro de suor, cigarro e roupa suja grudara-se  sua pele. Odores acres, marcantes, cheiros de homem. Havia calos nos dedos dele, endurecidos 
pelo violo. Agora ele tinha sua prpria vida, sua vida secreta. Norah experimentou uma sbita sensao de humildade, ao constatar como ele era independente. Seu 
filho, sim, isso sempre, mas j no lhe pertencia.
         -  bom ver voc - disse baixinho. - Fiquei preocupada, Paul. Todos ficamos.
         Ele a fitou, com olhos ameaadoramente aborrecidos e desconfiados, depois desviou o rosto subitamente, prendendo o choro.
         - Estou fedendo - disse.
         -  - concordou Norah. - Est mesmo.
         Paul examinou o saguo, pousando os olhos em Bree, parada junto ao balco, e depois no rodopio e no claro da porta giratria.
         - Bom. Acho que  sorte minha ele no ter se incomodado em vir.
         Referia-se a David. Tanta dor em sua voz! Tanta raiva!
         - Ele est a caminho - disse Norah, mantendo a voz firme. - Chegar a qualquer momento. A Bree me trouxe. Veio voando, na verdade.
         Tivera a inteno de faz-lo sorrir, mas ele apenas assentiu com a cabea.
         - Ela est bem?
         - Est - fez Norah, pensando na conversa no carro. - Est bem.
         Paul tornou a balanar a cabea.
         - Bom. Isso  timo. Aposto que papai est fulo da vida.
         - Pode contar com isso.
         - Eu vou para a cadeia? - perguntou Paul, com a voz muito baixa.
         Norah respirou fundo.
         - No sei. Espero que no. Mas no sei.
         Ficaram sentados em silncio. Bree conversava com um policial, balanando a cabea, gesticulando. Mais adiante, a porta girava e girava, piscando luz e 
sombras, cuspindo estranhos para dentro ou para fora, um a um, e de repente l estava David, caminhando pelo piso de mrmore, com os sapatos pretos rangendo e uma 
expresso sria e impassvel, indecifrvel. Norah ficou tensa e sentiu Paul retesar-se a seu lado. Para seu espanto, David dirigiu-se diretamente ao filho e o agarrou 
num abrao vigoroso, mudo.
         - Voc est a salvo. Graas a Deus - disse.
         Norah respirou fundo, grata por esse momento. Um policial de cabelo branco  escovinha e olhos de um azul surpreendente atravessou a sala, com uma prancheta 
embaixo do brao. Apertou a mo de Norah, a de David. Depois, virou-se para Paul.
         - O que eu gostaria de fazer era deix-lo em cana - disse, em tom coloquial. - Um garoto metido a espertinho como voc. No sei quantos j vi ao longo dos 
anos, garotos que se acham muito dures, garotos cuja cara  livrada uma vez atrs da outra, at que acabam se metendo numa encrenca de verdade. A passam um bom 
tempo na cadeia e descobrem que no tm nada de dures.  uma pena. Mas parece que os seus vizinhos acham que esto lhe fazendo um favor e no querem prestar queixa 
sobre o carro. Portanto, como no posso prend-lo, estou liberando voc sob a guarda de seus pais.
         Paul fez que sim com a cabea. Tinha as mos trmulas; enfiou-as nos bolsos. Todos viram o policial arrancar um papel de sua prancheta, entreg-lo a David 
e voltar lentamente para o balco.
         - Telefonei para os Boland - explicou David, dobrando o papel e guardando-o no bolso do palet. - Eles foram razoveis. Isso podia ter sido muito pior, 
Paul. Mas no pense que voc no vai pagar cada centavo do que custar o conserto do carro. E no pense que a sua vida ser muito feliz por um bom tempo. Nada de 
amigos. Nada de vida social.
         Paul balanou a cabea, engolindo em seco.
         - Tenho que ensaiar - disse. - No posso abandonar o quarteto.
         - No - retrucou David. - O que voc no pode  roubar o carro dos vizinhos e esperar que a sua vida continue a mesma.
         Norah sentiu a tenso do filho a seu lado, sua raiva. Deixe para l, descobriu-se pensando, ao ver o msculo pulsar no maxilar de David. Deixem isso para 
l, vocs dois. J chega.
         -  timo - fez Paul. - Nesse caso, no vou para casa. Prefiro ir para a cadeia.
         - Bem, eu posso providenciar isso, com certeza - respondeu David, num tom perigosamente frio.
         - V em frente. Providencie. Porque eu sou msico. E sou bom. E prefiro dormir na rua a desistir disso. Droga, eu prefiro morrer.
         Houve um momento, uma pulsao. Quando David no respondeu, os olhos de Paul se espremeram.
         - Minha irm no sabe a sorte que teve - provocou.
         Norah, que at ento estivera muito quieta, sentiu as palavras como lascas de gelo, uma dor aguda, viva, lancinante. Antes que soubesse o que estava fazendo, 
esbofeteou o filho no rosto. Sentiu na palma da mo a aspereza da barba crescida de Paul - ele era um homem, j no era um menino, e ela havia batido com fora. 
O rapaz se virou, chocado, com a marca vermelha j lhe aparecendo na pele.
         - Paul - disse David -, no torne as coisas piores do que j esto. No diga coisas de que venha a se arrepender pelo resto da vida.
         A mo de Norah ainda ardia e o sangue lhe pulsava forte nas veias.
         - Ns vamos para casa - disse ela. - Vamos resolver isso em casa.
         - No sei. Talvez uma noite na delegacia fizesse bem a ele - replicou David.
         - J perdi uma filha - disse Norah, virando-se para o marido. - No vou perder outro filho.
         Nesse momento foi David quem ficou perplexo, como se ela tambm o tivesse esbofeteado. O ventilador de teto clicava e a porta giratria rodopiava em movimentos 
montonos.
         - Est certo - concordou ele. - Talvez isso esteja certo. Talvez voc tenha razo em no prestar a menor ateno em mim. Deus sabe o quanto lamento as coisas 
que fiz, falhando com vocs dois.
         - David - chamou Norah quando ele se virou, mas o marido no respondeu. Ela o viu atravessar a sala e cruzar a porta giratria. L fora, ficou visvel por 
um instante, um homem de meia-idade com um palet escuro, parte da multido, e depois sumiu. O ventilador de teto continuou a estalar, em meio ao cheiro de corpos 
suados, batatas fritas e desinfetante.
         - Eu no queria... - comeou Paul.
         Norah ergueu a mo.
         - No. Por favor. No diga nem mais uma palavra.
         Foi Bree, calma e eficiente, quem os levou para o carro. Abriram as janelas, por causa do mau cheiro de Paul, e Bree dirigiu, com os dedos finos firmemente 
plantados no volante. Norah, pensativa, prestou pouca ateno, e quase meia hora se passou at perceber que j no estavam na rodovia interestadual, porm indo mais 
devagar por estradas vicinais, cruzando a vivida zona rural primaveril. Campinas que mal haviam comeado a verdejar e galhos cheios de novos rebentos passavam cleres 
pelas janelas.
         - Para onde voc est indo? - perguntou Norah.
         - Para uma aventurazinha. Voc vai ver - disse Bree.
         Norah no queria olhar para as mos da irm, to ossudas e com as veias azuis visveis. Olhou para Paul pelo espelho retrovisor. L estava ele, plido e 
taciturno, de braos cruzados, esparramado no banco, claramente furioso, claramente sofrendo. Ela agira mal ao agredir David daquele jeito, ao esbofetear Paul; s 
fizera piorar a situao. Os olhos enraivecidos do filho cruzaram com os dela no espelho, e Norah se lembrou de sua mozinha rechonchuda de beb a lhe apertar a 
bochecha, de seu riso alegre pelos cmodos da casa. Era completamente diferente aquele menino. Para onde teria ido?
         - Que tipo de aventura? - indagou Paul.
         - Bem, na verdade, estou tentando encontrar a Abadia de Getsmani.
         - Para qu? - perguntou Norah. -  perto daqui?
         Bree confirmou com um gesto.
         - Dizem que sim. Sempre tive vontade de v-la e, no caminho, percebi que estvamos muito perto. E a pensei: por que no? Est um dia muito bonito.
         Bonito mesmo: cu de um azul lmpido, mais claro na linha do horizonte, rvores coloridas e cheias de vida, farfalhando na brisa. Seguiram mais 10 minutos 
pelas estradinhas, e ento Bree parou o carro no acostamento e comeou a procurar alguma coisa embaixo do banco.
         - Acho que eu no trouxe um mapa - comentou, reerguendo o corpo.
         - Voc nunca anda com mapas - ratificou Norah, percebendo nesse momento que isso se aplicara a Bree durante a vida inteira. No entanto, no parecia ter 
importncia. Ela e David tinham comeado com toda sorte de mapas e olhe s onde haviam chegado.
         Bree tinha parado perto de duas casas de fazenda, modestas e brancas, com as portas trancadas e ningum  vista, e os celeiros de tabaco, prateados pelo 
tempo, escancaravam-se nas colinas distantes. Era poca de plantio. Ao longe ouviam-se tratores a se arrastar pelos campos recm-arados, e atrs deles iam pessoas 
que se abaixavam para plantar as mudas verde-claras de tabaco na terra preta. Mais adiante, na estrada, no outro extremo da campina, havia uma igrejinha branca  
sombra de velhos sicmoros, cercada por uma fileira de amores-perfeitos arroxeados. Ao Lado da igreja havia um cemitrio cujas velhas lpides se inclinavam atrs 
de uma cerca de ferro batido. Era to parecido com o lugar em que sua filha fora sepultada que Norah prendeu a respirao, relembrando aquele dia remoto de maro, 
com a relva mida sob os ps, as nuvens baixas e pesadas, e David a seu lado, calado e distante. Das cinzas s cinzas, do p ao p, e o mundo que eles conheciam 
havia desaparecido sob seus ps.
         - Vamos at a igreja - disse. - Pode ser que algum l saiba onde .
         Desceram a estrada e ela e Bree saltaram do carro junto  igreja, sentindo-se urbanas e deslocadas com suas roupas de trabalho. Era um dia muito parado, 
quase quente, e a luz do sol brilhava intermitente por entre a folhagem. A grama sob os sapatos amarelos de Bree era verde-escura e viosa. Norah ps a mo no brao 
fino da irm, sentindo o linho amarelo macio e fresco.
         - Voc vai estragar os sapatos - comentou.
         Bree olhou para baixo, assentiu com a cabea e tirou-os.
         - Vou perguntar no presbitrio - disse. - A porta da frente est aberta.
         - V. Ns esperamos aqui - fez Norah.
         Bree se abaixou para pegar os sapatos e seguiu pelo gramado verde-vivo, com algo de pueril e vulnervel nas pernas alvas e nos ps cobertos pelas meias 
de nylon. Os sapatos amarelos balanavam numa de suas mos. Sbito, Norah lembrou-se dela correndo num campo atrs da casa em que haviam morado na infncia, do riso 
flutuando no ar ensolarado. Fique boa, pensou, observando-a. Ah, minha irm, fique boa.
         - Vou dar uma volta - disse a Paul, que continuava desabado no banco de trs. Deixou-o l e seguiu a trilha de cascalho at o cemitrio. O porto de ferro 
se abriu sem dificuldade e Norah perambulou entre as lpides cinzentas e desgastadas. Havia muito tempo que no ia  sepultura na fazenda de Bentley. Virou-se para 
trs e olhou para Paul. Ele estava saindo do carro, espreguiando-se, com os olhos mascarados pelos culos escuros.
         A porta da igreja era vermelha. Abriu-se silenciosamente quando Norah a tocou. O templo era sombrio e fresco, e os vitrais iluminavam-se com imagens de 
santos e cenas bblicas, pombos e fogo. Norah pensou no quarto de Sam, na balbrdia de cores que havia l, e em como a cena de agora parecia tranqila, em contraste, 
com suas cores estveis e fixas descendo pelo ar. Havia um livro de visitas aberto e Norah o assinou com sua letra fluente, lembrando-se da ex-freira que lhe ensinara 
a escrita cursiva. Talvez tenha sido o simples silncio que a fez dar alguns passos pela nave central deserta: o silncio e aquela sensao de paz e vazio, o modo 
como a luz incidia pelas janelas de vitrais, o ar poeirento. Norah caminhou por essa luz: vermelho, azul-escuro, dourado.
         Os bancos cheiravam a polidor de mveis. Norah sentou-se num deles. Havia almofadas de veludo azul para ajoelhar, meio empoeiradas. Ela pensou no velho 
sof de Bree e, de repente, veio-lhe a lembrana das mulheres de seu antigo crculo noturno, as mulheres que tinham ido a sua casa levar presentes para Paul. Lembrou-se 
de um dia t-las ajudado a limpar a igreja e de como haviam polido os bancos, sentando-se nos trapos e deslizando de traseiro pelas tbuas longas e lisas. Assim 
faz mais peso, elas haviam brincado, enchendo o templo de riso. Em sua tristeza, Norah se afastara delas e nunca mais tinha voltado, mas nesse momento lhe ocorreu 
que elas tambm haviam sofrido, perdido entes queridos, vivenciado doenas, sentido que haviam falhado com elas mesmas e com outras pessoas. Norah no quisera ser 
uma delas nem aceitar seu consolo; por isso havia se afastado. Ao recordar, seus olhos se encheram de lgrimas. Ora, que bobagem, fazia quase duas dcadas que sua 
perda havia acontecido.  claro que essa tristeza no devia estar aflorando, fresca como gua da fonte.
         Aquilo era loucura. Ela estava em prantos. Tinha corrido muito, e muito depressa, para evitar esse momento, e no entanto ele continuava a acontecer: havia 
uma estranha dormindo no sof-cama, sonhando, carregando uma misteriosa vida nova em seu ventre, como um segredo, e David dava de ombros e virava as costas. Ela 
sabia que voltaria para casa e descobriria que ele tinha ido embora, talvez carregando uma mala, nada mais. Chorou ao saber disso e chorou por Paul, pela raiva e 
pelo ar perdido que ele estampava nos olhos. Pela filha que jamais conhecera. Pelas mos finas de Bree. Pelas mil maneiras como o amor falhara a todos eles, e eles 
ao amor.
         O luto parecia ser um lugar fsico. Norah chorou, inconsciente de qualquer outra coisa seno uma espcie de alvio cuja lembrana guardava da infncia; 
soluou at ficar dolorida, sem flego, acabada.
         Havia pssaros, pardais, aninhados nos caibros abertos do telhado. Ao voltar a si, pouco a pouco, Norah se deu conta dos sons suaves que eles emitiam, do 
bater das asas. Estava ajoelhada, com os braos apoiados no encosto do banco  sua frente. A luz continuava a descer pelos vitrais em feixes angulosos, juntando-se 
em poas no cho. Sem jeito, ela se sentou e enxugou as lgrimas do rosto. Algumas penas cinzentas estavam cadas nos degraus de pedra do altar. Ao erguer os olhos, 
Norah avistou um pardal que adejava de leve no alto, uma sombra em meio s sombras maiores. Ao longo dos anos, muitas outras pessoas teriam sentado ali, com seus 
segredos e seus sonhos, sua luz e suas trevas. Ela se perguntou se a insana tristeza delas, como a sua, teria diminudo. No fazia o menor sentido que esse lugar 
lhe houvesse trazido tamanha paz, mas trouxera.
         Quando Norah saiu da igreja, piscando os olhos sob a luz do sol, Paul estava sentado numa pedra em frente ao porto de ferro batido.
         Ao longe, Bree caminhava pela grama, balanando os sapatos.
         Paul fez sinal com a cabea para as lpides dispersas do cemitrio.
         - Desculpe o que eu disse. No falei srio. Estava tentando deixar o papai com raiva, para que eu pudesse sentir raiva tambm.
         - Nunca mais diga aquilo. Que a sua vida no vale a pena. Nunca, nunca mais me faa ouvir isso de novo. Nem pense nisso.
         - No vou dizer. Sinto muito mesmo.
         - Eu sei que voc est aborrecido - disse Norah. - Tem o direito de levar a vida que quiser levar. Mas seu pai tambm tem razo. Haver algumas condies. 
Se voc as desrespeitar, ficar por sua prpria conta.
         Disse tudo isso sem olhar para o filho e, quando se virou, levou um susto ao ver o rosto dele fechado, as lgrimas rolando. Ah, o menino que ele tinha sido 
no estava to longe, afinal. Norah o abraou da melhor maneira que pde. Paul era muito alto; a cabea dela mal atingia seu peito.
         - Escute, eu amo voc - disse, encostada na camisa malcheirosa. - Fico muito contente por voc ter voltado. E voc est realmente, realmente fedendo - acrescentou, 
rindo, e Paul tambm riu.
         Norah protegeu os olhos da luz e avistou Bree vindo pelo campo, j mais perto.
         - No  longe daqui - ela gritou de l. - Um pouquinho adiante na estrada. Ela disse que no temos como errar.
         Os trs tornaram a entrar no carro e percorreram mais um trecho da estrada estreita, pelas colinas ondulantes. Poucos quilmetros  frente, comearam a 
vislumbrar os prdios brancos por entre os ciprestes. E ento, subitamente, revelou-se a Abadia de Getsmani, magnfica, ntida e simples contra a paisagem ondulada 
e verdejante. Bree parou no estacionamento, sob uma fileira de rvores. Quando eles iam descendo do carro, os sinos comearam a repicar, chamando os monges para 
a orao. Os trs pararam para ouvir, enquanto o som lmpido esmaecia no ar cristalino, o gado pastava a meia distncia e as nuvens flutuavam ociosas no cu.
         -  lindo - comentou Bree. - Thomas Merton morou aqui, vocs sabiam? Ele foi ao Tibete conhecer o Dalai-Lama. Adoro imaginar aquele momento. Adoro imaginar 
todos os monges l dentro fazendo as mesmas coisas, dia aps dia.
         Paul havia tirado os culos escuros. Seus olhos estavam lmpidos. Ele enfiou a mo no bolso e espalhou algumas pedrinhas sobre o cap do carro.
         - Lembra disso? - perguntou, quando Norah pegou uma das pedras, apalpando o disco branco e liso, com um furo no meio. - Crinides. De lrios-do-mar. Papai 
me ensinou sobre eles naquele dia em que quebrei o brao. Dei uma volta enquanto voc estava na igreja. H uma poro deles por aqui.
         - Eu tinha esquecido - disse Norah devagar, mas ento a cena precipitou-se em sua memria: o colar que Paul fizera e o medo que ela havia sentido de que 
ele se enroscasse em seu pescoo e o sufocasse. O som dos sinos desfez-se no ar. Do tamanho de um boto de camisa, o fssil era leve e morno na palma de sua mo. 
Norah lembrou-se de David levantando Paul e levando-o da festa, depois engessando seu brao quebrado. Com que empenho David trabalhara para tornar as coisas boas 
para todos eles, para consertar tudo! De algum modo, porm, sempre fora muito difcil para todos, como se eles nadassem nas guas rasas do mar que um dia havia coberto 
toda essa terra.
         
       1988   
        JULHO DE 1988   
         
        I
         
         DAVID HENRY ESTAVA SENTADO EM SEU ESCRITRIO DE CASA, NO SEGUNDO andar. Pela janela, ligeiramente empenada e coberta por uma pelcula deixada por anos de 
intempries, a vista da rua oscilava, ondulante e meio distorcida. Ele viu um esquilo pegar uma noz e subir correndo o sicmoro cujas folhas encostavam na janela. 
Rosemary estava ajoelhada junto  varanda, com o cabelo comprido balanando, inclinada para plantar bulbos e plantas sazonais nos canteiros que tinha feito. Ela 
havia transformado os jardins, trazendo lrios dos jardins de amigos e plantando pinheiros perto da garagem, onde haviam florescido numa profuso de azul-claro que 
lembrava uma nvoa. Jack estava sentado perto dela, brincando com um caminho basculante. Era um menino parrudo, agora com cinco anos, alegre e bem-humorado, de 
olhos castanho-escuros e vestgios de vermelho nos cabelos louros. Tinha um trao de teimosia. Nas noites em que David cuidava dele, enquanto Rosemary saa para 
trabalhar, Jack insistia em fazer tudo sozinho. Sou um menino grande, anunciava vrias vezes por dia, orgulhoso e cheio de si.
         David o deixava fazer o que queria, dentro dos limites da segurana e da razo. A verdade  que adorava cuidar do garoto. Adorava ler histrias para Jack, 
sentindo o peso e o calor dele em seu colo, a cabecinha caindo em seu ombro quando ele comeava a pegar no sono. Adorava segurar-lhe a mozinha confiante quando 
os dois andavam pela calada at o armazm. Era doloroso para David que suas lembranas de Paul nessa idade fossem muito esparsas, muito fugazes. Na poca, ele estava 
procurando firmar-se na carreira,  claro, atarefado com sua clnica - e tambm com a fotografia. Na verdade, porm, a culpa  que o mantivera distante. Agora, os 
padres de sua vida estavam dolorosamente claros. Havia entregado a filha a Caroline Gill e o segredo criara razes; tinha crescido e desabrochado bem no centro 
de sua famlia. Durante anos, ele tinha voltado para casa, observado Norah preparando coquetis, ou amarrando o avental, e pensado no quanto ela era encantadora 
e em quo pouco a conhecia.
         David nunca havia conseguido dizer-lhe a verdade, sabendo que a perderia por completo - e talvez a Paul tambm - se o fizesse. Assim, tinha se dedicado 
ao trabalho e, nas reas da vida que lhe era possvel controlar, fora muito bem-sucedido. Infelizmente, porm, daqueles anos da infncia de Paul lembrava-se apenas 
de alguns momentos breves e isolados, com a nitidez de fotografias: Paul dormindo no sof, com uma das mos pendurada e o cabelo preto desgrenhado. Paul em p na 
beira da gua, gritando de medo e alegria quando as ondas rolavam em torno de seus joelhos. Paul sentado  mesinha da sala de recreao, colorindo a srio, to absorto 
em sua tarefa que no notava o pai no vo da porta a observ-lo. Paul jogando o anzol nas guas paradas e permanecendo imvel, quase sem respirar, enquanto os dois 
aguardavam ao cair da noite que um peixe mordesse a isca.
         Lembranas curtas, de uma beleza quase insuportvel. E depois tinham vindo os anos da adolescncia, nos quais Paul havia percorrido uma distncia ainda 
maior do que Norah, abalando a casa com sua msica e sua raiva.
         David tamborilou na janela e acenou para Jack e Rosemary. Havia comprado essa residncia geminada com muita pressa, vendo-a apenas uma vez e voltando a 
sua casa para fazer as malas enquanto Norah estava no trabalho. Era uma residncia antiga de dois andares, dividida quase exatamente ao meio, com divisrias finas 
separando o que tinham sido cmodos espaosos; at a escadaria, antes larga e elegante, fora cortada em duas. David havia ocupado o apartamento maior e entregado 
a Rosemary a chave do outro; havia seis anos que moravam lado a lado, separados por paredes finas, mas encontrando-se todos os dias. Em diferentes ocasies, Rosemary 
havia tentado pagar-lhe um aluguel, mas David recusara, dizendo-lhe que voltasse para a escola e se formasse; mais tarde ela poderia pagar-lhe. Ele sabia que seus 
motivos no eram inteiramente altrustas, mas no conseguia explicar nem a si mesmo por que a moa lhe era to importante. Eu ocupo aquele lugar deixado pela filha 
que voc deu, dissera Rosemary uma vez. David tinha concordado, achando que o assunto estava encerrado, mas tambm no era isso, no exatamente. Era mais pelo fato 
de Rosemary conhecer seu segredo, ele suspeitava. David tinha despejado sua histria nela num rompante, na primeira e nica vez que a havia contado a algum, e ela 
o escutara sem julg-lo. Havia uma certa liberdade nisso; David podia ser completamente verdadeiro com Rosemary, que escutara o que ele tinha feito sem rejeit-lo 
e sem contar a ningum. Estranhamente, no correr dos anos, Rosemary e Paul tinham feito amizade, a princpio meio a contragosto, depois com uma espcie de discusso 
constante e sria sobre os assuntos que interessavam aos dois - poltica, msica e justia social -, discusses que comeavam no jantar, nas raras visitas de Paul, 
e se estendiam pela madrugada.
         s vezes David suspeitava que esse era o jeito de Paul manter distncia dele, um jeito de estar em sua casa sem ter que falar de nada que fosse profundamente 
pessoal. De quando em quando, David insinuava um assunto, mas Paul sempre escolhia esse momento para ir embora, empurrando a cadeira para trs e bocejando, subitamente 
cansado.
         Rosemary olhou para cima, afastando com o pulso uma mecha de cabelo cada no rosto, e acenou de volta. David guardou suas pastas de arquivo e desceu o corredor 
estreito. No caminho, passou pela porta que dava para o quarto de Jack. Deveriam t-la lacrado quando a casa fora convertida numa residncia geminada, mas uma noite, 
por impulso, David tinha experimentado a maaneta e descoberto que isso no fora feito. Nesse momento, abriu a porta de mansinho. Rosemary tinha pintado o quarto 
de Jack de azul-claro, e a cama e o roupeiro, achados abandonados junto ao meio-fio, de um branco puro. Toda uma srie de Scherenschnitte - intricados recortes de 
papel mostrando mes e filhos, crianas brincando sob rvores frondosas, delicados e cheios de movimento - fora montada contra um fundo azul-marinho, emoldurada 
e pendurada na parede oposta. Rosemary havia exibido essas peas numa exposio de arte, um ano antes, e, para sua surpresa, haviam comeado a chegar encomendas, 
uma atrs da outra.  noite era comum ela se sentar  mesa da cozinha, sob uma luz forte, recortando cena aps cena, todas diferentes entre si. Ela no podia prometer 
s pessoas o que faria; recusava-se a ficar presa a qualquer conjunto de imagens.  que a imagem j estava l, explicava, escondida no papel e nos movimentos de 
suas mos, e nunca podia ser a mesma duas vezes.
         David parou, ouvindo os sons da casa: um leve gotejar de gua e o zumbido da geladeira velha. O cheiro de perfume e talco infantil era forte; havia uma 
camisola cada sobre a cadeira do canto. Ele aspirou o aroma da moa e de Jack, depois fechou a porta com firmeza e continuou a andar pelo corredor. Nunca havia 
falado com Rosemary sobre a porta destrancada, mas tambm nunca a tinha cruzado. Para ele, era um ponto de honra, apesar do escndalo, nunca ter tirado proveito 
da moa, nunca ter invadido sua vida pessoal.
         Mesmo assim, gostava de saber que a porta existia.
         Havia mais trabalho burocrtico para fazer, mas David desceu. Seus tnis de corrida estavam na varanda dos fundos. Calou-os, amarrando os cadaros sem 
apertar, e deu a volta at a frente. Jack estava parado junto  trelia, arrancando botes de rosa. David agachou-se a seu lado e o puxou para perto, sentindo seu 
peso delicado e sua respirao compassada. Jack tinha nascido em setembro, num fim de tarde, quando a noite comeava a cair. David levara Rosemary para o hospital 
e se sentara com ela durante as primeiras seis horas do trabalho de parto, jogando xadrez e lhe dando gelo picado. Ao contrrio de Norah, Rosemary no tinha o menor 
interesse num parto natural; assim que foi possvel, tomou uma anestesia epidural e, quando o trabalho de parto ficou mais lento, tomou Pitocin para acelerar o processo. 
David segurou-lhe a mo quando as contraes ficaram mais fortes, porm, quando ela foi levada para a sala de parto, deixou-se ficar para trs. Aquilo era muito 
particular, no era o lugar dele. Apesar disso, depois de Rosemary ele fora o primeiro a segurar Jack, e passara a amar o menino como se fosse seu filho.
         - Voc t com um cheiro engraado - disse Jack, empurrando o peito de David.
         -  a minha camisa velha e fedida - respondeu David.
         - Vai correr? - perguntou Rosemary. Agachou-se sobre os calcanhares, sacudindo a terra das mos. Andava magra ultimamente, quase ossuda, e David se preocupava 
com o ritmo que ela mantinha, com o esforo que se impunha na escola e no trabalho. Ela secou o suor da testa com o pulso e deixou um risco de terra.
         - Vou. No agento mais olhar para aquelas aplices de seguro nem por um minuto.
         - Pensei que voc tivesse contratado algum.
         - Contratei. Acho que ela ser til, mas s pode comear na semana que vem.
         Rosemary balanou a cabea, pensativa. Ela era jovem, tinha apenas 22 anos, mas era resoluta e objetiva, e se portava com a segurana de uma mulher muito 
mais velha.
         - Tem aula hoje  noite?- indagou David, e ela fez que sim.
         - A ltima de todas. Dia 12 de julho.
         -  mesmo. Eu tinha esquecido.
         - Voc anda ocupado.
         David concordou, com um vago sentimento de culpa, perturbado pela data. Doze de julho; era difcil entender como o tempo havia passado to depressa. Rosemary 
tinha voltado para a escola depois de Jack nascer, no mesmo janeiro cinzento em que David abandonara sua clnica anterior porque um homem que tinha sido seu paciente 
durante 20 anos fora mandado embora por no ter seguro de sade. David tinha iniciado sua prpria clnica e atendia qualquer um que aparecesse, com ou sem seguro. 
J no trabalhava pelo dinheiro. Paul havia terminado a faculdade e fazia muito tempo que suas prprias dvidas estavam pagas; ele podia fazer o que quisesse. Nos 
ltimos tempos, como os mdicos de antigamente, s vezes era pago com frutas e legumes, ou com trabalhos no jardim, ou o que quer que as pessoas pudessem oferecer. 
Imaginava continuar assim por mais uns 10 anos, atendendo pacientes todos os dias, mas reduzindo o horrio aos poucos, at que os parmetros de sua vida fsica no 
ultrapassassem o tamanho dessa casa e desse jardim e de suas idas  mercearia e  barbearia. Norah talvez ainda continuasse a viajar pelo globo feito uma liblula, 
mas aquela vida no era para ele. David estava criando razes, e elas vinham se aprofundando.
         - Hoje tenho prova final de qumica - disse Rosemary, tirando as luvas - e, depois, viva!, acabou-se.
         As abelhas zumbiam em torno das madressilvas.
         - H uma coisa que preciso lhe dizer - ela continuou, puxando o short para baixo e sentando ao lado de David nos degraus quentes de concreto.
         - Parece srio.
         Ela acenou com a cabea.
         - E . Ontem me ofereceram um emprego. Um bom emprego.
         - Aqui?
         Rosemary abanou a cabea, sorrindo e dando adeusinho para Jack, que tentava saltar fazendo uma estrela e aterrissou esparramado na grama.
         - A  que est. Fica em Harrisburg.
         - Perto de sua me - comentou David, com o corao pesado. Sabia que ela vinha procurando emprego e tinha esperado que ficasse por ali. Mas a mudana sempre 
fora uma possibilidade muito real. Dois anos antes, depois da morte repentina do pai, Rosemary tinha se reconciliado com a me e a irm mais velha, e as duas estavam 
ansiosas para que ela voltasse e criasse Jack perto delas.
         - Isso mesmo.  o emprego perfeito para mim: quatro jornadas de 10 horas por semana. E eles tambm pagaro para eu freqentar a faculdade. Posso trabalhar 
para conseguir meu diploma de fisioterapia. Mas, acima de tudo, eu teria mais tempo para passar com o Jack.
         - E mais ajuda - disse David. - Sua me ajudaria. E sua irm.
         - . Isso seria bom mesmo. E, por mais que eu goste do Kentucky, nunca foi um lar para mim, no de verdade.
         David balanou a cabea, contente por ela, mas no confiando em sua capacidade de falar. Algumas vezes havia imaginado, em tese, a possibilidade de ter 
a casa toda para si: as paredes que poderiam ser derrubadas, o espao que se abriria, a casa reconvertendo-se lentamente na elegante residncia familiar que um dia 
tinha sido. Mas todas as suas conjecturas haviam sido deixadas de lado em troca do prazer de ouvir os passos e os movimentos delicados dela na porta ao lado, de 
acordar de madrugada com o choro distante de Jack.
         Havia lgrimas em seus olhos, e ele riu.
         - Bem - disse, tirando os culos -, acho que isso estava fadado a acontecer. Meus parabns,  claro.
         - Ns viremos visit-lo. Voc nos visitar.
         - Isso mesmo. Tenho certeza de que nos veremos muito.
         - , sim - ela confirmou. Ps a mo no joelho de David. - Olhe, eu sei que nunca falamos disso. Nem sei como tocar no assunto, na verdade. Mas o que isso 
significou para mim... O modo como voc me ajudou... eu sou muito grata. Serei grata para sempre.
         - J fui acusado de me empenhar demais em salvar as pessoas - disse David.
         Ela abanou a cabea:
         - Voc salvou minha vida, em muitos sentidos.
         - Bem, se isso  verdade, fico contente. Deus sabe que fiz muitos estragos noutro lugar. Parece que nunca pude fazer muito bem  Norah.
         Houve um silncio entre eles e o zumbir distante de um cortador de grama.
         - Voc tem que contar a ela - disse Rosemary, baixinho. - E ao Paul tambm. Voc devia, mesmo.
         Agora Jack estava agachado na alia, fazendo montinhos de cascalho, deixando as pedrinhas se escoarem e cascatearem de seus dedos.
         - No  meu papel dizer nada, eu sei disso - continuou Rosemary. - Mas a Norah precisa saber da Phoebe. No est certo ela no saber. Tambm no est certo 
o que ela foi obrigada a pensar de ns dois esse tempo todo.
         - Eu disse a verdade a ela. Que ns somos amigos.
         - . E somos. Mas como  que ela poderia acreditar?
         David deu de ombros.
         -  a verdade.
         - No  a verdade toda. David, de um jeito esquisito, ns estamos ligados, voc e eu, por causa da Phoebe. Porque eu conheo esse segredo. O negcio  que 
eu gostava disso: de me sentir especial por saber uma coisa que ningum mais sabia. Saber um segredo  uma espcie de poder, no ? Mas, ultimamente, no gosto tanto 
de saber disso. No  realmente a mim que cabe saber, no ?
         - No - fez David. Pegou um grumo de terra e o esmagou entre os dedos. Pensou nas cartas de Caroline, que havia queimado cuidadosamente ao se mudar para 
essa casa. - Acho que no.
         - Pois . Entende? Voc vai? Quero dizer, vai contar a ela?
         - No sei, Rosemary. No posso prometer.
         Sentaram-se calados ao sol por alguns minutos, vendo Jack tentar novamente fazer estrelas na grama. Ele era um lourinho gil, naturalmente atltico, que 
gostava de correr e trepar em rvores. David tinha voltado da Virgnia Ocidental livre do luto e da tristeza que mantivera isolados durante todos aqueles anos. Quando 
da morte de June, no tivera como dar voz ao que se havia perdido, no tivera realmente nenhum meio de seguir em frente. Chegava a ser indecoroso falar dos mortos 
naqueles tempos, de modo que eles no falavam. E tinham deixado todo aquele luto inacabado. De algum modo, voltar l permitira a David resolver esse assunto. Ele 
retornara a Lexington exaurido,  verdade, mas tambm calmo e seguro. Depois de tantos anos, finalmente havia encontrado foras para dar a Norah a liberdade de refazer 
sua vida.
           ...
         No nascimento de Jack, David tinha aberto uma conta para ele no nome de Rosemary, assim como uma para Phoebe, no nome de Caroline. Tinha sido bem simples: 
ele havia guardado o nmero de Caroline na previdncia social e tambm dispunha de seu endereo. Um investigador particular levara menos de uma semana para encontrar 
Caroline e Phoebe morando em Pittsburgh, numa casa alta e estreita perto da via expressa. David tinha ido at l e estacionado o carro na rua, com a inteno de 
subir a escada e bater na porta. O que queria era contar a Norah o que havia acontecido, e no poderia faz-lo sem lhe dizer onde estava Phoebe. Norah quereria ver 
a filha, ele tinha certeza, de modo que no era apenas a sua vida que poderia mudar. Ele tinha ido a Pittsburgh para dizer a Caroline o que esperava fazer.
         Seria a coisa certa? Ele no sabia. Ficou sentado no carro. Anoitecia, e os faris lanavam clares nas folhas dos sicmoros. Phoebe havia crescido ali, 
naquela rua conhecida que ela tomava por uma realidade comum, naquela calada levantada pelas razes de uma rvore, com a placa de advertncia balanando de leve 
ao vento, com a correria do trnsito - tudo aquilo seriam emblemas de casa para sua filha. Passou um casal empurrando um carrinho de beb, depois uma luz se acendeu 
na sala da casa de Caroline. David desceu do carro e ficou parado no ponto de nibus, tentando no chamar ateno, apesar de estar olhando para a janela diante do 
gramado ensombrecido. L dentro, movendo-se no quadrado de luz, Caroline ajeitava a sala, recolhendo jornais e dobrando um cobertor. Estava de avental. Seus movimentos 
eram desenvoltos e objetivos. Ela parou, espreguiou-se, olhou por cima do ombro e disse alguma coisa.
         E ento David a viu: Phoebe, sua filha. Estava na sala de jantar, pondo a mesa. Tinha o cabelo preto de Paul e o mesmo perfil, e, por um instante, at ela 
se virar para apanhar o saleiro, David teve a sensao de estar observando o filho. Deu alguns passos  frente e Phoebe sumiu de seu campo visual, depois reapareceu 
com trs pratos. Era baixa e atarracada, e tinha o cabelo fino, fixado com prendedores. Usava culos. Mesmo assim, a semelhana ainda era visvel para David: l 
estavam o sorriso de Paul, seu nariz, sua expresso de concentrao no rosto de Phoebe, quando ela ps as mos nas cadeiras e examinou a mesa. Caroline entrou na 
sala e parou a seu lado, depois passou o brao em volta dela, num abrao rpido e afetuoso, e as duas riram.
         J ento havia escurecido por completo. David ficou imvel, feliz por haver pouco trnsito de pedestres. As folhas eram arrastadas pelo vento na calada 
e ele fechou mais o palet. Lembrou-se de como se sentira na noite do parto, como se estivesse fora de sua prpria vida e observasse seus movimentos nela. Nesse 
momento, compreendeu que no controlava a situao atual, que estava to completamente excludo dela quanto se no existisse. Phoebe lhe fora invisvel durante todos 
aqueles anos: uma abstrao, no uma menina. No entanto, ali estava, pondo copos de gua na mesa. Ela ergueu os olhos e um homem de cabelo preto e eriado entrou 
e disse alguma coisa que a fez sorrir. Depois, os trs sentaram-se  mesa e comearam a jantar.
         David voltou para o carro. Imaginou Norah parada a seu lado no escuro, observando a filha mover-se em sua vida, inconsciente da presena dos pais. Ele causara 
dor a Norah; sua mentira a fizera sofrer de uma maneira que ele nunca havia imaginado nem pretendido. Mas disso ele poderia poup-la. Poderia afastar-se dali e deixar 
o passado em paz. E foi o que acabou fazendo, dirigindo a noite inteira pelas terras planas de Ohio.
           ...
         - No entendo - dizia Rosemary, fitando-o. - Por que voc no pode prometer?  a coisa certa.
         - Causaria sofrimento demais.
         - Voc no sabe o que vai acontecer enquanto no o fizer.
         - Posso fazer uma idia muito boa.
         - Mas, David, prometa que vai pensar nisso, sim?
         - Penso nisso todo santo dia.
         Rosemary abanou a cabea, confusa, depois deu um sorrisinho triste.
         - Ento, est bem. H mais uma coisa.
         - Ah, ?
         - Stuart e eu vamos nos casar.
         - Voc  jovem demais para se casar - disse David na mesma hora, e os dois caram na risada.
         - Sou velha como as montanhas.  assim que me sinto, metade do tempo.
         - Bem, parabns de novo. No  surpresa, mas  uma boa notcia, de qualquer jeito.
         Pensou em Stuart Wells, alto e atltico. Forto, era essa a palavra que vinha  mente. Era fisioterapeuta, especializado em pneumoterapia. Fazia anos que 
estava apaixonado por Rosemary, mas ela o obrigara a esperar at o trmino de seus estudos.
         - Fico feliz por voc, Rosemary - prosseguiu. - O Stuart  um bom rapaz. E adora o Jack. Ele j tem emprego em Harrisburg?
         - Ainda no. Est procurando. O contrato dele aqui termina este ms.
         - Como  o mercado de trabalho em Harrisburg?
         - Mais ou menos. Mas no estou preocupada. Stuart  muito competente.
         - Tenho certeza que sim.
         - Voc est aborrecido.
         - No. No, de jeito nenhum. Mas a sua notcia me deixou triste. Eu me sinto triste e velho.
         Ela riu.
         - Velho como as montanhas?
         Foi a vez de David rir tambm.
         - Ah, muito, muito mais velho.
         Calaram-se por um momento.
         - Aconteceu, s isso - disse Rosemary. - Tudo se juntou na semana passada. Eu no queria falar nada do emprego at ter certeza. E a, quando consegui o 
emprego, Stuart e eu resolvemos casar. Sei que deve parecer repentino.
         - Gosto do Stuart. Espero poder dar os parabns a ele tambm.
          Rosemary sorriu.
         - Na verdade, andei pensando se voc me levaria ao altar.
         David fitou-a nesse momento, a pele alva, a felicidade que ela j no conseguia esconder transparecendo no sorriso.
         - Seria uma honra para mim - disse em tom grave.
         - Vai ser aqui mesmo. Uma coisa muito pequena, simples e particular. Daqui a duas semanas.
         - Voc no perde tempo.
         - Nem preciso pensar nisso. Sinto que est tudo perfeitamente certo - disse Rosemary. Olhou para o relgio e deu um suspiro. -  melhor eu ir andando. - 
E se levantou, esfregando as mos. - Vamos, Jack.
         - Dou uma olhada nele enquanto voc se arruma, se voc quiser.
         - Seria uma mo na roda. Obrigada.
         - Rosemary.
         - Sim?
         - Voc me manda umas fotos, de vez em quando? Do Jack,  medida que ele for crescendo? De vocs dois, na casa nova?
         - Com certeza.  claro - fez ela, cruzando os braos e chutando a borda do degrau.
         - Obrigado - disse David, simplesmente, de novo perturbado pelo modo como tinha conseguido perder sua prpria vida, absorto em suas lentes e seu luto. As 
pessoas imaginavam que ele havia parado de fotografar por causa da mulher morena de Pittsburgh e de sua crtica pouco elogiosa. Ele tinha cado em desgraa, especulavam, 
e perdera o nimo. Ningum acreditaria que simplesmente deixara de se importar, mas era verdade. David no havia pegado uma cmera desde o dia em que se postara 
na confluncia daqueles dois rios. Tinha desistido da arte e do oficio, da tarefa complexa e estafante de tentar transformar o mundo noutra coisa, de converter o 
corpo no mundo e o mundo no corpo. s vezes ele deparava com fotografias suas em livros didticos ou penduradas nas paredes de escritrios particulares ou residncias 
e ficava chocado com sua beleza fria, sua preciso tcnica; vez por outra, at com a busca sedenta que o vazio delas implicava.
         - No se pode deter o tempo - disse nesse momento. - No se pode captar a luz. Tudo que a gente pode fazer  virar o rosto para cima e deixar a chuva cair. 
Mas, assim mesmo, Rosemary, eu gostaria de receber umas fotografias. Suas e do Jack. Pelo menos elas me dariam um vislumbre. E me dariam enorme prazer.
         - Mandarei uma poro - disse ela, tocando-o no ombro. - Vou inundar voc de fotos.
         David ficou sentado na escada enquanto ela se vestia, lagarteando ao sol. Jack brincava com seu caminho. Voc deve contar a ela. Abanou a cabea. Depois 
de observar a casa de Caroline como um voyeur, ele havia telefonado para um advogado em Pittsburgh e abrira as tais contas de poupana. Quando morresse, elas prescindiriam 
da homologao do inventrio. Jack e Phoebe ficariam garantidos, e Norah nunca precisaria saber.
         Rosemary voltou, cheirando a sabonete, de saia e sapatos baixos. Pegou a mo de Jack e pendurou uma mochila turquesa no ombro. Parecia muito jovem, forte 
e esguia, com o cabelo molhado e o rosto concentrado, de cenho franzido. Deixaria Jack na casa da bab a caminho da escola.
         - Ah, com todas as outras coisas, quase me esqueci - disse. - O Paul telefonou.
         O corao de David bateu mais forte.
         - Foi?
         - Foi, hoje de manh. Para ele era o meio da madrugada; tinha acabado de voltar de um concerto. Estava em Sevilha, disse. Faz trs semanas que est l, 
estudando guitarra flamenga com algum... no me lembro quem, mas parecia famoso.
         - E ele est se divertindo?
         - Est. Pareceu que sim. Ele no deixou o telefone. Disse que vai ligar de novo.
         David assentiu com a cabea, feliz por Paul estar a salvo. Feliz por ele ter telefonado.
         - Boa sorte na sua prova - disse, levantando-se.
         - Obrigada. Desde que eu passe,  s o que importa.
         Rosemary sorriu, depois acenou e saiu andando com o filho pela estreita trilha de pedra at a calada. David a viu afastar-se, tentando gravar aquele momento 
na memria para sempre - a mochila de cor viva, o cabelo dela balanando s suas costas, a mo solta de Jack estendendo-se para agarrar as folhas e gravetos. Era 
intil,  claro; ele se esquecia das coisas a cada passo dado por Rosemary. As vezes, suas fotografias o deixavam admirado: imagens com que se deparava, guardadas 
em velhas caixas ou pastas, momentos de que no conseguia recordar-se nem mesmo ao v-los - ele mesmo, rindo com pessoas cujos nomes havia esquecido, Paul exibindo 
uma expresso que ele nunca vira ao vivo. E o que guardaria ele desse momento dentro de um ou de cinco anos? O sol no cabelo de Rosemary, a sujeira sob as unhas 
dela e o aroma vago e limpo do sabonete.
         E, de algum modo, isso bastaria.
         David levantou-se, espreguiou-se e comeou a correr em passadas ritmadas em direo ao parque. Depois de quase dois quilmetros de corrida, lembrou-se 
da outra coisa que o havia importunado a manh inteira, da importncia desse dia, afora a prova de Rosemary: 12 de julho. Aniversrio de Norah. Ela estava fazendo 
46 anos.
         Difcil de acreditar. David continuou a correr, com passadas largas, ritmadas, lembrando-se de Norah no dia do casamento. Os dois tinham ido para o lado 
de fora, para o sol frio de final de inverno, e pararam na calada, recebendo os cumprimentos dos convidados. O vento levantara o vu de Norah, batendo com ele no 
rosto de David, e a neve tardia sobre as cerejeiras descera como uma chuva de ptalas.
         David correu, desviando-se do parque e rumando para seu antigo bairro. Rosemary tinha razo. Norah precisava saber. Ele lhe contaria hoje. Iria  antiga 
casa dos dois, onde Norah ainda morava, esperaria ela chegar e ento lhe contaria, embora no conseguisse imaginar a reao dela.  claro que voc no pode, dissera 
Rosemary. A vida  assim, David. Por acaso voc se imaginaria, anos atrs, morando nesta casinha geminada furreca? Ser que, em um milho de anos, teria imaginado 
me encontrar?
         Bem, Rosemary tinha razo: a vida que ele estava levando no era a que havia imaginado para si. Chegara a esta cidade como um estranho, mas agora as ruas 
que passavam eram muito conhecidas; no havia um passo ou uma imagem que no estivessem ligados a uma lembrana. Ele vira aquelas rvores serem plantadas, acompanhara 
seu crescimento. Passou por casas que conhecia, casas em que estivera em jantares ou coquetis, aonde fora atender chamados de emergncia, parado em corredores ou 
vestbulos tarde da noite, escrevendo receitas, chamando a ambulncia. Camada aps camada de dias e imagens densos e complexos e singularmente seus. Norah poderia 
andar por ali, ou Paul, e ver algo completamente diferente, mas igualmente real.
         David virou em sua antiga rua. Havia meses que no passava por l, e ficou surpreso ao ver as colunas da varanda da antiga casa derrubadas, o telhado sustentado 
por pares de tbuas grossas. Apodrecimento do piso da varanda, era o que parecia, mas no havia nenhum operrio  vista. Tambm no havia nenhum carro na entrada; 
Norah no estava em casa. Ele andou pelo jardim algumas vezes, para recobrar o flego, depois foi at onde a chave continuava escondida, sob um tijolo ao lado dos 
rododendros. Entrou e tomou um copo d'gua. A casa cheirava a mofo. David abriu uma janela e o vento levantou as cortinas brancas. Essas eram novas, assim como o 
piso de lajotas e a geladeira. Bebeu mais um copo d'gua. Depois, perambulou pela casa, curioso para ver o que mais teria mudado. Pequenas coisas em toda parte: 
um espelho novo na sala de jantar, os mveis da sala de estar reestofados e rearrumados.
         No segundo andar, os quartos continuavam os mesmos: o de Paul, um santurio da angstia adolescente, com cartazes de quartetos obscuros colados na parede 
com durex, canhotos de ingressos espetados no quadro de avisos, paredes pintadas de um azul-escuro pavoroso, feito uma caverna. Paul fora para a Juilliard e, embora 
David lhe tivesse dado sua bno e pago metade das contas, o que Paul ainda recordava era o passado mais profundo, da poca em que o pai no acreditava que o talento 
dele bastasse para sustent-lo na vida. Estava sempre enviando programas de concertos e criticas, alm de postais de todas as cidades onde se apresentava, como quem 
dissesse: Ei, olhe s, eu sou um sucesso. Como se ele mesmo mal pudesse acreditar. s vezes, David viajava 150 quilmetros ou mais, at Cincinnati, Pittsburgh, Atlanta 
ou Memphis, para se sentar no fundo de um auditrio escuro e ver o filho tocar. A cabea de Paul curvada sobre o violo, seus dedos geis e a msica, uma linguagem 
bela e misteriosa, comoviam-no at as lgrimas. Havia ocasies em que tudo que David queria fazer era sair andando pelos corredores escuros da platia e tomar o 
filho nos braos. Mas  claro que nunca o fazia; s vezes, saa de fininho sem ser visto.
         O quarto de casal estava em perfeita ordem, sem uso. Norah tinha se mudado para o quarto menor da frente; nesse, a colcha estava amarrotada. David estendeu 
a mo para alis-la, mas puxou-a de volta no ltimo minuto, como se aquilo fosse uma intromisso grande demais. Em seguida, voltou para o trreo.
         No compreendia: j era fim de tarde e Norah deveria estar em casa. Se no chegasse logo, ele simplesmente iria embora.
         Havia um bloco amarelo na escrivaninha, ao lado do telefone, cheio de anotaes enigmticas. Telefonar Jan antes das 8h, remarcar; Tim no tem certeza; 
entrega antes das 10h. No esquecer Dunfree e ingressos. David arrancou cuidadosamente essa pgina, sem rasg-la, arrumou-a no centro da escrivaninha e levou o bloco 
para a mesa da copa, onde se sentou e comeou a escrever.
          Nossa filhinha no morreu. Caroline Gill a levou e a criou em outra cidade.
         Riscou esse trecho.
          Dei nossa filha.
         Suspirou e pousou a caneta. No podia fazer isso; j nem conseguia imaginar como seria sua vida sem o peso desse conhecimento oculto. Passara a pensar nele 
como uma espcie de penitncia. Era autodestrutivo, ele percebia, mas a vida era assim. As pessoas fumavam, saltavam de pra-quedas, bebiam demais e entravam no 
carro e dirigiam sem o cinto de segurana. Para ele havia esse segredo. As cortinas novas balanaram, roando em seu brao. Ao longe, a torneira do banheiro do trreo 
pingava, coisa que o levara  loucura durante anos, coisa que sempre havia pretendido consertar. Picou em pedacinhos a pgina do bloco e os guardou no bolso, para 
jogar fora depois. Em seguida, foi at a garagem e vasculhou as ferramentas que havia deixado, at encontrar uma chave inglesa e um par de carrapetas. Era provvel 
que as tivesse comprado num sbado qualquer, exatamente por essa razo.
         Levou mais de uma hora para consertar as torneiras do banheiro. Desmontou-as, lavou o sedimento dos filtros, substituiu as carrapetas e atarraxou as peas. 
O metal estava manchado. David o poliu, usando uma velha escova de dentes que encontrou enfiada numa lata de caf embaixo da pia. Eram seis horas quando terminou, 
o comeo de uma noite de meados de vero em que a luz do sol ainda se derramava pelas janelas, s que agora mais baixa, inclinando-se no piso. Ficou um instante 
parado no banheiro, profundamente satisfeito com o brilho dos metais e com o silncio. O telefone tocou na cozinha e uma voz desconhecida comeou a falar com urgncia 
sobre passagens para Montreal, interrompendo-se para dizer: Ah, droga,  isso mesmo, esqueci que voc est na Europa com o Frederic. E ento David tambm se lembrou 
de que ela viajara para Paris, em frias - Norah lhe dissera, mas ele tinha deixado a informao escapar, ou melhor, afastara a idia da cabea. A idia de que ela 
havia conhecido algum, um canadense de Quebec, um homem que trabalhava nos prdios quadrados da IBM e falava francs. A voz de Norah tinha mudado ao falar dele, 
como que enternecida, uma voz que David nunca a ouvira usar. Ele a imaginou segurando o fone com o ombro, enquanto digitava informaes no computador, levantando 
os olhos e percebendo que havia passado muito da hora do jantar. Norah, caminhando pelos corredores de aeroportos, conduzindo seus grupos a nibus, restaurantes, 
hotis, aventuras, todos os quais ela mesma providenciara confiantemente.
         Bem, pelo menos ela ficaria contente com as torneiras. E David tambm estava: tinha feito um trabalho cuidadoso. meticuloso. Parou na cozinha, alongando 
bem os braos, nos preparativos para terminar sua corrida, e tornou a pegar o bloco amarelo. Consertei a pia do banheiro, escreveu. Feliz aniversrio.
         Em seguida, saiu, trancando a porta, e recomeou a correr.
        II
         
         NORAH ESTAVA SENTADA NUM BANCO DE PEDRA NOS JARDINS DO LOUVRE,  com um livro aberto no colo, vendo as folhas dos choupos balanarem contra o cu. Perto 
de seus ps havia pombos movendo-se com seu andar gingado, bicando a grama e arrufando as asas.
         - Ele est atrasado - disse Bree, que se sentara junto dela, com as longas pernas cruzadas nos tornozelos, folheando uma revista. Agora com 44 anos, Bree 
ainda era muito bonita, alta e esbelta, com seus brincos turquesa roando a pele morena e o cabelo transformado num branco prateado e puro. Durante a radioterapia, 
ela o cortara bem curto, dizendo que no pretendia gastar nem mais um minuto da vida para andar na moda. Tivera sorte, e sabia disso: eles haviam descoberto o tumor 
precocemente, e fazia cinco anos que ela estava livre do cncer. Mas a experincia a havia modificado, em aspectos grandes e pequenos. Ela ria mais e tirava mais 
folgas do trabalho. Nos fins de semana, comeara a trabalhar como voluntria na construo de casas da organizao Habitat for Humanity; ao construir uma delas no 
Leste do Kentucky, tinha conhecido um homem caloroso, corado e que gostava de se divertir, um pastor que era vivo recente. Chamava-se Ben. Os dois tinham tornado 
a se encontrar num projeto na Flrida e outra vez no Mxico. Nessa ltima viagem, sem maior alarde, tinham se casado.
         - O Paul vir - disse Bree, erguendo os olhos. - Afinal, foi idia dele.
         -  verdade - concordou Norah. - Mas ele est apaixonado. S espero que se lembre.
         O ar estava quente e seco. Norah fechou os olhos, relembrando aquele dia do final de abril em que Paul a surpreendera no escritrio, de volta por algumas 
horas entre uma apresentao e outra. Alto e ainda magricela, sentara-se na beirada da escrivaninha, jogando o peso de papel de uma das mos para a outra, enquanto 
descrevia seus planos para uma turn de vero na Europa, com seis semanas inteiras na Espanha, para estudar com os violonistas de l. Norah e Frederic haviam programado 
uma viagem  Frana e, ao descobrir que estariam em Paris no mesmo dia, Paul havia apanhado uma caneta na escrivaninha da me e rabiscado LOUVRE no calendrio da 
parede do escritrio de Norah: cinco horas, 21 de julho. Encontre-me no jardim, que eu a levo para jantar.
         Paul tinha viajado para a Europa semanas depois, ligando para Norah de vez em quando, de penses rsticas ou hoteizinhos  beira-mar. Estava apaixonado 
por uma flautista, o tempo estava maravilhoso, a cerveja da Alemanha era espetacular. Norah escutava; procurava no se preocupar nem fazer perguntas demais. Afinal, 
Paul era um adulto de 1,83m, moreno como David. Ela o imaginava andando descalo pela praia, inclinando-se para segredar alguma coisa  namorada, seu hlito parecendo 
roar-lhe o ouvido.
         Norah era to discreta que nunca chegava sequer a lhe pedir seu itinerrio, de modo que, quando Bree lhe havia telefonado do hospital em Lexington, ela 
no soubera como entrar em contato com o filho para lhe dar a notcia chocante: quando corria no jardim botnico, David havia sofrido um infarto fulminante e morrera.
         Ela abriu os olhos. O mundo parecia vivido e preguioso no calor de fim de tarde em que as folhas reluziam intermitentemente contra o cu azul. Norah tinha 
voltado para casa imediatamente, acordando no avio depois de sonhos irrequietos em que procurava Paul. Bree a havia ajudado em todo o processo do sepultamento e 
se recusara a deixar que ela regressasse sozinha a Paris.
         - No se preocupe. Ele vir - repetiu Bree.
         - Ele perdeu o enterro - fez Norah. - Sempre me sentirei pssima por isso. Eles nunca resolveram direito as coisas, o David e o Paul. Acho que Paul nunca 
se refez da partida do David.
         - E voc?
         Norah olhou para a irm, para o cabelo espetado e curto, a pele alva, os olhos verdes, calmos e penetrantes. Virou o rosto para o outro lado.
         - Isso parece o tipo de coisa que o Ben perguntaria. Acho que talvez voc anda passando tempo demais com pastores.
         Bree deu uma risada, mas no desistiu do assunto.
         - No  o Ben que est perguntando. Sou eu.
         - No sei - respondeu Norah, devagar, pensando na ltima vez que vira David, sentado na varanda com um copo de ch gelado, depois de uma corrida. Fazia 
seis anos que estavam divorciados e, antes disso, tinham sido casados por outros 18: fazia 25 anos que ela o conhecia, um quarto de sculo, mais da metade de sua 
vida. Quando Bree lhe telefonara com a noticia da morte dele, Norah simplesmente no tinha conseguido acreditar. Era impossvel imaginar o mundo sem David. S muito 
depois, passado o funeral,  que o luto a havia alcanado. - H muitas coisas que eu gostaria de ter dito a ele. Mas, pelo menos, ns conversvamos. As vezes ele 
dava s uma passada: para consertar alguma coisa, para dizer ol. Era solitrio, eu acho.
         - Ele sabia do Frederic?
         - No. Tentei contar-lhe uma vez, mas ele no pareceu assimilar a idia.
         -  Isso  bem coisa do David - observou Bree. - Ele e o Frederic so muito diferentes.
         - . So, sim.
         Uma imagem de Frederic em Lexington, do lado de fora, na penumbra do crepsculo, batendo cinza na terra em volta dos rododendros, passou por sua cabea. 
Os dois tinham se conhecido pouco mais de um ano antes, em mais um dia abafado, em outro jardim. A conta da IBM, obtida com enorme esforo, ainda era uma das mais 
lucrativas de Norah, de modo que ela havia comparecido ao piquenique anual, apesar da dor de cabea e do rugir distante da trovoada. Frederic estava sentado sozinho, 
com um ar vagamente mal-humorado e pouco comunicativo. Norah servira-se de um prato e se sentara ao lado dele. Se o homem no quisesse conversar, tudo bem com ela. 
Mas ele sorrira e a cumprimentara calorosamente, abandonando seus pensamentos e falando ingls com um leve sotaque francs; era de Quebec. Tinham passado horas conversando, 
enquanto a tempestade se aproximava, enquanto os outros participantes do piquenique arrumavam suas coisas e iam embora. Ao comear a chuva, ele a havia convidado 
para jantar.
         - E onde est o Frederic, afinal? - perguntou Bree. - Voc no disse que ele viria?
         - Ele queria vir, mas foi chamado a Orleans a trabalho. Tem laos de famlia por l, de muito tempo atrs. Um primo distante em segundo grau, que mora num 
lugar chamado Chteauneuf. Voc no gostaria de morar num lugar com esse nome?
         -  provvel que mesmo la eles tenham engarrafamentos e dias em que o cabelo fica horroroso.
         - Espero que no. Espero que faam feira todas as manhs e voltem para casa com po fresquinho e vasos cheios de flores. Seja como for, eu disse ao Frederic 
que fosse. Ele e Paul so muito amigos, mas  melhor eu dar essa noticia a ele sozinha.
         - . Tambm estou planejando sair de fininho quando ele chegar.
         - Obrigada - disse Norah, segurando-lhe a mo. - Obrigada por tudo. Por me ajudar tanto no enterro. Eu no teria conseguido atravessar esta ultima semana 
sem voc.
         - Voc est com uma dvida e tanto comigo - retrucou Bree, sorridente. Depois, ficou pensativa. - Achei que foi um belo funeral, se  que se pode dizer 
isso. Havia muita gente. Fiquei surpresa ao ver quantas vidas o David afetou.
         Norah assentiu com a cabea. Tambm ficara surpresa ao ver a igrejinha de Bree repleta de gente, to cheia que, quando o oficio comeou, havia trs filas 
de pessoas em p nos fundos. Os dias anteriores tinham sido um borro, durante o qual Ben a guiara delicadamente pela escolha da msica e dos trechos das Escrituras, 
do caixo e das flores, e a ajudara a escrever o obiturio. Mesmo assim, fora um alivio ter essas coisas concretas para fazer, e Norah havia se deslocado por entre 
as tarefas numa nuvem protetora de eficincia entorpecida - at comear o oficio religioso. As pessoas deviam ter estranhado a intensidade com que ela havia chorado 
naquele momento, dando um novo sentido s belas e velhas palavras, mas seu luto no tinha sido apenas por David. Eles tinham estado juntos no funeral da filha, todos 
aqueles anos antes, com o luto j ento crescendo entre os dois.
         - Foi a clnica - disse Norah. - A clnica que ele dirigiu por todos aqueles anos. A maioria das pessoas tinha sido paciente dele.
         - Eu sei. Foi impressionante. As pessoas pareciam achar que ele era um santo.
         - No eram casadas com ele - comentou Norah.
         As folhas se agitavam contra o cu azul e quente. Norah tornou a percorrer o jardim com os olhos,  procura de Paul, mas ele no estava em parte alguma.
         - Ah, no consigo acreditar que o David esteja morto de verdade - suspirou Norah. Mesmo nesse momento, passados dias, as palavras fizeram um pequeno choque 
perpassar-lhe o corpo. - Eu me sinto muito velha, por algum motivo.
         Bree segurou-lhe a mo e as duas ficaram vrios minutos em silncio. A palma da mo dela era lisa e quente contra a sua, e Norah sentiu aqueles instantes 
se alongarem, crescerem, como se pudessem abarcar o mundo inteiro. Ela se lembrou de uma sensao similar, j se iam muitos anos, quando Paul era beb e ela ficava 
sentada a amament-lo, nas noites quietas e escuras. Agora, crescido, ele parava numa estao ferroviria ou na calada, sob as rvores, ou atravessava uma rua. 
Parava diante de vitrines ou tirava um ingresso do bolso, ou protegia os olhos contra a luz do sol. Ele sara do seu corpo e crescera, e agora, espantosamente, andava 
pelo mundo sem ela. Norah tambm pensou em Frederic, sentado numa sala de reunies, balanando a cabea ao examinar papis, espalmando as mos sobre a mesa ao se 
preparar para falar. Ele tinha plos escuros nos braos e unhas grandes, de formato quadrado. Barbeava-se duas vezes por dia, e se esquecesse de faz-lo, a barba 
nova a arranhava no pescoo quando ele a puxava para si durante a noite, beijando-a atrs da orelha para excit-la. Frederic no comia po nem doces; quando o jornal 
matutino se atrasava, isso o deixava excepcionalmente contrariado. Todos esses pequenos hbitos, alternadamente cativantes e irritantes, faziam parte de Frederic. 
Nessa noite, Norah o encontraria na penso em que estavam hospedados,  beira do rio. Os dois tomariam vinho e ela acordaria de madrugada, com o luar inundando o 
quarto e a respirao regular e suave dele. Frederic queria casar, e essa era mais uma deciso em que pensar.
         O  livro de Norah escorregou de seu colo e ela se inclinou para peg-lo. A noite estrelada, de Van Gogh, rodopiou no folheto que ela vinha usando como marcador. 
Quando reergueu o corpo, Paul estava atravessando o jardim.
         - Ah - exclamou ela, com a onda sbita de prazer que sempre sentia ao v-lo: aquela pessoa, o filho dela, ali no mundo. Levantou-se. - Ali vem ele, Bree. 
Paul chegou!
         - Est muito bonito - comentou Bree, levantando-se tambm. - Deve ter sado a mim.
         - Deve - concordou Norah. - Mas ningum sabe de onde ele tirou o talento, j que nenhuma de ns nem o David seria capaz de entoar uma melodia.
         , o talento de Paul. Norah o observou cruzar o jardim. Aquilo era um mistrio, um dom.
         Ele levantou uma das mos num aceno, abrindo um sorriso largo, e Norah comeou a andar em sua direo, deixando o livro no banco. Seu corao batia de animao 
e alegria, assim como de tristeza e inquietao; ela estava trmula. Como o mundo se modificava por ele estar ali! Finalmente, chegou junto do filho e lhe deu um 
abrao apertado. Ele usava uma camisa branca com as mangas arregaadas e bermuda cqui. Cheirava a limpeza, como se tivesse sado do chuveiro. Norah sentiu os msculos 
do filho atravs do tecido, os ossos fortes, o simples calor dele, e, por um breve instante, compreendeu o desejo de David de fixar o mundo num dado momento. No 
se podia culp-lo, no, no se podia censur-lo por querer aprofundar-se mais em cada instante fugaz, estudar seu mistrio, gritar contra a perda, a mudana e o 
movimento.
         - Oi, me - disse Paul, chegando para trs para olh-la. Tinha os dentes brancos, regulares, perfeitos; deixara crescer uma barba preta. - Imagine s, encontr-la 
aqui - disse, rindo.
         - Pois , imagine s.
         Bree j estava ao lado deles. Deu um passo  frente e tambm abraou Paul.
         - Tenho que ir embora - disse. - S estava esperando para dizer oi. Voc est bonito, Paul. Essa vida nmade lhe faz bem.
         Ele sorriu e perguntou:
         - Voc no pode ficar?
         Bree olhou de relance para Norah e disse:
         - No, mas vejo voc em breve, est bem?
         - Est bem, eu acho - fez Paul, inclinando-se para beij-la no rosto.
         Norah passou o dorso da mo nos olhos enquanto Bree se virava e ia embora.
         - O que foi? - perguntou o rapaz, e insistiu, subitamente srio: - O que h de errado?
         - Venha sentar-se - disse Norah, pegando-o pelo brao.
         Voltaram juntos para o banco, fazendo um bando de pombos levantar vo, num impulso repentino. Norah apanhou o livro e alisou o marcador.
         - Paul, tenho uma notcia ruim. Seu pai morreu h nove dias. Infarto.
          Os olhos de Paul se arregalaram de susto e tristeza, e ele desviou o rosto fitando sem falar o caminho que percorrera para chegar at ali.
         - Quando foi o enterro? - perguntou, por fim.
         - Na semana passada. Sinto muito mesmo, Paul. No houve tempo para encontr-lo. Pensei em entrar em contato com a embaixada para me ajudar a localiz-lo, 
mas eu no sabia por onde comear. E, assim, vim aqui hoje na esperana de que voc aparecesse.
         - Eu quase perdi o trem - disse ele, pensativo. - Quase no consegui.
         - Mas chegou. Est aqui.
         Ele balanou a cabea e inclinou-se para a frente, com os cotovelos nos joelhos e as mos cruzadas entre eles. Norah lembrou-se de t-lo visto sentado exatamente 
assim quando menino, lutando para esconder a tristeza. Paul cerrou os punhos, tornou a abri-los. Norah segurou uma de suas mos. As pontas dos dedos do filho tinham 
calos, dos muitos anos tocando violo. Os dois permaneceram ali muito tempo, ouvindo o vento sussurrar nas folhas.
         - No h nada de errado em ficar triste - disse Norah, por fim. - Ele era seu pai. Paul assentiu com a cabea, mas seu rosto continuou tenso como um punho. 
Quando finalmente falou, tinha a voz embargada,  beira do choro.
         - Nunca achei que ele fosse morrer. Nunca achei que me importaria. No  como se algum dia tivssemos conversado de verdade.
         - Eu sei.
         E sabia mesmo. Depois do telefonema de Bree, Norah tinha andado pela rua, onde as copas frondosas formavam uma abbada, chorando desbragadamente, zangada 
com David por ele ter morrido antes que os dois tivessem a chance de acertar as coisas de uma vez por todas.
         - Mas antes, pelo menos, sempre havia a opo de conversar - completou.
         - . Eu ficava esperando que ele desse o primeiro passo - disse Paul.
         - Acho que ele esperava a mesma coisa.
         - Ele era meu pai. Devia saber o que fazer.
         - Ele amava voc - disse Norah. - Nunca pense que no o amava.
         Paul deu um risinho curto e amargo.
         - No. Isso  bonito de dizer, mas no  verdade. Eu ia  casa dele e tentava; ficava rondando por l e conversava com papai sobre uma coisa e outra, mas 
nunca amos adiante. Com ele, eu nunca conseguia fazer nada direito. Ele teria sido mais feliz com um filho completamente diferente.
         A voz de Paul continuava calma, porm as lgrimas se haviam acumulado em seus olhos e comeavam a rolar pelo rosto.
         - Meu bem, ele amava voc. Amava mesmo. Achava voc o filho mais incrvel do mundo.
         Paul enxugou as lgrimas com um gesto brusco. Norah sentiu sua prpria tristeza e seu luto apertarem-lhe a garganta, e levou um momento para conseguir falar.
         - Seu pai - disse, por fim - tinha uma dificuldade enorme de se abrir com quem quer que fosse. No sei por qu. Cresceu pobre e sempre se envergonhou disso. 
Eu gostaria que ele pudesse ter visto quantas pessoas foram ao enterro, Paul. Centenas. Foi todo aquele trabalho clnico que ele fez. Tenho o livro de presenas, 
voc mesmo pode ver. Uma poro de gente gostava dele.
         - A Rosemary foi ao enterro? - perguntou Paul, virando-se para a me.
         - A Rosemary? Foi - respondeu. Fez uma pausa, deixando a brisa morna afagar-lhe o rosto. Ela avistara Rosemary no fim da cerimnia, sentada no ltimo banco, 
com um vestido cinza simples. O cabelo ainda era comprido, mas ela parecia mais velha, mais estabilizada. David sempre insistira em que nunca tinha havido nada entre 
eles; no fundo, Norah sabia que era verdade. - Eles no estavam apaixonados. Seu pai e Rosemary. No era o que voc pensava.
         - Eu sei - disse Paul, endireitando o corpo. - Eu sei. A Rosemary me disse. Acreditei nela.
         - Ela disse? Quando?
         - Era meio esquisito, eu acho. Mas eu me acostumei. Ela  boa gente, a Rosemary. No era a razo de eu no conseguir conversar de verdade com o papai.
         Norah balanou a cabea.
         - Mas, Paul, voc era importante para ele. Olhe, eu sei do que voc est falando, porque tambm senti isso. Aquela distncia. Aquela reserva. Aquela sensao 
de um muro alto demais para transpor. Depois de algum tempo, desisti de tentar e, depois de um tempo ainda maior, desisti de esperar que uma porta se abrisse nele. 
Mas, por trs daquele muro, ele amava a ns dois. No sei como eu sei disso, mas sei.
         Paul calou-se. De quando em quando, enxugava as lgrimas dos olhos.
         O ar estava mais fresco e as pessoas haviam comeado a passear pelo jardim: namorados de mos dadas, casais com filhos, caminhantes solitrios. Um casal 
idoso se aproximou. A mulher era alta, com a cabeleira branca, e o homem andava devagar, meio curvado, com uma bengala. Ela estava com a mo enfiada no brao do 
marido, inclinando-se para falar com ele, e o homem balanava a cabea, pensativo, de cenho franzido, olhando para o outro lado do jardim, para alm dos portes, 
para o que quer que ela quisesse faz-lo observar. Norah sentiu uma fisgada de dor ao ver aquela intimidade. Houvera um tempo em que tinha imaginado envelhecer assim 
com David, a histria dos dois entremeada como um vinhedo, as gavinhas enroscadas nos brotos, as folhas misturadas. Ah, ela fora to antiquada! At sua tristeza 
tinha sido antiquada. Ela havia imaginado que, casada, seria uma espcie de boto encantador, envolto no clice mais resistente e mais flexvel da flor. Envolto 
e protegido, com as camadas de sua prpria vida contidas umas nas outras.
         Em vez disso, tinha encontrado seu caminho, construdo uma empresa, criado Paul, viajado pelo mundo. Era ptala, clice, haste e folha; era a longa raiz 
branca que se aprofunda na terra. E estava contente.
         Ao passar por eles, o casal estava falando, discutindo onde jantar. Os dois tinham um sotaque sulista - do Texas, Norah sups. O homem queria achar um lugar 
onde houvesse fils, uma comida que fosse conhecida.
         - Estou farto dos americanos - comentou Paul, depois que os dois saram do raio de alcance de sua voz. - Sempre todos contentes por encontrarem outro americano. 
 como se no houvesse 250 milhes de ns. Seria de se esperar que eles quisessem conhecer os franceses, j que esto na Frana.
         - Voc andou conversando com o Frederic.
         -  claro. Por que no? O Frederic acerta bem na mosca em matria de arrogncia americana. Alis, cad ele?
         - Viajando a negcios. Chega hoje  noite.
         A sensao tornou a atravess-la: a imagem de Frederic entrando pela porta do quarto do hotel, jogando as chaves na cmoda e apalpando os bolsos para se 
certificar de que estava com a carteira. Ele usava camisas branqussimas, que refletiam at o ltimo raio de luz, com o colarinho engomado e abotoado, e toda noite 
chegava e atirava a gravata numa cadeira, enquanto sua voz grave formava o nome de Norah. A voz talvez fosse o que ela havia amado primeiro. Os dois tinham muitas 
coisas em comum - filhos crescidos, divrcios, trabalhos desgastantes -, mas, como a vida de Frederic havia acontecido em outro pas, metade dela em outra lngua, 
afigurava-se extica a Norah, ao mesmo tempo conhecida e desconhecida. Um pas antigo e um novo.
         - Sua viagem tem sido boa? - perguntou Paul. - Est gostando da Frana?
         - Tenho sido feliz aqui - respondeu Norah, e era verdade. Frederic achava que a superpopulao tinha destrudo Paris, mas, para Norah, o encanto era infinito, 
com as confeitarias e as ptisseries, os crepes vendidos em barraquinhas de rua, as torres dos prdios antigos, os sinos. E tambm os sons da lngua, fluindo como 
uma correnteza, com uma palavra emergindo aqui e ali como um seixo. - E quanto a voc? Como vai a turn? Voc ainda est apaixonado?
         - Ah, sim - fez ele, com o rosto relaxando um pouco. Olhou diretamente para a me. - Voc vai se casar com o Frederic?
         Norah correu o dedo pela borda do folheto. Essa era a pergunta,  claro, que se imiscua em todos os seus momentos: deveria mudar de vida? Ela amava Frederic 
e nunca se sentira mais feliz, mas podia vislumbrar atravs dessa felicidade uma poca em que os hbitos cativantes dele poderiam lhe dar nos nervos, assim como 
os seus nos dele. Frederic gostava das coisas perfeitas: era meticuloso em tudo, desde esquadrias at formulrios de impostos. Nesse aspecto, embora em nenhum outro, 
ele a fazia lembrar de David. Agora Norah tinha idade e experincia suficientes para saber que nada era perfeito. Nada se mantinha inalterado, inclusive ela prpria. 
Mas tambm era verdade que, quando Frederic entrava num cmodo, o ar parecia mudar, ficar eletrizado, pulsar diretamente em seu corpo. Ela sentia vontade de ver 
o que aconteceria depois.
         - No sei - respondeu devagar. - A Bree est disposta a comprar a agncia. Frederic tem mais dois anos de contrato, de modo que no temos que tomar nenhuma 
deciso por enquanto. Mas posso me imaginar vivendo com ele. Acho que esse  o primeiro passo.
         Paul balanou a cabea.
          - Foi assim que aconteceu da ltima vez? Sabe, com papai?
         Norah o fitou, pensando em como responder.
         - Sim e no - disse, por fim. - Agora sou muito mais pragmtica. Naquela poca, s queria que algum cuidasse de mim. No me conhecia muito bem.
         - Papai gostava de cuidar das coisas.
         - , ele gostava.
         Paul deu um risinho curto, agudo.
         - No consigo acreditar que ele esteja morto.
         - Eu sei - concordou Norah. - Nem eu.
         Sentaram-se calados por algum tempo, enquanto a brisa circulava de leve a seu redor. Norah virou seu folheto, relembrando o frio do museu, o eco de passos. 
Ficara quase uma hora diante daquele quadro, estudando os remoinhos de cor, as pinceladas seguras e vividas. Em que Van Gogh teria tocado? Em alguma coisa tremeluzente, 
alguma coisa esquiva. David deslocara-se pelo mundo focalizando sua cmera nos mais nfimos detalhes, obcecado com a luz e a sombra, tentando fixar as coisas. Agora 
ele se fora, e seu jeito de ver o mundo tambm.
         Paul estava se levantando, acenando para algum no jardim, e a tristeza em seu rosto deu lugar a um sorriso alegre, intenso, claramente focado e exclusivo. 
Norah acompanhou seu olhar por sobre a grama ressequida, at uma moa de rosto longo e delicado, pele corada e cabelo preto descendo em trancinhas rastafri at 
a cintura. Era esguia e usava um vestido de estampa delicada; andava com a graa e a reserva de uma bailarina.
          - A Michelle - disse Paul, j de p. - Eu volto j.  a Michelle.
         Norah o viu caminhar em direo  moa, como que atrado pela gravidade, e o rosto dela se iluminou ao v-lo. Paul segurou-lhe de leve o rosto entre as 
mos ao beij-la e, em seguida, Michelle ergueu uma das mos e as palmas dos dois se tocaram por um instante, bem de leve, num gesto to ntimo que Norah desviou 
o olhar. Os dois cruzaram o jardim com a cabea inclinada, conversando. A certa altura, pararam e Michelle pousou a mo no brao de Paul, e Norah compreendeu que 
ele lhe havia contado.
         - Sra. Henry - disse a moa, apertando-lhe a mo quando os dois chegaram ao banco. Seus dedos eram longos e frios. - Sinto muito pelo pai de Paul.
         A pronncia dela tambm tinha um tom estranho: Michelle havia passado muitos anos em Londres. Por alguns minutos, ficaram todos parados no jardim, conversando. 
Paul sugeriu que fossem jantar e Norah sentiu-se tentada a dizer sim. Tinha vontade de conversar longamente com o filho, pela noite adentro, mas hesitou, consciente 
de que havia entre Paul e Michelle um calor, uma radincia, uma nsia de estarem a ss. Tornou a pensar em Frederic, talvez j de volta  penso, e na gravata cada 
no encosto da cadeira.
         - Que tal amanh? - perguntou. - Que tal nos encontrarmos para o caf da manh? Quero ouvir tudo sobre sua viagem. Quero saber tudo sobre os guitarristas 
de flamenco de Sevilha.
         Na rua, a caminho do metr, Michelle segurou o brao de Norah. Paul ia andando logo  frente, ombros largos, esguio.
         - Voc criou um filho maravilhoso - disse ela. -  uma pena eu no ter conhecido o pai dele.
         - Isso seria difcil, de qualquer jeito: conhec-lo. Mas, sim, eu tambm lamento - disse Norah. Deram mais alguns passos. - Voc gostou da sua turn?
         - Ah, viajar  uma liberdade maravilhosa - comentou Michelle.
         Era um anoitecer suave e as luzes fortes da estao de metr foram um choque quando os trs desceram. Um trem moveu-se com estardalhao ao longe, ecoando 
pelo tnel. Havia uma mistura de aromas: perfume e, por baixo, o cheiro mais ativo de metal e leo.  - Venham amanh, a pelas nove horas - Norah disse a Paul, elevando 
a voz acima do barulho. E, quando o trem se aproximou, inclinou-se para a frente, perto do ouvido dele, e gritou: - Ele amava voc! Era seu pai e amava voc!
         O rosto de Paul deixou transparecer as emoes por um instante: luto e tristeza. Ele assentiu com a cabea. No havia tempo para mais nada. Agora o trem 
corria, disparava em direo a eles, e, no sbito vento produzido, Norah sentiu o corao inundado. Seu filho, ali no mundo. E David, misteriosamente morto. O trem 
parou com um rangido e as portas automticas abriram-se com um suspiro. Norah entrou e se sentou  janela, tendo um lampejo, um vislumbre final de Paul, andando 
com as mos nos bolsos e a cabea baixa. Visvel, depois sumiu.
         Quando ela chegou  sua estao, o ar se enchera da luz do crepsculo. Norah andou pelos paraleleppedos at a penso, pintada de amarelo-claro, com uma 
luminosidade tnue e as jardineiras das janelas carregadas de flores. O quarto estava silencioso, e as coisas dela, espalhadas, no tinham sido mexidas; Frederic 
no havia chegado. Norah foi at a janela que dava para o rio e ali se deteve por um instante, pensando em David carregando Paul nos ombros pelos cmodos de sua 
primeira casa, pensando no dia em que ele lhe propusera casamento, gritando por cima do fragor da correnteza, e no anel frio deslizando em seu dedo. Pensando nas 
mos de Paul e Michelle, palma contra palma.
         Foi at a mesinha e escreveu um bilhete: Frederic, estou no ptio.
         O ptio, com sua fileira de vasos de palmeiras, dava para o Sena. Havia lmpadas minsculas entrelaadas nas rvores e nas grades de ferro. Norah sentou-se 
onde podia ver o rio e pediu uma taa de vinho. Deixara seu livro em algum lugar. Provavelmente, no jardim do Louvre. Perd-lo deixou-a com um vago sentimento de 
pesar. No era o tipo de livro que se comprasse duas vezes, apenas uma coisa leve, algo para passar o tempo. Alguma coisa sobre duas irms. Agora, nunca saberia 
como terminava a histria.
         Duas irms. Um dia, talvez ela e Bree escrevessem um livro. A idia a fez sorrir, e o homem sentado a uma mesa prxima, de terno branco e com um clice 
de aperitivo junto  mo, retribuiu o sorriso. Era assim que essas coisas comeavam. Houvera poca em que ela teria cruzado as pernas ou jogado o cabelo para trs: 
pequenos gestos convidativos, at que o homem se levantasse, sasse de sua mesa e viesse perguntar se poderia acompanh-la. Norah havia adorado o poder dessa dana 
e a sensao de descoberta. Mas, nessa noite, desviou o olhar. O homem acendeu um cigarro e, ao termin-lo, pagou a conta e saiu.
         Norah ficou observando o fluxo dos transeuntes, que tinha por fundo o tremeluzir escuro do rio. No viu Frederic chegar. Mas sentiu a mo dele em seu ombro, 
virou-se e ele a beijou, primeiro numa face, depois na outra, depois nos lbios.
         - Ol - fez ele, sentando-se do outro lado da mesa. No era um homem alto, mas estava em excelente forma, com os ombros fortes de quem nadou durante muitos 
anos. Era analista de sistemas, e Norah gostava de sua segurana, sua capacidade de captar e discutir o panorama geral, sem se preocupar com detalhes. No entanto, 
era exatamente isso que s vezes tambm a irritava - a idia que ele tinha do mundo como um lugar estvel e previsvel.
         - Esperou muito? J jantou? - perguntou Frederic.
         - No, quase nada - ela gesticulou com a cabea para a taa de vinho mal tocada. - E estou faminta.
         Ele balanou a cabea.
         - timo. Desculpe eu ter demorado. O trem atrasou.
         - Tudo bem. Como foi o seu dia em Orleans?
         - O de sempre. Mas o almoo com meu primo foi agradvel.
         Ele comeou a falar e Norah reclinou-se na cadeira, deixando-se inundar pelas palavras. As mos de Frederic eram fortes e habilidosas. Ela se lembrou do 
dia em que ele lhe construra uma estante de livros, trabalhando na garagem durante todo o fim de semana, com as espirais de madeira caindo de sua plaina. Frederic 
no tinha medo de trabalhar nem de interromp-la na cozinha enquanto ela cozinhava, deslizando as mos por sua cintura e beijando-a na nuca at ela se virar e beij-lo. 
Ele fumava cachimbo, o que no agradava a Norah, trabalhava demais e corria demais na estrada.
         - Voc contou ao Paul? Est tudo bem com ele?
         - No sei. Espero que sim. Ele vem se encontrar conosco no caf da manh. Quer reclamar com voc sobre os americanos arrogantes.
         Frederic riu.
         - timo. Gosto do seu filho.
         - Ele est apaixonado. E ela  um encanto, essa moa que ele adora: Michelle. Tambm vir amanh.
         - timo - repetiu Frederic, entrelaando os dedos nos de Norah. -  bom estar apaixonado.
         Pediram o jantar: brochetes de carne com arroz pilafe, e vinho, O rio deslizava l embaixo, escuro e silencioso, e, enquanto os dois conversavam, Norah 
pensou em como era bom sentar-se calmamente, ancorada num lugar. Sentar-se tomando vinho em Paris, vendo os pssaros levantarem vo da silhueta das rvores, o rio 
a escoar serenamente. Lembrou-se de suas corridas desvairadas ao rio Ohio quando moa, da superfcie estranhamente iridescente da gua, das margens escarpadas de 
calcrio, do vento a levantar seu cabelo.
         Mas agora estava sentada quieta, e os pssaros escuros alavam vo pelo cu azul-marinho. Norah sentiu os aromas da gua, dos canos de descarga, da carne 
assando e do lodo mido do rio. Frederic acendeu o cachimbo, serviu mais vinho, e as pessoas deslocaram-se pela calada, passeando pela tarde que cedia Lugar  noite 
e na qual os prdios prximos esmaeciam aos poucos nas sombras. Uma a uma, iluminaram-se as janelas. Norah dobrou o guardanapo e se levantou. O mundo girou; ela 
estava tonta com o vinho, a altura, o aroma da comida, depois daquele longo dia de luto e alegria.
         - Voc est bem? - perguntou Frederic, soando muito distante.
         Norah tocou a mesa com uma das mos, recobrou o flego. Balanou afirmativamente a cabea, incapaz de falar acima do burburinho do rio, do cheiro de suas 
margens sombrias, das estrelas que fulgiam por toda parte, rodopiando, vivas.
         
       NOVEMBRO DE 1988
         
         ELE SE CHAMAVA ROBERT E ERA BONITO, COM UMA CABELEIRA PRETA QUE LHE descia sobre a testa. Subiu e desceu o corredor do nibus, apresentando-se a todos e 
tecendo comentrios sobre o trajeto, o motorista, o dia. Chegou ao fim do corredor, virou-se e recomeou todo o processo.
         - Estou me divertindo muito aqui - anunciou, apertando a mo de Caroline ao passar. Ela sorriu, paciente; o aperto de mo de Robert era confiante e firme. 
As outras pessoas no o fitavam nos olhos. Examinavam seus livros, seus jornais, as cenas que corriam fora da janela. Mas Robert continuou, sem se deixar abater, 
como se os passageiros do nibus devessem ser to notados e se mostrar to pouco receptivos quanto as rvores, as pedras ou as nuvens. Na persistncia dele, pensou 
Caroline, observando do ltimo banco e de novo decidindo, a cada segundo, no intervir, havia um desejo profundo de encontrar algum que realmente o visse.
         Essa pessoa, ao que tudo indicava, era Phoebe, que parecia iluminar-se, inundada por uma luz interna, quando Robert estava por perto, e que o contemplava 
subindo e descendo do nibus como se ele fosse uma nova e maravilhosa criatura, talvez um pavo, belo, chamativo e orgulhoso. Quando Robert enfim se acomodou no 
assento ao lado dela, ainda falando, Phoebe simplesmente lhe sorriu. Era um sorriso radiante; ela no receava nada. Nenhuma reserva, nenhuma cautela, nenhuma espera 
para se certificar de que o rapaz sentia a mesma onda de amor. Caroline fechou os olhos ao ver a expresso escancarada de emoo da filha - a inocncia impetuosa, 
o risco! Quando os reabriu, porm, Robert estava retribuindo o sorriso, to encantado com Phoebe, to deslumbrado quanto se uma rvore tivesse dito seu nome.
         Bem, pois , pensou Caroline, e por que no? Esse amor j no era raro o bastante no mundo? Olhou de relance para Al, sentado a seu lado, cabeceando, com 
o cabelo grisalho a se levantar no ar quando o nibus dava solavancos ou fazia curvas. Ele chegara tarde na noite anterior e tornaria a viajar na manh seguinte, 
fazendo hora extra para pagar o telhado e as calhas novas. Nos ltimos meses, os dias que passavam juntos eram quase todos consumidos em tarefas de ordem prtica. 
s vezes, a lembrana dos primeiros tempos de casados - os lbios dele nos seus, o toque das mos dele em sua cintura - inundava Caroline como uma saudade agridoce. 
Como  que eles tinham ficado to atarefados e cheios de preocupaes? Como  que tantos dias se haviam escoado, um atrs do outro, at lev-los a esse momento?
         O nibus avanou veloz pelo desfiladeiro, subiu a ladeira da serra dos Esquilos. J havia faris acesos no entardecer de princpio de inverno. Phoebe e 
Robert estavam calados, sentados de frente para o corredor, vestidos para o baile anual da Sociedade Upside Down. Os sapatos de Robert brilhavam de to polidos, 
e ele usava seu melhor terno. Sob o casaco de inverno, Phoebe usava um vestido florido vermelho e branco, e um delicado crucifixo branco, de sua cerimnia de crisma, 
pendia de uma corrente fina em seu pescoo. Seu cabelo havia escurecido e afinado, e exibia um corte arredondado, solto e curto, enfeitado com prendedores vermelhos 
aqui e ali. Phoebe era plida, com sardas claras nos braos e no rosto. Olhava pela janela com um vago sorriso, perdida em seus pensamentos. Robert examinava os 
cartazes acima da cabea de Caroline, anncios de clnicas e dentistas, mapas do trajeto. Era um bom rapaz, sempre disposto a se encantar com o mundo, embora esquecesse 
as conversas quase no instante em que elas terminavam e pedisse a Caroline o nmero de seu telefone toda vez que os dois se encontravam.
         Apesar disso, sempre se lembrava de Phoebe. Sempre se lembrava do amor.
         - Estamos quase chegando - disse Phoebe, puxando o brao de Robert quando o nibus se aproximou do alto da ladeira. O centro ficava a meio quarteiro de 
distncia e suas luzes suaves derramavam-se sobre a grama queimada, sobre as crostas de neve. - Contei sete pontos de nibus.
         - Al - disse Caroline, sacudindo-o pelo ombro. - Al, meu bem,  o nosso ponto.
         Desceram do nibus para a friagem mida do anoitecer de novembro e caminharam aos pares pela luz crepuscular. Caroline enfiou o brao no de Al.
         - Voc est cansado - comentou, procurando romper o silncio que se vinha tornando um hbito entre os dois, cada vez mais. - Foram duas semanas pesadas.
         - Eu estou bem - disse ele.
         - Eu queria que voc no tivesse que passar tanto tempo fora.
         Arrependeu-se das palavras no instante em que as disse. Essa j era uma velha discusso, um ponto sensvel em carne viva no casamento dos dois, e at a 
seus prprios ouvidos sua voz soou spera, esganiada, como se ela estivesse procurando briga de propsito.
         A neve estalava sob seus ps. Al deu um grande suspiro e sua respirao formou uma nuvem tnue no ar frio.
         - Escute, estou fazendo o melhor que posso, Caroline. O dinheiro anda bom e j estou beirando os 60. Tenho que dar duro enquanto  possvel.
         Caroline assentiu com a cabea. O brao dele sob o seu era slido e firme. Ela estava muito contente por t-lo por perto, e muito cansada do estranho ritmo 
de vida que o mantinha longe por dias a fio. O que ela queria, mais do que qualquer outra coisa, era tomar o caf com Al todas as manhs e jantar com ele todas as 
noites; acordar com ele a seu lado na cama, e no saber que estava num quarto de hotel annimo, a 200 ou 800 quilmetros de distncia.
         -  s que eu sinto saudade de voc - disse baixinho. - Foi s o que eu quis dizer.  s o que estou dizendo.
         Phoebe e Robert caminhavam adiante deles, de mos dadas. Caroline observou a filha, com suas luvas escuras e a echarpe que Robert lhe dera, frouxamente 
enrolada no pescoo. Phoebe queria casar-se com Robert, dividir sua vida com ele; nos ltimos tempos, era s disso que falava. Linda, a diretora do centro de atividades, 
havia alertado: A Phoebe est apaixonada. Tem 24 anos, desabrochando um pouquinho tarde, e est comeando a descobrir a sexualidade. Precisamos conversar sobre isso, 
Caroline. Mas Caroline, no querendo admitir que algo houvesse mudado, vinha adiando a conversa.
         Phoebe caminhava com a cabea meio inclinada, escutando com ateno; vez por outra, seu riso repentino flutuava pela noite. Caroline aspirou o ar frio e 
cortante, sentindo uma onda de prazer pela felicidade da filha, e foi instantaneamente remetida  sala de espera da clnica, com suas samambaias murchas e sua porta 
barulhenta, e Norah Henry, em p junto ao balco, tirando as luvas para mostrar  recepcionista a aliana de casamento, rindo daquele mesmo jeito.
           Aquilo tinha sido quase que uma vida atrs. Caroline havia tirado aqueles dias da cabea quase por completo. E ento, na semana anterior, quando Al ainda 
estava fora, chegara uma carta de um escritrio de advocacia no centro da cidade. Intrigada, ela o abrira e lera na varanda, na friagem de novembro.
         Queira ter a gentileza de entrar em contato com nosso escritrio, a propsito de uma conta aberta em seu nome.
         Havia telefonado prontamente, parada junto  janela, observando os carros em alta velocidade enquanto o advogado lhe dava a notcia: David Henry tinha falecido. 
Na verdade, fazia trs meses que havia morrido. A firma estava entrando em contato com ela a propsito de uma conta bancria que David deixara em seu nome. Caroline 
apertara o fone no ouvido, sentindo alguma coisa despencar dentro dela num poo escuro e profundo, ao ouvir a notcia, e estudando as raras folhas que restavam nos 
sicmoros, balanando sob a luz fria da manh. O advogado, a quilmetros dali, continuara a falar. Era uma poupana que David tinha aberto em conjunto no nome dos 
dois, de modo que estava fora do testamento e do inventrio. O escritrio se recusara a dizer por telefone quanto havia na conta. Caroline teria que ir at l.
         Ao desligar, ela voltara para a varanda, onde tinha passado muito tempo sentada no balano, tentando assimilar a notcia. Sentia-se chocada por David ter 
se lembrado dela dessa maneira. Mais chocada ainda por ele ter morrido. O que  que ela havia imaginado: que ela e David viveriam para sempre, de algum modo, levando 
suas vidas separadas, mas ainda ligados quele momento no consultrio em que ele se levantara e pusera Phoebe em seus braos? Que, de algum modo, um dia, quando 
lhe fosse conveniente, ela o procuraria e o deixaria conhecer a filha? Os carros corriam ladeira abaixo, num fluxo contnuo. Caroline no conseguira pensar no que 
fazer e, no final, simplesmente tornara a entrar em casa e se aprontara para o trabalho, enfiando a carta na gaveta de cima da escrivaninha, junto com as sobras 
de elsticos e os clipes,  espera de que Al voltasse e a ajudasse a pensar. Ela ainda no a havia mencionado - Al andava cansadssimo -, mas a notcia no verbalizada 
continuava pairando no ar entre os dois, junto com a preocupao de Linda a respeito de Phoebe.
         A luz do centro de atividades derramava-se na calada e nos tufos marrons do capim. Eles entraram no salo pela porta de vidro. Uma pista de dana tinha 
sido montada na outra extremidade e um globo de discoteca girava no alto, espalhando feixes de luz colorida pelo teto, pelas paredes e pelos rostos levantados. Havia 
musica, mas ningum estava danando. Phoebe e Robert pararam junto s pessoas aglomeradas, observando a luz se movendo sobre a pista vazia.
         Al pendurou os casacos e, para surpresa de Caroline, pegou-a pela mo.
         - Lembra-se daquele dia no jardim, o dia em que resolvemos nos casar? Vamos ensinar essa turma a danar, o que  que voc acha?
         Caroline sentiu as lgrimas subirem depressa, ao pensar nas folhas flutuando feito moedas naquela tarde distante, no brilho do sol e no zumbir das abelhas 
ao longe. Eles haviam danado na relva e, horas depois, ela segurara a mo de Al no hospital e dissera: Sim, eu me caso com voc, sim.
         Al enlaou-a pela cintura e os dois entraram na pista de dana. Caroline havia esquecido - fazia muito tempo - com que facilidade e fluidez seus corpos 
se moviam juntos, a liberdade que ela sentia ao danar. Deixou a cabea descansar no ombro dele, aspirando a fragrncia de sua loo aps barba e o cheiro limpo 
de leo de motor que persistia por baixo. Al exercia uma presso firme em suas costas, o rosto colado no dela. Os dois comearam a girar e, aos poucos, outros casais 
foram entrando na pista de dana, sorrindo em sua direo. Caroline conhecia quase todos os presentes, a equipe do centro de atividades, os outros pais da Upside 
Down, os moradores do centro residencial vizinho. Phoebe estava na lista de espera para conseguir um quarto l, um lugar em que pudesse morar com vrios outros adultos 
e um responsvel residente. Parecia ideal, sob certos aspectos - mais independncia e autonomia para Phoebe, uma resposta ao menos parcial para seu futuro -, mas 
a verdade era que Caroline no conseguia imaginar a filha morando longe dela. A lista de espera parecera muito longa quando elas fizeram a inscrio, mas, no ano 
anterior, o nome de Phoebe tinha subido depressa. Em pouco tempo, Caroline teria que tomar uma deciso. Avistou a filha nesse momento, com seu sorriso radiante e 
o cabelo fino, atado pelos vivos prendedores vermelhos, entrando timidamente na pista de dana com Robert.
         Danou mais trs msicas com Al, de olhos fechados, deixando-se deslizar, seguindo os passos dele. Al era um bom danarino, leve e seguro, e a msica parecia 
atravessar o corpo de Caroline. A voz de Phoebe tambm tinha esse efeito sobre ela, quando os tons puros de seu canto vagavam pelos cmodos, levando a me a parar 
o que estivesse fazendo e ficar imvel, sentindo o mundo derramar-se feito luz sobre ela. Que gostoso, murmurou Al, puxando-a para mais perto e colando o rosto no 
dela. Quando a msica passou para um rock acelerado, ele manteve o brao em volta dela ao sarem da pista.
         Meio zonza, Caroline percorreu o salo com os olhos  procura de Phoebe, obedecendo a um velho hbito, e sentiu as primeiras pontadas de inquietao quando 
no a viu.
         - Eu mandei que ela fosse buscar mais ponche - disse Linda, atrs da mesa. Fez um gesto para apontar os refrescos e bebidas que diminuam na mesa. - D 
para acreditar numa afluncia destas, Caroline? Os biscoitinhos tambm esto acabando.
         - Vou buscar mais - ofereceu-se Caroline, feliz por ter um pretexto para procurar Phoebe.
         - Ela vai ficar bem - disse Al, segurando-a pela mo e apontando para a cadeira a seu lado.
         - S vou dar uma olhada. No demoro um minuto.
         Cruzou os corredores vazios, muito iluminados e quietos, ainda sentindo na pele o toque de Al. Desceu a escada e entrou na cozinha, abrindo com uma das 
mos as portas metlicas de vaivm e estendendo a outra para o interruptor. A fluorescncia repentina flagrou-os como uma fotografia: Phoebe, com seu vestido florido, 
de costas para a bancada, e Robert bem junto, com os braos em volta dela e uma das mos subindo por sua perna. Um instante antes de os dois se virarem, Caroline 
percebeu que ele ia beij-la e que Phoebe queria ser beijada, pronta para retribuir o beijo: Robert, seu primeiro amor de verdade. Estava com os olhos fechados, 
o rosto banhado de prazer.
         - Phoebe - chamou Caroline, em tom rspido. - Phoebe e Robert, j chega.
         Os dois se afastaram, assustados, mas no arrependidos.
         - Est tudo bem - disse Robert. - Phoebe  minha namorada.
         - Vamos nos casar - acrescentou Phoebe.
         Trmula, Caroline procurou manter a calma. Afinal, Phoebe era uma mulher adulta.
         - Robert, preciso falar com a Phoebe um minuto. A ss, por favor.
         Robert hesitou, depois passou por Caroline, com todo o seu entusiasmo arrefecido.
         - No  feio - disse, parando junto  porta. - Eu e a Phoebe, a gente se ama.
         - Eu sei - retrucou Caroline, e a porta se fechou atrs dele.
         Phoebe continuou parada sob a luz intensa, torcendo o colar.
         - A gente pode beijar a pessoa que a gente ama, mame. Voc beija o Al.
         Caroline assentiu com a cabea, lembrando-se da mo do marido em sua cintura.
         - Tem razo. Mas, meu bem, isso parecia mais do que um beijo.
         - Mame! - exclamou Phoebe, exasperada. - O Robert e eu vamos casar!
         Sem pensar, Caroline respondeu:
         - Voc no pode se casar, querida.
         Phoebe olhou para cima, com uma expresso obstinada que Caroline conhecia bem. A luz fluorescente passava por uma peneira e formava um desenho em seu rosto.
         - Por que no?
         - Benzinho, o casamento... - comeou Caroline, e fez uma pausa, pensando em Al, no cansao dele nos ltimos tempos, na distncia que ele introduzia entre 
os dois toda vez que viajava. - Olhe,  complicado, meu bem. Voc pode amar o Robert sem se casar.  - No. Eu e o Robert vamos casar.
         Caroline deu um suspiro.
         - Est bem. Digamos que vocs se casem. Onde vo morar?
         - Vamos comprar uma casa - respondeu Phoebe, j com uma expresso intensa, sria. - Vamos morar l, mame. Vamos ter bebs.
         - Bebs do uma trabalheira enorme. Ser que voc e Robert sabem o trabalho que do os bebs? E eles custam caro. Como vocs vo pagar por essa casa? E 
pela comida?
         - O Robert trabalha. Eu tambm. Temos muito dinheiro.
         - Mas voc no poder trabalhar, se estiver cuidando do beb.
         Phoebe considerou isso, franzindo o cenho, e Caroline sentiu um aperto no corao. Eram sonhos to profundos e simples, e no podiam se tornar realidade, 
e o que  que isso tinha de justo?
         - Eu amo o Robert - insistiu Phoebe. - O Robert me ama. Depois, a Avery teve um nenm.
         - Ah, querida! - exclamou Caroline. Lembrou-se de Avery Swan empurrando um carrinho de beb na calada, parando para que Phoebe pudesse inclinar-se e afagar 
de leve o rosto de seu beb recm-nascido. - Ah, meu amor!
         Cruzou o espao que a separava da filha e ps as mos em seus ombros:
         - Lembra-se de quando voc e a Avery salvaram o Chuvisco? E ns gostamos do Chuvisco, mas ele d um trabalho danado. Voc tem que esvaziar a caixa de areia 
e escovar o plo dele, tem que arrumar a baguna que ele faz e abrir a porta para ele entrar e sair, e fica muito preocupada quando ele no volta para casa. Ter 
um beb  ainda mais do que isso, Phoebe. Ter um beb  como ter 20 Chuviscos.
         O rosto de Phoebe murchou, e havia lgrimas descendo em seu rosto.
         - No  justo - ela murmurou.
         - No  justo - concordou Caroline.
         Calaram-se por um momento, paradas sob a luz ofuscante.
         - Escute, Phoebe, ser que voc pode me ajudar? - perguntou Caroline, por fim. - A Linda tambm est precisando de biscoitinhos.
         Phoebe balanou a cabea e enxugou os olhos. As duas voltaram pela escada e pelo corredor, levando caixas e garrafas, sem falar.
         Mais tarde,  noite, Caroline contou a Al o que havia acontecido. Ele estava sentado a seu lado no sof, de braos cruzados, j semi-adormecido. Ainda estava 
com o pescoo avermelhado, da barba feita mais cedo, e tinha olheiras fundas. No dia seguinte levantaria com o sol e iria embora.
         - Ela quer tanto ter sua prpria vida, Al! E devia ser to simples!
         - Hum - fez ele, levantando-se. - Bom, talvez seja simples, Caroline. Outras pessoas moram no centro residencial e parecem se arranjar bem. Ns estaramos 
logo aqui. Caroline abanou a cabea.
         - No consigo imagin-la no mundo l fora. E, com certeza, ela no pode se casar, Al. E se engravidasse? No estou disposta a criar outra criana, e  isso 
o que aconteceria.
         - Tambm no quero criar outro beb.
         - Talvez devamos impedir que ela veja o Robert por algum tempo.
         Al virou-se para ela, surpreso.
         - Voc acha que isso seria bom?
         - No sei - suspirou Caroline. - Simplesmente no sei.
         - Escute s - disse Al, delicadamente. - Desde o minuto em que eu a conheci, Caroline, voc tem exigido que o mundo no feche nenhuma porta para a Phoebe. 
No a subestimem. Quantas vezes ouvi voc dizer isso? Ento, por que no deixa ela seguir em frente? Por que no a deixa tentar? Talvez ela goste de l. Talvez voc 
goste da liberdade.
         Caroline fixou os olhos na banca ornamentada, pensando que ela precisava de pintura, enquanto uma verdade difcil lutava para vir  tona.
         - No consigo imaginar minha vida sem ela - disse, baixinho.
         - Ningum est lhe pedindo para fazer isso. Mas ela cresceu, Caroline. A  que est. No foi para isso que voc trabalhou a vida inteira, para que a Phoebe 
tivesse algum tipo de vida independente?
         - Imagino que voc gostaria de ficar livre. Gostaria de partir, de viajar.
         - E voc, no?
         -  claro que eu gostaria! - exclamou ela, surpresa com a intensidade de sua resposta. - Mas, Al, mesmo que um dia venha a mudar, Phoebe nunca ser completamente 
independente. E tenho medo de que voc se sinta infeliz com isso. Tenho medo de que voc nos deixe. Meu bem, voc tem estado cada vez mais distante nesses ltimos 
anos.
         Al passou muito tempo calado. Por fim, perguntou:
         - Por que voc est to zangada? O que foi que eu fiz para lhe dar a impresso de que vou embora?
         - No estou zangada - ela se apressou a dizer, pois percebeu na voz dele que o havia magoado. - Al, espere aqui um segundo - e se levantou, indo buscar 
a carta na gaveta, do outro lado da sala. -  por isso que eu estou perturbada. No sei o que fazer.  Al pegou a carta e a estudou por um longo tempo, virando-a 
uma vez, como se o mistrio pudesse ser esclarecido por alguma coisa escrita no verso, e tornou a rel-la.
         - Quanto dinheiro h nessa conta? - perguntou, erguendo os olhos.
         Ela abanou a cabea.
         - Ainda no sei. Tenho que ir l pessoalmente para descobrir.
         Al acenou afirmativamente, tornando a examinar a carta.
         -  estranho o modo como ele fez isso: uma conta secreta.
         - Eu sei. Talvez tivesse medo de que eu contasse a Norah. Talvez tenha querido certificar-se de que ela tivesse tempo para se acostumar com sua morte.  
s o que eu Consigo imaginar.
         Pensou em Norah circulando pelo mundo, sem jamais suspeitar de que sua filha ainda estava viva. E Paul, o que teria acontecido com ele? Era difcil imaginar 
quem ele seria agora, aquele beb de cabelos pretos que ela s vira uma vez.
         - O que voc acha que devemos fazer? - indagou.
         - Bem, primeiro descubra os detalhes. Vamos l juntos ver esse tal advogado, quando eu voltar. Posso tirar um ou dois dias de folga. Depois disso, no sei, 
Caroline. Vamos deixar a deciso para depois, eu acho. No temos que fazer nada neste momento.
         - Est bem - fez ela, sentindo toda a consternao da semana anterior desaparecer. Al fazia tudo parecer fcil. - Estou contente por voc estar aqui.
         - Sinceramente, Caroline - disse ele, segurando-lhe a mo. - No vou a lugar nenhum. A no ser a Toledo, s seis horas da manh. Por isso, acho que vou 
me levantar daqui e cair na cama.
         E ento beijou-a na boca e a abraou apertado. Caroline encostou o rosto no dele, absorvendo seu aroma e seu calor e pensando no dia em que o conhecera, 
no estacionamento perto de Louisvile, o dia que definira sua vida.
         Al levantou-se, ainda segurando a mo dela.
         - Vamos subir? - convidou.
         Caroline fez que sim e se levantou, com a mo na do marido.
           ...
         De manh, levantou cedo e preparou o caf, decorando os pratos de bacon com ovos e batatas coradas com raminhos de salsa.
         - Isso est com um cheiro timo - disse Al ao entrar, beijando-a no rosto e jogando o jornal na mesa, junto com a correspondncia da vspera. As cartas 
deixaram uma sensao fria e ligeiramente mida nas mos de Caroline. Havia duas contas, alm de um postal luminoso do mar Egeu, com uma notinha de Dorothy no verso.
         Caroline passou os dedos pela fotografia e leu a mensagem curta: "Trace torceu o tornozelo em Paris.
         - Isso  pssimo - comentou Al, abrindo o jornal e abanando a cabea diante das notcias sobre a eleio. - Escute, Caroline - disse, um minuto depois, 
baixando o jornal. - Estive pensando, ontem  noite. Por que voc no vem comigo? Aposto que a Linda ficaria com a Phoebe no fim de semana. Podamos viajar, voc 
e eu. E voc teria uma chance de ver como a Phoebe se sai, passando um tempo sozinha, O que acha?
         - Agora? Sair assim, voc diz?
         - . Aproveitar o dia. Por que no?
         - Ah! - exclamou ela, alvoroada, satisfeita, embora no gostasse das longas horas na estrada. - No sei. Tenho muito que fazer esta semana. Quem sabe, 
da prxima vez - apressou-se a acrescentar, sem querer rejeit-lo.
         - Podamos fazer umas viagens por fora, desta vez - insistiu Al. - Tornar as coisas mais interessantes para voc.
         - A idia  tima mesmo - disse Caroline, pensando com surpresa que era.
         Al sorriu, desapontado, e se inclinou para beij-la, com os lbios frios e rpidos nos dela.
         Depois que ele se foi, Caroline pendurou o postal de Dorothy na geladeira. Fazia um dia frio de novembro, mido, cinzento e prestes a nevar, e ela gostou 
de olhar para aquele mar brilhante e sedutor, para a orla de areia quente. Durante toda a semana, enquanto atendia os pacientes, preparava o jantar ou dobrava a 
roupa lavada, Caroline lembrou-se do convite do marido. Pensou no beijo apaixonado que havia interrompido entre Robert e sua filha e na instituio residencial em 
que Phoebe queria morar. Al tinha razo. Um dia, eles dois j no estariam presentes, e Phoebe tinha o direito de ter sua prpria vida.
         Mas o mundo continuava cruel como sempre. Na tera-feira, enquanto as duas comiam bolo de carne, pur de batatas e vagem  mesa do jantar, Phoebe enfiou 
a mo no bolso e tirou um quebra-cabea de plstico, do tipo que tem nmeros Impressos em quadradinhos mveis. A idia era ordenar os nmeros em seqncia e, entre 
uma garfada e outra, ela os ia empurrando.
         - Isso  legal - comentou Caroline, despreocupada, tomando seu leite. - Onde voc o arranjou, querida?
         - Com o Mike.
         - Ele trabalha com voc? -perguntou  filha.-  novo l?
         - No - respondeu Phoebe. - Conheci ele no nibus.
         - No nibus?
         - A-h. Ontem. Ele  legal.
         - Sei.
         Caroline sentiu o tempo diminuir o compasso e todos os seus sentidos se alertarem. Teve que se obrigar a falar com calma e naturalidade.
         - O Mike lhe deu esse quebra-cabea?
         - A-h. Ele foi bonzinho. E tem um passarinho novo. Quer me mostrar.
         -  mesmo? - fez Caroline, sentindo-se perpassar por um vento frio. - Phoebe, meu bem, voc no pode nem pensar em sair com estranhos. J conversamos sobre 
isso.
         - Eu sei. Eu disse a ele.
         Phoebe afastou o quebra-cabea e espremeu mais ketchup no bolo de carne.
         - Ele disse: "Vamos l em casa comigo, Phoebe." E eu falei: "Est bem, mas primeiro tenho que falar com a minha me.
         - Que tima idia - Caroline conseguiu dizer.
         - Ento, posso ir? Posso ir  casa do Mike amanh?
         - Onde  que mora o Mike?
          Phoebe encolheu os ombros.
         - No sei. Eu encontro ele no nibus.
          - Todos os dias?
          - A-h. Posso ir? Quero ver o passarinho dele.
         - Bem, e se eu tambm for? - indagou Caroline, com cuidado. - E se pegarmos o nibus juntas amanh? Assim, eu posso conhecer o Mike e irei com voc ver 
o passarinho. Que tal?
          - Est bem - disse Phoebe, satisfeita, e terminou o leite.
         Nos dois dias seguintes, Caroline foi e voltou do trabalho de nibus com Phoebe, porm Mike no apareceu.
         - Querida, receio que ele estivesse mentindo - disse a Phoebe na quinta-feira, quando as duas lavavam a loua. Phoebe usava um suter amarelo e suas mos 
exibiam uns cortezinhos feitos pelo papel no trabalho. Caroline a observou apanhar cada prato e enxug-lo cuidadosamente, sentindo-se grata por ela estar a salvo, 
apavorada com a possibilidade de que um dia no estivesse. Quem era esse estranho, esse Mike, e o que teria feito com Phoebe se ela o tivesse acompanhado? Caroline 
deu queixa  polcia, mas no tinha muita esperana de que o encontrassem. Afinal, realmente no havia acontecido nada, e Phoebe no sabia descrever o homem, a no 
ser para dizer que ele usava um anel de ouro e tnis azuis.
         - O Mike  bonzinho - insistia ela. - Ele no ia mentir.
         - Meu bem, nem todas as pessoas so boas nem querem o melhor para voc. Ele no voltou ao nibus, como tinha prometido. Estava tentando engan-la, Phoebe. 
Voc precisa ter cuidado.
         - Voc sempre diz isso - retrucou Phoebe, jogando o pano de prato na bancada. - Voc fala isso do Robert.
         -  diferente. O Robert no est tentando magoar voc.
          - Eu amo o Robert.
          - Eu sei.
          Caroline fechou os olhos e respirou fundo.
         - Escute, Phoebe, eu amo voc. No quero que voc se machuque. s vezes, o mundo  traioeiro. Eu acho que esse homem  perigoso.
         - Mas eu no fui com ele - disse Phoebe, captando a severidade e o medo na voz da me. Ps o ltimo prato na bancada, quase chorando. - Eu no fui.
         - Voc foi esperta. Fez o que era certo. Nunca acompanhe ningum. - A no ser que eles saibam a palavra.
          - Isso mesmo. E a palavra  um segredo que voc no conta a ningum.
          - Estelar! - sussurrou Phoebe bem alto, com um riso radiante. -  segredo.
          -  - suspirou Caroline. - Sim,  segredo.
           ...
         Na manh de sexta-feira, Caroline deu carona a Phoebe at seu trabalho.  tardinha, sentada no carro, esperou, olhando pela vitrine enquanto a filha se 
movimentava atrs do balco, encadernando documentos ou brincando com Max, sua colega de trabalho, uma moa de rabo-de-cavalo que almoava fora com ela todas as 
sextas-feiras e no tinha medo de repreend-la quando ela errava uma encomenda. Fazia trs anos que Phoebe trabalhava l. Adorava o emprego e era eficiente. Caroline, 
vendo-a mover-se atrs da vidraa, relembrou as longas horas de organizao, todas as apresentaes e as lutas e a papelada que tinham sido necessrias para possibilitar 
 filha aquele momento. E ainda faltava muita coisa. O incidente no nibus era apenas uma das preocupaes. Phoebe no ganhava o bastante para se sustentar e simplesmente 
no podia ficar sozinha, nem mesmo por um fim de semana. Se houvesse uma desculpa para levar Phoebe para l e para c, com isso limitando o tempo que ela passava 
com Robert.
         Quando as duas cruzaram a porta de casa, o telefone estava tocando. Caroline suspirou. Seria um vendedor, ou um vizinho pedindo contribuies para o fundo 
dos doentes cardacos, ou ento engano. Chuvisco miou suas boas-vindas, enroscando-se em seu tornozelo. - Sai, sai! - disse ela, e atendeu o telefone.
         Era da policia, e o policial do outro lado da linha pigarreou, pedindo para falar com ela. Caroline ficou surpresa, depois satisfeita. Talvez eles houvessem 
encontrado o homem do nibus, afinal.
         - Sim,  Caroline Simpson - disse, vendo Phoebe pegar Chuvisco no colo e abra-lo.
          O homem tornou a limpar a garganta e comeou a falar.
         Mais tarde, Caroline se lembraria desse momento como muito longo, com o tempo se expandindo at encher a sala toda e afund-la numa cadeira, embora a notcia 
fosse bem simples e no tivesse levado muito tempo para ser transmitida. O caminho de Al havia derrapado numa curva da estrada, quebrara uma mureta de proteo 
e cara num barranco baixo. Al estava no hospital, com a perna quebrada; o centro de traumatologia era o mesmo em que, muitos anos antes, Caroline havia aceitado 
seu pedido de casamento.
         Phoebe estava cantarolando para Chuvisco, mas pareceu intuir que havia algo errado e levantou os olhos, intrigada, no instante em que a me desligou. No 
caminho, Caroline lhe explicou o que tinha acontecido. Nos corredores azulejados do hospital, descobriu-se imersa nas lembranas daquela ocasio anterior: os lbios 
de Phoebe inchando, a respirao arfante, a interveno de Al quando ela ficara furiosa com a enfermeira. Agora Phoebe era uma mulher adulta, caminhando a seu lado 
com seu colete de trabalho; Caroline e Al estavam casados havia 18 anos.
         Dezoito anos.
         Ele estava acordado, com o cabelo grisalho destacando-se contra a brancura do travesseiro. Tentou sentar-se quando as duas entraram, mas fez uma careta 
de dor e tornou a se deitar lentamente.
         - Ah, Al - fez Caroline, atravessando o quarto e segurando a mo do marido.
         - Eu estou bem - disse ele. Fechou os olhos por um instante e respirou fundo.
         Caroline sentiu-se congelar por dentro, porque nunca o tinha visto daquele jeito, to abalado que chegava a tremer um pouco, com um msculo pulsando no 
maxilar perto da orelha.
         - Ei, voc est comeando a me assustar - disse ela, tentando manter um tom descontrado.
         Al abriu os olhos e, por um instante, os dois se fitaram frontalmente, fazendo tudo o mais desaparecer. Ele estendeu o brao e a tocou de leve no rosto. 
Caroline apertou-lhe a prpria mo, enquanto seus olhos se enchiam de lgrimas.
         - O que aconteceu? - murmurou.
         Ele deu um suspiro.
         - No sei. Era uma tarde muito ensolarada. Luminosa, clara. Eu estava correndo bem, cantando junto com o rdio. Pensando em como seria bom se voc estivesse 
l comigo, como tnhamos conversado. Quando dei por mim, o caminho tinha sado voando pela mureta. E, depois disso, no me lembro de nada. At acordar aqui. Acabei 
com o caminho. Os guardas disseram que, uns 12 metros adiante na estrada, eu teria virado farelo.
         Caroline inclinou-se e o abraou, sentindo seus cheiros conhecidos. O corao dele batia firme no peito. Poucos dias antes, os dois haviam rodopiado juntos 
na pista de dana, preocupados com o telhado e as calhas. Ela alisou o cabelo do marido, j comprido demais na nuca.
         - Ah,Al.
         - Eu sei. Eu sei, Caroline.
         Ao lado deles, de olhos arregalados, Phoebe comeou a chorar, sufocando os soluos com a mo. Caroline reergueu o corpo e enlaou a cintura da filha. Afagou 
seu cabelo e sentiu o calor robusto de seu corpo.
         - Phoebe - disse Al -, olhe s para voc, mal sada do trabalho. Voc passou um bom dia, fofinha? Eu no cheguei at Cleveland, de modo que no trouxe aqueles 
pezinhos de que voc gosta tanto, desculpe. Fica para a prxima, est bem?
         Phoebe assentiu com a cabea, secando o rosto com as mos.
         - Cad seu caminho? - perguntou, e Caroline se lembrou das vezes em que Al levara as duas para dar uma volta, Phoebe sentada bem alto na cabine e puxando 
o punho para baixo ao cruzar com outros caminhes, para que eles tocassem a buzina.
         - Est quebrado, meu bem - respondeu Al. - Sinto muito, mas est estraalhado. Al passou dois dias no hospital e foi para casa. O tempo passou num borro 
para Caroline, levando Phoebe ao trabalho e indo ela mesma trabalhar, cuidando do marido, preparando as refeies, tentando dar um jeitinho na roupa. Toda noite, 
caa na cama exausta, acordava de manh e comeava tudo outra vez. No ajudou muito o fato de Al ser um paciente terrvel, irritado por ter tantas restries, mal-humorado 
e exigente. Caroline teve uma lembrana infeliz dos primeiros tempos com Leo naquela mesma casa, como se o tempo no estivesse andando para a frente, mas se fechando 
em crculos.
         Passou-se uma semana. No sbado, exausta, ela ps uma trouxa de roupa na lavadora e foi  cozinha preparar alguma coisa para o jantar. Tirou meio quilo 
de cenoura da geladeira, para fazer uma salada, e vasculhou o congelador em busca de inspirao. Nada. Bem, Al no gostaria disso, mas talvez ela encomendasse uma 
pizza. J eram cinco horas e, em poucos minutos, teria que sair para buscar Phoebe no trabalho. Parou de descascar a cenoura e, atravs de seu prprio reflexo na 
janela, olhou para o painel luminoso da Foodland, que piscava em vermelho por entre os galhos desnudos das rvores, e pensou em David Henry. Tambm pensou em Norah, 
to transformada em objeto nas fotos do marido, com o corpo se elevando em dunas e o cabelo enchendo a moldura com uma luz inesperada. A carta do advogado continuava 
na gaveta da escrivaninha. Caroline havia mantido o compromisso marcado antes do acidente de Al, fora ao escritrio imponente, de paredes revestidas de carvalho, 
e l ficara conhecendo os detalhes do legado de David Henry. A conversa tinha estado a semana inteira em sua cabea, mas ela no tivera tempo para pensar no assunto 
nem para conversar com Al.
         Houve um rudo do lado de fora. Caroline virou-se, assustada. Pela janela da porta dos fundos, vislumbrou Phoebe na varanda. Largou o descascador e foi 
at a porta, enxugando as mos no avental. E ali viu o que ficara escondido pelo lado de dentro: Robert, parado ao lado de Phoebe, com a mo em seus ombros.
         - O que vocs esto fazendo aqui? - perguntou em tom rspido, passando para o lado de fora.
         - Tirei um dia de folga - respondeu Phoebe.
         - Tirou? E o seu trabalho?
         - A Max est l. Vou cobrir o horrio dela na segunda-feira.
         Caroline balanou a cabea devagar.
         - Mas como voc veio para casa? Eu estava quase saindo para busc-la.
         - Pegamos o nibus - disse Robert.
         - Sim - riu Caroline, mas, ao falar, tinha a voz tensa de preocupao. - Certo.  claro. Vocs pegaram o nibus. Ah, Phoebe, eu lhe disse para no fazer 
isso. No  seguro.
         - Eu e o Robert estamos seguros - retrucou Phoebe, projetando ligeiramente o lbio inferior, como fazia quando se zangava. - Eu e o Robert vamos casar.
         - Ah, pelo amor de Deus! - exclamou Caroline, levada ao limite da pacincia. - Como  que vocs podem se casar? Vocs no sabem nada do casamento, nenhum 
dos dois.
         - Sabemos - afirmou Robert. - Sabemos do casamento.
         Caroline deu um suspiro.
         - Escute, Robert, voc precisa ir para casa. Voc veio de nibus para c, ento pode peg-lo de volta para casa. No tenho tempo para lev-lo a lugar nenhum. 
 demais. Voc precisa ir embora.
         Para sua surpresa, Robert sorriu. Olhou para Phoebe, depois foi at a parte escura da varanda dos fundos e apanhou alguma coisa embaixo do balano. Voltou 
carregando uma braada de rosas vermelhas e brancas que pareciam brilhar de leve sob a luz crepuscular. Entregou-as a Caroline, roando-lhe a pele com as ptalas 
delicadas.
         - Robert, o que  isso? - disse ela, surpresa, enquanto o vago perfume inundava o ar frio.
         - Comprei no depsito - disse ele. - Na liquidao.
         Caroline abanou a cabea.
         - No estou entendendo.
         - Hoje  sbado - recordou-lhe Phoebe.
         Sbado: o dia em que Al chegava de suas viagens, sempre com um presente para Phoebe e um ramo de flores para sua mulher. Caroline imaginou os dois, Robert 
e Phoebe, pegando o nibus at o armazm onde Robert trabalhava no estoque, estudando os preos das flores, contando o troco exato. Parte dela ainda queria gritar, 
pr Robert de volta no nibus e tir-lo da vida deles, e parte queria dizer: Isso  demais para mim. No me importo.
         L dentro, a sineta que ela deixara com Al tocava com insistncia. Caroline suspirou e deu um passo atrs, fazendo um gesto para a cozinha, a luz e o calor.
          - Est bem. Entrem, vocs dois. Entrem antes de congelar.
         Subiu correndo a escada, tentando se recompor. Quanto  que uma mulher tinha que fazer?
         - Espera-se que voc seja paciente - disse, ao entrar no quarto do casal, onde Al estava sentado com a perna apoiada numa banqueta, com um livro no colo. 
- Paciente. De onde voc acha que vem essa palavra, Al? Sei que  exasperante, mas ficar bom demora, pelo amor de Deus.
         - Era voc quem me queria mais tempo em casa - retrucou ele. - Tome cuidado com as coisas que deseja.
         Caroline abanou a cabea e se sentou na beirada da cama.
         - No foi isso que eu desejei.
         Ele olhou pela janela por alguns segundos.
         - Tem razo - disse, por fim. - Desculpe.
         - Voc est bem? Como est a dor?
         - D para levar.
         Do lado de fora, o vento agitava as ltimas folhas do sicmoro contra o cu violeta. Havia saquinhos com bulbos de tulipas embaixo da rvore esperando para 
ser plantados. No ms anterior, Caroline e Phoebe tinham plantado crisntemos, vivas exploses de laranja, creme e roxo. Ela se sentara sobre os calcanhares para 
admir-los, sacudindo a terra das mos e relembrando ocasies em que havia trabalhado assim no jardim com a me, as duas unidas por suas tarefas, se bem que no 
pelas palavras. Raramente conversavam sobre alguma coisa pessoal. E agora havia muito que Caroline gostaria de ter dito.
         - No vou mais fazer isso - disse Al, soltando as palavras abruptamente, sem olhar para a mulher. - Dirigir caminho, quero dizer.
         - Est bem - concordou ela, tentando imaginar o que aquilo significaria para a vida dos dois. Sentiu-se contente, pois alguma coisa em seu peito se contraa 
toda vez que o imaginava voltando a dirigir, mas tambm meio apreensiva, de repente. Desde que haviam se casado, eles nunca tinham passado mais de uma semana juntos.
         - Vou azucrinar o seu juzo o tempo todo - disse ele, como quem lesse seus pensamentos.
         - Vai? - fez ela, fitando-o atentamente e observando sua palidez, seus olhos srios. - Ento, est planejando se aposentar de vez?
         Al abanou a cabea, examinando as prprias mos.
         - Estou novo demais para isso. Andei pensando que poderia fazer outra coisa. Como me transferir para o escritrio, talvez; conheo o sistema de fio a pavio. 
Ou dirigir um nibus municipal. No sei.., qualquer coisa, na verdade. Mas no posso pegar a estrada de novo.
         Caroline assentiu com a cabea. Estivera no local do acidente, vira o rombo na mureta de proteo, as marcas no pedao de terra em que o caminho tinha 
cado.
         - Sempre tive uma sensao de que, mais dia, menos dia, isso estava fadado a acontecer. E agora aconteceu - comentou Al, ainda olhando para as mos. Estava 
deixando a barba crescer, e os plos curtos lhe marcavam o rosto.
         - Eu no sabia - retrucou Caroline. - Voc nunca disse que tinha medo.
         - Medo, no. Era s uma sensao.  diferente.
         - Mesmo assim, voc nunca disse nada.
         Ele deu de ombros.
         - No teria feito diferena. Era s uma sensao, Caroline.
          Ela balanou a cabea. Mais alguns metros e Al teria morrido, como disseram os policiais, mais de uma vez. A semana toda ela se impedira de imaginar o 
que no havia acontecido. Mas a verdade  que poderia estar viva, enfrentando o resto da vida sozinha.  - Talvez voc deva se aposentar - disse, lentamente. - Estive 
no escritrio do advogado, Al. J tinha marcado hora e fui l. Foi muito o dinheiro que David Henry deixou para a Phoebe.
         - Bom, no  meu. Mesmo que seja um milho de dlares, no  meu.
         E ento Caroline lembrou-se de como ele havia reagido quando Dorothy lhes doara a casa: a mesma relutncia em aceitar qualquer coisa que no tivesse ganho 
com as prprias mos.
         -  verdade. O dinheiro  para a Phoebe. Mas voc e eu a criamos. Se ela estiver financeiramente garantida, podemos nos preocupar menos. Podemos ter mais 
liberdade. Al, ns demos um duro danado. Talvez seja hora de nos aposentarmos.
         - Que quer dizer? Voc quer que a Phoebe se mude?
         - No, no  isso que eu quero. Mas  o que a Phoebe quer. Ela e Robert esto l embaixo.
         Caroline deu um sorrisinho, lembrando-se da braada de rosas que deixara na bancada da cozinha, ao lado da pilha de cenouras semi descascadas.
         - Eles foram juntos ao armazm - explicou. - De nibus. Compraram flores para mim, porque hoje  sbado. Por isso, no sei, Al. Quem sou eu para dizer? 
Pode ser que eles fiquem bem juntos, mais ou menos.
         Al balanou a cabea, pensativo, e Caroline admirou-se ao ver como parecia cansado, como era frgil a vida deles todos, no fim das contas. Durante todos 
aqueles anos, ela tentara imaginar todas as possibilidades, manter todos em segurana e, no entanto, ali estava Al, um pouco mais envelhecido e com uma perna quebrada 
- um desfecho que nunca lhe havia passado pela cabea.
         - Amanh vou fazer bife de panela - disse Caroline, referindo-se ao prato favorito do marido. - Que tal uma pizza hoje?
         - Pizza est timo - respondeu ele. - Mas pea daquele lugar na Rua Braddock. Caroline afagou-lhe o ombro e comeou a descer a escada para telefonar. No 
patamar, fez uma pausa, ouvindo Robert e Phoebe na cozinha, as vozes baixas pontilhadas por exploses de riso, O mundo era um lugar vasto e imprevisvel, s vezes 
assustador. Mas, nesse exato momento, sua filha estava na cozinha, rindo com o namorado, e seu marido cochilava com um livro no colo, e ela no precisava preparar 
o jantar. Respirou fundo, O ar tinha o aroma distante de rosas - um aroma limpo e fresco como a neve.
         
       1989
       
        1.o DE JULHO DE 1989
         
         O ESTUDIO ACIMA DA GARAGEM, COM SEU QUARTO ESCURO OCULTO, NO fora aberto desde a mudana de David, sete anos antes, mas, agora que a casa estava  venda, 
Norah no tinha alternativa seno enfrent-lo. A obra de David voltara a ser requisitada e valia muito dinheiro; no dia seguinte haveria uma visita de curadores 
para examinar a coleo. Assim, Norah estivera sentada no piso decorado desde as primeiras horas da manh, abrindo caixas com um estilete, tirando pastas cheias 
de fotografias, negativos e anotaes, decidida a se manter neutra e a ser implacvel nesse processo de seleo. No deveria levar muito tempo: David tinha sido 
muito meticuloso e tudo estava cuidadosamente rotulado. Um dia s, ela havia pensado, nada mais.
         Mas no tinha levado em conta a memria, a lenta atrao do passado. J era comeo da tarde, estava ficando mais quente e ela s havia terminado uma caixa. 
Um ventilador zumbia na janela e o suor fino se acumulava na pele; as fotos brilhantes grudavam nas pontas dos dedos. Aqueles anos da juventude pareciam, a um s 
tempo, muito prximos e totalmente impossveis. Ali estava ela, com um leno alegremente amarrado no cabelo, penteado com esmero, tendo a seu lado Bree, que usava 
brincos enormes e uma saia esvoaante de retalhos coloridos. E ali estava uma rara foto de David, muito srio, com o cabelo  escovinha, segurando Paul no colo, 
ainda beb. As lembranas tambm tomavam conta, enchendo o aposento e mantendo Norah encerrada nele: os aromas de lilases e desinfetante e da pele infantil de Paul; 
o toque das mos de David, seu jeito de pigarrear; o sol de uma tarde perdida, formando desenhos nas tbuas do piso. O que significava, perguntou-se Norah, eles 
terem vivido aqueles momentos daquela forma particular? O que significava o fato de as fotos no combinarem nem um pouco com a mulher que ela se recordava de ter 
sido? Se examinasse com ateno, ela os veria: a distncia e a saudade em seu olhar, seu jeito de sempre parecer fitar um ponto logo adiante das bordas da fotografia. 
Mas um estranho no notaria; Paul tambm no. A julgar apenas por aquelas imagens, ningum poderia suspeitar dos intricados mistrios de seu corao.
         Uma vespa entrou a esmo e esvoaou perto do teto. Todo ano elas voltavam e construam um vespeiro em algum ponto do beiral. Agora que Paul estava criado, 
Norah desistira de se preocupar com elas. Levantou-se, estendeu a mo e tirou uma Coca- Cola da geladeira em que antes David costumava guardar produtos qumicos 
e pacotes finos de filme. Bebeu o refrigerante, olhando pela janela para as ris silvestres e as madressilvas do quintal. Norah sempre tivera a inteno de fazer 
alguma coisa com elas, de fazer mais do que apenas pendurar comedouros para passarinhos nos ramos das madressilvas, mas no o fizera em todos aqueles anos e agora 
jamais o faria. Dali a dois meses estaria casada com Frederic e teria deixado esse lugar para sempre.
         Ele fora transferido para a Frana. Por duas vezes a transferncia havia gorado, e eles tinham falado em morar juntos em Lexington, vendendo suas respectivas 
casas e recomeando do zero: um lugar novo em folha, onde ningum jamais tivesse vivido. Suas conversas eram preguiosas, lnguidas, desabrochando nos jantares a 
dois ou quando eles ficavam deitados juntos na penumbra, com taas de vinho nas mesinhas-de-cabeceira e a lua desenhando um disco plido na janela, acima das rvores. 
Lexington, Frana, Taiwan, isso no tinha importncia para Norah, que sentia j haver descoberto em Frederic um outro pas. s vezes,  noite, fechava os olhos e 
ficava acordada. ouvindo a respirao regular dele, tomada por uma profunda sensao de contentamento. Era-lhe doloroso reconhecer o quanto ela e David haviam se 
distanciado do amor. Culpa dele, com certeza, mas dela tambm. Norah se mantivera muito fechada e tensa, com medo de tudo depois da morte de Phoebe. Mas agora aqueles 
anos eram coisa do passado; haviam escoado para longe, sem deixar nada alm de lembranas. Por isso, a Frana estava tima. Ao chegar a notcia de que a colocao 
os faria morar nos arredores de Paris, ela ficara contente. Os dois j tinham alugado um chalezinho  beira do rio em Chteauneuf. Frederic estava l nesse momento 
montando uma estufa para suas orqudeas. A simples idia da estufa enchia a imaginao de Norah: as lajotas lisas e vermelhas do ptio, a brisa leve do rio na rvore 
ao lado da porta e o sol se derramando sobre os ombros e os braos de Frederic, enquanto ele trabalhava na montagem das paredes de vidro. Norah poderia ir a p at 
a estao ferroviria e estar em Paris em duas horas, ou andar at o vilarejo para comprar po e queijo frescos e garrafas escuras e reluzentes de vinho, com as 
sacolas penduradas a tiracolo ficando mais pesadas a cada parada. Ela poderia refogar cebolas e fazer uma pausa para olhar o rio deslizando devagar, mais alm da 
cerca. No ptio, nas noites que ela havia passado l, as margaridas-do-campo tinham se aberto, com sua fragrncia de limo, e Norah e Frederic haviam sentado para 
tomar vinho e conversar. Eram coisas realmente muito simples. Tanta felicidade! Norah olhou de relance para as caixas de fotografias, com vontade de segurar pelo 
brao a jovem que ela fora e sacudi-la de leve. V em frente, sentiu vontade de lhe dizer. No desista. No fim, sua vida ser tima.
         Acabou a Coca-Cola e voltou ao trabalho, deixando de lado a caixa em que se fixara por tanto tempo e abrindo outra. Dentro dessa havia pastas de arquivo 
dispostas com esmero, organizadas por ano. A primeira tinha fotos de bebs annimos, dormindo em seus carrinhos, sentados na grama ou em varandas, segurados nos 
braos mornos de suas mes. Todas as fotos eram 20 x 25 cm, em preto-e-branco lustroso; at Norah era capaz de perceber que tinham sido as primeiras experincias 
de David com a luz. Os curadores ficariam satisfeitos. Algumas fotos eram to escuras que as figuras mal se mostravam visveis; outras eram quase brancas de claridade. 
David provavelmente estivera testando o alcance de sua mquina fotogrfica, mantendo idntico o tema e variando o foco, a abertura e a luz disponvel.
         A segunda pasta era muito parecida, assim como a terceira e a quarta. Fotos de meninas, no mais bebs, porm de dois, trs, quatro anos. Meninas com seus 
vestidos de Pscoa na igreja, meninas correndo no parquinho, meninas tomando sorvete ou aglomeradas na parte externa da escola, na hora do recreio. Meninas danando, 
jogando bola, rindo, chorando. Norah franziu a testa, percorrendo as imagens mais depressa. No havia uma s criana que reconhecesse. As fotos tinham sido cuidadosamente 
dispostas conforme a idade. Ao pular para o fim do conjunto, ela j no encontrou meninas, porm moas andando, fazendo compras, conversando entre si. A ltima era 
de uma jovem na biblioteca, com o queixo apoiado numa das mos, olhando pela janela, trazendo nos olhos uma expresso distante que Norah conhecia.
         Ela deixou a pasta cair em seu colo, espalhando as fotos. O que seria aquilo? Todas aquelas meninas e moas: podia ter sido uma fixao sexual, mas Norah 
soube instintivamente que no era isso. O que havia em comum entre as fotografias no era um trao sinistro, e sim inocncia. Crianas brincando no parque do outro 
lado da rua com o vento a lhes levantar o cabelo e a roupa. At as mais velhas, as moas crescidas, tinham essa qualidade: dirigiam ao mundo um olhar distrado, 
como que arregalado, e questionador. A idia de perda pairava nos jogos de luz e sombra; eram fotografias repletas de anseio. De saudade, sim, no de lascvia.
         Norah reps a tampa na caixa para ler a etiqueta: LEVANTAMENTO, era tudo o que dizia.
         Depressa, sem se preocupar com a baguna que estava fazendo, ela percorreu as demais caixas, puxando uma aps outra. No meio da sala, encontrou mais uma 
que trazia em negrito a mesma palavra, LEVANTAMENTO. Abriu-a e tirou as pastas.
         No eram meninas, dessa vez, nem estranhos, mas Paul. Uma pasta aps outra com fotos de Paul em todas as idades, suas transformaes e seu crescimento, 
sua fria rechaadora. Sua concentrao e seu espantoso talento musical, os dedos a voar sobre o violo.
         Durante um longo tempo, Norah sentou-se muito quieta, tensa,  beira da compreenso. E ento, de repente, entendeu, de maneira irrevogvel, contundente: 
durante aqueles anos de silncio em que se recusara a falar da filha morta, David estivera guardando o registro da ausncia dela. Paul e mil outras meninas, todos 
crescendo.
         Paul, mas no Phoebe.
         Por pouco Norah no chorou. Teve uma sbita nsia de conversar com David. Durante aqueles anos, ele tambm sentira falta da filha. Todas aquelas fotografias, 
toda aquela saudade secreta, silenciosa. Norah percorreu as imagens mais uma vez, estudando Paul quando menino: agarrando uma bola de beisebol, tocando piano, fazendo 
uma pose apatetada sob a rvore do quintal. Lembranas que David tinha colecionado, momentos que Norah nunca vira. Ela as estudou de novo e de novo, tentando imaginar-se 
no mundo que o marido tinha vivenciado, em seu jeito de v-lo.
         Passaram-se duas horas. Norah se deu conta de estar com fome, mas no conseguiu sair ou sequer levantar do lugar em que estava no cho. Tantas fotografias, 
aquelas imagens de Paul, as meninas e moas annimas, espelhando a idade dele! Em todos aqueles anos, ela sempre havia sentido a presena da filha, como uma sombra 
parada logo adiante de cada foto tirada. Phoebe, morta ao nascer, pairava pouco alm do campo visual, como se houvesse levantado minutos antes e sado da sala, como 
se o seu perfume e a lufada de ar  sua passagem ainda se movessem nos espaos que ela havia deixado. Norah tivera que guardar esse sentimento dentro de si, temendo 
que quem a ouvisse pudesse ach-la sentimental ou at louca. E, nesse momento, espantou-a e lhe trouxe lgrimas aos olhos perceber a intensidade com que David tambm 
sentira a ausncia da filha. Parecia haver procurado por ela em toda parte - em cada menina, em cada moa -, sem jamais encontr-la.
         Por fim, nos crescentes anis de silncio em que Norah se instalara, houve um estalar leve de cascalho: um carro na entrada da garagem. Havia algum chegando. 
Ao longe, ela escutou uma porta de automvel bater, passos e a campainha da casa tocando. Abanou a cabea e engoliu em seco, mas no se levantou. Fosse quem fosse, 
a pessoa iria embora e voltaria depois, ou no. Enxugou as lgrimas dos olhos; quem quisesse v-la poderia esperar. Mas no. O avaliador dos mveis prometera dar 
uma passada na parte da tarde. E, assim, Norah levou as mos ao rosto e entrou na casa pelos fundos, parando para salpicar gua na face e passar um pente no cabelo. 
"J vou", gritou sobre o barulho da gua corrente, quando a campainha tornou a soar. Cruzou os cmodos, onde toda a moblia estava acumulada no centro e coberta 
por oleados; os pintores chegariam no dia seguinte. Fez as contas dos dias que restavam, considerando se teria alguma possibilidade de terminar tudo. E recordou 
por um instante as noites passadas em Chteauneuf, onde parecia possvel que sua vida fosse sempre serena, expandindo-se na calma como uma flor que desabrocha no 
ar.
         Abriu a porta, ainda enxugando as mos.
         A mulher na varanda tinha um jeito vagamente familiar. Usava uma roupa funcional - calas azul-marinho bem passadas e blusa branca de algodo, de mangas 
curtas -, e sua cabeleira farta era grisalha, com um corte bem curtinho. Mesmo  primeira vista, ela dava a impresso de ser organizada e eficiente, o tipo de pessoa 
que no perdia tempo com bobagens, o tipo de pessoa que enfrentava o mundo e fazia o que tinha que ser feito. Mas ela no falou. Pareceu assustada ao ver Norah, 
fitando-a de forma to intensa que ela cruzou os braos, num gesto defensivo, subitamente cnscia de seu short riscado de poeira e da camiseta encharcada de suor. 
Norah olhou para o outro lado da rua e tornou a fitar a mulher em sua varanda. Contemplou-a, concentrando-se nos olhos grandes e muito azuis, e ento soube.
         Sentiu a respirao presa.
         - Caroline? Caroline Gill?
         A mulher assentiu com a cabea, os olhos azuis momentaneamente fechados, como se algo se houvesse resolvido entre as duas. Mas Norah no sabia o qu. A 
presena dessa mulher de um passado h muito perdido tinha desencadeado uma palpitao no fundo de seu peito, levando-a de volta quela noite de ar onrico em que 
ela e David tinham ido para a clnica pelas ruas silenciosas e cobertas de neve, a noite em que Caroline Gill lhe ministrara o anestsico e segurara sua mo durante 
as contraes, dizendo: Olhe para mim, olhe para mim, Sra. Henry, eu estou bem aqui do seu lado e a senhora est indo muito bem. Aqueles olhos azuis, o aperto firme 
da mo, entremeados to a fundo no tecido daqueles momentos quanto a lembrana do jeito metdico de David dirigir, ou do primeiro choro de Paul.
         - O que est fazendo aqui? - perguntou Norah. - David morreu h um ano.
         - Eu sei - fez Caroline, balanando a cabea. - Eu sei, sinto muito. Escute, Norah... Sra. Henry..., tenho uma coisa que preciso lhe falar, uma coisa bastante 
difcil. Ser que pode me dar alguns minutos? Quando for conveniente? Eu posso voltar depois, se agora no for uma boa hora.
         Havia na voz dela premncia e firmeza e, a despeito de si mesma, Norah viu-se dando um passo atrs e deixando Caroline Gill entrar no vestbulo. Empilhadas 
junto s paredes havia caixas cuidadosamente embaladas e fechadas com fita adesiva.
         - Voc ter que desculpar a desarrumao da casa - disse, fazendo um gesto em direo  sala de estar, onde toda a moblia foram empurrada para o meio do 
cmodo. - Os pintores viro fazer oramentos amanh. E um avaliador dos mveis. Vou me casar outra vez - acrescentou. - Estou de mudana.
         - Nesse caso, que bom que eu a alcancei - retrucou Caroline. - Fico feliz por no ter esperado.
         Alcanou por qu?, pensou Norah, mas, pela fora do hbito, convidou-a a entrar na cozinha, o nico lugar em que poderiam sentar-se comodamente. Quando 
atravessavam a sala de jantar, sem dizer nada, Norah lembrou-se de como foi sbito o desaparecimento de Caroline, e do escndalo. Olhou para trs duas vezes, sem 
conseguir livrar-se da estranha sensao que a presena dela havia desencadeado. Os culos escuros pendiam de uma corrente no pescoo de Caroline. Suas feies tinham-se 
tornado mais fortes com o correr dos anos, o nariz e o queixo mais pronunciados. No era algum a quem se pudesse tratar com descaso. Mas Norah percebeu que sua 
inquietao tinha outra origem. Caroline a conhecera como uma pessoa diferente - uma mulher jovem e insegura, inserida numa vida e num passado que ela no se orgulhava 
particularmente de relembrar.
         Caroline sentou-se  mesa da copa, enquanto Norah enchia dois copos com gua e gelo. O ltimo bilhete de David - Consertei a pia do banheiro. Feliz aniversrio 
- estava preso no quadro de avisos, bem atrs do ombro da enfermeira. Norah pensou com impacincia nas fotos que a esperavam na garagem, em tudo o que tinha para 
fazer e que no podia esperar.
         - Voc tem azules - comentou Caroline, fazendo sinal para o jardim mal cuidado, catico.
         - . Levei anos para atra-los. Espero que os novos moradores os alimentem.
         - Deve ser estranho estar de mudana.
         - Est na hora - disse Norah, pegando dois descansos e pondo os copos na mesa. Sentou-se. - Mas voc no veio aqui para falar disso.
         - No.
         Caroline bebeu um gole, depois espalmou as mos sobre a mesa, como que para firm-las, intuiu Norah. Ao falar, porm, soou calma, decidida.
         - Norah... posso cham-la de Norah?  assim que tenho pensado em voc, durante todos esses anos.
         Norah assentiu com um gesto, ainda perplexa e cada vez mais apreensiva. Quando fora a ltima vez que Caroline Gil lhe havia passado pela cabea? Fazia sculos, 
e nunca acontecera seno como parte da trama da noite em que Paul havia nascido.
         - Norah - disse Caroline, como que se preparando mentalmente -, que lembrana voc tem da noite em que seu filho nasceu?
         - Por que est perguntando? - retrucou Norah. Falou com voz firme, mas j comeava a se inclinar para trs, afastando-se da intensidade dos olhos de Caroline, 
de uma corrente profunda e revolta, de seu prprio medo do que estava por vir. - Por que voc est aqui e por que me pergunta isso?
         Caroline Gill no respondeu de imediato. O canto alegre e ritmado dos azules cruzou o aposento como partculas de luz.
         - Olhe, desculpe-me - fez Caroline. - No sei como dizer isso. Acho que no h nenhuma forma fcil, de modo que vou falar de uma vez. Norah, naquela noite 
em que seus gmeos nasceram, a Phoebe e o Paul, houve um problema.
         - Sim - fez Norah em tom cortante, pensando na tristeza que sentira depois do parto, alegria e tristeza entremeadas, e no longo e rduo caminho que havia 
percorrido para chegar a esse momento de calma inabalvel. - Minha filha morreu. Foi esse o problema.
         - A Phoebe no morreu - retrucou Caroline, sem alterar a voz, fitando-a diretamente, e Norah sentiu-se capturada nesse momento como ficara tantos anos antes, 
agarrada quele olhar, enquanto o mundo conhecido rodopiava a seu redor. - A Phoebe nasceu com sndrome de Down. O David achou que o prognstico no era bom. Pediu 
que eu a levasse a Louisville, a uma clnica para onde essas crianas eram rotineiramente mandadas. Em 1964, no era incomum fazer isso. A maioria dos mdicos teria 
recomendado a mesma coisa. Mas no consegui deix-la l. Levei-a comigo e me mudei para Pittsburgh. Criei-a durante todos esses anos. Norah - acrescentou, em tom 
delicado -, a Phoebe est viva. Est muito bem.
         Norah permaneceu sentada, imvel. Os pssaros no jardim esvoaavam, cantando. Por alguma razo, ela se lembrou da ocasio em que cara num bueiro sem placa 
de aviso na Espanha. Ia andando despreocupada por uma rua banhada de sol. De repente, um movimento brusco, e ela se vira enfiada at a cintura numa vala, com um 
tornozelo torcido e longos arranhes ensangentados nas panturrilhas. Eu estou bem, estou bem, ficara repetindo para as pessoas que a tinham ajudado a sair e levado 
para o mdico. Animada, despreocupada, enquanto o sangue brotava dos cortes: Estou bem. S depois, sozinha e segura em seu quarto, ao fechar os olhos e sentir de 
novo aquele tranco brusco, aquela perda de controle,  que havia chorado. Foi como se sentiu nesse momento. Trmula, agarrou-se  borda da mesa.
         - Como? O que foi que voc disse?
         Caroline repetiu: Phoebe, no morta, mas levada para longe. Todos aqueles anos. Phoebe, crescendo em outra cidade. A salvo, Caroline continuava a dizer. 
Segura, bem cuidada, amada. Phoebe, sua filha, a gmea de Paul. Nascida com sndrome de Down, mandada embora.
         David a mandara embora.
         - Voc deve estar louca - disse Norah, ainda que, no instante mesmo em que falou, tantas fossem as peas soltas de sua vida a se encaixar que ela compreendeu 
que o que Caroline dizia devia ser verdade.
         Caroline tirou da bolsa duas fotos Polaroid e as deslizou sobre a madeira polida. Norah no conseguiu peg-las, porque tremia demais, porm se inclinou 
para examin-las: uma garotinha de vestido branco, rechonchuda, com um sorriso a lhe iluminar o rosto e os olhos amendoados fechados de prazer. Outra foto da mesma 
menina, anos depois, prestes a lanar uma bola de basquete, captada um instante antes de saltar. Numa das fotos era meio parecida com Paul, na outra lembrava Norah 
um pouco, mas, basicamente, era apenas ela mesma: Phoebe. No uma das imagens to cuidadosamente arquivadas nas pastas de David, mas apenas ela mesma. Viva, em algum 
lugar do mundo.
         - Mas por qu? - a angstia era audvel em sua voz. - Por que ele faria isso? Por que voc faria uma coisa dessas?
         Caroline abanou a cabea e tornou a olhar para o jardim.
         - Passei anos acreditando na minha inocncia - respondeu. - Achei que tinha feito o que era certo. A instituio era um lugar terrvel. David no a tinha 
visto, no sabia como era ruim. Por isso levei Phoebe e a criei, e travei muitas, muitas batalhas para lhe dar instruo e acesso a assistncia mdica. Para me certificar 
de que ela tivesse uma vida boa. Era fcil eu me ver como uma herona. Mas acho que, no fundo, eu sempre soube que meus motivos no eram inteiramente puros. Eu queria 
um filho e no o tinha. E estava apaixonada pelo David, ou julgava estar.  distncia, quero dizer - apressou-se a acrescentar. - Era tudo na minha cabea. O David 
nunca sequer me notou. Mas, quando vi o anncio do funeral, eu soube que tinha que lev-la. Que tinha de ir embora, de qualquer maneira, e no podia deix-la para 
trs.
         Apanhada numa violenta turbulncia, Norah voltou mentalmente queles dias confusos de tristeza e alegria, com Paul no colo e Bree a lhe entregar o telefone, 
dizendo: Voc tem que acabar com isso. Norah havia planejado todo o oficio fnebre sem contar a David, cada providncia ajudando-a a voltar  vida, e, quando David 
chegara em casa naquela noite, ela havia enfrentado sua resistncia. Como teria sido aquilo para ele, aquela noite, a cerimnia? Mesmo assim, David deixara tudo 
acontecer.
         - Mas por que ele no me contou? - perguntou Norah num sussurro. - Todos aqueles anos, e ele nunca me contou.
         Caroline abanou a cabea.
         - No posso falar pelo David. Ele sempre foi um mistrio para mim. Sei que amava voc e acredito, por mais monstruoso que isso tudo parea, que as intenes 
iniciais dele foram boas. Uma vez ele me falou da irm. Contou que ela sofria de um problema cardaco e tinha morrido na infncia, e que a me dele no havia se 
recuperado do luto. No posso garantir, mas acho que ele tentou proteger voc.
         - Ela  minha filha - disse Norah, arrancando as palavras de algum ponto profundo no corpo, de uma antiga mgoa h muito enterrada. - Nasceu da minha carne. 
Proteger-me? Dizendo que minha filha tinha morrido?
         Caroline no respondeu e as duas permaneceram muito tempo sentadas, com o silncio crescendo  sua volta. Norah pensou em David, em todas aquelas fotografias 
e todos os momentos da vida conjugal, carregando consigo aquele segredo. Ela no sabia, no tinha imaginado. Mas, agora, tudo fazia uma espcie terrvel de sentido.
         Por fim, Caroline abriu a bolsa e tirou um pedao de papel com seu endereo e telefone.
         -  nesse endereo que moramos. Meu marido, Al, Phoebe e eu. Foi l que a Phoebe cresceu. Ela tem levado uma vida feliz, Norah. Sei que no  muito para 
lhe oferecer, mas  verdade. Ela  uma moa encantadora. No ms que vem, vai se mudar para uma instituio residencial.  o que ela quer. Tem um bom emprego numa 
loja de fotocpias. Gosta de l e as pessoas gostam dela.
         - Uma loja de fotocpias?
         - . Ela tem se sado muito bem, Norah.
         - Ela sabe? Ela sabe de mim? Do Paul?
         Caroline baixou os olhos para a mesa, correndo o dedo pela borda de uma das fotos.
         - No. Eu no quis contar a ela antes de falar com voc. No sabia o que voc ia querer fazer, se gostaria de conhec-la. Espero que sim. Mas  claro que 
no vou culp-la, se no quiser. So tantos anos... ah, eu sinto muito. Mas, se voc quiser ir l, estaremos esperando.  s telefonar. Na semana que vem ou daqui 
a um ano.
         - No sei - disse Norah, devagar. - Acho que estou em choque.
         -  claro que est - disse Caroline, levantando-se.
         - Posso ficar com as fotos?
         - So suas. Sempre foram suas.
         Na varanda, Caroline parou e encarou Norah.
         - Ele a amava muito. David sempre amou voc, Norah.
         Norah assentiu com a cabea, lembrando-se de ter dito a mesma coisa a Paul, em Paris. Da varanda, viu Caroline caminhar em direo ao carro e se perguntou 
sobre a vida para a qual ela estaria voltando, sobre as complexidades e mistrios que conteria.
         Ficou muito tempo na varanda. Phoebe estava viva, no mundo. Saber disso era como um poo interminvel abrindo-se em seu corao. Amada, Caroline dissera. 
Bem cuidada. Mas no por Norah, que tanto se esforara por esquec-la. Os sonhos que tivera, toda aquela busca pela relva congelada e quebradia, tudo lhe voltou 
 lembrana, contundente.
         Norah tornou a entrar em casa, j ento chorando, e passou pela moblia coberta. O avaliador iria l. Paul tambm chegaria, hoje ou amanh; tinha prometido 
telefonar antes, mas s vezes simplesmente aparecia. Ela lavou e enxugou os copos, depois ficou parada na cozinha silenciosa, pensando em David, em todas as noites 
de todos aqueles anos em que ele se levantara no escuro e fora para o hospital para remendar algum de ossos quebrados. Boa pessoa, o David. Dirigia uma clnica, 
cuidava dos necessitados.
         Mandara embora a prpria filha e lhe dissera que ela havia morrido.
         Norah deu um soco na bancada, fazendo os copos saltarem. Preparou um gim-tnica e vagou at o segundo andar. Deitou-se, levantou-se, telefonou para Frederic 
e desligou quando a secretria eletrnica atendeu. Passado algum tempo, voltou ao estdio de David. Estava tudo igual, o ar quente e parado, as fotografias e caixas 
espalhadas pelo cho, tal como as havia deixado. Pelo menos 50 mil dlares, tinham avaliado os curadores. Mais at, se houvesse anotaes manuscritas por David sobre 
seu processo.
         Estava tudo igual, mas no era a mesma coisa.
         Norah pegou o primeiro caixote e o arrastou pelo cmodo. Iou-o para a bancada, equilibrou-o no parapeito da janela que dava para o quintal. Parou para 
recobrar o flego, antes de abrir a tela e empurrar o caixote para fora, com firmeza, usando as duas mos, e de ouvi-lo cair com um baque no cho, l embaixo. Voltou 
para buscar outro, depois o seguinte. Ela era tudo que havia desejado ser mais cedo: decidida, enrgica - sim, implacvel. Em menos de uma hora, o estdio estava 
vazio. Norah tornou a entrar em casa, passando pelos caixotes quebrados na entrada da garagem, pelas fotos que saltavam e se precipitavam pela grama, ao sol de fim 
de tarde.
         L dentro, tomou um banho de chuveiro, de p sob a gua corrente at ela ficar fria. Ps um vestido solto, preparou outro drinque e se sentou no sof. Os 
msculos dos braos estavam dodos, de tanto levantar caixotes. Ela buscou outro drinque e voltou. Horas depois, quando j estava escuro, ainda continuava l. O 
telefone tocou e ela ouviu sua voz na gravao, depois a de Frederic, ligando da Frana. A voz dele era suave e serena como uma praia distante. Norah sentiu vontade 
de estar l, de estar naquele lugar onde sua vida fizera sentido, mas no atendeu o telefone e no ligou de volta. Ao longe, soou o apito de um trem. Ela se cobriu 
com a manta e se deixou deslizar para a escurido da noite.
         Tirou vrios cochilos, mas no dormiu. Levantou-se algumas vezes para buscar mais uma bebida, percorrendo os cmodos enluarados e vazios, cheios de sombras, 
enchendo o copo pelo tato. Sem se incomodar, depois de algum tempo, com a tnica, o limo ou o gelo. A certa altura, sonhou que Phoebe estava na sala, emergindo 
de algum modo da parede em que estivera durante todos aqueles anos e pela qual Norah passava dia aps dia, sem v-la. Acordou chorando. Derramou o resto do gim na 
pia e tomou um copo d'gua.
         Finalmente adormeceu, ao amanhecer. Ao meio-dia, quando acordou, a porta da frente estava escancarada e, no quintal, havia fotografias por toda parte: presas 
nos rododendros, cotadas nas pilastras, grudadas no balano velho e enferrujado de Paul. Lampejos de braos e olhos, de pele semelhante  areia da praia, um vislumbre 
de cabelos, de hemcias dispersas feito leo sobre a gua. Vislumbres da vida deles tal como David os vira, tal como David tentara mold-los. Negativos, celulide 
preto, espalhados pela grama. Norah imaginou as vozes chocadas e escandalizadas dos curadores, dos amigos, do filho, at de uma parte dela mesma; imaginou-as exclamando: 
Mas voc est destruindo a histria! No, respondeu consigo mesma, eu a estou resgatando.
         Bebeu mais dois copos d'gua, tomou uma aspirina e comeou a arrastar os caixotes para o fundo do quintal cheio de plantas. Um deles, o que estava repleto 
de imagens de Paul durante sua vida inteira, ela empurrou de volta para a garagem, para guard-lo. Fazia calor e a cabea de Norah doa; centelhas rodopiaram diante 
de seus olhos quando ela ergueu o corpo depressa demais. Isso lhe trouxe  lembrana aquele dia longnquo na praia, a gua cintilante, a sensao de vertigem e a 
imagem de Howard entrando em seu campo visual.
         Havia pedras empilhadas atrs da garagem. Uma a uma, Norah as arrastou e as disps num amplo crculo. Nele derrubou o primeiro caixote, as lustrosas imagens 
em preto-e-branco estremecendo  luz do sol, todos aqueles rostos desconhecidos de moas a fit-la da grama. Agachando-se sob o sol forte do meio-dia, acendeu o 
isqueiro junto  borda de uma brilhante foto 20 x 25 cm. Quando a chama se inflamou e subiu, ela empurrou a foto para a pilha rasa no crculo de pedras. No comeo, 
o fogo pareceu no pegar. Mas logo apareceram uma ondulao de calor e uma espiral de fumaa.
         Norah entrou em casa para buscar mais um copo d'gua. Sentou-se no degrau da varanda dos fundos, bebericando e observando as chamas. Um decreto municipal 
recente havia proibido qualquer tipo de incinerao, e ela sentiu medo de que os vizinhos chamassem a polcia. Mas o ar continuou calmo; at as labaredas eram silenciosas, 
elevando-se no ar quente, soltando uma fumaa fina e azulada, da cor da bruma. Pedacinhos de papel enegrecido flutuaram pelo quintal, esvoaando nas ondas de calor 
feito borboletas.  medida que o fogo no crculo de pedras firmou-se e comeou a crepitar, Norah o alimentou com mais fotos. Queimou a luz, queimou as sombras, queimou 
aquelas lembranas de David, cuidadosamente capturadas e preservadas. Seu patife, murmurou, vendo as fotografias acenderem-se em chamas altas, antes de escurecerem, 
se enroscarem e sumirem.
         Da luz para a luz, pensou consigo mesma, afastando-se do calor, do crepitar, dos resduos pulverizados que rodopiavam no ar.
         Das cinzas s cinzas.
         Do p, finalmente, ao p.
         
        2-4 DE JULHO DE 1989
         
         - OLHE, PARA VOC  FCIL DIZER ISSO AGORA, PAUL.
         Michelle estava de p junto  janela, de braos cruzados, e ao se virar tinha os olhos carregados de emoo e tambm velados pela raiva.
         - Voc pode dizer o que quiser no plano abstrato - prosseguiu -, mas a verdade  que um filho mudaria tudo, principalmente para mim.
         Paul estava sentado no sof vermelho-escuro, que era quente e incmodo naquela manh de vero. Ele e Michelle o haviam achado na rua, ao comearem a morar 
juntos ali em Cincinnati, naqueles tempos em que no significava nada pux-lo para cima por trs lances de escada. Ou ento significava cansao, vinho, risos e o 
amor feito devagar, mais tarde, sobre sua superfcie spera de veludo. Michelle virou o rosto para olhar pela janela, balanando os cabelos pretos. Um vazio etreo, 
uma palpitao, encheu o corao de Paul. Nos ltimos tempos, o mundo dava uma sensao de fragilidade, como um ovo que pudesse estilhaar-se a um toque descuidado. 
A conversa entre eles havia comeado de modo bastante amigvel, uma simples discusso sobre quem cuidaria do gato quando os dois estivessem fora: ela em Indianpolis, 
num concerto, ele em Lexington, ajudando a me. E agora, de repente, ali estavam eles nesse territrio sombrio do corao, num lugar para o qual pareciam vir sendo 
constantemente arrastados nos ltimos tempos.
         Paul sabia que era melhor mudar de assunto.
         Mas disse, ao contrrio, teimoso:
         - Casar no se traduz diretamente em ter filhos.
         - Ah, Paul, seja franco. Ter um filho  o seu maior desejo. No  nem a mim que voc quer.  a esse filho mtico.
         - Nosso filho mtico - fez ele. - Um dia, Michelle. No j. Olhe, eu s queria levantar o assunto do casamento. No  to grande coisa.
         Ela emitiu um som exasperado. O loft tinha piso de pinho, paredes brancas e respingos das cores primrias nas garrafas, nos travesseiros, nas almofadas. 
Michelle tambm usava branco, a pele e o cabelo to quentes quanto as tbuas do piso. Paul sentiu uma pontada de dor ao olh-la, sabendo que, num sentido importante, 
ela j tinha tomado sua deciso. Iria deix-lo muito em breve, levando consigo sua beleza agreste e sua msica.
         -  interessante - disse Michelle. - Eu, pelo menos, acho muito interessante. Que isso tudo esteja vindo  tona justo na hora em que a minha carreira est 
para decolar. No antes, agora.  estranho, mas acho que voc est tentando provocar um rompimento entre ns.
         - Isso  ridculo. O momento no tem nada a ver com isso.
         - No?
         - No.
          Os dois passaram vrios minutos sem falar, e o silncio cresceu no cmodo branco e encheu o espao e fez presso nas paredes. Paul tinha medo de falar 
e mais medo ainda de calar, mas, no fim, no pde mais se conter.
         - Faz dois anos que estamos juntos. Ou as coisas crescem e mudam, ou ento morrem. Quero que continuemos a crescer.
         Michelle deu um suspiro.
         - Tudo muda, de qualquer maneira, com ou sem um pedao de papel.  isso que voc no est levando em conta. E, no importa o que voc diga,  uma coisa 
importante. No importa o que voc diga, o casamento muda tudo, e  sempre a mulher que faz os sacrifcios, digam o que disserem.
         - Isso  teoria. No  a vida real.
          - Ah, voc  irritante, Paul! Com toda essa sua certeza de tudo!
         O sol estava alto, roando o rio e inundando o quarto com uma luz prateada que formava desenhos ondulantes no teto. Michelle entrou no banheiro e fechou 
a porta. Houve um barulho de gavetas remexidas, gua correndo. Paul cruzou o cmodo at onde ela estivera e olhou a paisagem, como se isso pudesse ajud-lo a compreend-la. 
Depois, bateu de leve na porta.
         - Estou indo - disse.
         Silncio. Depois, ela falou l de dentro:
         - Voc volta amanh  noite?
         - O seu concerto  s seis, no ?
         - .
         Michelle abriu a porta do banheiro e ficou parada ali, enrolada numa toalha branca e felpuda, esfregando loo no rosto.
         - Ento, est bem - disse Paul. Beijou-a, aspirou seu perfume, sentiu a maciez de sua pele. - Amo voc - disse, dando um passo atrs.
         Ela o fitou por um instante.
         - Eu sei. A gente se v amanh.
         Eu sei. Paul remoeu as palavras em todo o trajeto para Lexington. A viagem levou duas horas, cruzando o rio Ohio, passando pelo trnsito pesado nas imediaes 
do aeroporto e enfim entrando nas lindas colinas onduladas. Depois disso, ele passou pelas ruas calmas do centro da cidade, por prdios desertos, relembrando a poca 
em que a Avenida Central ainda era o centro de sua vida, o lugar onde as pessoas iam fazer compras, comer e se enturmar. Lembrou-se de entrar na lanchonete e sentar 
diante do balco de sorvetes nos fundos. Bolas de chocolate num copo de metal salpicado de gelo e o zumbir do liquidificador; a mistura dos cheiros de carne grelhada 
e anti-sptico. Seus pais tinham se conhecido no centro da cidade. Sua me estava numa escada rolante e se elevara sobre a multido como um sol, e seu pai a havia 
seguido.
         Paul passou pelo novo prdio do banco e pelo velho tribunal, pelo local deserto onde um dia ficara o teatro. Uma mulher magra andava pela calada, de cabea 
baixa e braos cruzados, com o cabelo escuro balanando ao vento. Pela primeira vez em 10 anos, Paul pensou em Lauren Lobeglio, no jeito determinado e silencioso 
com que ela cruzava a garagem vazia em direo a ele, semana aps semana. Ele a havia buscado uma vez, depois outra e mais outra; acordara no meio de muitas madrugadas 
escuras temendo ter com Lauren o que agora tanto desejava com Michelle: casamento, filhos, um entrelaar de vidas.
         Continuou dirigindo, cantarolando baixinho sua mais nova melodia. Uma rvore no corao, era assim que se chamava; talvez ele a tocasse essa noite no bar 
do Lynagh. Michelle ficaria chocada com isso, mas Paul no se importava. Nos ltimos tempos, desde a morte do pai, ele andava tocando mais em lugares informais, 
alm de sales de concerto: pegava um violo e tocava em bares ou restaurantes, executando peas clssicas, mas tambm obras mais populares, que no passado sempre 
havia desdenhado. No conseguia explicar essa mudana de atitude, porm tinha algo a ver com a intimidade daqueles lugares, com a ligao que ele sentia com o pblico, 
to perto que era possvel estender a mo e toc-lo. Michelle no aprovava; achava que era conseqncia do luto e queria que Paul superasse isso. Mas ele no conseguia 
desistir. Em todos os anos da adolescncia havia tocado por raiva e pela nsia de uma ligao, como se, atravs da msica, pudesse introduzir em sua famlia uma 
ordem, uma beleza invisvel. E, agora que o pai se fora, no havia mais ningum contra quem tocar. Da ele ter essa nova liberdade.
         Paul rumou para o antigo bairro, passando pelas casas imponentes e seus grandes jardins frontais, pelas caladas e pela eterna quietude. Na casa de sua 
me, a porta da frente estava fechada. Desligou o motor e ficou sentado um instante, ouvindo os pssaros e o som longnquo dos cortadores de grama.
         Uma rvore no corao. Fazia um ano que seu pai tinha morrido, sua me ia se casar com Frederic e se mudar para a Frana por algum tempo e ele no estava 
ali como filho nem como visita, mas como um curador do passado. Era sua a deciso sobre o que conservar e o que descartar. Tentara conversar com Michelle a esse 
respeito, sobre seu sentimento profundo de responsabilidade, sobre como o que ele preservasse dessa sua casa da infncia se tornaria, com o tempo, aquilo que um 
dia transmitiria aos prprios filhos - tudo o que estes conheceriam, tangivelmente, daquilo que o havia moldado. Paul andara pensando no pai, cujo passado ainda 
era um mistrio, mas Michelle havia entendido mal; ficara tensa diante da referncia casual que ele fizera aos filhos. No foi isso que eu quis dizer, ele tinha 
protestado, aborrecido, e ela tambm se zangara. Saiba voc ou no, foi isso que voc quis dizer.
         Reclinou-se no banco, procurando no bolso a chave da casa. Depois de compreender que o trabalho do marido era valioso, sua me passara a manter as portas 
trancadas, embora os caixotes continuassem fechados no estdio.
         Bem, ele tambm no queria examinar aquele troo.
         Quando finalmente saiu do carro, Paul se deteve por um instante no meio-fio, olhando para o bairro em volta. Fazia calor; uma brisa leve e alta movia-se 
por entre a copa das rvores. As folhas de carvalho mergulhavam na luz, criando um jogo de sombras no cho. Estranhamente, o ar tambm parecia carregado de neve, 
de uma substncia branco-acinzentada e penugenta que esvoaava pelo cu azul. Paul estendeu as mos para o ar quente e mido, sentindo-se como se estivesse numa 
das fotografias do pai, onde floresciam rvores no pulsar de um corao, onde o mundo, de repente, no era o que parecia ser. Pegou um floco na palma de uma das 
mos; ao fechar o punho e tornar a abri-lo, viu a pele manchada de preto. Havia cinzas caindo feito neve no denso calor de julho.
         Deixou pegadas na calada ao subir os degraus. A porta da frente no estava trancada, mas a casa parecia deserta. Ol!, fez Paul, enquanto cruzava os cmodos 
com mveis empurrados para o meio e cobertos por encerados, as paredes nuas, prontas para receber a pintura. Fazia anos que ele no morava ali, mas se viu parado 
na sala de estar, despojada de tudo que um dia lhe dera sentido. Quantas vezes sua me havia decorado aquele cmodo? No entanto, era s uma sala, no final das contas. 
Mame?, chamou, mas no obteve resposta. No segundo andar, parou  porta de seu antigo quarto. Ali tambm havia caixotes empilhados, cheios de coisas velhas que 
ele precisaria examinar. A me no se desfizera de nada; at seus psteres estavam cuidadosamente enrolados e presos com elsticos. Nas paredes havia vagos retngulos 
onde eles um dia estiveram pendurados.
         - Mame? - tornou a chamar. Desceu e foi para a varanda dos fundos.
         L estava ela, sentada na escada, usando um short azul velho e uma camiseta branca molenga. Paul se deteve, sem fala, absorvendo a estranha cena. Ainda 
havia brasas ardendo num crculo de pedras, e as cinzas e fiapos de papel queimado que tinham cado ao redor dele no jardim da frente tambm estavam ali, presas 
nas moitas e no cabelo de sua me. Havia papis espalhados por toda a grama, grudados s bases das rvores e s pernas enferrujadas do antigo balano. Horrorizado, 
Paul se deu conta de que a me estivera queimando as fotografias de seu pai. Ela ergueu os olhos, com o rosto banhado em cinzas e lgrimas.
         - Est tudo bem - disse, com voz calma. - Parei de queim-las. Estava com muita raiva do seu pai, Paul, mas a me ocorreu que isso tambm  sua herana. 
S queimei uma caixa. Era aquela com todas as meninas, de modo que imagino que no valesse grande coisa.
         - Do que voc est falando? - ele perguntou, sentando-se ao lado da me.
         Ela entregou ao filho uma fotografia dele, uma foto que Paul nunca vira. Ele teria uns 14 anos, sentado no balano da varanda, debruado sobre o violo, 
concentrado, desligado de tudo a seu redor, capturado em plena msica. Paul assustou-se com a idia de o pai haver captado aquele momento - um momento particular, 
completamente descontrado, um dos momentos em que ele se sentia mais vivo.
         - Certo. Mas no estou entendendo. Por que voc est to aborrecida?
         Norah apertou o rosto com as mos por um instante e deu um suspiro.
         - Lembra-se da histria da noite em que voc nasceu, Paul? Da nevasca, de como mal conseguimos chegar  clnica a tempo?
         -  claro.
         Ele esperou que a me continuasse, sem saber o que dizer, mas entendendo, num nvel instintivo, que aquilo tinha a ver com sua irm gmea que havia morrido.
         - Lembra-se da enfermeira, Caroline Gill? Alguma vez ns lhe falamos dela?
         - Falaram. No do nome dela. Voc contou que ela tinha olhos azuis.
         - E tem. Muito azuis. Ela veio aqui ontem, Paul. Caroline Gill. Eu no a via desde aquela noite. Ela trouxe uma notcia, uma notcia chocante. Vou lhe contar 
de uma vez, j que no sei o que mais fazer.
         Norah pegou a mo do filho. Paul no a retirou. A irm dele, disse-lhe, calmamente, no havia morrido no parto, afinal. Nascera com sndrome de Down, e 
o pai tinha pedido que Caroline Gill a levasse para uma instituio em Louisville.
         - Para nos poupar - acrescentou Norah, e sua voz se embargou. - Foi o que ela disse. Mas ela no conseguiu ir at o fim. Caroline Gill levou sua irm, Paul. 
Levou Phoebe. Durante todos esses anos, sua irm gmea est viva e com sade, crescendo em Pittsburgh.
         - Minha irm? Em Pittsburgh? Fui a Pittsburgh na semana passada!
         No era uma resposta apropriada, mas ele no sabia que outra coisa dizer; sentia-se tomado de um vazio estranho, uma espcie de desapego aturdido. Ele tinha 
uma irm: j era uma notcia e tanto. Ela era retardada, no perfeita, e seu pai a mandara embora. Estranhamente, o que veio em seguida no foi raiva, mas medo, 
um antigo temor nascido da presso que o pai tinha exercido sobre ele como filho nico. Nascido tambm da necessidade de Paul construir seu prprio rumo, mesmo que 
o pai o desaprovasse a ponto de ir embora. Um medo que, ao longo de todos aqueles anos, como um alquimista talentoso, Paul havia transformado em raiva e rebeldia.
         - A Caroline foi para Pittsburgh e comeou vida nova - disse-lhe a me. - Criou sua irm. Fico tentando me sentir grata por ela ter sido boa para a Phoebe, 
mas h uma parte de mim que est furiosa.
         Paul fechou os olhos por um instante, tentando juntar todas essas idias. O mundo parecia plano, estranho e desconhecido. Em todos aqueles anos, ele havia 
tentado imaginar como seria sua irm, mas agora no conseguia fazer a menor idia dela.
         - Como  que ele pde fazer isso? - acabou perguntando. - Como pde guardar segredo disso?
         - No sei. Estou me perguntando a mesma coisa. Como  que ele pde? E como  que se atreveu a morrer e a deixar que descobrssemos isso sozinhos?
         Ficaram sentados em silncio. Paul lembrou-se da tarde em que revelara fotos com o pai, um dia depois de ter destroado o quarto escuro, quando estava cheio 
de culpa, e o pai tambm, quando o prprio ar ficara carregado com o que eles diziam e com o que calavam. "Cmera", dissera-lhe o pai, vinha do francs chambre, 
quarto. Estar in camera era agir em sigilo. Era nisso que seu pai havia acreditado: que toda pessoa era um universo isolado. rvores sombrias no corao, um punhado 
de ossos: fora esse o mundo de seu pai, e ele nunca o deixara mais amargurado do que nesse momento.
         - Fico surpreso por ele no ter-se livrado de mim - comentou, pensando na intensidade com que sempre havia combatido a viso que seu pai tinha do mundo. 
Paul sara de casa para tocar seu violo, deixando a msica emergir de dentro dele e penetrar no mundo, e as pessoas tinham se virado, pousado os drinques e escutado, 
e salas cheias de estranhos haviam feito contato, ligando-se uns aos outros. - Aposto que era o que ele queria.
         - No, Paul! - exclamou a me, franzindo o cenho. - No mnimo, ele queria ainda mais coisas para voc, por causa disso tudo. Esperava ainda mais. Exigia 
a perfeio dele mesmo. Essa  uma das coisas que ficaram claras para mim. Na verdade, esse  o pedao terrvel. Agora que sei da Phoebe, os mistrios sobre o seu 
pai fazem sentido. Aquela muralha que eu sempre senti, aquilo era real.
         Norah levantou-se, entrou em casa e voltou com duas fotos Polaroid.
         - Esta  ela.  sua irm, Phoebe.
         Paul pegou as fotos e olhou de uma para a outra: uma foto posada de uma menina risonha, depois um instantneo em que ela lanava uma bola de basquete. Ainda 
estava tentando assimilar o que a me lhe dissera: que aquela estranha de olhos amendoados e pernas grossas era sua irm gmea.
         - Vocs tm o mesmo cabelo - disse Norah, baixinho, tornando a se sentar ao lado do filho. - Ela gosta de cantar, Paul. No  incrvel? - comentou. Riu 
e disse mais: - E adivinhe s:  f de basquete.
         A risada de Paul foi estridente e carregada de dor.
         - Bom, acho que o papai escolheu o filho errado.
         Norah segurou as fotos nas mos sujas de cinzas.
         - No seja rancoroso, Paul. A Phoebe tem sndrome de Down. No sou muito entendida no assunto, mas a Caroline tinha muita coisa a dizer. Tanta, na verdade, 
que mal pude assimilar tudo.
         Paul estivera esfregando o dedo na borda do degrau de concreto e, nesse momento, parou, vendo o sangue brotar no ponto em que o arranhara at deix-lo em 
carne viva.
         - No ser rancoroso? Ns visitamos o tmulo dela! - protestou, lembrando-se da me cruzando o porto de ferro com os braos carregados de flores e mandando 
que ele esperasse no carro. Lembrando-se dela ajoelhada na terra, plantando sementes de lrios-do-vale. - O que voc acha disso?
         - No sei. O terreno era do Dr. Bentley, de modo que ele tambm devia saber. Seu pai nunca se dispunha a me levar l. Eu tinha que brigar muito. Na poca, 
eu achava que ele tinha medo de que eu tivesse um colapso nervoso. Ah, aquilo me dava muita raiva, o jeito de ele estar sempre com a razo!
         Paul assustou-se com a veemncia na voz da me, relembrando sua conversa daquela manh com Michelle. Pressionou a ponta do polegar contra os lbios e sugou 
as gotculas de sangue, contente com o gosto acentuado de cobre. Os dois passaram algum tempo calados, olhando para o quintal com os fiapos de cinzas, as fotos espalhadas 
e as caixas midas.
         Por fim, Paul perguntou:
         - O que  que isso significa, ela ser retardada? No dia-a-dia, quero dizer.
         A me voltou a olhar para as fotografias.
         - No sei. A Caroline disse que ela tem um alto grau de competncia, o que quer que isso signifique. Ela trabalha. Tem namorado. Freqentou a escola. Mas, 
ao que parece, no  realmente capaz de ter uma vida independente.
         - Essa enfermeira, a Caroline Gill, por que ela veio aqui agora, depois de tantos anos? O que ela queria?
         - Ela s queria me contar - disse Norah, baixinho. - S isso. No pediu nada. Ela veio abrir uma porta, Paul. Acredito realmente nisso. Foi um convite. 
Mas, o que quer que acontea, vai depender de ns.
         - E isso  o qu? O que vai acontecer agora?
         - Vou a Pittsburgh. Sei que tenho que v-la. Mas, depois disso, no sei mais nada. Devo traz-la para c? Ns seramos estranhos para ela. E preciso conversar 
com o Frederic; ele tem que saber.
         Norah cobriu o rosto com as mos por um momento.
         - Ah, Paul, como  que eu posso ir passar dois anos na Frana e deix-la aqui? No sei o que fazer.  demais para mim, tudo ao mesmo tempo.
         Uma brisa balanou as fotografias espalhadas pela grama. Paul calou-se, lutando com muitas emoes confusas: raiva do pai, surpresa e tristeza pelo que 
havia perdido. E preocupao tambm; era terrvel preocupar-se com isso, mas e se ele tivesse que cuidar da irm, que no podia levar uma vida independente? Como 
poderia fazer isso? Nunca havia sequer conhecido uma pessoa retardada, e achava que todas as imagens que tinha delas eram negativas. Nenhuma combinava com a menina 
de sorriso meigo da fotografia, e isso tambm era desconcertante.
         - Isso eu tambm no sei - disse, enfim. - Talvez a primeira coisa seja arrumar essa baguna.
         - A sua herana - disse Norah.
         - No  s minha - retrucou ele, pensativo, testando as palavras. -  da minha irm tambm.
         Os dois trabalharam durante o resto do dia e no dia seguinte, separando as fotos, recolocando-as nos caixotes, arrastando-os para as profundezas frescas 
da garagem. Enquanto Norah se reunia com os curadores, Paul telefonou para Michelle, para explicar o que havia acontecido e dizer que no iria ao concerto, afinal. 
Esperava que ela ficasse zangada, mas Michelle ouviu sem fazer comentrios e desligou. Quando ele tentou ligar outra vez, a secretria eletrnica atendeu; foi assim 
o dia inteiro. Mais de uma vez, ele pensou em entrar no carro e correr feito um louco para casa, em Cincinnati, mas sabia que no adiantaria. Sabia tambm que, na 
verdade, no queria continuar daquele jeito, sempre amando Michelle mais do que ela era capaz de retribuir. Por isso, obrigou-se a ficar. Voltou-se para o trabalho 
fsico de empacotar as coisas de casa e,  noitinha, foi a p at a biblioteca, no centro da cidade, para consultar livros sobre a sndrome de Down.
         Na manh de tera-feira, calados, confusos e cheios de apreenso, ele e a me entraram no carro de Norah, cruzaram o rio e seguiram por entre a exuberante 
vegetao de Ohio de alto vero. Fazia muito calor e as folhas dos milharais tremeluziam sob o vasto cu azul. Chegaram a Pittsburgh em meio ao trnsito de volta 
do feriado da Independncia e atravessaram o tnel que levava  ponte, oferecendo uma paisagem arrebatadora da fuso dos dois rios. Arrastaram-se pelo trfico do 
centro da cidade e margearam o rio Monongahela, atravessando mais um longo tnel. Por fim, pararam diante da casa de tijolos de Caroline Gill, numa rua movimentada 
e arborizada.
         Ela lhes dissera para estacionarem no beco, e foi o que fizeram, descendo do carro e esticando o corpo. Passada uma faixa de grama, uma escada descia para 
um terreno estreito e para a casa alta de tijolos em que a irm de Paul havia crescido. Ele observou a casa, to parecida com Cincinnati, to diferente de sua infncia 
tranqila, na opulncia e no conforto dos subrbios residenciais. O trnsito flua clere pela rua, passando pelos jardinzinhos que pareciam selos postais e avanando 
para a cidade que se derramava ao redor, quente e densa.
         Os jardins ao longo da ruela estavam carregados de flores, malvas e ris de todas as cores, com suas ptalas brancas e roxas fazendo um vvido contraste 
com a relva. No jardim mais prximo havia uma mulher cuidando de uma fila de tomateiros viosos. Uma cerca de lilases erguia-se atrs dela, com o verde plido das 
folhas luzidias balanando na brisa que empurrava o ar quente, sem refresc-lo. A mulher, que usava um short azul-marinho e camiseta branca, com floridas luvas de 
algodo de cores vivas, sentou-se onde estivera ajoelhada e passou as costas da mo pela testa. O trnsito estava pesado; ela no os ouvira chegar. Arrancou uma 
folha de um tomateiro e a encostou no nariz.
         -  ela? - perguntou Paul. - Aquela  a enfermeira?
         Norah fez que sim com a cabea. Tinha cruzado os braos, apertando-os contra o peito num gesto protetor. Os culos escuros lhe mascaravam os olhos, porm, 
mesmo assim, Paul pde perceber o quanto ela estava nervosa, plida e tensa.
         - Sim. Aquela  Caroline Gill. Paul, agora que est na hora, no sei ao certo se consigo fazer isso. Talvez a gente devesse ir para casa.
         - Fizemos todo o percurso at aqui. E eles esto  nossa espera.
         Norah deu um sorrisinho cansado. Fazia dias que mal conseguia dormir; at seus lbios estavam plidos.
         - No  possvel que estejam nos esperando. No mesmo.
         Paul assentiu com a cabea. A porta dos fundos escancarou-se, mas a figura na varanda permaneceu oculta nas sombras. Caroline ps-se de p, limpando as 
mos no short.
         - Oi, Phoebe! - disse. - A est voc.
         Paul sentiu a me ficar tensa a seu lado, mas no olhou para ela. Preferiu olhar para a varanda. O momento se estendeu, alongou-se, e o sol pareceu oprimi-los. 
Por fim, a figura emergiu, carregando dois copos de gua.
         Paul firmou a vista. A moa era baixa, muito menor do que ele, e tinha o cabelo mais escuro, mais fino e esvoaante, com um corte simples e arredondado 
que lhe emoldurava o rosto. A tez era alva como a de Norah e, quela distncia, as feies dela pareciam delicadas num rosto largo, um rosto que parecia meio achatado, 
como se tivesse passado tempo demais encostado na parede. Os olhos eram ligeiramente puxados para cima, e os membros, curtos. Ela j no era uma menina, como nas 
fotografias, mas uma mulher adulta, da idade dele, com um ou outro fio grisalho no cabelo. Alguns fios grisalhos tambm prateavam a barba de Paul, quando ele a deixava 
crescer. A moa usava um short florido e era pesada, meio gorducha, roando um joelho no outro ao andar.
         - Ah! - fez Norah. Tinha levado uma das mos ao peito. Seus olhos estavam escondidos sob os culos escuros, e Paul ficou contente; era um momento muito 
particular.
         - Est tudo bem - disse ele. - Vamos s ficar aqui um pouco.
         O sol estava muito quente e o trnsito corria. Caroline e Phoebe sentaram-se lado a lado na escadinha da varanda, bebendo gua.
         - Estou pronta - disse Norah, finalmente, e os dois desceram os degraus at a faixa estreita de grama entre a horta e as flores. Caroline Gill foi a primeira 
a v-los; protegeu os olhos com a mo, espremendo-os contra o sol, e se levantou. Phoebe levantou-se tambm e, por alguns segundos, eles se entreolharam no jardim. 
Depois, Caroline pegou Phoebe pela mo. Encontraram-se junto aos tomateiros, onde os frutos pesados j comeavam a amadurecer, enchendo o ar de um aroma limpo e 
acre. Ningum falou. Phoebe olhava para Paul e, depois de um longo momento, estendeu a mo no espao que os separava e o tocou de leve no rosto, delicadamente, como 
que para ver se ele era real. Paul balanou a cabea sem falar, fitando-a com ar grave; o gesto dela lhe pareceu certo, por alguma razo. Phoebe queria conhec-lo, 
s isso. Ele tambm queria conhec-la, mas no fazia idia do que dizer a essa irm repentina, to intimamente ligada a ele e, ao mesmo tempo, to completamente 
estranha. Paul tambm se sentia terrivelmente inibido, com medo de cometer um erro. Como  que se falava com uma pessoa retardada? Os livros que ele lera no fim 
de semana, todas aquelas descries clnicas, nada o havia preparado para o ser humano cuja mo roara seu rosto to de leve. Foi Phoebe quem se recuperou primeiro.
          -  Ol - disse, estendendo-lhe a mo formalmente. Paul a segurou, sentindo seus dedos muito midos, ainda sem conseguir dizer palavra. - Eu sou a Phoebe. 
Prazer em conhec-lo.
          A fala era enrolada, difcil de entender. Depois, Phoebe virou-se para a me dele e fez a mesma coisa.
          - Ol - disse Norah, apertando a mo dela, depois segurando-a entre as suas. Tinha a voz carregada de emoo. - Ol, Phoebe. Tambm sinto muito prazer 
em conhec-la.
          - Est muito quente - disse Caroline. - Por que no entramos? Os ventiladores esto ligados. E a Phoebe fez ch gelado hoje de manh. Estava empolgada 
com a visita de vocs, no foi, querida?
          Phoebe sorriu e acenou com a cabea, subitamente tmida. Todos a seguiram para o ar fresco do interior da casa. Os cmodos eram pequenos, mas imaculados, 
com lindos trabalhos de marcenaria e uma porta dupla envidraada separando a sala de visitas da de jantar. A sala de visitas estava inundada de sol e de mveis surrados, 
de tonalidade vinho. No canto mais distante havia um enorme tear.
          -  Estou fazendo uma echarpe - disse Phoebe.
          -  linda - comentou Norah, atravessando a sala para alisar os fios, rosa-escuro, prola, amarelo e verde-gua. Havia tirado os culos escuros e ergueu 
os olhos marejados de lgrimas, com a voz ainda embargada de emoo. - Voc mesma escolheu essas cores, Phoebe?
          -  Minhas cores favoritas - respondeu Phoebe.
         - As minhas tambm - disse Norah. - Quando eu tinha a sua idade, essas tambm eram as minhas cores favoritas. As minhas damas de honra usaram rosa-escuro 
e prola, e seguraram rosas amarelas.
          Paul ficou perplexo ao saber disso; todas as fotos que vira eram em preto-e-branco.
         - Voc pode ficar com essa echarpe - disse Phoebe, sentando-se diante do tear. - Eu fiz para voc.
         - Ah! - exclamou Norah, fechando brevemente os olhos. - Que amor, Phoebe!
         Caroline trouxe o ch gelado e os quatro se sentaram na sala de visitas, meio sem jeito, conversando sobre amenidades: o clima, o renascimento incipiente 
de Pittsburgh depois do colapso da indstria siderrgica. Phoebe continuou diante do tear, calada, movendo a lanadeira de um lado para outro e erguendo os olhos 
de vez em quando, sempre que seu nome era mencionado. Paul lhe dirigia olhares furtivos. As mos de Phoebe eram pequenas e gorduchas. Ela estava concentrada na lanadeira, 
mordendo o lbio inferior. Por fim, Norah terminou seu ch e disse: - Bem, aqui estamos. E agora eu no sei qual  o prximo passo.
         - Phoebe - chamou Caroline -, por que no vem ficar aqui conosco? Em silncio, Phoebe se aproximou e se sentou ao lado de Caroline no sof.
         Norah comeou, falando muito depressa e apertando as mos, nervosa.
         - No sei o que  melhor. No existe mapa neste lugar em que estamos, no ? Mas quero oferecer minha casa a Phoebe. Ela pode vir morar conosco, se quiser. 
Pensei muito nisso, nestes ltimos dias. Temos muito assunto para colocar em dia. Nesse ponto, fez uma pausa para respirar e se voltou para Phoebe, que a fitava 
com os olhos arregalados, desconfiada.
         - Voc  minha filha, Phoebe, est entendendo? Esse  seu irmo, Paul.
         Phoebe segurou a mo de Caroline.
         - Essa  a minha me - disse.
         - Sim - concordou Norah, que olhou de relance para Caroline e tentou de novo: - Essa  a sua me. Mas eu tambm sou sua me. Voc cresceu dentro do meu 
corpo, Phoebe - e deu um tapinha na barriga. - Cresceu bem aqui. Mas, depois, voc nasceu e a sua me Caroline a criou.
         - Vou me casar com o Robert - disse Phoebe. - No quero morar com voc.
         Paul, que vira a me debater-se num conflito durante todo o fim de semana, sentiu o impacto das palavras de Phoebe, como se ela o houvesse chutado. E percebeu 
que a me as sentira do mesmo jeito.
         - Est tudo bem, Phoebe - interveio Caroline. - Ningum vai fazer voc ir embora.
         - Eu no quis dizer... Eu s queria oferecer... - comeou Norah, que parou e tornou a respirar fundo. Seus olhos verdes haviam assumido um tom escuro, perturbados. 
Ela tentou mais uma vez: - Phoebe, o Paul e eu gostaramos de conhecer voc. S isso. Por favor, no tenha medo de ns, sim? O que estou dizendo, o que eu quero 
dizer,  que a minha casa est aberta para voc. Sempre. No importa aonde eu v no mundo, voc tambm poder ir l. E espero que v. Espero que voc v me visitar 
um dia, s isso. Assim ficaria bom para voc?
         - Pode ser - admitiu Phoebe.
         - Phoebe - disse Caroline -, por que voc no leva o Paul para conhecer um pouco a casa? D uma chance para que a Sra. Henry e eu conversemos um pouquinho. 
E no se preocupe, fofinha - acrescentou, pousando de leve a mo no brao da filha. - Ningum vai a lugar nenhum. Est tudo bem.
         Phoebe acenou com a cabea e se levantou.
         - Quer conhecer o meu quarto? - perguntou a Paul. - Eu tenho um toca-discos novo.
         Paul olhou para me de relance e ela balanou a cabea, observando os dois atravessarem juntos a sala. Ele subiu a escada atrs de Phoebe.
         - Quem  Robert? - perguntou  irm.
         -  o meu namorado. Ns vamos casar. Voc  casado?
         Tocado pela lembrana de Michelle, Paul abanou a cabea.
         - No.
         - Voc tem namorada?
         - No. Eu tinha uma namorada, mas ela foi embora.
         Phoebe parou no degrau mais alto e se virou. Os dois ficaram cara a cara, to perto que Paul se sentiu constrangido com a invaso de seu espao pessoal. 
Desviou os olhos, depois tornou a dirigi-los  irm, que continuava a fit-lo diretamente.
         - No  bonito encarar as pessoas - disse Paul.
         - Bom, voc est parecendo triste.
         - Eu estou triste. Na verdade, estou muito, muito triste.
         Phoebe balanou a cabea e, por um instante, pareceu juntar-se a ele em sua tristeza, nublando a expresso do rosto; no instante seguinte, desanuviou-a.
         - Venha - disse, conduzindo-o pelo corredor. - Tambm tenho uns discos novos. Sentaram-se no cho do quarto. As paredes eram cor-de-rosa, com cortinas xadrez 
rosa e branco nas janelas. Era um quarto de menina, cheio de bichos de pelcia e gravuras coloridas nas paredes. Paul pensou em Robert e se perguntou se era verdade 
que Phoebe ia se casar. Depois, sentiu-se mal por se intrigar com isso; por que no deveria ela casar-se ou fazer qualquer outra coisa? Pensou no quarto extra que 
havia na casa de seus pais, onde sua av s vezes se hospedava, quando ele en menino. Aquele teria sido o quarto de Phoebe; ela o teria enchido com sua msica e 
seus objetos. Phoebe ps um disco para tocar, aumentou bem o volume da vitrolinha, que berrava Love, Love Me Do, e ps-se a cantar junto, com os olhos semicerrados. 
Tinha a voz bonita, percebeu Paul, diminuindo um pouquinho o volume e examinando os outros discos. Phoebe tinha muita msica popular, mas tambm tinha sinfonias.
         - Gosto de trombone - disse ela, fingindo puxar uma vara comprida, e, quando Paul riu, ela riu tambm. - Gosto mesmo de trombone - repetiu, e deu um suspiro.
         - Eu toco violo. Voc sabia?
         Ela fez que sim.
         - Mame me disse. Feito o John Lennon.
         Paul sorriu.
         - Um pouquinho - comentou, surpreso por se apanhar no meio de uma conversa. Tinha se acostumado com a fala dela e, quanto mais conversava com a irm, mais 
Phoebe era simplesmente ela mesma, impossvel de rotular. - J ouviu falar de Andrs Segovia?
         - A-h.
         - Ele  bom mesmo.  o meu favorito. Um dia eu toco a msica dele para voc, est bem?
         - Eu gosto de voc, Paul. Voc  legal.
         Ele se apanhou sorrindo, encantado e envaidecido.
         - Obrigado. Tambm gosto de voc.
         - Mas no quero morar com voc.
         - Tudo bem. Eu tambm no moro com a minha me. Moro em Cincinnati.
         O rosto de Phoebe se iluminou.
         - Sozinho?
         -  - ele respondeu, sabendo que, quando voltasse, Michelle teria ido embora. - Sozinho.
         - Que sorte!
         - Acho que sim - disse ele num tom grave, subitamente consciente da sorte que tinha. As coisas que ele via como corriqueiras na vida eram a matria dos 
sonhos de Phoebe. - Tenho sorte, sim.  verdade.
         - Eu tambm tenho sorte - comentou ela, surpreendendo-o. - O Robert tem um bom emprego, e eu tambm.
         - Em qu voc trabalha?
         - Eu tiro cpias - ela respondeu com um orgulho sereno. - Muitas, muitas cpias.
         - E voc gosta disso?
         Ela sorriu.
         - Max trabalha l. Ela  minha amiga. Temos 23 cores diferentes de papel.
         Cantarolou um pouco, satisfeita, enquanto guardava cuidadosamente o primeiro disco e escolhia outro. Seus gestos no eram rpidos, mas eram eficientes e 
concentrados. Paul pde imagin-la na copiadora, fazendo seu trabalho, brincando com a amiga, parando de vez em quando para admirar o arco-ris de papis ou algum 
trabalho encerrado. No trreo, ouviu o murmrio de vozes,  medida que sua me e Caroline Gil elaboravam o que fazer. Com profunda vergonha, ele se deu conta de 
que a pena que sentira de Phoebe, assim como a suposio que sua me fizera da dependncia dela tinham sido tolas e desnecessrias. Phoebe gostava de si mesma e 
gostava de sua vida; era feliz. Todos os esforos que ele tinha feito, todos os concursos e prmios, a luta longa e ftil para agradar a si mesmo e impressionar 
o pai, tudo aquilo, comparado  vida de Phoebe, tambm parecia meio bobo.
         - Onde est o seu pai? - ele perguntou.
         - No trabalho. Ele dirige um nibus. Voc gosta de Yellow Submarine?
         - Sim. Sim, gosto.
         Phoebe deu um sorriso largo e ps o disco na vitrola.
          
       1.o DE SETEMBRO DE 1989
         
         AS NOTAS TRANSBORDARAM DA IGREJA E INVADIRAM O AR, ENSOLARADO.
         Para Paul, parado do lado de fora, bem junto s portas de tom vermelho vivo, a msica era quase visvel, deslocando-se por entre as folhas dos lamos, dispersando-se 
pela relva feito partculas de luz. A organista era amiga dele, uma peruana chamada Alejandra, que usava o cabelo castanho-avermelhado bem puxado para trs, preso 
num longo rabo-de-cavalo, e que, nos dias sombrios que se seguiram  partida de Michelle, havia aparecido em seu apartamento, levando sopa, ch gelado e conselhos. 
Levante-se, dissera-lhe com firmeza, abrindo cortinas e janelas, limpando os pratos e pondo a loua suja na pia. Levante-se, no adianta nada ficar na fossa, ainda 
mais por causa de uma flautista. Elas so sempre volveis, voc no sabia? Fico surpresa por ela ter passado tanto tempo aqui. Dois anos. Sinceramente, deve ser 
um recorde.
         Agora, as notas de Alejandra cascateavam como gua cristalina, seguidas por um crescendo animado, que subiu e parou por um instante no ar, suspenso sob 
a luz do sol. A me de Paul apareceu no vo da porta, risonha, com uma das mos pousada de leve no brao de Frederic. Os dois saram juntos para o sol, sob uma chuva 
luminosa de arroz e ptalas.
          - Bonito - comentou Phoebe, ao lado de Paul.
         Ela usava um vestido verde de tecido brilhante e segurava despreocupada, na mo direita, os narcisos que havia carregado durante a cerimnia de casamento. 
Estava sorrindo, com os olhos espremidos de prazer e covinhas fundas nas bochechas rechonchudas. As ptalas e os gros descreveram um arco contra o cu luminoso 
e, quando caram, Phoebe riu, encantada. Paul fitou-a atentamente: essa estranha, sua irm gmea. Os dois haviam percorrido juntos a nave da igrejinha minscula, 
at chegarem ao lugar em que sua me e Frederic esperavam no altar. Paul tinha andado devagar, com Phoebe atenta e sria a seu lado, decidida a fazer tudo certo, 
pousando a mo no cotovelo dele. Algumas andorinhas haviam voejado por entre os caibros na hora da troca dos votos, mas sua me tivera certeza daquela igreja desde 
o comeo, assim como havia insistido, durante todas as discusses estranhas, inesperadas e lacrimosas sobre Phoebe e seu futuro, que os dois filhos ficassem a seu 
lado na cerimnia de casamento.
         Outra rajada, dessa vez de confete, e uma onda de risadas se alastrando. Sua me e Frederic inclinaram a cabea, e Bree lhes sacudiu dos ombros e do cabelo 
os pedacinhos luminosos de papel. O confete colorido espalhou-se por toda parte, fazendo a grama parecer um mosaico.
          - Voc tem razo - ele disse a Phoebe. -  bonito.
         Ela balanou a cabea, agora com ar pensativo, e alisou a saia com as duas mos.
          - A sua me vai para a Frana.
          - Vai - concordou Paul, embora ficasse tenso ante a escolha de palavras da irm: sua me. Era uma expresso que se usaria com estranhos, e todos eles eram 
estranhos,  claro. Isso, no fim das contas, fora o que mais havia dodo em sua me: os anos perdidos que os separavam, as palavras hesitantes e formais onde deveria 
haver descontrao e amor. - E voc e eu tambm, daqui a uns dois meses - completou, lembrando a Phoebe os planos com que finalmente haviam concordado. - Vamos visit-los 
na Frana.
         Uma expresso de preocupao, fugaz como uma nuvem, cruzou o rosto de Phoebe.
         - Ns voltaremos - acrescentou Paul, com delicadeza, lembrando-se de como a irm ficara assustada com a sugesto de Norah de que se mudasse com ela para 
a Frana.
         Phoebe assentiu com a cabea, mas continuou com ar apreensivo.
         - O que foi? - perguntou Paul. - Qual  o problema?
         - Comer caracol.
         Paul a olhou, surpreso. Andara brincando com a me e com Bree no vestbulo, antes da cerimnia, sobre o banquete que elas fariam em Chteauneuf. Phoebe 
havia assistido calada,  margem da conversa; no lhe ocorrera que ela estivesse escutando. Aquilo tambm era um mistrio: a presena de Phoebe no mundo, o que ela 
via, sentia e compreendia. Tudo o que Paul realmente sabia a respeito da irm poderia ser posto numa ficha de arquivo: ela gostava de gatos, de tecelagem, de ouvir 
msica no rdio e cantar na igreja. Sorria muito, era propensa a dar abraos e, como ele, era alrgica a picadas de abelha.
         - Caracol no  assim to ruim - fez ele. -  meio puxa-puxa. Feito chiclete de alho.
         Phoebe fez uma careta, depois riu.
         - Que nojo - comentou. - Isso  nojento, Paul.
         A brisa lhe balanou de leve o cabelo, e Phoebe continuou fixada na cena diante deles: os convidados em movimento, o sol, as folhas, tudo entremeado de 
msica. As faces dela eram salpicadas de sardas, como as dele. Do outro lado do jardim, sua me e Frederic ergueram uma esptula de prata para cortar o bolo.
         - Eu e o Robert tambm vamos casar - disse Phoebe.
         Paul sorriu. Havia conhecido Robert naquela primeira viagem a Pittsburgh; ele e a irm tinham ido v-lo no armazm, alto e atencioso, usando um uniforme 
marrom e um crach. Quando Phoebe os apresentara, tmida, Robert havia apertado prontamente a mo de Paul e lhe dera um tapinha no ombro, como se os dois se estivessem 
reencontrando depois de uma longa ausncia. Prazer em v-lo, Paul. A Phoebe e eu vamos casar, de modo que, logo, logo, voc e eu seremos irmos, que tal? E ento, 
satisfeito, sem esperar resposta, confiante em que o mundo era bom e em que Paul compartilhava seu prazer, ele se voltara para Phoebe, pusera o brao em volta dela 
e os dois ficaram l, sorridentes.
         -  uma pena o Robert no ter podido vir.
         Phoebe assentiu com a cabea.
         - O Robert gosta de festas - disse.
         - Isso no me surpreende - fez Paul.
         Ele viu a me pr um pedacinho de bolo na boca de Frederic, tocando o canto do lbio dele com o polegar. Norah usava um vestido creme e o cabelo curto, 
de um louro chegado ao grisalho, que fazia seus olhos verdes parecerem maiores. Paul pensou no pai, perguntando-se como teria sido a cerimnia de casamento dos dois. 
Vira as fotografias,  claro, mas aquilo era s a superfcie. Ele gostaria de saber como tinha sido a luz, como havia soado o riso; queria saber se seu pai se havia 
inclinado, como fez Frederic nesse momento, para beijar sua me, depois de ela haver lambido um pedacinho de cobertura de bolo de sua boca.
         - Eu gosto de flores cor-de-rosa - comentou Phoebe. - Quero uma poro de flores cor-de-rosa no meu casamento - acrescentou. Depois, ficou sria, franziu 
o cenho e encolheu os ombros, fazendo o vestido verde escorregar um pouco sobre a clavcula. - Mas, primeiro, eu e o Robert temos que juntar o dinheiro.
         A brisa soprou e Paul pensou em Caroline Gill, alta e resoluta, parada no saguo do hotel no centro de Lexington com o marido, Al, e Phoebe. Todos se haviam 
encontrado l na vspera, em campo neutro. A casa de Norah estava vazia, com uma placa de VENDE- SE no jardim. Nessa noite, ela e Frederic viajariam para a Frana. 
Caroline e Al tinham vindo de Pittsburgh e, depois de um brunch cordial, embora meio encabulado, os dois tinham deixado Phoebe ficar para o casamento, enquanto seguiam 
de frias para Nashville. Era a primeira viagem de frias que fariam sozinhos, e pareciam contentes com isso. Mesmo assim, Caroline tinha abraado Phoebe duas vezes, 
depois parado na calada para olhar para trs, pela janela, e acenar.
         - Voc gosta de Pittsburgh? - perguntou Paul. Tinham lhe oferecido um emprego l, um bom emprego numa orquestra; ele tambm recebera uma proposta de uma 
orquestra de Santa F.
         - Gosto de Pittsburgh - respondeu Phoebe. - Mame diz que tem escadas demais, mas eu gosto.
         - Talvez eu me mude para l. O que voc acha?
         - Seria bom. Voc poderia ir ao meu casamento - disse Phoebe. Depois, deu um suspiro. - Casamento custa muito caro. No  justo.
         Paul assentiu com a cabea. No, no era justo. Nada daquilo era justo. Nem os desafios enfrentados por Phoebe, num mundo que no a acolhia de bom grado, 
nem a relativa facilidade da vida dele, nem o que o pai de ambos tinha feito - nada daquilo. Sbito, Paul sentiu uma vontade premente de oferecer a Phoebe o casamento 
que ela quisesse. Ou um bolo, pelo menos. Seria um gesto muito pequeno diante de todo o resto.
         - Vocs poderiam fugir - sugeriu.
         Phoebe considerou a idia, girando uma pulseira de plstico verde no pulso.
         - No. A a gente no teria bolo.
         - Ah, no sei. Ser que no? Quero dizer, por que no?
         Franzindo a testa, Phoebe o olhou, para ver se Paul estava fazendo troa dela.
         - No - disse com firmeza. - No  assim que a gente faz uma cerimnia de casamento, Paul.
         Ele sorriu, comovido com a certeza da irm sobre como funcionava o mundo.
         - Sabe de uma coisa, Phoebe? Voc tem razo.
         Risadas e aplausos vieram voando pelo jardim ensolarado quando Frederic e Norah terminaram de partir o bolo. Bree, sorridente, ergueu a cmera para tirar 
uma ltima foto. Paul acenou com a cabea para a mesa onde os pratinhos estavam sendo servidos, passando de mo em mo.
         - O bolo tem seis camadas. Com recheio de framboesa e creme chantilly. Que tal, Phoebe? Quer provar?
         Phoebe acentuou o sorriso e fez que sim com a cabea.
         - Meu bolo ter oito camadas - disse, enquanto os dois atravessavam o jardim, passando por entre as vozes, o riso e a msica.
         Paul deu uma risada.
         - S oito? Por que no dez?
         - Bobo. Voc  um sujeito bobo, Paul.
         Chegaram  mesa. Havia confetes coloridos espalhados nos ombros de Norah. Ela estava sorrindo, delicada em seus gestos, e tocou o cabelo de Phoebe, alisando-o 
para trs, como se a filha ainda fosse uma garotinha. Phoebe afastou-se e Paul sentiu um aperto no peito; no havia finais simples para essa histria. Haveria visitas 
e telefonemas de um lado a outro do Atlntico, mas nunca a descontrao comum da vida cotidiana.
         - Voc se saiu bem - disse-lhe a me. - Estou muito contente por voc ter vindo ao casamento, Phoebe. Voc e o Paul. Isso significa muito para mim. Nem 
sei como lhe dizer.
         - Gosto de casamentos - respondeu Phoebe, apanhando um prato de bolo.
         Norah deu um sorriso meio tristonho. Paul observou a irm, pensando em como Phoebe entenderia o que estava acontecendo. Ela no parecia se preocupar muito 
com as coisas, mas aceitar o mundo como um lugar fascinante e inusitado, onde qualquer coisa podia acontecer. Onde, um dia, uma me e um irmo que a gente nunca 
soubera ter tido podiam aparecer na porta de casa e nos convidar para um casamento.
         - Estou contente porque voc vai nos visitar na Frana, Phoebe - continuou Norah. - Frederic e eu estamos muito contentes.
         Phoebe ergueu os olhos outra vez, sem jeito.
         - So os caracis - explicou Paul. - Ela no gosta de caracis.
         Norah riu.
         - No se preocupe. Tambm no gosto deles.
         - E eu vou voltar para casa - acrescentou Phoebe.
         - Est certo - disse Norah, delicadamente. - Sim. Foi isso que combinamos.
         Paul observou, sentindo-se desamparado diante da dor que se instalara em seu corpo feito uma pedra. Sob a luz crua, impressionou-se com a idade da me, 
com uma certa finura na pele dela, com o cabelo louro dando lugar ao grisalho. E com sua beleza. Ela parecia encantadora e vulnervel, e Paul se perguntou, como 
se perguntara tantas vezes nas semanas anteriores, como seu pai podia hav-la trado, como pudera trair todos eles.
         - Como? - perguntou baixinho. - Como ele pde nunca nos contar?
         Norah voltou-se para o filho, sria.
         - No sei. Jamais entenderei. Mas pense no que deve ter sido a vida dele, Paul. Guardando esse segredo durante tantos anos.
         Paul olhou para o outro lado da mesa. Phoebe estava parada perto de uma rvore cujas folhas mal comeavam a amarelecer, usando o garfo para tirar o creme 
chantilly de sua fatia de bolo.
         - Nossa vida poderia ter sido muito diferente.
         - Sim.  verdade. Mas no foi, Paul. Foi assim que aconteceu.
         - Voc est defendendo o papai - disse ele, devagar.
         - No. Estou perdoando. Tentando, pelo menos. H uma diferena.
         - Ele no merece perdo - retrucou Paul, surpreso por ainda estar to ressentido.
         - Pode ser que no. Mas voc, a Phoebe e eu temos uma escolha. Podemos ficar ressentidos e com raiva ou tentar ir em frente. Abrir mo de toda essa raiva 
justificada  que h de mais difcil para mim. Ainda estou lutando. Mas  o que eu quero fazer.
         Paul pensou no assunto.
         - Recebi uma oferta de emprego em Pittsburgh - disse.
         -  mesmo? - fez Norah, agora com os olhos atentos, de um verde muito escuro quela luz. - E vai aceitar?
         - Acho que sim - respondeu ele, percebendo que j havia tomado a deciso. -  uma oferta muito boa.
         - Voc no tem como consertar as coisas - disse Norah, baixinho. - No pode consertar o passado, Paul.
         - Eu sei.
         E sabia. Ele fora a Pittsburgh naquela primeira vez achando que estava em condies de oferecer ajuda, ou talvez no. Preocupara-se com a responsabilidade 
que teria de assumir, com o modo como sua vida se modificaria com o fardo de uma irm retardada, e ficara surpreso - atnito, na verdade - ao ouvir essa prpria 
irm dizer No, eu gosto da minha vida como est, no, obrigada.
         - A sua vida  sua - prosseguiu Norah, agora com mais premncia. - Voc no  responsvel pelo que aconteceu. A Phoebe est bem, em termos financeiros.
         Paul balanou a cabea.
          -   Eu sei. No me sinto responsvel por ela. No mesmo, de verdade.  s que... acho que eu gostaria de conhec-la. Dia a dia. Afinal, ela  minha irm. 
O emprego  bom, e eu preciso mesmo de uma mudana. Pittsburgh  uma cidade bonita. Ento, fico pensando: por que no?
         - Ah, Paul - suspirou Norah, passando a mo pelo cabelo curto. - O emprego  bom mesmo?
         - . , sim.
         Ela assentiu com a cabea.
         - Seria bom ter vocs dois no mesmo lugar - admitiu, lentamente. -  preciso considerar tudo. Voc  muito moo e mal est comeando a encontrar seu caminho. 
Mas saiba que certamente ir encontr-lo.
         Antes que Paul pudesse responder, l estava Frederic, dando um tapinha no relgio e dizendo que eles teriam que sair logo, para pegar o avio. Depois de 
um minuto de conversa, Frederic foi buscar o carro e Norah tornou a se virar para o filho, ps uma das mos em seu brao e o beijou no rosto.
         - Acho que estamos quase saindo. Voc vai levar a Phoebe para casa?
         - Vou. A Caroline e o Al disseram que eu posso ficar na casa deles.
         Norah assentiu com a cabea.
         - Obrigada por ter vindo - disse, baixinho. - No deve ter sido fcil para voc, por todas as razes do mundo. Mas significou muito para mim.
         - Eu gosto do Frederic. Espero que vocs sejam felizes.
         Norah sorriu e ps a mo no brao do filho.
         - Eu me orgulho muito de voc, Paul. Faz alguma idia do orgulho que sinto? Do quanto amo voc? - acrescentou. Virou-se para contemplar Phoebe, do outro 
lado da mesa; ela pusera o ramo de narcisos embaixo do brao, e a brisa balanava sua saia brilhosa. - Eu me orgulho de vocs dois.
         - O Frederic est acenando - disse Paul, falando depressa para disfarar a emoo. - Acho que est na hora. Acho que ele est pronto. V e seja feliz, mame.
         Norah o fitou demoradamente, com lgrimas nos olhos, e lhe deu um beijo no rosto. Frederic atravessou o jardim e apertou a mo de Paul. O rapaz viu a me 
abraar Phoebe e lhe dar seu buqu, e percebeu a hesitao com que a irm retribuiu o abrao. Norah e Frederic entraram no carro, sorrindo e acenando, em meio a 
outra chuva de confetes. O carro desapareceu depois da curva e Paul refez o percurso at a mesa, parando para cumprimentar um convidado aps outro, sempre de olho 
na figura de Phoebe. Ao se aproximar, ouviu-a falando alegremente com outro convidado sobre Robert e seu prprio casamento. A voz dela era alta, a fala, meio enrolada 
e sem jeito, e o entusiasmo, incontido. Ele percebeu a reao do convidado - um sorriso forado, inseguro, paciente - e estremeceu de embarao. Porque Phoebe s 
queria conversar. Porque ele prprio havia reagido quelas conversas da mesma maneira, poucas semanas antes.
          - E ento, Phoebe? - perguntou, aproximando-se e interrompendo. - Quer ir embora?
         - Est bem - disse ela.
         No carro, os dois cruzaram a zona rural exuberante. Era um dia quente. Paul desligou o ar-refrigerado e baixou os vidros das janelas, lembrando-se de como 
a me costumava dirigir desvairadamente por aquelas mesmas paisagens, para fugir da solido e da tristeza, com o vento batendo no cabelo. Ele devia ter percorrido 
milhares de quilmetros com ela, de um lado para outro do estado, deitado de costas, tentando adivinhar onde os dois estavam por vislumbres de folhas, cabos telefnicos, 
cu. Lembrou-se de ter observado uma barcaa a vapor deslocar-se pelas guas barrentas do Mississipi, com suas rodas claras soltando jatos de luz e de gua. Ele 
nunca havia compreendido a tristeza da me, embora mais tarde houvesse passado a carreg-la consigo, para onde quer que fosse.
         Agora, toda aquela tristeza havia desaparecido: aquela vida tinha terminado, desaparecera tambm.
         Paul dirigiu depressa, vendo os resqucios do outono em toda parte. As cerejeiras j comeavam a mudar de cor, nuvens de um vermelho brilhante contra as 
montanhas. O plen fez seus olhos comicharem e Paul deu vrios espirros, mas continuou com as janelas abertas. Sua me teria deixado o ar-refrigerado ligado, o carro 
mais frio que uma vitrine de florista. Seu pai teria aberto a maleta e procurado o anti-histamnico. Phoebe, ereta no assento a seu lado, com a pele muito alva, 
quase translcida, tirou um leno de papel de um pacotinho, em sua enorme bolsa de plstico preto, e o ofereceu ao irmo. As veias azul-claras desenhavam-se logo 
abaixo da superfcie de sua pele. Paul pde ver a pulsao em seu pescoo, calma, regular.
         Sua irm. Sua irm gmea. E se ela no tivesse nascido com a sndrome de Down? Ou, ento, se tivesse nascido do jeito que era, simplesmente ela mesma, e 
seu pai no houvesse erguido os olhos para Caroline Gill, enquanto a neve caa no mundo l fora e o colega dele atolava numa vala? Paul imaginou os pais, muito jovens 
e muito felizes, aninhando os dois no carro e dirigindo devagar pelas ruas molhadas de Lexington, no degelo de maro que se seguira a seu nascimento. A ensolarada 
sala de recreao contgua a seu quarto teria sido o quarto de Phoebe. Ela o teria perseguido escada abaixo, passado pela cozinha e entrado no jardim silvestre, 
com o rosto sempre junto dele, o riso de um ecoando o do outro. Quem teria sido Paul, nesse caso?
         Mas sua me tinha razo: ele nunca poderia saber o que teria acontecido. Tudo de que dispunha eram os fatos. Seu pai fizera o parto dos prprios filhos 
gmeos, em meio a uma nevasca inesperada, seguindo os passos que sabia de cor, de olho na presso e nos batimentos cardacos da mulher deitada na mesa, na pele esticada, 
na cabea surgindo. Respirao, tom da pele, dedos das mos e dos ps. Um menino.  primeira vista, perfeito, e uma musiquinha havia comeado no fundo da mente do 
pai. Um instante depois, o segundo beb. E ento o canto do pai havia cessado para sempre.
         Agora os dois se aproximavam da cidade. Paul esperou uma pausa no trnsito, virou para o cemitrio de Lexington e cruzou a entrada de pedra. Estacionou 
embaixo de um olmo que sobrevivera a 100 anos de secas e doenas e desceu do carro. Deu a volta e abriu a porta de Phoebe, oferecendo-lhe a mo. Ela a fitou, surpresa, 
depois ergueu os olhos para o irmo. Em seguida, saiu sozinha do carro, ainda segurando os narcisos, cujas hastes j estavam amassadas e molengas. Os dois seguiram 
a trilha por algum tempo, passando pelos monumentos e pelos chafarizes com patos, e Paul guiou Phoebe pela grama at a pedra que marcava a sepultura de seu pai.
         Phoebe passou os dedos pelos nomes e datas gravados no granito preto. Paul tornou a se perguntar no que ela estaria pensando. Al Simpson era o homem a quem 
ela chamava de pai. Ele fazia quebra-cabeas com a filha  noite e, ao voltar de suas viagens, levava-lhe seus discos favoritos; no passado, costumava carreg-la 
no ombro para que a menina pudesse tocar nas folhas altas dos sicmoros. Essa laje de granito e esse nome no podiam significar nada para ela.
         David Henry McCallister. Phoebe leu as palavras em voz alta, devagar. Elas lhe encheram a boca e caram pesadamente no mundo.
          - Nosso pai - disse Paul.
          - Pai Nosso que estais no cu - fez Phoebe -, santificado seja o vosso nome.
          - No - interrompeu Paul, surpreso. - Nosso pai. Meu pai. Seu pai.
         - Nosso pai - Phoebe repetiu, e Paul sentiu uma onda de frustrao, porque as palavras dela eram agradveis, mecnicas, sem nenhum significado em sua vida.
         - Voc est triste - observou Phoebe nesse momento. - Se o meu pai morresse, eu tambm ficaria triste.
         Paul levou um susto. Sim, era isso: estava triste. Sua raiva tinha passado, de repente, ele podia ver o pai de outra maneira. Sua prpria presena devia 
ter lembrado ao pai, a cada olhar, a cada respirao, a escolha que ele fizera e no podia desfazer. Aquelas fotos Polaroid de Phoebe que Caroline tinha enviado 
ao longo dos anos, encontradas escondidas no fundo de uma gaveta do quarto escuro, depois que os curadores se foram; e tambm a nica fotografia da famlia de seu 
pai, a que Paul ainda tinha, com todos parados na varanda da casa perdida. E mais os outros milhares de fotos, uma aps outra, com que o pai superpusera imagens 
infindveis, tentando apagar o momento que nunca mais poderia alterar, e mesmo assim o passado ressurgia, persistente como a memria, poderoso como os sonhos.
         Phoebe, a irm de Paul, um segredo guardado por um quarto de sculo.
         Paul retrocedeu alguns passos na trilha de cascalho. Parou, com as mos nos bolsos, enquanto as folhas rodopiavam nos remoinhos de vento e um pedao de 
jornal voejava sobre as fileiras de lajes brancas. Passaram nuvens pelo sol, desenhando figuras na terra, e os fachos de luz brilharam sobre as lpides, a relva, 
as rvores. As folhas se agitaram de leve na brisa e a grama alta farfalhou.
         No comeo, as notas foram suaves, quase uma corrente sob a brisa, to sutis que ele teve que se esforar para ouvi-las. Virou-se. Phoebe, ainda parada junto 
 lpide, com a mo apoiada em sua borda escura de granito, tinha comeado a cantar. A grama sobre as sepulturas se movia e as folhas balanavam. Era um hino, algo 
vagamente conhecido. As palavras eram indistintas, mas a voz era pura e doce, e outros visitantes do cemitrio olhavam na direo dela, de Phoebe, com seu cabelo 
salpicado de prata e seu vestido de dama de honra, a postura desajeitada, as palavras obscuras, a voz descontrada de flauta. Paul engoliu em seco, fixou os olhos 
nos sapatos. Pelo resto da vida, percebeu, haveria de sentir-se dilacerado assim, consciente da inconvenincia de Phoebe, das dificuldades enfrentadas por ela pelo 
simples fato de ser diferente no mundo, e, no entanto, impelido para alm de tudo isso pelo amor direto e franco que ela era capaz de sentir.
         Sim, pelo amor dela. E tambm, como percebeu, inundado por aquelas notas, por seu prprio amor por ela, um amor novo e estranhamente descomplicado.
         A voz de Phoebe, aguda e clara, correu por entre as folhas, pela luz do sol. Respingou no cascalho, na grama. Paul imaginou as notas caindo no ar feito 
pedras na gua, gerando ondas na superfcie invisvel do mundo. Ondas sonoras, ondas de luz. Seu pai tinha tentado fixar tudo, mas o mundo era fluido e impossvel 
de conter.
         As palavras do antigo hino lhe voltaram  lembrana, e Paul entrou na harmonia. Phoebe no pareceu notar. Continuou cantando, acolhendo a voz dele como 
acolheria o vento. O canto dos dois fundiu-se e a msica o perpassou por dentro, como um cantarolar de carne e osso, e tambm estava do lado de fora, onde a voz 
dela era gmea da sua. Terminada a cano, os dois ficaram onde estavam, na luz clara e plida da tarde. O vento virou, pressionando o cabelo de Phoebe contra a 
nuca, espalhando folhas mortas pela base da velha cerca de pedra.
         Tudo ficou mais lento, at que o mundo inteiro foi captado naquele momento nico de suspenso. Paul ficou absolutamente imvel,  espera do que aconteceria 
a seguir.
         Por alguns segundos, nada.
         Depois, Phoebe virou-se devagar e alisou a saia amarrotada. Um gesto simples, mas que reps o mundo em movimento.
         Paul notou quo rentes eram cortadas as unhas dela, quo delicada era junto  lpide de granito. As mos de sua irm eram pequenas, como as da me de ambos. 
Paul atravessou o gramado e tocou no ombro de Phoebe, para lev-la para casa.
           
         
         FIM
         
         
         
